Miragem no São Francisco

aprigio vilanova
A cidade de Piranhas vista do Rio São Francisco
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Aprígio Vilanova · Maceió, AL
11/10/2006 · 156 · 20
 

A cidade de Piranhas está localizada no sertão alagoano, a cerca de 240 km de Maceió. Encravada nos paredões que margeiam o Rio São Francisco, limita-se ao Sul com o “Velho Chico” e ao Norte com a vegetação espinhenta da caatinga.

É uma cidade que transpira história, desde o povoamento no século XVIII até o fenômeno social do cangaço, passando obviamente pela arquitetura colonial, os casarios e a ferrovia que Pedro II mandou construir para ligar o baixo ao alto São Francisco – na parte não-navegável do rio.

POVOAMENTO

O povoamento da região data do século XVIII com a chegada de um certo “Casado”, que se instalou em torno de um olho d´água que existia em cima da serra, dando origem ao atual município de Olho D´Água do Casado.

Depois vieram os Feitosa e os Sandes que se instalaram à beira do São Francisco. O grande número de piranhas no rio e riachos é, sem dúvida, a explicação para a denominação do município. O nome da cidade se deve ao fato de haver uma explicação que virou lenda na simbologia popular e por isso adquiriu grande força no imaginário coletivo dos moradores da região.

A sede da prefeitura, a igreja matriz, os casarios coloniais, o prédio da estação ferroviária, a torre da estação, a vila de pescadores que fundaram a região e hoje conhecida como Piranhas Velha, o mirante em saudação ao século XX; são alguns exemplos que encontramos da arquitetura colonial e que fazem parte do acervo tombado pelo patrimônio histórico e cultural.

A cidade também já foi palco para o filme Bye, Bye Brasil, do cineasta alagoano Cacá Diegues. Filmado na década de 1970, dá uma idéia do que é a cidade e pouca coisa mudou de lá para cá, pelo menos no que diz respeito às fachadas dos pardieiros. É impossível não realizar viagens históricas mentais quando a cidade visitada possui tão rico acervo material e imaterial, algumas ruas preservam ainda as pedras originais das primeiras construções da cidade.

O Rio São Francisco exerce papel fundamental na vida das comunidades ribeirinhas e em Piranhas não poderia ser diferente; o rio é fonte de subsistência e de renda para estas comunidades. Todas as relações sociais marcantes nestas populações se desenvolveram sob forte influência do “Velho Chico”; o contato com os municípios da região é feito através do rio, a dieta à base de peixe e crustáceos, os personagens do universo simbólico popular também nos remetem à influência do rio nas vidas destas populações.

O cangaço também exerce forte influência, ainda hoje, na mentalidade do piranhense. A volante da polícia alagoana saiu da cidade de Piranhas para a emboscada da gruta de Angicos e de volta as cabeças foram expostas na escadaria da prefeitura. Vários integrantes dos grupos de Lampião e da Polícia eram de Piranhas - o tenente João Bezerra (comandante da volante) e o sargento Aniceto casaram-se e moravam em Piranhas.

O prédio onde funcionava a estação ferroviária abriga hoje o Museu do Sertão, que conta com acervo relacionado ao cangaço. São fotos dos personagens que fizeram parte deste fenômeno histórico, armas utilizadas nos combates entre os cangaceiros e as volantes policiais, utensílios utilizados pelos cangaceiros, as vestimentas confeccionadas em couro para resistir e protegê-los dos espinhos que predomina na vegetação do sertão nordestino.

A ferrovia já não existe mais; na memória dos mais velhos é um filme que passou e entre os mais novos só referências nos livros e nos relatos. Mas, olhando-se do rio para terra vê-se nitidamente os contornos da linha férrea na serra. São as marcas da história que também ficam delineadas na topografia.

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Saulo Frauches
 

Só pelas fotos já me encheu de curiosidade.

Saulo Frauches · Rio de Janeiro, RJ 8/10/2006 17:33
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Aprígio Vilanova
 

É Saulo, a cidade é realmente mágica e merece ser contemplada.
valeu pelo comentário!!!
abraços...

Aprígio Vilanova · Maceió, AL 8/10/2006 19:51
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Patrícia Machado
 

Piranhas é muito encantadora,os moradores tratam os visitantes tão bem, deixando todos com vontade de voltar.O São Francisco nos magnetiza de uma maneira...inexplicavel! vale muito a pena conhecer esse paraíso e viajar na história!

Patrícia Machado · Maceió, AL 9/10/2006 19:23
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Claudiocareca
 

Muito linda a cidade, o rio! Deu vontade de conhecer. Parabéns Aprígio pela matéria e pelas fotos. Uma pergunta, o excesso de piranha não impede o banho, né?

Claudiocareca · Cuiabá, MT 11/10/2006 12:31
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Marcelo Cabral
 

Aprígio, parabéns, gostei muito do texto e do tema, sou suspeito, como disse na sua outra colaboração, acho Piranhas o mais lindo município de Alagoas, e altamente sub-aproveitado turisticamente, no lado sergipano do rio eles fazem um turismo bacana naquela região.

Cláudio, não tem mais piranhas, não existem vários peixes do São Francisco, por causa das represas e também por causa da introdução de espécies exóticas amazônicas, como a tilápia e o surubim, hoje os dois peixes mais populares do Velho Chico, bichos agressivos que acabam com outras espécies causando um baita impacto ambiental, mas garante o sustento do povo. (Mais ou menos, tem pouco peixe e os pescadores da região tem que buscar outras alternativas de renda na agricultura que não é a praia deles).

Patrícia, os moradores são o que há de mais lindo na cidade, recebem muito bem mesmo, povo simples e generoso, uma vez estava acampado lá no campo de futebol da cidade, e chovia muito (graças a Deus né? A caatinga tava verde verde, linda, as lavouras levando água, uma beleza) e um jovem casal com 4 filhos me chamou pra ir dormir e comer na casa deles, pois ficaram compadecidos da minha situação acampado na chuva, não aceitaram não como resposta e dividiram o espaço e a comida com um completo estranho, gente humilde com um coração muito rico.

Marcelo Cabral · Maceió, AL 11/10/2006 16:48
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Marcelo Cabral
 

Ah Cláudio, mais uma coisa, se jogar no Rio Sâo Fracisco, na prainha de Piranhas, naquele calor de rachar, é uma maravilha, só indo e mergulhando pra saber. Vale a pena tambem o passeio de escuna entre os paredões do sertão, na parte alagada da represa de Xingó (80 metros de profundidade). Simplesmente lindo.

Marcelo Cabral · Maceió, AL 11/10/2006 17:09
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Tati Magalhães
 

Piranhas foi tombada recentemente. No entanto, não foi feito nenhum trabalho junto às comunidades. A maioria não sabe o que isso significa, e acha péssimo não poder mais pintar sua casa, botar azulejo na fachada... também não vê ganhos com isso. Poderia ser um ganho turístico e tanto, ajudando a população mesmo, mas por enquanto, é algo no papel.
Vale a pena conhecer, a cidade abriga algumas das mais lindas passagens do São Francisco...

Tati Magalhães · Maceió, AL 12/10/2006 00:26
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Evelina
 

Aprígio,
Adoro e estudo Piranhas.
Publiquei um texto na revista eletrônica mneme Nos trilhos da história de Piranhas, se v. puder dar uma olhada, fale algo .
Quanto ao comentário da Tati ( oi Tatiana, tudo bem?), é muito difícil mobilizar a população numa cidade tradicional, como Piranhas, entretanto , muita coisa tem sido feita, ou tem sido tentada. Além do Instituto Palmas, tem o trabalho da Maria do Carmo Vieira que tem feito coisas interessantes por lá.Tem tb o trabalho do pessoal da educação ambiental com as professoras de lá.
bjs Evelina

Evelina · Maceió, AL 12/10/2006 09:21
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Marcelo Rangel
 

Marcelo, até concordo que se trablaha o turismo do lado sergipano , mas não diria exatamente legal. Considero predatório e pouco preocupado com a preservação. Além do mais, na cidade de Xingó, que recebe uma das maiores arrecadações em royalties do estado e podia ser um oásis em termos de educação, cultura, cidadania, a miséria impera e os moradores não se beneficiam com o turismo.

Marcelo Rangel · Aracaju, SE 12/10/2006 13:15
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Marcelo Cabral
 

É xará, uma pena saber disso.

Marcelo Cabral · Maceió, AL 12/10/2006 14:10
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Aprígio Vilanova
 

Claudio, hoje pouco se encontra piranhas no rio e o banho no rio como falou o Marcelo é inigualável....
abraços...

Aprígio Vilanova · Maceió, AL 12/10/2006 22:15
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Aprígio Vilanova
 

E aê, Marcelo? é mesmo uma das regiões mais lindas do nosso humilhado Estado. O Surubim é o peixe típico da região, o peixe amazônico criado na região após a barragem foi o Tucunaré.
abraços e valeu pelo comentário.

Aprígio Vilanova · Maceió, AL 12/10/2006 22:20
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Aprígio Vilanova
 

É Tati. o tombamento da cidade não impediu várias arbitrariedades. Várias casas só mantem a fachada, o interior das construções, em alguns casos, já desabaram. tistemente...
valeu pelo comentário!!!

Aprígio Vilanova · Maceió, AL 12/10/2006 22:25
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Aprígio Vilanova
 

Ei Evelina?
me mande, se possível, uma cópia do seu estudo. Desde já agradeço.
valeu pela análise!!!

Aprígio Vilanova · Maceió, AL 12/10/2006 22:27
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Aprígio Vilanova
 

É verdade Marcelo Rangel. A maior parte da hidro-elétrica de Xingó se encontra em território alagoano, na cidade de Piranhas. Mas, a maior parte dos royaltes são destinados ao Estado de Sergipe, ao município de Canindé do São Francisco.
valeu pelo comentário...

Aprígio Vilanova · Maceió, AL 12/10/2006 22:32
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Marcelo Cabral
 

Tem razão Aprígio, confundi os bichos, o tucunaré amazônico e a tilápia, criada em tanque-rede no Chico (piscicultura), são espécies exóticas que foram introduzidas. O surubim é endêmico da bacia do São Francisco. Valeu, abraço.

Marcelo Cabral · Maceió, AL 13/10/2006 12:10
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carlos b
 

Piranhas já estava na lista de meus próximos destinos aqui em
Alagoas. E seu (ótimo) texto, Aprígio, só fez aumentar o interesse.
E aí começo a ler os comentários e vejo que dona Evelina (salve, Evelina!) falou, falou, mas não divulgou a Mesa Redonda que ela coordena nesta próxima semana na Ufal. Desculpem, sei que não é o lugar, mas aproveito a carona e divulgo:
CONGRESSO ACADÊMICO UFAL 2006
Mesa redonda: O Instituto Xingó numa abordagem social.
Ações, pesquisas e projetos no B.S.Francisco.
Dia 17/10 às 15:00 na sala do 3º ano de C. Sociais –ICS
Abraço!

carlos b · Maceió, AL 13/10/2006 12:49
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Gin
 

Cara parabéns pela iniciativa, Piranahs merece comentários como esses.Sou um piranhense e resido em Maceió a 13 anos, como muitos interioranos tive que deixar a minha terrinha em busca de um futuro melhor. Hoje sou bailarino clássico de profissão e formado em teatro. Como sinto saudades dessa terra tão linda... foi lá que cresci e lá quero descançar um dia. Sua fotos são inéditas, ninguém havia feito por esses ângulos, principalmente essa da ladeira da rua do Açúcar (com essa moldura de folhas) Um grande abraço a todos, e que Piranhas continue sendo visitada e elogiada por pessoas como vcs.

Gin · Maceió, AL 4/5/2007 09:47
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Ana_e_Lauro_Alagoas
 

Parabéns pelo texto. Piranhas é mágica com certeza. Voltaremos.
Destacar a simplicidade e simpatia dos moradores foi importante nos comentários acima. Que lugar fantástico. Que paz.

Ana_e_Lauro_Alagoas · Maceió, AL 9/7/2008 21:10
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Elliana Alves
 

Votado,maravilhoso,bjssssss

Elliana Alves · Petrolina, PE 8/9/2008 23:47
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