Médicos, jornalistas, advogados e multinacionais

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Tomazio Aguirre · Santo André, SP
19/10/2006 · 47 · 3
 

Existem pessoas que sempre respondem a mesma coisa quando você fala que algo na atualidade está uma merda: "Sempre foi uma merda!", é o que dizem. Sem dúvida essa é uma boa forma de negar que a situação esteja piorando. Eu verdadeiramente queria ver o mundo assim, mas infelizmente tenho que participar de pilantragens como a que vou lhes contar logo adiante.

Atualmente é impossível ser honesto e seguir leis no Brasil, mas sobre isso daria pra se pensar também que não é nada novo: esse país da esculhambação se rege pela lei do mais forte e do mais esperto desde que se iniciou a pilhagem colonial. Os mais fortes (mais bem armados e mais convincentes) pilhavam, e os mais espertos conseguiam não sucumbir à pilhagem. Isso em parte é verdade. Mas até poucas décadas o país não tinha uma gama tão completa de leis, regulamentando até como as pessoas devem se cumprimentar na rua, como tem hoje. E a maioria das pessoas, que não eram nem demasiadamente pilhadoras nem demasiadamente espertas, apenas faziam o que consideravam "certo" de acordo com sua herança tradicional, vinda da criação familiar e comunitária, que trazia resquícios de sociedades menos destrutivas que a atual (como africanas, indígenas, até mesmo a cristã européia).

Atualmente, essas heranças morais tradicionais praticamente desapareceram, e o Brasil tornou-se uma imitação barata de países regidos por leis e valores morais mercantis utilitaristas. E aqui está a grande piora das últimas décadas, do período pós-televisão, pós-publicidade, pós-favelização... Atualmente, ou um país se rege por leis ou não há mais tradicionalismos que segurem o caos. E o Brasil não tem como ser regido por leis, pois ninguém consegue se sujeitar a elas. Logo...

Eu, Tomázio, este medíocre covarde que não se manda desta zona por apegos pessoais, e por já ter concluído que a diferença entre o Brasil e o resto do mundo é só uma questão de tempo (apenas tentarei ir embora quando o caos ameaçar minha sobrevivência nesta merda), já concluí que não é possível viver o dia-a-dia nesta zona se apegando a leis nem ao que restou em mim de honestidade.

Sendo médico de uma grande empresa privada, multinacional, esta semana ficou mais claro que sou um médico realmente corrompido - o que antes eu tentava ver somente nos meus amigos que ganham mais dinheiro do que eu.

Como eu sou contratado para trabalhar 30 horas semanais fazendo perícias trabalhistas e atendendo os chiliques, as gripes e as enxaquecas dos demais trabalhadores da empresa, bem como para fazer o tradicional teatrinho médico a respeito destes “grandes flagelos da humanidade” (mas com esta desonestidade inerente à profissão eu já estava acostumado), sempre cheguei atrasado e sai mais cedo do que meu horário supõe. E isso não por ser vítima do tão afamado e falso "espírito brasileiro de jaca-tatu". Não. Mas somente para conseguir chegar ao meu outro emprego com folga, sem alucinar no trânsito, e para ter tempo de almoçar com alguma tranqüilidade, ou para chegar em casa, ao final do dia, sem estar demasiadamente destruído para o restante da vida.

Na semana passada, entretanto, a empresa substituiu a chefia do meu setor, e a nova chefe resolveu que os funcionários passariam a bater ponto na entrada e saída de seus expedientes. O meu pensamento e o de todos os outros profissionais "liberais" da empresa (assessores de imprensa, advogados e outros profissionais de saúde) foi certamente o mesmo: "Nos fodemos!" A merda dessa empresa multinacional paga mal e não nos dá muita garantia de estabilidade, mas, como é uma empresa muito grande e muito confusa em sua aparente funcionalidade, sempre contamos com sua desordem - inerente à sua pilhagem gerida a grande distância - como forma de ficarmos ali na manha, trabalhando pouco, tomando muito cafezinho e saindo e chegando a hora que bem quiséssemos. Todos sempre soubemos silenciosamente de nossa desonestidade e ilicitude. Porém nada comparado à desonestidade e ilicitude desta grande empresa muito festejada no país, que sempre nos pressionava discretamente para não relacionarmos os poucos problemas reais que vemos nos trabalhadores (em especial os "psiquicos") ao trabalho exploratório a que eles se submetiam servilmente (quer dizer, assalariadamente).

Dá tranquilamente para lembrar dos idos coloniais, da terra sem lei sendo pilhada, só que agora é a multinacional quem pilha, enquanto a massa trabalhadora sucumbi (pressionada pelo excesso de trabalho, pelo salário miserável e pela ameaça de desemprego) e os espertos (no caso nós, os profissionais liberais, que ajudamos a alienar e manter a massa pilhada sob controle) tentamos nos safar.

Sob pressão, durante dois dias desta semana eu cheguei e saí bem mais próximo de meu horário oficial, empurrando assim o problema da impossibilidade de conciliar meus horários para o "emprego" seguinte e para o mau humor ao chegar em casa um tanto quanto cansado e indisposto para tudo.

Bom, mas não estamos em época de terra sem lei sendo pilhada. Não oficialmente. Hoje existem leis para tudo, até mesmo leis que legalizam a pilhagem que uma multinacional faz. Seguindo este princípio civilizador, e como fiquei mais tempo no trabalho, aproveitei meus resquícios de honestidade para fazer umas duas ou três avaliações médicas com maior dedicação, e conclusivamente relacionei os sintomas dos funcionários com a fadiga pelo trabalho excessivo; e os afastei da empresa por 15 dias. Agi, portanto, honesta, ética e licitamente para com esses três felizardos. Logo, consequentemente, a minha nova chefia adentrou muito constrangida em minha sala, vindo acompanhada, e claramente muito pressionada, por sua própria chefia: um gordo barbudo, com cara de sindicalista dos anos 80, que cuspia sua raiva na cara de minha chefe. Este, o chefe da minha chefe, sem rodeios, pegou os três laudos e os abriu em minha mesa, questionando meus diagnósticos. Felizmente, na sala ao lado, um advogado meu amigo ouviu o que o cara estava dizendo e entrou também em minha sala, trazendo consigo a assessora de imprensa, que, além de trabalhar naquele bacanal, também trabalhava em outros, fazendo bicos para jornalecos.

O advogado rapidamente se inteirou da conversa e falou em assédio moral e interferência do empregador na análise médica de um empregado. Já a jornalista fez apenas um único comentário: "Nossa, esse tipo de coisa dá até escândalo!..." Minha chefe, que realmente parecia apenas estar querendo colocar honestidade e legalidade em nosso setor, quase desapareceu de tão pálida diante da vermelhidão furiosa de seu chefe. Fazendo grande esforço para se controlar, porém, ele pediu para minha chefe, para mim e para a jornalista sairmos. E ficou a sós com o advogado por alguns minutos, antes de sair da sala sem nem nos olhar - parecia já não conviver bem com esse negócio de olho-no-olho. Não sei detalhar o que rolou nesse papo, apenas sei que hoje é sábado e estou momentaneamente bem tranqüilo em minha casa: já tive a notícia de que segunda-feira teremos nova chefe e meu horário estará de novo flexibilizado. E tenho certeza que daqui em diante minha ex-nova chefe não tentará colocar mais nada dentro da lei. Se não ela começará a ter sérias dificuldades para sobreviver neste caos, como eu já tive quando tentei ser um pouco menos moralmente corrompido do que sou hoje.

As leis no Brasil foram feitas para corrigir o caos previamente instalado pela pilhagem colonial; pilhagem, no entanto, que hoje se mantém por novos meios, quase todos legais. Uma após a outra, algumas leis brasileiras foram tentando, copiando leis de países não tão pilhados como Brasil, colocar o caos sobre ordem, porém sem nunca interromper as vias da pilhagem. O resultado deste acúmulo de camadas de leis feitas caoticamente em conchavos entre cínicos e iludidos, foi que para sobreviver neste caos (inclusive para não sucumbir à pilhagem, legalizada) é preciso ir contra as leis. E somente se ater a elas quando for em favor próprio (no máximo, e às vezes, de sua família, de sua corporação ou empresa), e também saber usá-las contra as outras pessoas que tentam ir contra você em algum momento.

Esses novos valores morais que andam norteando implicitamente a vida cotidiana brasileira, e que não aparecem em leis, obviamente, têm levado em consideração que a essência cultural da massa humana brasileira é ser pilhada, e que para uma vida possível nesta zona só existem três escolhas (e isso pra os poucos que alcançam alguma possibilidade de escolha): ser humanamente honesto com seus valores tradicionais e passar para o campo dos explorados que sucumbem à pilhagem, como a minha ex-nova chefe; tentar se transformar num pilhador (o que dependerá da necessidade do pilhador em te ter como aliado), como deve ter acontecido com o chefe de minha chefe, o que tem cara de sindicalista; ou ser esperto ("malandro") e tentar viver o aqui-agora no limite de contato entre a pilhagem e a massa explorada, sem pertencer verdadeiramente a nenhum dos lados, mas indo de um lado a outro de acordo com a conveniência de momento; mas sem poder contar com grandes perspectivas de futuro (a malandragem sempre gera grande incerteza para o dia seguinte). Um arranjo um tanto quanto instável, mas sendo o máximo que há para os ratos que ainda não conseguiram abandonar esse barco que afunda.

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apple
 

Cada um deve olhar para o seu íntimo e perguntar:
- O quê quero? O quê é melhor para mim? O quê me deixará melhor internamente?

Cada um deve pesar os seus valores, interesses ... escolher e ir atrás da sua escolha.

apple · Juiz de Fora, MG 18/10/2006 19:36
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apple
 

Agora questão de atestado, onde trabalho também é complicado. Se você aparece com um atestado particular para 10 dias, os médicos da empresa querem mudar para 5...

Fora isso, dão atestado conforme o "teatro" que a pessoa faz...

apple · Juiz de Fora, MG 18/10/2006 19:40
3 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Maria Limeira
 

Enfim, um médico desonesto, e sem hipocrisia! Saludos. Maria José Limeira.

Maria Limeira · João Pessoa, PB 24/10/2006 14:53
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