Mestre Adriano, o quitandeiro

Steve Evans
Sufis, ritual em Khartoum.
1
Miguens · Rio de Janeiro, RJ
7/2/2009 · 229 · 22
 


O negro que não vive na indolência acorda cedo, mesmo que não estejam por perto o lavrado ou a enxada. Assim fazia Adriano, o quitandeiro, todas as manhãs. Levantava-se da cama em conluio com o tempo, justamente no instante em que para presenciar a eterna contenda entre o Sol e a Lua basta que o interessado olhe para o céu.

Naquela quinta-feira, Adriano lavaria o chão da quitanda para receber no início da noite um punhado de aspirantes ao seu saber - todos brancos, distintos e ilustres - que não apenas submetiam-se ao interlúdio com um ex-escravo, mas agradeciam ao destino pela sorte inestimável desse encontro.

O sino da igreja do Rosário - já roufenho de tanto gritar o seu eco de ferro pelas ruas atabalhoadas da cidade - esforçava-se para bater pontualmente na hora de misericórdia da Virgem Maria. As ruazinhas de pedra portuguesa fervilhavam, apinhadas de gente da alta, da média e da baixa. As criadas procurando rendas para as suas senhoras, os moleques descalços entregando recados ou apresentando ordens de compra nos armazéns, os médicos visitando os moribundos mais abastados e as prostitutas fazendo a lavagem diária que antecede a labuta.

Ao soar o último dobre do sino um homem bateu três vezes à porta da quitanda.


Adriano foi um ex-escravo, trazido do Sudão, que depois de conseguir a carta de alforria abriu uma quitanda no campo do Rosário. Não teria sido notado se não fosse pelas amizades que mantinha - o que causava, no mínimo, curiosidade. Em um artigo interessantíssimo publicado no jornal O estado de São Paulo em 1986, por Luiz Carlos Lisboa, são levantadas algumas das relações de Adriano, o quitandeiro.

“O quitandeiro Adriano, preto-mina (como eram chamados os Sudaneses de origem), fora alforriado e abrira sua casa comercial há cinco anos. Para os vizinhos era um antigo escravo como outro qualquer, exceto pelas amizades que cultivava. O parlamentar e ministro Gaspar da Silveira Martins não dispensava sua presença quando ia à livraria Dupont e Mendonça escolher livros importados de Paris. Adriano era deixado de um tilburi particular a porta da quitanda duas vezes por semana, depois de uma ausência de algumas horas. Um professor que morava para os lados de Santa Luzia vinha sempre procurar o quitandeiro aos sábados, sobraçando livros e, ao sair, ficavam os dois homens conversando longamente na calçada”. (Luis Carlos Lisboa)

Ao fim da reunião Adriano acompanhou os discípulos até a porta e se recolheu para ler e depois fazer as suas orações. Não foi ao acaso que abriu um entre os tantos livros escritos em árabe que ocupavam a estante. Naquela noite encontraria lenitivo nas palavras de outro mestre.

A sabedoria dos grandes homens que versaram em árabe ou persa é inestimável. Se as poesias de Rumi traduzem o esforço contínuo que o homem precisa empregar para se desprender das dores da realidade inferida ainda assim ele o faz com desafetação e suavidade, lançando mão de um saber legado a poucos. Do mesmo modo, abre-se diante de nós o Jardim das Rosas, de Saadi. Cada pétala recolhida ali é capaz de restaurar o corpo e a alma daqueles que atravessam as dores da vida. Leio Rumi e Saadi pela manhã, mas quando desce a noite é outro o livro que se abre.

A quitanda recebe frontalmente o brilho da Lua que invade as janelas do dormitório. Adriano está sentado entre a luz do astro e a escuridão absoluta do quarto, com os pulsos apoiadas nos joelhos ele passa as contas de um tasbi entre os dedos da mão direita.

_ Em nome de Deus, O Compassivo e o Misericordioso.

Findo o seu ritual de todas as noites o Mestre dorme um sono de pedra.


“Muitos anos depois, Adolfo Morales de los Rios falaria de Adriano como o maior arabista de seu tempo, no Brasil. Nada diria, no entanto, de seu profundo conhecimento sobre Sufismo, nem da sua memória privilegiada que lhe permitia decorar trechos inteiros do Corão - ainda que não fosse muçulmano - e inumeráveis páginas de Ghazali, Ibn Arabi, Muhasibi, Hasan Basri, Djahiz e Djunaid. A coletânea de cartas atribuída a Ibn Abbad, com imortais passagens poéticas, Adriano sabia de cor. Fora ele professor de árabe de Silveira Martins, além de seu professor de filosofia e direito do Islam. Uma testemunha citada por Morales de los Rios conta que o quitandeiro entoava uma estranha melodia que aos poucos se fez popular entre os que trabalhavam com ele, alguma coisa como que um lamento do muezim no alto do minarete”. (Luis Carlos Lisboa)

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Hermano Vianna
 

Miguens: que história incrível! Você conhece as fontes do Luiz Carlos Lisboa? Há mais para ler sobre o Adriano em algum lugar? E os textos em itálico, são de quem? Desculpa tantas perguntas - fiquei curiosíssimo!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 3/2/2009 18:29
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Miguens
 

Hermano, eu também fiquei fascinada (para não dizer emocionada) quando soube da existência de uma figura como Adriano, o quitandeiro.
Infelizmente eu não sei quais são as fontes de Luiz Carlos Lisboa. Os textos em itálico são meus.
Abraços.

Miguens · Rio de Janeiro, RJ 3/2/2009 22:09
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Spírito Santo
 

Miguens,

Muito instigante o texto (o seu e o do Lisboa). Esta mística dos 'mussurumis' (muçulmanos) no Rio de Janeiro era muito forte aqui no Rio de Janeiro desde meados do século 19, quando muitos aqui chegaram fugidos da perseguição que sofreram após a chamada revolta dos 'malês' ('islamizado' em yoruba) em Salvador, Bahia.
Realmente 'Preto Mina' foi, em certa época, quase sinônimo de negro muçulmano, embora não fosse uma realidade já que 'Mina' era o nome genérico que se dava a qualquer escravo de qualquer origem ou religião, embarcado para cá no armazém colonial (multinacional) de escravos denominado Castelo de El Mina, na Costa da Guiné.
(para o Hermano em especial): o Aniceto do Império Serrano, com o qual eu toquei, tinha um partido-alto interessantíssimo contando histórias sobre estes caras que dizia: "Assumano, Alabá, Abaka, Tio Saní e Abedé me batizaram na lei do mussurumi...". Alem disso, o Nei Lopes tem um livro muito bacana (se não me engano o primeiro dele, com um parceiro chamado Vargens) sobre o islamismo por aqui (no Rio e no Brasil). Quem sabe o Adriano não está no livro do Nei?
Tema pra lá de instigante, comos e vê.

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 4/2/2009 15:25
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Mansur
 

Conhecia o artigo do Luis Carlos Lisboa tão bem enriquecido por Miguens. O mestres sufis são assim, trabalham em silêncio a despeito da grande influência que exercem onde quer que estejam. Geralmente são reconhecidos pelo codinome que adotam que lhes defini a profissão, como está muito bem colocado no título "Mestre Adriano, o quitandeiro". Outro exemplo: "Faruddin Attar, o farmacêutico", autor de " A linguagem dos pássaros" que influenciou sobremaneira o grande escritor Jorge Luís Borges.

Difícil será achar outras referências a Mestre Adriano, será que conseguiremos? Seria tão interessante...

Mansur · Rio de Janeiro, RJ 4/2/2009 18:35
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Spírito Santo
 

Mansur,

(Como o nome diz, és tu a verdadeira expressão do homem diante se sua praia).

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 4/2/2009 20:30
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Miguens
 

Mansur, pois é, você tem razão. Acho que Borges foi o escritor mais influenciado do mundo... e isso faz da sua obra uma coisa incomparável. Para quem estiver interessado o nome do texto inspirado pela história de Faruddin Attar é A aproximação a Almotásim, e está no livro Ficções. Vale a pena!

Spírito, vou procurar saber do Adriano nos livros do Nei Lopes.
Agora... eu confesso que a mensagem acima (embora não dirigida a mim) é um tanto enigmática... e me deixou com a pulga atrás da orelha! rs

Abs

Miguens · Rio de Janeiro, RJ 4/2/2009 22:16
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Spírito Santo
 

Miguens,

Mansur, saca? É o nome do nosso amigo e conviva. Mussurumis e sufis é a praia ele, ora! Rs rsrs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 5/2/2009 07:36
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Miguens
 

Ih, Spírito!
Esse é o famoso problema de hermenêutica... conhece? rs

Miguens · Rio de Janeiro, RJ 5/2/2009 11:19
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Spírito Santo
 

Miguens,
Pois é. Hermenêutica, aquela arte que o Chacrinha (o que veio aqui para confundir, lembra?) detestava e eu, de certo modo, também porque, se saíssemos por aí explicando tudo o que seria da ironia, do humor e, sobretudo, das pobres entrelinhas, não é mesmo?

Sendo assim, Salaam Alaikum pra você e para todos então

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 5/2/2009 12:56
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Miguens
 

Aleykum Salaam!

Miguens · Rio de Janeiro, RJ 5/2/2009 14:17
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Higor Assis
 

Miguens, vim votar aqui primeiro com louvour...

Muito interessante o texto. Gosto de saber sobre a formação da sociedade brasileira. Tenho alguns textos que trabalham a época sobre a escravidão e produzi um documentário sobre Nabuco. Vou continuar observando as conversas e aprendendo mais...

Higor Assis · São Paulo, SP 5/2/2009 17:34
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Miguens
 

Higor, muito obrigada!
Quanto aos seus textos... estão publicados por aqui?
Abraços!

Miguens · Rio de Janeiro, RJ 5/2/2009 17:51
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rosa melo
 

Fantástico! Quantas histórias iguais a essa não se espalham Brasil afora.
De toda forma, a imagem chegou primeiro. Irrepreensível! Quem é a fotógrafa?

rosa melo · Pio IX, PI 5/2/2009 20:54
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Miguens
 

Rosa,
é um fotógrafo, Steve Evans.
Também gosto dessa foto, bastante.
Abraços!

Miguens · Rio de Janeiro, RJ 5/2/2009 23:27
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Higor Assis
 

Miguens, tenho este aqui que fala sobre a ação e este que trata sobre o estilo da defesa.

Higor Assis · São Paulo, SP 6/2/2009 11:50
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Bethânia Zanatta
 

A gente já sabe a importância das várias formas de resistência escrava para fim do regime escravista. Aqui tem algumas histórias, e é bom saber que pelo menos alguns desses resistentes não ficaram anônimos. São versões talvez bastante romanceadas, mas enfim, a "História" não é mesmo uma grande "Estória"?

http://www.seculodiario.com/negros/index.htm

Beijos.

Bethânia Zanatta · Santa Maria, RS 6/2/2009 12:22
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Ilhandarilha
 

sobre a presença de negros muçalmanos no Brasil, segundo os sufis.

Ilhandarilha · Vitória, ES 6/2/2009 13:57
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Miguens
 

Higor, Bethânia e Ilhandarilha.
Obrigada a todos pela colaboração com esses links tão enriquecedores para o artigo!!!
Abraços.

Miguens · Rio de Janeiro, RJ 6/2/2009 15:10
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Reuben da Cunha Rocha
 

Muito bom! Só me incomo um pouco com o uso do tempo pretérito em qualquer narrativa - acho que o uso do presente aproxima o texto do instante fotográfico. Abraço!

Reuben da Cunha Rocha · São Paulo, SP 7/2/2009 19:03
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Luiz Cabelo
 

Que txto interessante, fiquei fascinado, muito legal mesmo, tentarei pesquisar mais sobre o assunto, parabéns!

Luiz Cabelo · Porto Alegre, RS 7/2/2009 21:07
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Miguens
 

Reuben, obrigada pela sugestão.
Luiz, o assunto é mesmo muito instigante. Pesquisemos todos! Estou muito longe de saber tudo o que eu gostaria sobre essa história...
Abraços!

Miguens · Rio de Janeiro, RJ 7/2/2009 22:50
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Mansur
 

Achei três livros do Luiz Carlos Lisboa sobre Adriano, são eles:

"Memórias de um gato"
"Um gato aprende a morrer"
"A guerra santa do gato"

Todos os três livros falam sobre esse fabuloso personagem, que fez parte da Revolta dos Malês e morreu em Canudos.

Mansur · Rio de Janeiro, RJ 8/8/2009 20:27
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