Mercadores de Palavras

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Erika Morais · São Paulo, SP
7/12/2006 · 192 · 20
 

“Hoje, se eu quiser, posso comprar um apê, uma casa de bacana, um carro, tudo por causa do livro. Eu cheguei em São Paulo com cem reais emprestados e tinha 2 opções: alugava uma pensão e passava fome ou comia e dormia na rua. Preferi ficar na pensão e passar fome. Quando acabou a pensão, fui morar na rua, então passei fome e dormi na rua.”
Pedro Lopes tem 35 anos e me disse que já chegou ao fundo do poço, mas reverteu a situação e “reaprendeu a viver”. Hoje não consegue separar sua vida pessoal de sua profissão. É livreiro por opção, mas foi o ofício quem lhe escolheu.

“Vale a pena porque estou vivo até hoje. Como não poderia valer?”
Luiz Oliveira Dias é um dos livreiros mais conhecidos de São Paulo e, talvez, o que está há mais tempo no mercado. Me diz que é feliz como livreiro e, prestes a completar 88 anos, não escolheria outra profissão. Quase se tornou um industrial, muitos de seus amigos são ou foram donos de fábricas de doces, mas se pudesse voltar atrás é bem provável que lidasse novamente com livros.

“Se o livreiro for inteligente, sobrevive.”
Adriano Lima é um livreiro militante e apesar de afirmar que livreiro não é uma “classe” luta por uma causa e até foi preso por ela. Com 16 anos no ramo, começou ainda muito jovem no comércio de livros e hoje, com 32 anos de idade, é o presidente da associação Via Libris, dos livreiros que ocupam a passarela da Rua da Consolação em São Paulo.


Minha intenção era entender como sobrevive um sebo num mundo onde a rede mundial de computadores conecta vendedores e compradores de tudo o que se possa imaginar, inclusive de livros usados. A discussão sobre a informatização do formato de livro não vingou e o tempo provou que o “fim do livro” não vai acontecer com a popularização da internet. Inclusive, nunca se produziu tantos livros como hoje. A discussão pertinente então, gira em torno do comércio de livros pela grande rede e a sobrevivência dos sebos. Talvez não tenha conseguido nenhuma resposta objetiva para a questão, mas conheci três homens apaixonados por livros e por sua profissão, a de livreiro.

Há dez anos no ramo, Pedro é polêmico e contraditório. Seu sebo é extremante bem recomendado por uns e assustadoramente evitado por outros. Neste período acumulou uma extensa biblioteca e hoje possui um acervo de 200 mil livros que ocupam o subsolo e térreo com endereço no Viaduto Nove de julho, Centro de São Paulo. Identificado apenas por uma placa escrita “SEBO” e pelos livros e discos espalhados pela vitrine e entrada do estabelecimento, é conhecido como Sebo 264, número do antigo ponto na Av. 7 de Abril, também no Centro de São Paulo e que hoje é ocupado por um antigo funcionário seu que compartilha da profissão de vendedor de livros usados.
Em breve, o 264 mudará mais uma vez de endereço, pois precisa de um espaço grande para organizar a grande quantidade de livros e montar um “espaço cultural” para shows, exposições, etc. Enquanto isso, quem entra no sebo esbarra em uma folha de papel colada em uma estante com o aviso de “estamos em reforma”, que reprime o visitante que queira passear pelo labirinto de estantes e se perder entre uma infinidade de palavras. Há cerca de dois anos entrei no sebo do Pedro por indicação de um conhecido em comum e fiz a tentativa de passar pelo pequeno espaço entre o balcão e uma estante (nessa ocasião não existia o aviso de “reforma”) e tive a passagem interrompida: “Estamos em reforma”. Como não vi nenhuma escada, martelo ou saco de cimento, insisti. Pedro não cedeu – Me fala o que você quer e se tiver eu pego.
- Não tenho nada em mente, só quero ver os livros.
Pedro lambeu o molho do macarrão que acabara de comer em um prato amassado de alumínio e me diz:
- Se tivesse um concurso você ganharia.
- De quê?
- De chatice.
- Ficaria em segundo lugar, porque o primeiro seria seu, fácil, fácil.
Hoje, encabulado, se diverte com a situação, me corrige dizendo que o prato era de inox (não de alumínio) e pede desculpas. Disse que se eu avisasse que fora recomendada, teria sido mais cordial.
Pedro não tem paciência com quem “acha que o sebo é um oásis pra passar o tempo”, por isso tem “fama de mau”. Quando o cliente reclama muito do preço faz cara feia, toma livro da mão do cliente, quando pedem algo que não tem ou simplesmente não tenha interesse em vender naquele momento manda para alguma livraria na Avenida Paulista. Diz que não tem apego ao livro, mas não vende um livro bom para qualquer pessoa: “Não vendo para quem não sabe o que está adquirindo, prefiro esperar a hora certa, vender para a pessoa certa, que vai ter o verdadeiro respeito por aquilo”. Acredita que sua fama é seu marketing. “Se você escuta um cara dizendo ‘o cara é chato, mas tem de tudo lá’ você não vai querer vir aqui? Claro que vai!” E é mais ou menos o que acontece com muitos dos clientes que se tornaram seus amigos.
Com um grande acervo de literatura beat, e contracultura em geral, muitos livros publicados nos anos 1980 pela Editora Brasiliense são “caçados” pelos leitores de Jack Kerouac, Allen Ginsberg, Willian Burrouhgs, John Fante, Charles Bukowski...E basta demonstrar um interesse em comum com o dono do sebo para a rudez se transformar em uma boa prosa. O 264 vive rodeado de pessoas, clientes com gosto em comum e ex-funcionários que muitas vezes comparecem para colocar o papo em dia e tomar uma cerveja, já que o frigobar nunca está vazio para os amigos.


