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Meninos do Rio... São Francisco

Luís Osete
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Luís Osete · Juazeiro, BA
16/1/2008 · 193 · 11
 

O calor, em Juazeiro, sertão da Bahia, provoca muito mais do que arrepios. O clima semi-árido é um ensejo para um mergulho profundo nas águas do Rio da Integração Nacional – divisa natural entre as cidades de Juazeiro-BA e Petrolina-PE. Mas, no vai-e-vem da vida ribeirinha, poucas pessoas se aventuram a dividir o espaço aquático com coliformes fecais e metais como cádmio, mercúrio, zinco, chumbo etc., provenientes de esgotos domésticos e industriais lançados diariamente no rio. Assoreamento, desmatamento, erosão e poluição são problemas antigos enfrentados pela população do Vale do São Francisco.

Só não são mais antigos do que a herança indígena do banho de rio. Desde os primeiros índios Cariris que habitaram o solo eutrófico desta parte do sertão – diga-se de passagem, os mesmos que encontraram em uma grota nas barrancas do São Francisco a imagem de Nossa Senhora das Grotas (padroeira da cidade) - o amor pelo banhar-se é parte da paisagem local. O próprio Darcy Ribeiro, em seus “Diários Índios” (1996), já relatou fartamente os banhos que os Urubu-Kaapor tomavam: "Esta gente se banha que não pára. A cada instante chega um molhadinho do córrego e, mal seca a água do corpo, volta a molhar-se".

Sem “dragões tatuados no braço”, nem “calções corpo aberto no espaço”, meninos com idade entre dez e 15 anos dificilmente sabem contar a história dos índios Cariris e Urubu-Kaapor, mas são devotos da mesma fixação pelos mergulhos fortuitos na margem direita do Rio São Francisco, mesmo furtando aos poucos a saúde que lhes falta. Com Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) em torno de 0,683 (a média nacional é 0,800), Juazeiro pena para oferecer à população serviços básicos, como um mergulho saudável nas águas do rio. Para a fatia da população com idade entre dez e 15 anos há um imperativo lógico: ser criança. E não é nada fácil ser criança em Juazeiro.

A ocupação desordenada e sem planejamento da área urbana atrofiou qualquer possibilidade de lazer no centro da cidade. A infra-estrutura decadente não conta com espaços de entretenimento, como parques, instalações recreativas e áreas livres. Como conseqüência, por mais absurdo que possa parecer, a coisa mais difícil para um pedestre, em Juazeiro, é andar pela calçada, especialmente no final da tarde, quando as pessoas resolvem ocupá-las para prosear as dores e delícias do dia.

Os “corações de eterno flerte”, dos “meninos vadios”, só encontram respaldo na beira do rio – melhor lugar para abrasar o calor de uma tarde sertaneja. O “salto mortal” é a principal diversão para esquentar ainda mais o sangue antes do secular mergulho nas águas do Velho Chico. Adaptado à areia fofa da beira do rio, o salto mortal é acompanhado de muita concentração e seriedade por parte das crianças, como se deveras representasse um ritual de iniciação num determinado grupo – os que sabem saltar.

Há quem veja esta prática como uma possibilidade de recomeço, fuga do lugar comum, busca da perfeição técnica, superação, renovação etc., mas, sozinhos ou em dupla, o que as crianças adoram mesmo é serem percebidas, no clique da câmera ou no piscar de olhos dos transeuntes. Sem platéia não há espetáculo. Talvez os meninos não saibam, mas o filósofo irlandês George Berkeley já definiu há muito tempo a máxima deles: “Ser é ser percebido”.

E para quem trafega nas dez barcas que diariamente se revezam na travessia do rio, entre as cidades de Juazeiro e Petrolina, é impossível não perceber a vitória da infância no olhar de satisfação dos aventureiros ribeirinhos. Com o olhar voltado para minha câmera, eles logo providenciaram um campeonato de saltos mortais. A tensão flutuou em minha objetiva, a poucos passos do rio, e meu olhar oscilou entre a correnteza multicor do São Francisco e as piruetas voadoras de seus filhos.

A cada salto, fotógrafo cúmplice das loucuras humanas, só restou-me rezar (eu não sei cantar) “para Deus protegê-los”. Mas, devo confessar, a desenvoltura dos meninos é algo arrebatador - lindo e perigoso. Foi como se, de repente, eu me percebesse fotógrafo de um espetáculo circense, e tal como a escritora norte-americana Marion Zimmer Bradley, autora do livro “salto mortal”, tomado de um infindável encantamento.

Passado o espetáculo, que se repete com mais força nos finais de semana, fiquei pensando: Do Hawaii ao Haiti, as ondas breves do rio são como os sonhos, sempre ficam à espera do próximo e, portanto, levam e trazem as alegrias e tristezas das águas de outrora... Só me resta desejar que eles desejem saltar muito além das areias fofas da margem direita do Rio São Francisco, no concorrido campeonato de saltos mortais da vida.

