Coração apertado quando compro meu ingresso, músculos do pescoço tensos na hora de procurar um bom lugar para sentar, e, finalmente a cabeça lateja quando a escuridão da tela dá lugar às primeiras imagens. Bem, na verdade, posso dizer que entrei preparada: já haviam me avisado que seria um daqueles filmes pesados, em que se derramam umas lágrimas e, já na saída, o assunto muda para os planos de hoje à noite. E se não fosse assim?
Logo no início, assisti uma aldeia inteira ser destruída por rebeldes africanos e não resisti. Mordi a ponta da língua, mordisquei o canto do lábio inferior direito, como faço quando tento segurar o choro - e foi em vão. Chorei, desabei na cadeira, e não consegui respirar, como se cada segundo de imagem me chutasse entre o coração e o diafragma. De repente eu vi. Vi minha mãe procurando proteger as duas filhas. Vi meu pai correndo com peixes na mão. Vi primos e primas sendo massacrados por uma guerra que nunca foi deles. Vi panelas de arroz sendo quebradas por botas ainda manchadas de barro. Saí, fui ao banheiro, lavei o rosto, respirei, e voltei. Agora, que já sabia como seria o filme, que tivesse a coragem de assisti-lo por completo, com todas as reações viscerais que viessem pela frente.
Enquanto os diversos personagens se desenrolavam, cheios de falsos interesses e agonizando com dúvidas, eu vi novamente. Vi meu pai, desta vez tive certeza. Sua aldeia, que só aparecia para mim em recordações de infância, entrou correndo e invadiu o cinema. Seu nome, que não passava de menções passageiras, se concretizou frente aos meus olhos, e senti uma estranha sensação de lugar comum, como se, em alguma vida, ou sonho, já tivesse visto tudo aquilo. Enquanto falavam mende, ouvi você falando com seus irmãos no telefone, e perguntando se estava tudo bem: a mistura de inglês quebrado com palavras do dialeto que só vocês sabem. Será que já procurei aprender algumas palavras? Senti-me mal, fisicamente destruída, enquanto via os milhões de refugiados, entulhados em pequenos casebres ou longas fileiras pelo árido terreno africano.
Nossa! Nem de longe parecia aquela região tão bonita que vejo quando penso em Siera Leone. Nem de longe lembra as sementes de cacau espelhadas pelo chão, esperando secar, o cheiro forte que só a comida com óleo de dendê tem. Nem de longe lembra as águas daquele riacho tão azul, tão azul que encantou até a mais resistente visitante daquela viagem que fizemos. Sim, ao contrário do que temos feito todos estes anos, não posso mais chamar o país de Serra Leoa, não é seu nome de verdade. Boakari não é nosso nome de verdade. Será que já te perguntei antes?
Chorei novamente. Desta vez não foi pelo que passaram, mas a razão que passaram por tanto, em tão pouco tempo, e quais os motivos. Foram dez anos, isto eu sei. Você me disse. Gostaria que tivesse me dito mais, me explicado por quê. Mas hoje, percebo que nem você sabe. É difícil entender porque Homens se voltam contra eles mesmos, porque a ambição de alguns consegue controlar as boas ações de poucos, e, o pior, como podemos viver com tanto e não fazer nada. Chorei. Foi, mais uma vez eu vi. Foi pior, porque vi meu avô sendo carregado, por quantos minutos? Por quantas horas? Foram dias? Meses? Enquanto estávamos aqui, alheios às dificuldades do mundo, eles lutavam para sobreviver. Ele, era carregado.
Te liguei quando cheguei em casa, e você me consolou. Não deveria ter sido o contrário? Você me falou algumas coisas que nunca havia dito, tentou novamente explicar o porquê da guerra, e, animado, mais uma vez me disse que a aldeia está sendo reconstruída. Calafrios. Medo. Enquanto você me falava, fiquei assustada, e finalmente percebi porque, mesmo diante de tanta fraqueza, diante de tanta violência, de tantos tiros, e machadinhas, vocês conseguiram sobreviver: era pra ser.
E assim, termino este desabafo. Não sem, mais uma vez, morder o canto do lábio inferior direito, e pensar em você. Pensar na nossa família, e fechar os olhos: quero lembrar é do cacau, do riacho, do dendê, e mais uma vez pensar que estamos todos juntos – em casa.
“MENDE: The Mende are a large West African ethnic group (population approximately 2 million), speakers of the Mende language, living primarily in Sierra Leone and Liberia”.
Esse é um dos relatos mais pungentes que já li aqui.
Débora Medeiros · Fortaleza, CE 9/3/2007 16:56
Poootz, Biá!!!
Você não poderia ter escolhido um texto mais f*** do que esse pra estrear aqui.
Tô chorando, arrepiada, emocionada. Coisa mais linda!
Parabéns, e seja bem vinda!
beijo
Biá, a visão do insider é sempre emocionante e comovente. Perdi alguns amigos e parentes falecidos por causa de doenças que vez por outra estão nas telonas (aids, cancer, etc). A gente revive tudo aquilo de novo... Sinto o que vc sentiu. É bom poder escrever sobre e melhor ainda ter um personagem vivo para nos consolar. Belo relato (apesar de tudo) de sua alma Mende.
Eugênio Rego · Teresina, PI 12/3/2007 10:01
Bia, acho que não foi so você que chorou.
Obrigada pelo relato extremamente emocionante!!
bjos
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