Seu Luiz é dono do Ornabi, sigla para “Organização Nacional de Bibliotecas” e não lhe agrada que chamem sua livraria de sebo, o que para ele pode dar a impressão de algo sujo, mal cuidado. Portanto o famoso senhor português é dono do Alfarrábio Ornabi. Desde 1945 no mercado de livros usados, é considerado um dos mais antigos no ramo. Até um ano atrás, sua livraria tinha entrada pela Rua Benjamim Constant – Centro Velho de São Paulo, uma região rodeada de sebos. De frente para a movimentada rua, ocupava ainda um subsolo, o primeiro andar inteiro do antigo prédio e um mezanino só de livros jurídicos. Com um acervo de cerca de 400 mil livros, as salas eram divididas por temas e levava os nomes de: Santo Agostinho, Eclética, Platão, Mário de Andrade, Rui Barbosa, Fernando Pessoa, Euclides da Cunha e Luiz de Camões, a última, especializada em literatura portuguesa e uma das poucas que sobrevive no pequeno espaço que resta do Ornabi.
Antes de conhecer Seu Luiz, fui alertada por suas características conflitantes: “um simpático senhor”, “às vezes tão mau-humorado”. Talvez tenha tido sorte, pois fui muito bem tratada e conheci o senhor simpático que ainda guarda muito do sotaque lusitano. Depois da conversa com Seu Luiz, que também é chamado de Ornabi por alguns clientes, pesquisei na internet e vi que me contou sua história preferida: quando chegou ao Brasil, em 1939, fugindo da guerra que estava por vir. Com 20 anos de idade chegou a São Paulo, com uma pequena mala de mão, e a única referência que tinha era de um patrício de nome Vieira que seu pai conhecera em Portugal. No mesmo dia em que chegou, caminhava sem destino pelo centro de São Paulo quando se deparou com o letreiro “Livraria Lusitana”, entrou e depois de uma conversa o dono do estabelecimento se apresentou: - Meu nome é Vieira. Emocionado, o jovem Luiz disse-lhe da recomendação de seu pai e às cinco da tarde já estava empregado como vendedor de livros.
Triiiiiiiiiimmmmm...– Luiz, vem cá atender, tem uma moça perguntando por um livro. Inclinado, tenta chegar mais rápido do que as pernas poderiam acompanhar. Está rouco e a conversa ao telefone acontece com certa dificuldade. Pede um momento e vai para a prateleira de livros jurídicos. Ofereço ajuda. – Seria bom ¬-, responde sem prestar muita atenção em mim. Resmunga que o exemplar já foi vendido e retorna ao telefone para dar a notícia.
Há pouco mais de um ano, vendeu oito mil livros jurídicos para um advogado e professor que vive na fronteira do Brasil com o Uruguai. Todo o antigo mezanino deixou o Ornabi, com as estantes e um quadro de Rui Barbosa, um dos preferidos de Seu Luiz. Hoje mostra com orgulho as fotos que o comprador mandou da biblioteca que montou em sua casa, com os livros comprados e, para a alegria do livreiro, lá estava o quadro de Rui Barbosa.
Enquanto faz negócios com um atravessador de livros, converso com a senhora dedicada que anda para lá e para cá, arrumando prateleiras, cuidando de livros e sempre querendo saber se Luiz precisa de algo. – Ô Rrrrrita, me dá um copo d’água, minha garganta está muito ruim hoje. Rita fala sobre o lado bom e o ruim da mudança da entrada que agora se dá por dentro do antigo prédio, na Rua Quintino Bocaiúva. O movimento da Benjamim Constant, o barulho, as motos, os pontos de ônibus, tudo isso é muito tumultuado para um senhor octagenário, mas Dona Rita se lamenta que depois da mudança “ficou muito escondido” e que “precisa divulgar mais, né? Diminuiu muito o movimento”. Pergunto a Rita se ela trabalha há muito tempo no Ornabi. Tímida, ela sorri, um riso de criança, e diz que sim e quando quero saber onde mora Seu Luiz, com quem vive, muito mais tímida, porém com orgulho e um sorriso no canto da boca responde: “Comigo, sou a mulher dele.”