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Saramar
 

Luís, seu texto é belíssimo e emocionante.
Mas eu o li com funda tristeza desde as primeiras palavras, pensando na negação da vida que criamos, nós todos, para esses meninos e todos os outros que vêm vindo logo ali.
Entre eles os índios, há a construção de um país sem respeito, sem cuidado, sem visão. Um país que nega o futuro, matando cedo, cedinho, os jovens que somos.
Pensei no rio morto e nesses acrobatas da falta de esperança, que arriscam muito mais que o próprio pescoço nas águas imundas que já foram do rio.
O rio? Não mais há.

beijos

Saramar · Goiânia, GO 13/1/2008 16:35
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Luís Osete
 

Saramar, belíssimo e emocionante é o seu comentário...
Qualquer semelhança entre os primeiros habitantes destas terras, e seus olhares de espanto e admiração ao entorno material dos colonizadores (hoje peças de museus), e estes intrépidos habitantes da beira do São Francisco, também espantados e admirados com o aparato material da modernidade, é mera consequência...
Está bem explícito em suas colocações: "a construção de um país sem respeito, sem cuidado, sem visão...".
Ao mesmo tempo, os "acrobatas da falta de esperança" vivem, a cada salto, para nos mostrar que ainda vivemos num país em construção. A caminhada é longa e a estrada, não se engane, é feita da mesma areia fofa que amortece o impacto destes meninos no chão...
Um forte abraço, Luís Osete.

Luís Osete · Juazeiro, BA 15/1/2008 00:38
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Mestre Jeronimo - JC
 

Axe'

as fotos me levaram 'looonge'... a um tempo que eu proprio vivia na amazonia, e fazia piruetas nos rios, e igarapes.

Valeu a leitura...

Mestre Jeronimo - JC · Austrália , WW 15/1/2008 13:48
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Lu&Arte
 

Adorei teu texto! Tanto pelas fotos, como pela escrita costurada com a letra da música Menino do Rio. A vida e todas as pequenas belezas diárias é mesmo o nosso grande salto. Parabéns.

Lu&Arte · Porto Alegre, RS 15/1/2008 22:03
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Cintia Thome
 

Ah Meninos traquinas!
Chico sem igual
Ah! Dor do Opará
Oh! Dor da lágrima
Que será gota...uma
Até o doce terminar...
Opará nenhuma
E todo seco sal...
Meninos...
O que irão buscar?
abçs

Cintia Thome · São Paulo, SP 16/1/2008 08:42
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Andre Pessego
 

Luis,
Eu menino do sertão, me vi naquele mortal. Confesso´te
que li, ou absorvi pouco, fiquei vendo as fotos.
mas estou arquivando, um abraço, andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 16/1/2008 20:58
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crispinga
 

Oi Luís,
Belo e sensível seu olhar sobre esses meninos. Agora, com a transposição das águas do São Francisco, vai sobrar o que para eles?
Meu avô materno , baiano e amante do "Seu Chico", felizmente não será testemunha desse interferência humana na natureza.

crispinga · Nova Friburgo, RJ 17/1/2008 10:48
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Luís Osete
 

Oi Cirspinga,
Confesso que até pensei em enveredar pela transposição quando escrevia as linhas deste texto, mas, sei lá, já combati tanto este projeto ano passado, e tive de lidar com tanta frustração, que até estou repensando maneiras de externar meu desagrado. E se este desagrado só fosse meu...
Mas, não deixa de ser em memória de amantes do "Seu Chico", como seu avô e tantos outros avôs pelo Brasil afora, que nós não hesitamos em continuar na frente de batalha desta luta.
Peço licença até para indicar um texto que escrevi sobre este palpitante assunto, postado no blog do Centro Acadêmico de Comunicação Social da Uneb: www.juntandoscacos.blogspot.com.
Interessante, agora fico a pensar: meu olhar sobre os meninos do rio tem muito desta militância contra este e outros projetos de desenvolvimento regional com lamentável e revoltante impacto ambiental...
Abraços, Luís Osete.

Luís Osete · Juazeiro, BA 17/1/2008 12:20
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Garcia Aracaju
 

Caro Osete,
Seu texto é simplesmente excelente. Gostei muito da analogia com Menino no Rio, com Marion Zimmer Bradley, autora, também, de Brumas de Avalon. Texto muito bem encadeado. Vá em frente e não esqueça que Jorge Luiz Borges escreve que há um rio secreto que purifica os homens da morte... e o nosso rio São Francisco precisa viver....

Garcia Aracaju · Aracaju, SE 8/2/2008 12:10
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Elliana Alves
 

Parabéns Luis,encantei com vc,bjsssss e votei,boa noite!

Elliana Alves · Petrolina, PE 26/6/2008 18:53
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André Alvim
 

Olá Luis, estou pretendendo pedalar pels margens deste belissimo rio e em minhas pesquisas, achei seu maravilhoso texto. Gostaria de publicá-lo em meu site que estou preparando para a cicloviagem. É possível publicá-lo lá? Obrigado e parabens!

André Alvim · Miracema, RJ 20/1/2009 23:34
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