"Memória para Uso Diário" e a tortura no Brasil

Divulgação
A memória tátil, em cena do filme dirigido por Beth Formaggini
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Mauricio Caleiro · São Paulo, SP
11/6/2009 · 4 · 3
 

O excelente documentário Memória para Uso Diário, que tem sido periodicamente exibido no Canal Brasil (assista ao trailer clicando aqui), debate e sugere importantes reflexões sobre a ditadura militar e a questão da tortura no Brasil – não só quando aplicada contra presos políticos, mas em sua persistência nos dias atuais como forma indiscriminada de repressão às classes periféricas.

A estrutura narrativa em forma de mosaico, embora a princípio um pouco confusa, possibilita a cobertura de aspectos diversos do tema – como a importância e abrangência da atuação do grupo Tortura Nunca Mais (que co-patrocina a produção), as consequências psicológicas para os torturados, a questão da memória pessoal e sentimental, as estratégias do aparato militar para sonegar informações (e a leniência dos governos civis para aprovar leis que as liberem), a formação dos torturadores no Brasil e na Escola das Américas (EUA), e a persistência da tortura e das execuções sumárias nos dias atuais, resultando numa abordagem densa e multifacetada do tema, que utiliza com inventividade depoimentos, reportagens televisivas, material gráfico e de arquivo.

Tema difícil de ser tratado em termos cinematográficos, a dor da “tortura a longo prazo” a que são submetidas as famílias dos “desaparecidos” – particularmente suas mães -, impedidas de enterrarem seus entes queridos, é enfocado com tato e sem pieguice. Ele está diretamente conectado ao principal fio condutor da trama, a trajetória de d. Ivanilda - uma senhora que durante 31 anos percorre os arquivos do Estado em busca de informações sobre o marido, militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) desaparecido em 1975. Sua luta evidencia a importância que tem, em termos emocionais e psicológicos, o reconhecimento, pela Justiça, da responsabilidade do Estado nas mortes dos familiares desaparecidos, medida incomparavelmente mais significativa para as viúvas e filhos do que a concessão de “indenização” financeira que de ordinário a acompanha – e que tem sido, quase sempre, o único e malicioso interesse da mídia corporativa no que concerne à questão.

Dois momentos sublimes do filme dirigido pela documentarista Beth Formaggini - contemplado com diversos prêmios no Brasil e no exterior, incluindo Melhor Longa Documentário - Voto Popular, no Festival do Rio 2007 - advém de depoimentos de mães que tiveram seus filhos mortos pelas forças de repressão. No primeiro deles, uma franzina e enrugada senhora, cujo filho foi assassinado pela ditadura, muito emocionada e humildemente argumenta que aceitaria que ele fosse julgado pelos eventuais crimes pelos quais fora acusado, mas que não pode se conformar com sua execução sumária, sem direito a julgamento. O depoimento desmonta, em poucos segundos, um dos argumentos mais falaciosos ora utilizado pelos setores de direita em sua tentativa de justificar o injustificável – o de que a morte de militantes de esquerda se explicaria por alegadamente se tratar de criminosos. Ainda que, apenas como exercício argumentativo, aceitássemos que constitui crime a luta contra um regime arbitrário, que tomou ele mesmo o poder à força, a punição não poderia jamais dar-se na forma de tortura ou de assassinato sumário praticados pelas forças do Estado, e sim exclusivamente através da obediência aos devidos ritos judiciais e das condena;'oes por estes impostas.

Mas a pedra de toque do filme – e um de seus momentos mais dilacerantes – vem da direta relação que perfaz entre a repressão no período militar e a violação dos direitos humanos hoje; entre a tentativa de se anular a subjetividade psicológica do preso por meio da tortura - objetivo dos interrogatórios durante a ditadura - e o atual desprezo pela identidade dos habitantes das favelas e periferias, vítimas de assassinatos sistemáticos perpetuados por policiais militares e grupos de extermínio, sob a desculpa multiuso do combate ao tráfico de drogas.

Efetivada através do depoimento de uma jovem mãe negra habitante da favela da Maré, que teve seu filho, um trabalhador de 17 anos, assassinado a sangue frio por forças policiais, a relação entre passado e presente se evidencia ainda através dos métodos empregados: se antigamente se “montava uma cena” para alegar que o militante torturado e morto nos porões reagira à prisão, atualmente basta rotular o jovem assassinado como traficante (como se fosse possível distinguir à primeira vista pessoas honestas de traficantes - e como se a lei brasileira autorizasse a execução sumária destes, dispensando o rito judicial). Por sua vez, a mídia, como enfatiza a jovem mãe com lágrimas nos olhos, “só passa para contar o número de mortos”.

Um crítico chato talvez sublinhasse que uma edição mais enxuta e objetiva e maior apuro formal nos enquadramentos fariam bem a Memória para Uso Diário, mas são detalhes de menor importância em um filme que, além do mérito indiscutível de tratar de assunto tão difícil com fluência, emoção e eventualmente até humor, é tão rico em questões de fundamental importância para o avanço democrático do país.

Trata-se de uma obra para ser vista, revista - sobretudo pelas novas gerações - e utilizada como material pedagógico nas escolas e faculdades. Um filme cujo título corresponde à împortância dos temas que debate: memória para uso diário.

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graça grauna
 

Importantíssimo documentário. Precisa ser mais divulgado.

graça grauna · Recife, PE 9/6/2009 08:48
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graça grauna
 

voltando

graça grauna · Recife, PE 12/6/2009 11:01
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Mauricio Caleiro
 

Fico feliz que tenha gostado, Graça. Obrigado!

Mauricio Caleiro · São Paulo, SP 12/6/2009 15:24
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