Adriano, fala mansa, palavras muito bem articuladas, é atencioso com os clientes e cuidadoso com sua estante de livros na passarela da Consolação, espaço onde pode vender seus livros sem correr o risco de serem confiscados e de ser preso novamente.
Feriado de 7 de setembro de 2005, Rua Augusta, São Paulo: A Guarda Municipal ou como diriam os vendedores ambulantes, o rapa, entrou em confronto com os livreiros que ocupam as calçadas da rua. Livros foram confiscados e Adriano foi preso por “crime contra a administração pública e resistência”. Há quase duas décadas os livreiros fazem parte do cenário plural da Rua Augusta. Apesar das tantas mudanças com o passar dos anos, a rua é famosa pela circulação de boêmios e intelectuais, pessoas que circulam pelos bares e cinemas são os compradores que fazem com que esse comércio das letras enriqueça a vida cultural da região e garantem a sobrevivência de uma profissão tão importante na formação da população, porque a “mercadoria” vendida, assim como o livreiro, está a serviço da informação e formação da sociedade.
O acontecido gerou grande discussão entre a população transeunte e clientela dos livreiros na região. “Até os comerciantes ‘oficiais’ da região entenderam a situação e nos apoiaram, porque nosso trabalho era sério e depois que nos organizamos, o local ficou ‘limpo’ dos malucos que ficavam ali consumindo drogas e atrapalhando nossas vendas”. E foi mais uma vez como organizador que Adriano procurou ajuda e depois das manifestações pela liberação do comércio de livros usados na rua, chegou, junto com outros livreiros, a um acordo com quem os tirou de suas bancas: a Subprefeitura da Sé. Cerca de dois meses depois da retirada da Augusta, foi concedido o espaço público da passarela da Rua da Consolação para que se organizassem desde que cumprissem algumas regras para a manutenção do local.
Fechada desde abril de 2005, a passarela, que segundo Adriano, não consta em nenhum mapa da cidade e foi construída em uma gestão do então prefeito Paulo Maluf, estava decadente, suja e sem segurança alguma para os transeuntes. Ligando por um caminho subterrâneo um lado a outro da Consolação, quase na esquina com a Avenida Paulista, passam diariamente cerca de 30 mil pessoas que, hoje, ao invés do mau-cheiro e insegurança, passam por estantes de livros, exposições de artes visuais, manifestações musicais nos fins de semana e música ambiente durante todo o dia.


