Brasil.gov.br Petrobras Ministério da Cultura
 
 

Mentiras sinceras

1
lorenzo falcão · Cuiabá, MT
3/4/2007 · 30 · 2
 

Mentiras sinceras

Por Lorenzo Falcão

“Depois de um 31 de março / vem sempre um 1° de abril”. Esta frase poema, de autoria do poeta multimídia Antônio Carlos Lima, ganhei de presente da escritora Marta Cocco, quando lhe sugeri participar desta pauta que investiga as relações entre ficcionistas e a mentira que, afinal de contas, superficialmente, pode ser diagnosticada como espécie de matéria prima pra quem lida com palavras e gera o produto rotulado como literatura de ficção. Ou não...

A reportagem abordou vários autores, a maior parte deles radicada em Mato Grosso. A todos foi exposto um conceito moldado em torno dessa questão, que distorce a palavra ficção, para fricção, ou seja: um escritor pega a realidade e a fricciona, até dar caldo. Convoquei-os, enfim, a estabelecer uma relação entre ficção e mentira.

Antes de reproduzir os dizeres dos entrevistados, porém, eis algumas informações sobre a origem dessa data – primeiro de abril – que é universal. Uma pesquisa na internet me fez optar pelo Wikipédia, cyber espaço, por sinal, muito questionado por se furtar a uma verdade mais absoluta e aprofundada, o que cai como luva para a data em pauta. A fundamentação que explica o primeiro dia do mês de abril ter se transformado no Dia da Mentira parece ter surgido na França, onde, no século XVI, o ano novo era festejado em 25 de março, e as festas duravam uma semana, terminando no dia primeiro de abril. Depois da adoção do calendário gregoriano, o ano novo passou a ser comemorado em primeiro de janeiro. Houve resistência a essa mudança e alguns franceses continuaram a seguir o calendário antigo, mas estes passaram a ser ridicularizados e alvos de brincadeiras enganosas. Nos países de língua inglesa e na Itália, o primeiro de abril também se tornou motivo de chacota.

No Brasil a data ganhou essa conotação, inicialmente, em Pernambuco, onde circulou "A Mentira", um periódico de vida efêmera, lançado em primeiro de abril de 1848, com a notícia do falecimento de Dom Pedro, desmentida no dia seguinte.

O verbo mentir tem sua origem no latim (mentire). Seu significado é conhecido e praticado pelo mundo afora e, religiosa e popularmente, está associado a coisa do diabo. “Satanás é o pai da mentira”, diz um ditado que se perpetua na boca do povo. Esse padrão moral, claro, influencia qualquer pessoa quando indagada se costuma ou não mentir e escritores (apesar de terem uma suposta licença para mentir), como todos nós, são gente de carne e osso, portanto, sujeitos a toda sorte de influências. O que os entrevistados dizem a seguir é o objeto do nosso desejo. Até que ponto são palavras verdadeiras ou não, será que faz alguma diferença?



Ficção e/ou mentira



Aclyse de Mattos (MT)*: “Viva as mentiras que revelam, abaixo as meias-verdades que escondem!”

André de Leones (PR): “Julgo que escrever é mentir. O escritor escolhe a melhor forma de contar uma determinada mentira. É algo, portanto, lúdico e assombroso, porque o escritor tem de ser o primeiro a acreditar nas mentiras que inventa.”

Danilo Fochesatto (MT): “Eu acho importante a história ser boa. Ser divertida e triste. Mentira ou verdade, tô nem aí, pode ser tudo ao mesmo tempo. Uma frase? Bem, vou tirar uma de um conto meu em que o cara fala que o amigo faz ‘um tipo de ficção onde a realidade é absurda, e a lógica é apenas um fantoche em suas mãos’.”

Eduardo Ferreira (MT): “Veja a mentira de perna curta como um anão num filme de Fellini. É tudo mentira.”

Ivens Cuiabano Scaff (MT): “Escrever é mentir com a garantia de não ser desmentido. Até porque, críticos não existem.”

Joca Reiners Terron (SP): “Eu não minto nunca em minha ficção. Nela, na verdade (e poderia não ser?), eu reinvento a vida. Já na vida eu minto um pouquinho. Todo mundo mente, nem que seja só pra si mesmo. Na vida também a gente se reinventa várias vezes, a cada década que passa deixamos de ser uma pessoa e viramos outra. A partir daí, quando o sujeito vive algum tempo e ultrapassa a puberdade, é só mentira. De alguma forma a memória e a imaginação são mentiras engenhosas. Alguém conseguiria viver sozinho consigo mesmo, só com suas verdades? Eu duvido. Então minto, me reinvento e aos outros, imagino. Lembro.”

