Minha jornada como aspirante a escritor - II

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Ben-Hur Demeneck · São Paulo, SP
22/3/2009 · 138 · 2
 

Se a primeira parte da entrevista aborda o leitor Bruno Weber , a continuidade traz o seu trabalho autoral. Entre os assuntos, temos os enredos e ambientações de dois romances, o potencial leitor e as influências do balaio cultural paranaense e do mundo pop sobre as obras. Hipóteses são feitas para comentar a literatura como uma boa história contada e, saindo temporariamente da ficção, estampa-se a decepção do professor de inglês com a dificuldade de se encontrar quem ensine o polonês, em pleno Paraná.

As narrativas cinematográficas aparecem no diálogo como se fossem a marca d´água de um papel jogado contra a luz. A começar das opções acadêmicas de Weber, quando ele compara cada um dos romances a estilos de cineastas e, de modo mais marcante, na conexão dos títulos com referências audiovisuais – “Memórias de um cine proibido” e “Polacos, combos e pornô de TV”. Quanto ao texto infantil-juvenil – “A incrível coleção de livros do senhor Nygel Banthos” –, citado na parte I, ele ficou de fora dessa conversa.

Segundo sinopse do autor, “A incrível...” se passa na cidade imaginária de Bloomsjoy, caracterizada por um espírito interiorano e mesquinho. A trama envolve uma jovem talentosa e portadora de necessidades especiais e o excêntrico e misterioso senhor Nygel, dono de imensa biblioteca escondida no porão de sua casa. Pelas páginas misteriosas dessa coleção, a personagem procura uma resposta para um drama pessoal.

Logo após a entrevista, há dois trechos selecionados do trabalho mais recente do entrevistado. Embora aspirante a escritor, a entrevista pretendeu captar uma motivação de quem envereda pela literatura e dá seus primeiros passos. Ao leitor cabe perceber qual fase se encontra tal realizador. Recordo uma réplica de Cristovão Tezza, em entrevista concedida a mim e a Rafael Schoenherr, em 2005, por dar uma pista sobre a jornada do escritor, independente da fase em que se encontra:

- É só abrir os classificados! Ninguém está contratando poetas ou romancistas. Você se coloca nisso por sua conta própria e tem que pagar o preço (...) o escritor é basicamente isso: ele faz algo que não é solicitado.



Segunda parte da entrevista
Em “Livro dos sonhos”, de Jack Kerouac, por exemplo, há um uso muito grande do recurso da associação livre e da narrativa fragmentada – intencionalmente. E, há pouco, falamos de vícios literários, sendo um deles a simulação a esmo de estruturas semelhantes. Você acha que hoje há um relativo preconceito com quem simplesmente conta uma boa história – como faz Clint Eastwood com os próprios filmes?
Há sim um preconceito em se contar uma boa história porque, segundo o senso comum, uma boa história é a fala da vizinha quando vai tomar chimarrão com a avó. Existe uma associação muito forte da boa história com o senso comum. Mas a literatura e outras formas de expressão, como o cinema, devem preservar a boa história por ser algo que acompanha o homem. O preconceito dentro da academia vem dela estar ligada a recursos de linguagem convencionados como bem elaborados, enquanto que, em minha opinião, o artista marginal ainda bebe da fonte da história bem contada. As histórias policiais recebem frequentemente uma classificação de gênero menor, apenas por não terem um caráter acadêmico – “ah, não vamos estudar isso porque é cultura pop” – o que também acontece com a ficção científica. Creio que as pulp magazines têm muito a contribuir para toda a literatura, além de serem divertidas. Essa distância deve persistir porque a gente se baseia muito ainda em gêneros do padrão greco-romano.

Gostaria que você comentasse uma passagem: “quando se diz que escrever é algo imprescindível ao verdadeiro escritor, quer isto dizer que ele é psiquicamente organizado de tal modo que a reação do outro, necessária para a autoconsciência, é por ele motivada através da criação. Escrever é propiciar a manifestação alheia, em que a nossa imagem se revela a nós mesmos”, esse é um trecho de “Literatura e Sociedade”, do Antonio Candido.
Muitos escritores dizem que escrevem por “um imperativo categórico do ser”. Vejo de um modo um pouco diferente, concordando com o Antonio Candido ao associar o conhecimento de si mesmo ao olhar do outro. E se existe a ideia de identidade é porque há o outro. A literatura é um veículo através do qual é possível ter emoções coletivas, o que explica por que você se entusiasma com um livro e se reconhece nele. O ato de escrever é um espelhamento de outras emoções, emoções conjuntas.

Conte um pouco dos personagens de seus dois romances.
Falo então dos narradores dos dois trabalhos. O primeiro romance, “Memórias de cine proibido”, eu comecei aos 17 anos, terminando dois anos depois, em 2004. Em seguida veio “Polacos, combos e pornô de TV”, concluído neste ano. Os dois narradores formam um interessante contraponto por serem concebidos a partir de diferentes referenciais. Em “Memórias...”, o narrador é um adolescente construído a partir da junção de personagens comuns em filmes neo-realistas como “Ladrões de Bicicleta” e “Terra Treme” Tinha muito de uma angústia juvenil, do que eu estava passando na época. O texto é escrito em terceira pessoa, com um narrador onisciente. Alberto, o narrador da primeira parte da história, é um jovem italiano apaixonado pela professora da escola. No desfecho da Segunda Guerra, ele e sua irmã Paola são torturados pelo pai, que filma a violência em um antigo cinema. Uma professora francesa dos anos 1960 descobre as filmagens do pai de Alberto em um cinema independente, em Paris. Ela, Sofia, conduz a narração da parte final. Bem, como você percebe, o tema da Segunda Guerra Mundial me atraía muito. Agora, no segundo livro, eu fiz outras escolhas. Uma delas foi o de não dar nome ao narrador e de haver um caráter de memória pessoal, ao contrário do primeiro – vinculado a um contexto coletivo. Em “Polacos, combos e pornô de TV”, o narrador é mais direto e em primeira pessoa, contando a história de um aspirante a escritor em sua luta para ser publicado. A narrativa se desenvolve em três eixos: a composição étnica no Paraná, as relações sociais mediadas pela virtualidade e a cultura pop. Numa comparação cinematográfica, eu diria que o primeiro sairia mais para um filme de Pasolini e segundo para um filme de Cronenberg.

Por que o segundo romance é ambientado no Paraná e o primeiro na Europa?
Se for pensar bem, a escolha do primeiro foi uma impropriedade. É muito complicado escrever sobre um lugar em que você não esteve, mas eu queria fazer uma espécie de homenagem a minha família, de ascendência italiana. E eu tinha algumas anotações de fontes orais, no caso meus avós. Eu me baseei muito nessas experiências pessoais, nos lugares em que eles compunham as memórias, e foi assim que escolhi falar da Itália. No segundo romance, tive como contexto estar morando no estado de São Paulo, em Araraquara, resultando numa outra visão sobre o Paraná. A influência de onde se veio é algo muito forte para mim. Na universidade, as pessoas de fora caçoavam de cacoetes regionais. Era uma questão que me incomodava.

Como se deu a escolha do título de “Polacos, combos e pornô de TV”?
Eu me baseei naquele slogan da cultura pop, “Sexo, drogas e rock´n´roll”. Achei interessante falar de elementos regionais a partir de conceitos pop. O meu “Polacos, combos e pornô de TV” é uma espécie de paródia daquele slogan. Seria uma exemplificação da mistura de cultura pop e elementos regionais do Paraná.
Qual é o simbolismo do “Pornô de TV” desse dístico?
O protagonista tem seus vícios, um deles é o de acompanhar seriados eróticos. E isso, mesmo dentro da cultura pop, é marginalizado. Se você diz que gosta desse tipo de produção, aos olhos leigos você é um tarado. O pornográfico aqui não se refere ao sentido cru da palavra, ele serviu mais para dar uma atmosfera específica para o personagem se movimentar.

Você falou que tinha interesse em conhecer melhor “a literatura dos rincões do Leste Europeu”, o que tem a ver com esse segundo livro?
Tem a ver, sim, porque gostaria de conhecer melhor o cinema, a literatura e o idioma de países como a Ucrânia e a Polônia. Minha ligação mais direta acabou vindo de relações pessoais, com um amigo de infância e uma ex-namorada, ambos descendentes de poloneses. Eles favoreceram meu contato prático com a cultura eslava, especialmente a culinária. Nesse contexto, eu me lembro de um artigo da historiadora Carmencita Ditzel, da UEPG, sobre a colonização de Ponta Grossa, onde ela menciona uma imagem típica dos poloneses, presente no senso comum. Em que eles, tradicionalmente, são camponeses e são associados a tipos tímidos, embora alegres, e que se vestem com trajes de cores chamativas. No meu caso, meu amigo era uma pessoa cosmopolita, destoava dos pais que tinham um pouco desse perfil clichê – eles eram reservados e lidavam com fazenda. A avó era quem gostava de preparar pierogue [pastel cozido recheado com requeijão / ricota] para comermos. Minha percepção se ampliou com minha introdução ao idioma, descoberta feita junto da minha ex-namorada. Informalmente, porque é impressionante como há tão poucos professores de polonês no Paraná. Há toda uma marginalização dessa cultura – o que também é comentado pela historiadora naquele artigo. Para reforçar outro ponto: as pessoas daqui não parecem se interessar pelo aprendizado do polonês por darem grande importância para “aquilo que é considerado pelo mercado”. E a Polônia é vista por muitos como um primo pobre europeu.

Para encerrar, gostaria que fizesse uma projeção: a quem interessaria se ‘Polacos, combos e pornô de TV”?
Acho que caberia mais ao leitor paranaense, pela proximidade, por ele conseguir entender as minhas referências com maior propriedade. Até cheguei a pensar em colocar como subtítulo “um romance regional”. Em termos gerais, o livro interessaria tanto ao leitor jovem quanto ao adulto.
Seria um leitor típico do quê?
Da revista Vogue (risos), da Elle (risos). Bem, eu tentei fazer algo bem acessível. E procurei algo divertido, com um toque de humor, embora haja também passagens dramáticas. Ao longo do texto há um tom ácido, no sentido de uma crítica à intelectualidade paranaense, seja lá o que isso fôr, e também quanto à construção da identidade brasileira. Talvez o fio condutor do livro sejam as angústias de um jovem permeado por referências pop, carregando a experiência de uns relacionamentos fracassados.




TRECHO de “Polacos, combos e pornô de TV” (I):

O silêncio foi uma boa ferramenta pra nos encher de tédio em muitas de nossas conversas. Em uma caminhada o silêncio sempre é disfarçado. Seja pelos pássaros em volta, chilreando nas calçadas. Seja pelo marulhar dos carros e motores. Seja pelas conversas entrecortadas que ouvimos de outras pessoas quando passamos por elas. A conversa delas (ou meia-conversa) parece-nos um novo assunto e assim formamos hipóteses, algumas muito tolas, outras nem tanto sobre essas pessoas. Ou seja pelo barulho de nossos próprios passos e calçados.

Na volta nossa conversa também se arreda para cappucinos e sobre como se faz um bom café solúvel... Cléo e eu temos muitas coisas em comum, fora aquilo que não nos é comum, que é praticamente onde a coisa complica.

Os domingos podem ser lentos e monótonos se não os preenchermos com uma boa dose de cappucinos, literatura e seriados de TV. E quando isso se esgota, se conversa sobre isso, que é justamente a contraparte de se fazer isso. Fala-se do melhor tratamento para o câncer, das toalhas penduradas no banheiro, das asas de galinha, come-las ou não, sobre as salsichas, sobre creme de amendoim, sobre cerveja com amendoim, e sobre sexo, deveres, obrigações e as coisas que doem dentro da cabeça.




TRECHO de “Polacos, combos e pornô de TV” (II):

A mesa era farta e redonda. As bebidas passavam de mãos e mãos num ambiente noturno e esfumaçado. A luz amarelada dos candeeiros emprestava uma coleção de sobriedade aos objetos. Passaram-me vinhos, queijos brancos e mais outros vinhos. O último lote não passou para Cléo, porque naquela noite eu não estava bebendo. Não porque desgostasse da bebida ou porque estivesse fazendo pouco caso dos meus anfitriões, mas porque os cigarros de creme estavam bons e o sabor do vinho era estranho, um gosto que não palatável, não desperdiçaria aquele vinho dos meus amigos com minha farpa... e de banda, repentinamente Cléo foi ao banheiro. Deu uma desculpa qualquer, era o momento em que as teorias se cruzavam e nada mais do que era dito, como um metal que se gruda conectado ao outro, as conversas como emissoras de rádio entrecortadas. Era divertido o ambiente divertido da conversa de meus amigos. Sugerindo-me coisas, dando-me conselhos. Até que eu também tive de ir ao banheiro. Cléo saíra naquele mesmo instante e vinha com um rosto marcado. Imaginei que tivesse vomitado, porque suas mangas vinham arregaçadas como se tivesse que livra-las de algo sujo ou molhado.

Quando chegamos em casa perguntei-lhe se tinha vomitado e me confessou que tinha bebido mais que do que poderia. Apaguei as luzes, a imagem dos candeeiros brilhando e o som de Cléo golfando queijos e vinhos no banheiro.

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Ben-Hur Demeneck
 

Thiago e Helena, muito obrigado pela leitura e pelas pertinentes observações.

Ben-Hur Demeneck · São Paulo, SP 19/3/2009 17:57
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Doroni Hilgenberg
 

Ben-hur...
Vc é de Ponta Grossa?
Também sou...
Estou aqui em Manaus mas nasci em Ponta Grossa
mas vamos ao seu texto...
De fato, nós escritores não somos valorizados, não somos solicitados e muitas v ezes somos cerceados em nosso direito
de escrever. E concordo com vc quando diz que o senso comum
pesa em nossa escrita, pois é atraves dele que a sabedoria popular se perpetua.
No mais, preciso reler seu texto para me conceituar melhor.
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 22/3/2009 21:15
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