Pedro vendia artesanato e um dia, quando a falta de grana apertou, teve que vender um de seus seis livros, que o acompanhavam em suas andanças. Uma senhora perguntou: - vende? - A senhora paga quanto? - 20 reais. Levou. O livro? “A idade da Razão”, de Jean Paul Sartre. Desse dia em diante não parou mais, montou uma banquinha no Bexiga, um dos bairros mais boêmios de São Paulo e em um ano já era um livreiro de sebo. No começo do negócio viajava muito, por todo o país, atrás de livros raros e ainda hoje visita quatro ou cinco sebos por dia atrás de raridades e livros que possam atrair seus compradores. Diz que gosta “de ir no sebo do vizinho, comprar livro de 10 reais que valeria 200 e evitar o de 200 que valeria 12, que é a coisa mais comum hoje”.
Apaixonado pelo que faz, Pedro faz questão de se divertir. Se diverte lendo, vendendo, proseando...é um homem de verbos no presente com olhos no futuro, um homem de ação desde quando se movimenta rápido e gesticula com os braços magros “molengando” de um lado para outro até quando acha que vender livros é pouco e decide investir em shows e CDs de bandas de rock. O Sebo 264 lançou 10 bandas e enquanto não esteve “em reforma”, organizou shows para que as bandas se apresentassem. Além da diversão, o tino empresarial do livreiro rendeu visibilidade ao negócio de livros e bons contatos e diz: “basicamente no país inteiro me conhecem”.
Atencioso com a literatura, já leu de tudo, pois diz que qualquer pessoa lhe interessa. Atencioso também quando não tem o livro que o cliente procura e, como um desafio, enquanto não acha, não sossega. Depois de dois anos veio o telefonema: - Encontrei o livro. Lá estava, em uma tarde de sábado, um produtor de um canal de televisão, feliz da vida com seu almejado livro e de quebra mais uma meia dúzia – nem tão raros – que renderam um bom cheque nas mãos do livreiro. Livreiro careiro assumido: “É. Nunca neguei para ninguém, sempre vendi bons livros e caros, se é bom, tem que ter um preço, mas você também pode encontrar um livro bom e barato comigo, de um assunto que já passou de época, um escritor que não tá sendo cotado”.


Seu Luiz não pensa em novidades, empreendedorismos. A filha e os netos seguiram seus caminhos e apesar do carinho que Seu Luiz afirma receber de todos, não há espaço para o velho Ornabi em suas vidas. Ainda sente prazer com o negócio, mas não existe mais o entusiasmo de outrora. Do grande Ornabi com seis funcionários, hoje restam dois, que afirmam não gostar de ler, apesar da convivência com tantos livros, e um leitor especial e apaixonado por literatura como Seu Luiz.
O homem que resolveu se dedicar exclusivamente aos livros depois de passar por uma grande tristeza, a morte de sua primeira esposa, se diz satisfeito por tudo o que fez e faz da vida. No pequeno escritório, uma mesa com um telefone, daqueles aparelhos antigos de disco, muitos papéis, livros... em uma prateleira fotografias de sua filha Elza, psicóloga, de quem o pai mostra com orgulho um de seus livros publicados e dos três netos. É ainda bisavô e “pai de criação” de um sobrinho de Dona Rita. No balcão, matérias de jornal com fotos de Seu Luiz e o Ornabi de tempos passados. Por toda a sala maior, Fernando Pessoa em retratos e poesias, mapas de Portugal, quadros com temas literários vindos diretamente de terras lusitanas e um belo quadro que retrata um Ornabi que vive forte nas lembranças de Seu Luiz e de seus clientes mais antigos.


Militante e organizador, Adriano ainda tem tempo de ser livreiro. Sua estante é uma das mais organizadas. Algo como “Não empreste livros, dê de presente” ou “literatura perturbadora” são mensagens espalhadas por suas estantes de livros. Na passagem é assim: os nove livreiros que ocupam o espaço hoje dividem o ambiente com suas estantes, além de uma mesa com livros que foram doados e são vendidos, com lucro utilizado para os gastos de manutenção como material de limpeza, por exemplo.
Além das mensagens coladas nas estantes, Adriano deixa bilhetes provocadores em alguns livros. Qual o critério? Mexer com o leitor, gerar curiosidade, provocar, evitar equívocos e “vontade de dar uma bronca mesmo”. Adriano lembra que na época em que chegou ao país o reality show Big Brother Brasil muitas pessoas iam até a sua banca de livros procurar pelo livro “1984”, de George Orwell, alegando se tratar do programa de televisão. Com certa indignação Adriano alertava os possíveis compradores sobre o verdadeiro conteúdo de livro, mesmo que algumas vezes viesse perder um comprador, e muitas vezes deixava mesmo de vender livros. Além disso, alguns livros de que gosta e quer que outros leiam também recebem os bilhetes: os livros do escritor americano Paul Auster são exemplos.
Aliás, Adriano se considera um “bom leitor”, porém “caótico” diz que não possui uma diretriz, mas quando cita seus autores preferidos é possível desenhar uma: cita autores pouco conhecidos como o austríaco Thomas Bernard, passando por romancistas clássicos Herman Melville e João Guimarães Rosa até os perturbadores Friedrich Nietzsche e Albert Camus. Aliás, das vezes que vi Adriano trabalhando, sempre estava com seu banquinho próximo a estante de “literatura perturbadora”.
Imaginativo, Adriano pensa sobre quais mãos os livros que estão em suas estantes já passaram e curioso com o ser humano, vislumbra por quais mãos ainda passarão. Acredita que em São Paulo tem cerca de 500 sebos, somando os com espaços físicos e o que ele chama de nômades, livreiros sem ponto fixo. Na passarela não tem computador, aliás, Adriano não é nem um pouco entusiasta das novas tecnologias. É amante de música erudita, mas no equipamento de som que deixa o ambiente na passarela ainda mais agradável é possível escutar Velvet Underground e descobrir que faz parte de sua discoteca.
O garoto que começou a gostar da leitura, como a maioria dos garotos, lendo “gibis”, é hoje um apreciador e conhecedor de Histórias em Quadrinhos, se empolga com o assunto e quando lhe digo que me falta o número 1 do quadrinho “Os Invisíveis” e fica de me conseguir um exemplar. Seus clientes são clientes “comuns”, não se especializa em livros raros porque não acha que deva cobrar um valor muito alto em um livro, não chegou a trezentos reais o livro mais caro que vendeu, portanto, bibliófilos não são seus principais compradores.
Se um dia vai ter um sebo? Um espaço só seu? “Talvez, no momento não tenho planos de deixar a associação. Um dia, se as coisas caminharem para uma auto-organização, sigo meu caminho, mas por enquanto não.”.


Hoje, com acesso “liberado”, caminho por entre os espaços apertados das estantes do 264 e, em cima de algumas caixas uma TV, lençóis, um cobertor e travesseiro, ao lado, uma pequena cozinha, no subsolo, “deu pane” ficou sem luz, o banheiro é lá em baixo, muito, muitos livros nas diversas salas e Pedro tem (quase) tudo catalogado em sua mente. Normalmente Pedro acorda cedo e dorme tarde, é possível passar às 7 horas da manhã e o sebo estar aberto, muitas vezes 23 horas, meia-noite e ele está lá com as portas abertas para “vender, atender quem quer saber sobre livro, mas pra gastar com passatempo, tem a praça, a biblioteca, o boteco, eu to fora.”
E assim sobrevive, vendendo livros na promoção a três reais “se levar 3 paga cinco, ou seja, cada livro sai por um real e setenta e cinco centavos” até raridades como uma primeira edição de “O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo”, de Oswald de Andrade que vendeu por R$ 3.900. Pedro não é muito fã de internet, mas graças a ajuda de um funcionário está catalogando aos poucos seus livros na página do 264 na web, a divulgação é boca a boca e ele não acredita que seus compradores vão deixar de freqüentar o espaço físico do sebo.


O bonde do tempo não pára e passa impiedosamente rápido para quem não quer, ou não tem mais pernas para acompanhá-lo, mas o senhor de cabelos esbranquiçados, olhos caídos e voz cansada segue lendo Eça de Queirós, seu escritor preferido e vendendo livros espertamente, com um preço proporcional ao interesse do leitor. O método não muda, mas é preciso que o leitor suba as escadas do velho prédio, porque o antigo salão do Ornabi, no térreo, é hoje um bar, que mata outro tipo de sede que não a literária.

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Tati Magalhães
 

Olá, Erika! como sempre, muito bom teu texto!
Eu sou uma daquelas que seu Pedro não ia gostar nem um pouco. Sebo pra mim é lugar de passeio! não vou com nenhum livro em mente, mas de mente aberta e olhos atentos pra encontrar coisas interessantes...
então, mas estamos na fila de edição, e queria te sugerir uma coisa: como a dinâmica do teu texto é ir apresentando os personagens sob algum aspecto e ir "alternando-os" (sempre em uma ordem), apesar de eu achar a estrutura bem legal, chega uma hora que vc confunde os personagens. Eu sugeriria duas opções de mudança: ou os títulos intercalados, intertítulos, que é manjado, mas flui bem e dá espaço pra sacadas legais, ou um simples negrito no nome dos personagens, que ajuda a identificar no próprio parágrafo as figuras...
ah, ri muito aqui da tua resposta ao Pedro dois anos atrás. A tua cara.
Bjos grandes e parabéns!

Tati Magalhães · Maceió, AL 5/12/2006 19:32
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Erika Morais
 

Tati, querida! Muito pertinente sua sugestão de edição. A gente fica viciada no texto e não consegue enxergar certas coisas.
Intencionalmente não quis incluir intertítulos, tentei separar mais os parágrafos para facilitar a leitura. Segui sua sugestão e incluí "negrito" no nome do Pedro, Seu Luiz e Adriano. Espero que tenha melhorado.
Obrigada pelo elogio. beijos!

Erika Morais · São Paulo, SP 5/12/2006 20:03
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Letícia Lins
 

Bacana Erika.

Letícia Lins · São Bernardo do Campo, SP 10/12/2006 00:01
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Vania Ferrari
 

Erika
Não sou capaz de avaliar seu texto - leiga que sou sobre como escrever um - mas posso dizer do que senti ao lê-lo: fiquei emocionada com as estórias, viajei até os sebos e pude vê-los, senti o cheiro de alguns e se seu encontrar o Pedro na rua ( braços magros “molengando” ) serei capaz de reconhecê-lo. Em resumo: amei. Com orgulho, Vania Ferrari

Vania Ferrari · São Paulo, SP 12/12/2006 18:19
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Erika Morais
 

Valeu Lê!
Vania, feliz com suas palavras.

Erika Morais · São Paulo, SP 13/12/2006 13:37
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Alexandre Inagaki
 

Uma delícia ler um texto no qual o autor, desvencilhado da limitação de caracteres, da imposição de pautas e das regras das cartilhas das grandes redações, põe-se a desfiar histórias como as compiladas por você, Erika. Obrigado pelo artigo. :)

Alexandre Inagaki · São Paulo, SP 16/12/2006 12:21
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Erika Morais
 

Alexandre, em primeiro lugar fico feliz e honrada com suas palavras, pois conheço e admiro seu trabalho.
Aproveitando a deixa do comentário, um desabafo: confesso que fiquei um pouco triste de ver que meu texto não teve muito destaque aqui no Overmundo, único lugar onde o publiquei, talvez não tenha sido tão lido por eu ter, como você bem disse, me "desvencilhado da limitação de caracteres". Os dois únicos textos que publiquei aqui foram feitos para minha pós-graduação, onde tudo o que você disse aí em cima é valorizado. Talvez um texto para internet deva ser mesmo mais "curto", "direto", e se for mesmo...eu to fudida, porque o que quero e o que gosto é de escrever sobre histórias de vida, e normalmente elas são longas, longas que dão gosto.
Grande abraço e mais uma vez obrigada!

Erika Morais · São Paulo, SP 16/12/2006 16:37
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Juliana Barbosa
 

Erika, q coisa linda, amiga!!
adoro seus textos sempre... muito boa a história dos livreiros, essas pessoas batalhadoras q fazem o seu pão de cada dia levando conhecimento às pessoas através dos livros q vendem. sensação maravilhosa chegar num sebo e encontrar AQUELE livro e num precinho melhor ainda (hihi). Adoro sebos. vou sempre q preciso de algo e qdo não preciso tbm (acho q seu Pedro tbm não ia gostar de mim, hehe).
No mais, um beijo amiga!!
Parabéns pelo texto!!!

Juliana Barbosa · Maceió, AL 16/12/2006 19:54
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brigitte
 

Muito interessante o texto, principalmente por se tratar de livreiros.Minha paixão são os livros. Sou fascinada. Minha casa tá quase virando um "sebinho"! He,HE

brigitte · Goiânia, GO 1/1/2007 21:09
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Rani
 

Sou um livreiro, um sebeiro, mas antes de tudo, um amante de livro, e também como seu Pedro, muitas vezes atendo mau certas pessoas, aquelas que acham que sebo é biblioteca pública, e atendo muito bem as pessoas que sabem o que querem, que gostam realmente de ler e procuram e sabem o que conversar... Infelizmente meu espaço é pequeno para abrigar um frigobar, mas quem sabe num futuro próximo. Livro e livreiro, são coisas distintas, antes de ser livreiro eu aprendi a dar valor a um bom livro, mas claro que para muitos o rótulo de "bom" varia...seu texto é nota 10...

Rani · Florianópolis, SC 4/1/2007 16:27
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Erika Morais
 

Ju, brigitte, Rani, obrigada pelos comentários.
Rani, espero um dia conhecer su sebo.

Abraços.

Erika Morais · São Paulo, SP 4/1/2007 16:52
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Daniel Duende
 

Texto fantástico, tanto no sentido de qualidade quanto no de natureza. Os personagens da matéria são vivos, vibrantes, e se fazem enormemente presentes na experiência do leitor. Texto gostoso mesmo, com a qualidade merecida por esses tais mercadores de palavras..

Eu, que sou amante de sebos (por vezes, confesso, por puro passatempo -- nos tempos de parca realidade financeira), fiquei fascinado por estes caras, e suas banquinhas/estantes/buracos interditados cheios de livros.

Parabéns, e um abração do Verde. :D

Daniel Duende · Brasília, DF 10/1/2007 01:31
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Erika Morais
 

Daniel, que bom começar o dia lendo suas palavras, obrigada!
Abraços.

Erika Morais · São Paulo, SP 10/1/2007 08:32
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Daniel Duende
 

Espero que tenha sido tão bom quanto terminar o meu lendo sua matéria. :)

Abraços do Verde.

Daniel Duende · Brasília, DF 10/1/2007 12:21
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Pedro Kirilos
 

show de texto e relato.. ou seria a mesma coisa! sei lá..

eu vendi a colecao de RAMSES 5 livros 50 reais =)

Pedro Kirilos · Rio de Janeiro, RJ 18/1/2007 11:44
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Pedro Vianna
 

Sou um verdadeiro rato de sebo. Daqueles que vagam sorrateiros entre as prateleiras a procura de alimento. Me identifiquei bastante com teu teto. Parabéns...

Pedro Vianna · Belém, PA 13/2/2007 19:04
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Pedro Vianna
 

texto*

Pedro Vianna · Belém, PA 13/2/2007 19:05
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Bruno Resende Ramos
 

Érika,
Viajei nesta leitura. Acredito que facilmente viraria uma obra-relato ou um belo documentário sobre os mercadores de palavras. Pense nisto; aliás, melhor, execute a idéia.

Abraços e obrigado pela leitura.

Bruno Resende Ramos · Viçosa, MG 29/12/2008 11:41
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Erika Morais
 

Bruno,
que bacana esse comentário depois de tanto tempo desse texto publicado. O}brigada, mesmo, por suas palavras.
Adoraria realizar um doc sobre o tema. Quem sabe um dia...
beijos!

Erika Morais · São Paulo, SP 29/12/2008 17:21
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Bruno Resende Ramos
 

Quando lia o texto, abria-se como uma tela as imagens e visualizava, cana após cena, um rico relato sobre esses nobres mantenedores da nossa cultura. Falamos em políticas públicas voltadas para o mercado livreiro e não vemos esses desbravadores que atuam muitas vezes na informalidade sem as mínimas condições. Estudantes, profissionais das áreas humanas e curiosos vão se abeirando e, silenciosos ou fiando conversas, saem quase sempre com um livro mais velho, reciclando leituras. Vemos o poder de um livro e sua magia, bem como o vínculo que cria com a alma leitora. Tive, por isso, a sensação de que lia neste seu artigo, um trabalho relevante para mostrar a importância da atuação desses "sebos" na vida cultural do país. Livro é caro, por isso uma das vias de acesso a ele que se mantém, necessariamente, aberta ao leitor é essa. Aqui no overmundo, embora não conheça a fundo a comunidade, seu texto poderia encontrar parceiros da área audiovisual sensível para trabalhar essa matéria. Se não, aconselharia a montar um projeto e enviá-lo para Tvs universitárias que estão vinculadas ao projeto como o "Mais cultura". Eu não entendo dos trâmites burocráticos, andei pesquisando para a elaboração de um "curta". Acho que meu projeto precisa amadurecer; agora, o seu é muito pertinente com o momento, além de ser muito original.
Bração

Bruno Resende Ramos · Viçosa, MG 29/12/2008 19:30
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