Mestre sem Cerimônia

Claudia Rangel
"Se o Hip Hop é supermercado nós ainda estamos na prateleira..."
1
Ilhandarilha · Vitória, ES
7/5/2011 · 41 · 3
 

Conheci MC Adikto em 2000, quando procurava alguém da cultura hip-hop para debater com alunos da rede pública o documentário O Rap do Pequeno Príncipe contra as Almas Sebosas, de Marcelo Luna e Paulo Caldas. Sem conhecer nada do mundo hip-hop, procurei Renegrado Jorge, rapper e apresentador do programa Universo Hip-Hop, na rádio Universitária. Renegrado me passou o telefone de Adikto, que estava então iniciando sua carreira de MC. Na ocasião, MC Adikto era apenas André, um viciado em drogas que no dia 15 de junho de 1998, tomou a decisão da sua vida: assumiu sua condição de adicto e parou completamente de usar drogas. A maior parte dessa decisão coube ao próprio André, que admite que não teria conseguido se não fosse pela ajuda dos grupos anônimos de recuperação (AA/NA). E, sem dúvida, o que o ajudou a sustentar tal decisão foi o rap, que André já ouvia compulsivamente desde o início da década de 90. Influenciado pelas rimas que escutava e motivado pelo momento que vivia em sua vida particular, passou a compor poesias que misturavam experiências autobiográficas e ficção. Suas rimas foram parar nas mãos de Sagaz (Suspeitos na Mira), um cara completamente envolvido pela cultura hip-hop, que faz parte do coletivo Bicho Solto, que por sua vez é também uma produtora atuante no rap capixaba. Sagaz, como o nome indica, percebeu nas letras um potencial forte de rimas de rap, e passou a influenciar e incentivar André a ritmar suas poesias. E foi assim que André se tornou o MC Adikto. Formou seu primeiro grupo, o Irmandade S/A e em 2003 venceu seu primeiro festival de música, o Vitória Music Festival, com a música “Vida após as drogasâ€, onde relatava a trajetória de um usuário de drogas até o caminho da autoindagação se realmente existiria vida após as drogas. Recebeu das mãos do ícone da música local, Maurício de Oliveira, o prêmio de melhor intérprete e daí em diante não parou mais de rimar e de vencer. Começou a viajar para o Rio de Janeiro para disputar batalhas de MCs, chegando a ser finalista da Liga dos MC's no ano de 2005, e sendo considerado um dos quatro melhores MCs de improviso do Brasil.

Ao mesmo tempo em que desenvolvia seu trabalho musical, Adikto também cursava Geografia na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Formou-se em 2006, e daí nasceu o professor de geografia André Luis Ângelo Martins, que se especializou em Engenharia Ambiental e agora planeja iniciar um Mestrado em Educação. Como professor, atuou no ensino médio da rede pública estadual até 2009 e atualmente ministra aulas de Geografia para alunos do ensino fundamental e médio do SESI em Porto de Santana, no município de Cariacica (ES). O Hip-Hop de MC Adikto foi a fórmula que o professor André encontrou para atingir em cheio seus alunos: utilizando as rimas em sala de aula, Adikto consegue trabalhar conceitos geográficos que antes eram dificilmente absorvidos pelos alunos, criando, assim, um método pedagógico original, único e altamente eficaz, que apenas um rapper-professor tem as condições técnicas reais para realizar. Daí veio a idéia de trabalhar com alunos em estado de evasão e abandono escolar, como uma tentativa conter este processo na escola estadual Gomes Cardim, onde lecionou até 2009. André idealizou e criou o projeto RAP (Recuperando – Aprendendo – Permanecendo), que consistia em utilizar o rap para fixar conteúdos, desenvolver o vocabulário e promover a integração dos alunos com a escola. A idéia deu tão certo que, em 2008, o projeto foi inscrito no prêmio Boas Práticas na Educação (SEDU/ES) e venceu, conseguindo angariar R$ 20 mil para a escola, dinheiro que foi investido na compra de equipamentos. Mesmo depois da saída de André da escola Gomes Cardim (onde ele trabalhava com contrato temporário), seus portões continuaram abertos para o hip-hop. Em 2010, de maneira independente e com o total apoio do diretor da instituição, André Adikto volta de maneira voluntária à Gomes Cardim com outro projeto, chamado Escola de Rima. Nele, a escola abre suas portas à comunidade uma vez por mês para a realização da Batalha do Vocabulário, uma disputa entre MCs onde os mesmos se enfrentam mostrando versatilidade nas rimas feitas com base em um tema previamente proposto por um sorteio de verbetes retirados diretamente do dicionário.

É impossível falar de MC Adikto apenas como mais um rapper. Assim como é impossível tentar separar a persona MC da persona “professorâ€. As duas andam sempre juntas e misturadas. Com sua facilidade para a improvisação ele trata com humor e contundência temas difíceis, e consegue falar em sua música de questões complicadas com a leveza e a simplicidade necessárias para fazer pensar sem fazer desacreditar. Aliás, a esperança é a tônica de todo seu trabalho. É fácil notar em suas letras um otimismo humilde, porém consciente. Essa característica levou MC Adikto a frequentar assiduamente os palcos do rap pelo Brasil afora. Convidado constante para apresentações fora do estado, Adikto foi indicado para o Prêmio Hutuz no ano de 2007, o “Oscar†do hip-hop latino na categoria “Melhor Demo de Rapâ€. Porém, só veio a receber esse reconhecimento pelo seu trabalho no ano de 2009, na última edição do mesmo prêmio, vencendo pelo voto popular na categoria “Melhor Demo de Rap da Décadaâ€.

Na prateleira do supermercado...

Apesar de tudo isso, o músico não consegue em seu estado de origem o reconhecimento que merece. Como brinca em sua música "Desabafo de um MC", "se o Hip Hop é supermercado nós ainda estamos na prateleira". Adikto declara que não recebeu no Espírito Santo os louros das premiações que já teve. Credita isso ao fato de que no seu estado o tipo de som que toca nas rádios é uma música de apelo pop geralmente proveniente de outros estados.

Adikto afirma que sua música, assim como a música de outros capixabas não toca nas rádios, não pela falta de qualidade, mas pelo fato de que é mais fácil reproduzir aquilo que vem de fora do que criar novas tendências. Cita os exemplos de estados como Pará, Bahia, Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do Sul em que bandas locais conseguem não somente tocar em rádios FM como também sobreviver apenas com seu público local sem precisar mudar de seus estados para obter reconhecimento. Apesar de relatar uma dura e difícil realidade, o rapper demonstra firmeza e esperança peculiar ao falar do futuro da cena musical local: "Pior do que está não pode ficar. Tem muita gente no Brasil começando a olhar com bons olhos pra qualidade musical que é produzida aqui... acho que não irá demorar muito para o Brasil descobrir as pérolas musicais que estão escondidas no Espírito Santo. Mas, se isso acontecer, será de fora pra dentro, porque o contrário acho muito difícil que aconteça... Aqui, infelizmente, ainda é a terra onde o ditado 'santo de casa não faz milagre' se encaixa perfeitamente. Pode ser que isso mude um dia... quem sabe quando meu neto for pai... lembrando que eu ainda nem tenho filho hein..." [risos]

Adikto possui uma discografia ainda modesta. Lançou seu primeiro álbum, Discípulo Sem Cerimônia no ano de 2007, e fez muito barulho na cena hip hop pela qualidade musical, originalidade e versatilidade demonstrada em todas as faixas. MC Adikto faz um rap onde o jazz, o hardcore, a MPB e o funk dialogam sem preconceitos. O disco contou com diversas participações, entre elas da Banca Bicho Solto, MC Aori, Funkero, André Ramiro, Tamy e DJs como Tamenpi, LX (StereoDubs) e Boneco.

Atualmente, Adikto encontra-se em estúdio gravando o seu segundo álbum, Discípulo Sem Cerimônia - Volume II, que também contará com participações de peso como Rappin Hood (SP) e Black Alien (RJ), e tem previsão de lançamento para dezembro de 2011. Enquanto prepara o segundo álbum, ele emplaca um novo projeto chamado "Rua Sete" – criado em conjunto com o produtor e beat-maker Léo Grijó (StereoDubs), a cantora Cíntia Romano –, Nego Léo (Zé Maria), Andrey Junca (Tabacarana), Rodolfo Simor (Solana), e a participação do DJ Jack nas pick-ups e Fabrício BeatBox. O grupo trabalhará as vertentes do rap unindo-se com a bossa nova, o jazz, MPB e outras influências.

Se seu novo álbum vai ou não tocar nas rádios capixabas é um mistério... Mas, com certeza, será mais um trabalho bacana de quem tem demonstrado que está inteiro na situação, seja como rapper, seja como educador.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Sinvaline
 

Que história interessante, um exemplo de vida em tempos tão tumultuados..
Votado!

Sinvaline · Uruaçu, GO 7/5/2011 09:42
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Simone Devens
 

Essas historias do André são realmente de duas lutas e duas vitórias.
Estou no aguardo dessa nova pedrada produzida pelo Adikto.
Boa sorte.

Simone Devens · Vitória, ES 8/5/2011 22:25
sua opinião: subir
Helena Aragão
 

Bem legal, Ilha. Fui numa dessas batalhas aqui no Rio uma vez e fiquei pensando no enorme potencial que isso teria em sala de aula. Que bom ver alguém que está se dedicando às duas coisas ao mesmo tempo! Abraço

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 18/5/2011 17:40
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

imagens clique para ampliar

MC Adikto procura unir a educação ao rap. zoom
MC Adikto procura unir a educação ao rap.
No projeto Escola de Rima rap, break e grafite andam juntos. zoom
No projeto Escola de Rima rap, break e grafite andam juntos.
Menino integrante do projeto Ultimate BBoyz. Sete aninhos e um craque no break. zoom
Menino integrante do projeto Ultimate BBoyz. Sete aninhos e um craque no break.
As mulheres também mandam bem na pista. zoom
As mulheres também mandam bem na pista.
MC participando da Batalha do Vocabulário zoom
MC participando da Batalha do Vocabulário
A pista é dos BBoys!! zoom
A pista é dos BBoys!!

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados