(Trecho de um quase ensaio que escrevi sobre o Cheiro do Ralo, de Heitor Dhália)
O cinema já nos deu de tudo. De galáxias exóticas a corredores desinteressantes, todo tipo de universo já foi construído. Alguns até repetidamente sem cansaço. Outros, raros, carregados de unicidade. Mas de qualquer maneira, a criação e o desenvolvimento de uma diegese particular por parte de um cineasta (e de qualquer artista), é um processo interessante, especialmente quando consegue estabelecer o contrato de credibilidade: agora siga a linha desse pensamento e volte apenas quando a obra terminar. Talvez alguns indaguem – e com certa razão – que qualquer filme é, necessariamente, a criação de um universo particular. Mas não acredito que a minha frase anterior esteja carregada de uma redundância qualquer. Enquanto pressuposto faz sentido, mas na realização propriamente dita, quão mais elementos entrem na lógica, por mais nonsense que ela pareça, do universo proposto, mais complexamente vai funcionar a formação diegética. E mais propenso ao contrato vai estar o espectador. Não é fácil convidar um total estranho a se entregar a uma realidade esquisita, sem que em poucos minutos ele esteja questionando a fonte do fantástico e estrague tudo. E justamente a partir dessa perspectiva, que resolvi escrever sobre O Cheiro do Ralo (Brasil, 2007), de Heitor Dhália. O diretor propôs o contrato e eu o assinei sem delongas. É impressionante como todos os elementos, da música aos objetos, dos diálogos aos personagens, da edição ao figurino convergem numa mesma direção, de tal maneira que o universo sugerido se torna extremamente firme, com uma estética extremamente concisa, própria, coerente; ainda que tudo seja esdrúxulo, esdrúxulo ao limite. Fica uma sensação de sincronia criativa e bizarra extremamente confortável.
Particularmente tenho interesse nos universos, que tomam a realidade cotidiana para si e iniciam um processo de deformação sutil, até alcançar um estágio surrealista ou esquizofrênico. Ou os dois simultaneamente se alguém conseguir chegar a um conceito que bem os diferencie. É como numa foto tremida, pois, apesar de ainda existirem referências ao que foi fotografado, não há dúvida que esse referencial se tornou outra coisa, por conta das deformações presentes. Peixe Grande, de Tim Burton é um bom exemplo disso – funciona até mesmo como metáfora dessa questão. Particularmente gosto quando um cineasta propõe, desenvolve e assume um universo em um filme. Um universo seu; criado por si; envolto nas mais diferentes inspirações suas – ainda que adaptação de uma obra outra. Não há aquele temor de segurar um discurso quebrado sobre verdade. Acredito que é justamente nessa deformação que reside o valor artístico de uma obra; que é nessa diferença entre o que se torna objeto e o que era sujeito, nessa maneira de brincar com o olhar de quem vê e de quem faz, que o aparato técnico passa pelo filtro humano. E esse tipo de coisa, me lembra a primeira sensação que eu tive ao ter contato com quadrinhos, ainda guri. Dessas histórias, as que eu mais me interessava (porque obviamente nem todos seguem essa lógica) estavam estritamente ligadas a uma realidade que nos pertence cotidianamente, ao mesmo tempo em que, constrói um segmento fantástico que desvincula totalmente de qualquer dia-a-dia. Um ponto que se aproxima e se afasta, até se tornar sem distância. Essa ambivalência me fascina. Não à toa Peter Parker era um dos meus amigos imaginários mais freqüentes. E se em Nina, já havia uma passagem clara de um estágio de normalidade habitual a insanidade extrema, O Cheiro do Ralo, consegue consolidar esse percurso ainda com menos deslizes. Na verdade, o primeiro longa-metragem do diretor é extremamente importante no segundo. Soa como uma evolução natural, como um desenvolvimento natural. E ter visto que vários nomes se repetiam na equipe das duas produções, certamente me deixou muito feliz. De um filme ao outro, há um aprendizado imenso que pode ser percorrido por quem assiste e que necessariamente foi percorrido por quem fez. Bom para todos ao final.
Publicado originalmente no blog:
http://velhoshabitos.blogspot.com/
Não tinha guardado o nome do diretor de Nina. É o Heitor Dhalia? Faz todo o sentido. Esses dois filmes me deixaram em estado de graça com o cinema nacional.
Vc falou muito bem de como em o cheiro do ralo tudo converge. Foi exatamente isso que senti ao ver o filme e não soube verbalizar. No filme o conjunto se sobrepõe a qualquer qualidade individual que a gente aponte- e ele tem muitas.
O Dhalia tem outros filmes?
Como diretor de longas só estes dois: Nina e O Cheiro do Ralo.
Mas co-dirigiu o curta Conceição (parceria com Renato Ciasca) e é o co-roteirista de As três Marias (parceria com Wilson Freire). Mas ainda não assisti essas obras.
Inclusive, eu tava atrás do email do Heitor Dhália... se alguma alma caridosa tiver e poder me repassar, ficarei bem agradecido.
Vi um pedaço de As tres Marias na tv, madrugada dessas. Confesso que mais cochilei do que vi e, do que vi, não gostei. Mas vá lá saber se não gostei do filme ou dos sonhos que tive durante os cochilos? Agora, com essa informação do Dhalia como co-roteirista, vou procurar o dvd e ver direito.
Ilhandarilha · Vitória, ES 3/7/2007 00:32apesar de não gostar do filme, gostei do texto.
Bernardo Carvalho · Rio de Janeiro, RJ 6/8/2007 10:36Gostei do texto tb faço minha as palvras do Bernardo,parabéns.
Elliana Alves · Petrolina, PE 1/7/2008 07:20Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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