Juliano Moreno (MT):”O escritor não trabalha com a mentira, mas com o desvelamento da realidade que é toda porosa. Uma cebola a ser descascada, pele a pele, e no fim dessa operação descobrimos o nada, descobrimos que o mundo é pura invenção, construção da nossa fome por cotidianas certezas. Por isso não tem o menor sentido falar da criação literária como produto da mentira, quando a literatura nos proporciona a radical consciência da nossa fragilidade existencial”

Luís Gonçalves (MT): “A menos que se prove o contrário, tudo é realidade de uma mente daninha. Até porque, mentira tem perna curta, por isso voa!”

Marta Cocco (MT): “Na ficção, tanto na prosa como na poesia, a mentira é orgânica, porque é assim na vida que dizemos que é real. Quem funda a verdade é a linguagem. No começo era o verbo, não era? Sem o fingimento de que falava Fernando Pessoa, não há literatura. A diferença é que a literatura é honesta, se assume enquanto criadora de realidades. Nos outros aspectos da vida não é bem assim. Por isso, muitas vezes, a companhia de um livro é preferível (o complemento é dispensável, não?).”

Ricardo Guilherme Dicke (MT): “Tanto na mentira como na verdade, deve se ter boa memória e confiar no coração”.

Wander Antunes (MT): “O que sei eu de mentiras e afins? Tenho um asco tão grande à mentira, mesmo mentira literária, que deixei de escrever ficção há muito tempo. Todas essas histórias violentas e vulgares que escrevo são verdadeiras, protagonizadas por um grupo - ou bando, que é como gostam de ser chamados -, de velhos matadores que conheço. O bando, que hoje está reduzido a um trio, já foi grande, mas sabe como é velho... Marcam encontro com a gente, morrem e não dão as caras. Nos encontramos lá na praça Alencastro, fico esperando enquanto engraxam seus sapatos, depois bebemos alguma coisa, eu que pago a conta!, e então eles me contam velhas histórias de seu ofício. Acredito em tudo que dizem, mesmo quando quem me conta uma história, que teria acontecido com ele mesmo, diz que levou um tiro pelas costas e morreu durante um trabalho que deu errado. É que gente sincera sempre acredita. Duvidar é coisa de mentiroso.”



* As siglas entre parênteses após o nome de cada escritor indicam os estados onde estão radicados.

Elogio da Mentira

A verdade é única;

a mentira, inumerável.

A verdade é reta;

a mentira, o incêndio de um palácio sob o luar de outono.

A verdade encerra;

a mentira sugere possibilidades de inícios.

A verdade define;

a mentira recomeça.

A verdade se mostra por si;

a mentira é um traço da imaginação

que só existe quando proferida.

A verdade é natural;

a mentira, cultura.

A verdade coisa;

a mentira uma imagem de linguagem.

A verdade é sua certeza;

a mentira engendra este poema.

* Poema de Aclyse de Mattos escrito no ano 2000

MATÉRIA PUBLICADA ORIGINALMENTE NO DIÁRIO DE CUIABÁ (www.diariodecuiaba.com.br)

compartilhe

comentários feed

+ comentar
eduardo ferreira
 

Lorenzo. O maior mentiroso, dizem, é o papagaio. Seu apelido é Lôro: dá o pé Lôro, rsrsrsr. belo artigo Lorenzzeti. Matão na área. escreva maiscara! sem máscara meu! parabéns. (desculpeabrincadeirinha)

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 3/4/2007 12:18
sua opinião: subir
Juliaura
 

Assim ó:
Sabe aquela de que a mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer (não lembro o autor, mas é verdade que existiu e não sou eu, pois seria autora).
Tem aquela outra:
- Mentir é dizer o contrário do que se pensa para enganar.
Tem para todos os gostos e credos e há sempre quem acredite.
Creia! Já é um apelo a que disto não se duvide.
Se, ao fim, nada restar, que pelo menos reste a dúvida, dizia Karl M., talvez conscientemente repetindo o egípcio que passou a existência monoteísta dele (dois mil anos antes de Cristo) se perguntando: por quê?
Até porque, a verdade é um gato preto em uma sala escura e o gato não está lá!
E la nave va.

Juliaura · Porto Alegre, RS 4/4/2007 15:11
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

veja também

filtro por estado

busca por tag

observatório

feed
Revista Overmundo nº 6: esquentando as turbinas!

A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados