Milton, mito e Mário

Orfãos do Eldorado (cia. das letras) / Mário de Andrade, por Lasar Segall
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Rafael Costa · Belo Horizonte, MG
2/8/2008 · 131 · 2
 

Alguém já disse que todo autor escreve sempre o mesmo romance durante toda a sua vida, ainda que o publique com vários títulos. A escrita teria, assim, qualquer coisa de re-escrita, de retorno aos mesmos temas. Aceitemos ou não a regra geral, o escritor amazonense Milton Hatoum não parece ser uma exceção: sua última novela, Órfãos do Eldorado (recém lançada pela Cia. Das Letras), retoma motivos ficcionais presentes em Relato de um certo Oriente, Dois Irmãos e Cinzas do Norte: a família-impossível, a orfandade, a incomunicabilidade, a experiência ambígua da memória.



Se nas três obras anteriores Milton Hatoum já explorava os aspectos culturais da região Norte, em Órfãos do Eldorado, o autor elabora um material ficcional no qual o cenário, ou melhor, a semântica simbólica desse cenário é, por assim dizer, o principal esquema de estruturação da narrativa. Hatoum consegue um feito: sua novela está longe de ser provinciana, regional-ista; ao contrário, há, na obra, um efeito que costumamos encontrar nos grandes livros: o movimento do particular pro universal. E essa transição do individual para o coletivo se realiza por meio do mito.



A história é narrada por Arminto Cordovil que, às margens do rio Amazonas, relata a um viajante a trajetória de sua própria vida, que começa marcada pela morte: “Até hoje recordo as palavras que me destruíram: Tua mãe te pariu e morreu”. Criado pelo pai, que parece lhe culpar pela morte da esposa, ele mais parece um bastardo do que um filho legítimo; é, pois, duplamente órfão. Quando herda as propriedades e a empresa do pai, Amando Cordovil, grande capitalista que fez fortuna durante o Ciclo da Borracha, Arminto se mostra sem capacidade e sem disposição para administrar a herança, o que o conduz do luxo à pobreza. Seu amor por uma índia-orfã, Dinaura, não só não se concretiza como o faz delirar; aos poucos, o sonho se torna uma espécie de obsessão: “passava o dia fugindo dessas coisas irreais, absurdas, mas que pareciam tão vivas que me davam medo”. Arminto, então, começa a desejar ir para outro lugar, para um Paraíso: “Vou embora para outra terra, encontrar uma cidade melhor. Para onde olho, qualquer lugar que o olhar alcança, só vejo miséria e ruínas”.



Interessa-me, aqui, esse desejo, a crença de que há outro lugar, uma cidade encantada, o Eldorado, no qual se pode viver sem “miséria e ruínas”. É por meio dessa esperança mítica que a novela projeta-se como narrativa universal. O Eldorado de que nos fala Hatoum é, portanto, muito mais uma sedução coletiva do que uma lenda amazônica. Não por acaso, num posfácio, um tanto quanto ambíguo e borgiano, o autor(?) comenta: “percebi que o mito do Eldorado era uma das versões ou variações possíveis da Cidade Encantada, que, na Amazônia, é referida também como uma lenda. Mitos que fazem parte da cultura indo-européia, mas também da ameríndia e de muitas outras. Porque os mitos, assim como as culturas, viajam e estão entrelaçados. Pertencem à História e à memória coletiva” (itálico do autor; neg. meu). Essa relação do mito com a História (com H maiúsculo) sugere uma indefinição entre fato e ficção. Indefinição que poderia chamar, para falar com L. Hutcheon, de metaficção historiográfica, isto é, uma novela que problematiza a História e a ficção como criações humanas – não cabem, portanto, os critérios de verdadeiro ou falso. Isso significa que a lenda não é assumida como uma narrativa mentirosa; o que difere, por exemplo, os retirantes que migram em busca de outra vida, e a índia que se atira no fundo do rio, a fim de encontrar o Eldorado? Não se trata, porém, de percorrer o caminho inverso e idealizar o mito, como uma narrativa verdadeira. Juntamente com o mito, a novela apresenta o anti-mito, isto é, a ruína e o abandono: “E silêncio. Aquele lugar tão bonito, o Eldorado, era habitado pela solidão”. Num dos trechos mais belos da novela, a esperança no Paraíso é desconstruída:

“Porque, se fores embora, não vais encontrar outra cidade para viver. Mesmo se encontrares, a tua cidade vai atrás de ti. Vais perambular pelas mesmas ruas até voltares para cá. Tua vida foi desperdiçada neste canto do mundo. E agora é tarde demais, nenhum barco vai te levar para outro lugar. Não há outro lugar”.



Desfazem-se, portanto, os abrigos que a narrativa mítica pode oferecer; o mito é universal, mas o sofrimento é individual – ainda que possa ocorrer em escala social. Em Crime e Castigo, um bêbado afirma que a diferença entre a pobreza e a miséria é que na primeira sempre se tem um lugar para ir, na segunda, não – e todo homem, por mais pobre que seja, sempre precisa de algum lugar para ir. A novela de Hatoum figura, nessa medida, como o relato de um miserável: quando não há para onde fugir, pode ser que já seja tarde para buscar a fuga.



Mário de Andrade (?)

Em determinado ponto da trama, encontramos uma referência a uma visita que um escritor paulista teria feito ao Amazonas, em 1927: “Uns anos depois, quando quatro turistas paulistas passaram por Vila Bela, ganhei um dinheirinho. Três mulheres e um homem. Escritor. (…) O escritor puxava conversa com todo mundo: índios, caboclos, artesãos e compositores de toadas.” .Referência à viagem que Mário de Andrade fez ao estado. Claro, não convém acreditar que o escritor viajante é Mário, mas a referência ali está, justamente, para lembrar ao leitor que lendas não são necessariamente não-Históricas, ou que a História é, também, ficção, como disse acima.



Ainda em tempo: interessante observar – e fica a observação como uma provocação para uma pesquisa futura – que, no modernismo de Mário ainda havia um “para onde ir”. A crença no mito da nacionalidade sinalizava um Eldorado. Norte e Sudeste são para o poetas amalgamados pelo nacional



Descobrimento[1]



Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!
Muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu!



Essa alegoria do nacional com a força de um mito acreditável também aparece plasmada no seu “O Poeta come amendoim”, por meio do olhar atemporal e imemorial da voz poética: “Estou pensando nos tempos de antes de eu nascer…”. Um Brasil que no, sonho do poeta, é quase uma Cidade Ecantada: “Brasil que eu sou porque é a minha expressão muito engraçada,/porque é o meu sentimento pachorrento,/ porque é o meu jeito de ganhar dinheiro,/ de comer e de dormir”[2].



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[1] ANDRADE, Mário de. Poesias completas. Belo Horizonte: Villa Rica, 1993, p.203.



[2] Idem, p.65


Esse texto foi originalmente publicado no site TodoTexto

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RonaldAugusto
 

belo título que prefigura um belo texto.

RonaldAugusto · Porto Alegre, RS 2/8/2008 12:46
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Cintia Thome
 

Excelente texto, muito bem explanado tema.Parabens

Cintia Thome · São Paulo, SP 2/8/2008 14:54
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