“É essa saudade que invadiu meu peito, e não tem jeito mais”. A música do Casca Verde serve bem para ilustrar a história do Adriano de Araújo, cidadão pedrossegundense que deixou a terrinha aos 18 anos para ir, como milhares vão todos os anos, em busca de emprego, dinheiro e vida nova em São Paulo.
O emprego ele arrumou, como porteiro num prédio que define como “chiquezão”. O dinheiro, porém, era minguado e com isso a vida nova foi ficando cada vez mais difícil. E a vida velha, a que ficou no interior do Piauí, começou a virar saudade no coração do rapaz. Ele diz que doía.
E doeu tanto que se materializou. As cenas da vida no sertão, de tão fortes na memória de Adriano, foram tomando forma em pedaços de madeira e papelão. Viraram maquetes cheias de detalhes: o jumento amarrado na cerca, o moço de peito cabeludo com a camisa aberta e o facão na mão, as fogueiras, o chão ressecado, as casas de palha, as varandas onde o povo senta nos tamboretes para prosear...
Com vontade de rever tudo ao vivo, ele um dia resolveu voltar. Quando chegou, teve uma surpresa. “Quando eu cheguei encontrei um cenário de interior muito diferente do que eu tinha deixado, do que estava vivo em minha mente. Tudo estava muito mudado, as casas, as pessoas, o cotidiano. Foi aí que eu pensei em começar a montar as cenas que eu via antes, para que elas não se perdessem nem fossem esquecidas por todo mundo. As crianças de hoje, que não conheceram o sertão do jeito que eu conheci, acham bonito o que eu faço”, conta, orgulhoso.
Uma das maquetes preferidas de Adriano é Cantoria, que mostra uma autêntica festa no interior, com roda de viola, cantadores, os burrinhos amarrados nas cercas. “Hoje quase não se vê mais os burrinhos, só tem motos. Todo mundo comprou moto no interior, o que vai ser dos burrinhos? Tem gente que deixa os coitados soltos no meio do mato, eles vão parar nas estradas e acabam morrendo atropelados”, comenta o artesão.
Outra cena tipicamente nordestina retratada por Adriano é a Farinhada, um evento que é a cara do interior do Nordeste. Está tudo detalhado no mini cenário: a alegria e a união das famílias, a mandioca, a farinha, o beiju, a tapioca. “A farinhada que eu me lembro é a que era feita nos anos 70, quando eu ainda não tinha viajado pra São Paulo, tudo era manual, todo mundo trabalhava junto. A casa de farinhada, se a gente for pensar bem, é a primeira microempresa do sertão, um grupo pequeno se junta, produz uma coisa e todo mundo divide o que apurar”, lembra.
O prédio onde trabalhou quando morava em São Paulo também virou maquete, com a figura do porteiro sentada na frente. Adriano quer que as crianças de Pedro II conheçam um pouco da realidade de uma cidade grande, por isso montou o edifício em miniatura. “É também uma homenagem ao nordestino que vai tentar melhorar de vida em São Paulo”, esclarece.
O Mini-Museu
As maquetes feitas por Adriano não estão à venda, foram feitas para o acervo do Mini Museu que ele criou em Pedro II. “Na verdade, minha idéia era fazer um museu grande com as miniaturas do sertão, mas só consegui alugar esse pontinho aqui, aí virou o Mini Museu, porque tudo é pequeno, até o espaço”, brinca.
O artesão usa talos de buriti, madeira, palha, papelão, miçangas e uma mistura de barro com cola para confeccionar seus pequenos cenários.
Ele faz souvenirs para vender e espera assim ampliar o museu um dia. Aceita encomendas de maquetes e as faz com o mesmo cuidado e prazer com que faz as de sua exposição.
Adriano revela que pretende montar uma escolinha para ensinar sua arte às crianças, ele já tem dois aprendizes. “São dois meninos que me ajudam, eles já estão começando a fazer as peças, são muito interessados”, diz.
O Mini Museu fica na rua Tertuliano Filho, 259, no Centro de Pedro II. O telefone de contato é (86) 3217-2331.
Interessante esse resgate da história de Pedro II (e do interior desse nosso país) feito pelo Adriano. Tomara que ele consiga apoio privado e/ou público pra dar continuidade e expandir esse trabalho por aí.
Abs.
Putz Naty que matéria maravilhosa! O jeito que vc conta é muito comovente, sensível...parábens!!!Vou querer conhecer já esse cara, tive lá e nem sabia. Maia Veloso
viva arte · Teresina, PI 1/7/2007 11:45
Maia, o mini museu fica bem pertinho daquela praça que a gente tava, perto de uma loja de opalas, facinho, facinho de achar.
Olá TetÊ, tomara mesmo que o Adriano consiga fazer um museu maior, é um sonho dele!
Muito bom, vale a visita. Gostei demais do texto e do título, genial.
Eduardo Neves · Teresina, PI 2/7/2007 08:21
Parabéns ao Adriano pela idéia do mini museu.
Bela matéria,Natacha.
Muito bacana Natacha. História bonita não é mesmo? E que sensibilidade a sua por nos trazer uma matéria como essa, e de nos apresentar uma figura tão simpática e comprometida como o Adriano. Abraço.
FILIPE MAMEDE · Natal, RN 3/7/2007 10:10
Parabéns Natacha!!! Que linda matéria! Um belo texto. A começar pelo poético título. Confesso que fiquei com uma baita vontade de sair daqui e correr para Pedro II, conhecer de perto esse artista maravilhoso que transforma sua sensibilidade em pura arte! Eu amo o povo nordestino! Meus Deus, quanto talento tem esse pedaço do nosso Brasil!
Um beijo carinhoso.
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