Memórias de uma víbora

Ana Carolina Fernandes/Folha Imagem
Joel Silveira, chamado por Assis Chateaubriand de "a víbora do jornalismo"
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Juliana Lopez · Votorantim, SP
18/8/2007 · 194 · 14
 

Reunidas no livro intitulado “A milésima segunda noite da avenida Paulista” (Editora Companhia das Letras, 213 páginas), algumas das grandes reportagens de Joel Silveira, como a que dá nome à obra, ajudam a traçar o perfil jornalístico – e por que não pessoal, de uma das personalidades do jornalismo brasileiro.

Nascido em Sergipe, na cidade de Lagarto, Joel chegou ao Rio de Janeiro ainda bem jovem e passou a vida cercado de escritores, pintores, jornalistas, poetas e intelectuais, pessoas de quem não só conseguiu arrancar confissões em espetaculares entrevistas, mas que também compuseram seu rol de amigos íntimos e fiéis.

O poder da víbora, apelido dado a ele por Assis Chateaubriand, foi conhecido nacionalmente pela primeira vez no começo dos anos 40, com a reportagem “Grã-finos em São Paulo”. O próprio Chatô se encantou com a acidez e o sarcasmo de Silveira quando leu a reportagem em que ele satiriza os costumes dos ricos de São Paulo, troçando de suas fortunas, seus sobrenomes e seus hábitos peculiares, como o de se reunir na livraria Jaraguá todos os dias para discutir por horas sobre tudo, exceto sobre livros.
É nesse ar de zombaria e crítica que Silveira, a pedido de Chateaubriand, seu então chefe nos Diários Associados, dá a mesma cobertura à festa de casamento da filha do conde Francisco Matarazzo Jr., a “festa do ano”, e ao casamento de dois humildes operários, coincidentemente funcionários das fábricas da família Matarazzo, em uma tirada genial.

Donos de histórias fascinantes, seus entrevistados por vezes surpreendem mesmo o jornalista, velho amigo de muitos deles. O Monteiro Lobato descrito por Joel em um dos capítulos adiciona à já conhecida imagem do autor de Reinações de Narizinho o importante papel que desempenhou nas campanhas em defesa do ferro e do petróleo brasileiros, ousadia que lhe rendeu até prisões. Visceralmente imprudente, como se definia, Lobato conservou a língua solta durante toda a vida. Prova disso é a entrevista na qual ataca a ditadura do Estado Novo, cedida em 1944, de conteúdo e título provocativos (“O governo deve sair do povo como a fumaça sai da fogueira”), que resultou no fechamento antecipado do jornal semanário em que Silveira trabalhava.

Em um dos capítulos mais interessantes do livro, Joel conta sobre o dia em que entrevistou os bandidos de Lampião na penitenciária de Salvador. A maneira bonita como o diálogo transcorre e o curioso envolvimento criado entre eles e o entrevistador são tão intensos que chega-se ao final da história com certa simpatia e compaixão pelos seis violentos ex-cangaceiros.

As entrevistas relatadas na obra trazem um misto riquíssimo de típica curiosidade jornalística, afinal Joel cumpria com excelência seu papel profissional, com intimidades que só um amigo tão próximo poderia ter. A proximidade com Graciliano Ramos, que conheceu assim que chegou ao Rio, lhe permitiu contar o lado amargurado do escritor, sempre insatisfeito consigo mesmo e com suas obras. A demora pelo reconhecimento artístico lhe pesou por toda vida, até ganhar o primeiro prêmio, em 1942, por Vidas Secas, publicado quatro anos antes.

De mesma intimidade desfrutava com Manuel Bandeira, a quem chegou a visitar ao menos uma vez por semana lá pelo ano de 1938, sempre pela manhã. É com saudade que Joel relembra a última vez que o encontrou, às vésperas de o poeta completar oitenta anos, mantendo ainda sua impressionante memória numa espantosa lucidez. O fato relatado com tamanho entusiasmo foi a reação de Bandeira diante da inesperada situação de presenciar, pela janela, uma vaca comendo as flores do jardim na casa de verão do amigo Rodrigo Melo Franco, onde estava hospedado. Conta Joel: “tinha alegria de menino cúmplice de uma travessura”.

Mas é da amizade com o irreverente Di Cavalcanti que surge uma das situações mais emocionantes do livro. Di é apresentado como um homem animado, fã de boa comida e boa bebida, sempre com mil histórias extraordinárias a contar aos diversos amigos, entre eles, Joel Silveira. Preso em 1968, no mesmo dia em que o AI-5 foi decretado, o jornalista constava na lista de “intelectuais mais perigosos e contestadores do regime militar”. Ao sair da prisão, cheio de dívidas e às voltas com o casamento da filha, Joel encontrou-se em situação delicada: não lhe restara outra solução senão vender o quadro pintado por Emiliano Di Cavalcanti e ganho de presente das mãos do próprio autor. O resultado foi o pintor enfurecido com o amigo e dois meses de relações cortadas. Porém, para grande surpresa e comoção, no dia do casamento da filha de Joel, lá estava Di, logo nas primeiras filas.

O livro chega ao fim com um posfácio de Fernando Morais, absolutamente necessário para que a obra termine completa, contendo mais histórias e memórias que, juntas como num mosaico, ajudam a compor não só biografias de seus ilustres entrevistados, mas também a decifrar a vida tão bem vivida da víbora do jornalismo, Joel Silveira.

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baduh
 

Querida Juliana.

Eu achei o teu texto excelente. Ótimo. Gostaria muito de vê-lo publicado. Ele tem absolutamente tudo para isto!

Queria, porém, te dar uma sugestão (que eu mesmo recebi e recusei já, na minha primeira vez aqui no Overmundo, mas que depois concordei e adotei):

Coloque uma fotografia, bem apanhada, acompanhando o teu excelente artigo. Isto ajuda a chamar atenção sobre o teu escrito e atrai os leitores mais apressados.

Boa sorte!
Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 15/8/2007 09:14
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Juliana Lopez
 

Baduh,
aceitei prontamente sua sugestão e tentarei postar uma foto hoje mesmo! Meus sinceros agradecimentos!
Juliana

Juliana Lopez · Votorantim, SP 15/8/2007 12:02
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baduh
 

Juliana.
Marquei no botão "me avisar quando entrar em votação". Conte com o meu voto, entusiástico. É um excelente artigo. Pode ir escrevendo outros... hahahahahah
Abração aqui do overmano,
Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 15/8/2007 14:55
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Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A
 

Ótimo texto, Juliana. Fiquei muito curioso em relação à figura do Joel Silveira.

Abraços!

Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE 15/8/2007 16:43
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FILIPE MAMEDE
 

Só tenho a dizer que como estudante desse troço chamado jornalismo, vejo o Joel como um caminho a ser seguido. Grandes textos, fino-trato com as palavras e com as idéias; muito bom, bem como o seu artigo. Excelente homenagem.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 15/8/2007 17:05
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Tetê Oliveira
 

Juliana, bela contribuição e homenagem ao Joel Silveira, que nos deixou hoje, dia 15. Que bom que ele compartilhou com a gente tantas histórias, não?
Valeu a dica do livro! Beijo,
Tetê.

Tetê Oliveira · Nova Iguaçu, RJ 15/8/2007 20:09
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Helena Aragão
 

Fiquei impressionada com a coincidência. Li tua resenha ontem e hoje me deparo com o obituário do Joel Silveira no jornal. Vim até reler o texto para ver se tinha sido mesmo coincidência... Não foi uma homenagem póstuma, o que a torna ainda mais forte.

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 16/8/2007 13:52
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baduh
 

Votado com satisfação, Juliana!
Abração do
Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 17/8/2007 13:28
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Romeu Martins
 

Realmente uma coincidência este belo texto em um momento tão triste. Também escrevi algo sobre o jornalista alguns anos atrás:
http://www.gardenal.org/marcadiabo/materias17.htm

Romeu Martins · São José, SC 18/8/2007 14:06
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Cintia Thome
 

jOEL sILVEIRA, SAUDADE DE ALGUÉM COM OLHO ALÉM DA MESMICE DO COTIDIANO

Joel Silveira... Saudade de alguém com olho além da mesmice do cotidiano, um senhor jornalista que deveria ter seguidores. Ah! Joel Silveira!Se todos fossem iguais a você, que maravilha viver!!
Exemplo no Jornalismo...
Votado e muito!
Parabéns pelo texto, Juliana...

Cintia Thome · São Paulo, SP 18/8/2007 16:37
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Higor Assis
 

Juliana Lopez.

Muito bom teu texto, excelente contribuição e homenagem. Claro como os amigos overmanos colocaram, uma grande coincidência.

Higor Assis · São Paulo, SP 18/8/2007 19:56
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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Querida Juliana:
Parabéns! Bela resenha! Incrível a coincidência! Grande homenagem! Para completar, os jornais que noticiaram a sua morte passaram ao largo da importância dele. Só mesmo no overmundo para ter informações desta qualidade e profundidade. Só faltou mesmo a data da publicação.
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 19/8/2007 02:00
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Andre Pessego
 

Juliana, vez por outra é necessário se ler, (este "se"atingiaria ao Brasil de norte a sul), textos assim, bem feito, ensusiasmado, sem botar para fora o entusiasmo, mas que cada um ao ir lendo e vai pegando, e vai tendo vontade de chegar ao fim, e vai chegando ao fim e torce para não chegar ao fim.
- Tinha lido qualquer coisa na veja eletronica que não cheguei a guardar, agora sim vou adquir e ler por algumas semanas,
beijão, andre

Andre Pessego · São Paulo, SP 19/8/2007 05:45
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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Querida Juliana:
Um palpite que faço questão de dar: o jornalismo brasileiro carece de bons resenhadores de livros, o que você demonstrou saber fazer magistralmente. Sei que o livro te tocou e tudo, isto é, que, provavelmente, não sairia um texto tão calibrado na medida se fosse outro o livro resenhado mas, para mim, você demonstrou uma acuidade invejável. Bom, como eu disse, fica o palpite.
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 19/8/2007 16:55
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