MOQUECA À JOBIM

divulgação
?Antonio Carlos Jobim & Friends? (Verve Records)
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Pedro de Alcântara · Vitória, ES
28/1/2007 · 85 · 13
 

Na primeira e única vez em que vi Tom Jobim, eu ainda era estudante de música na UNICAMP. O ano era 1993, e o Free Jazz Festival acontecia em São Paulo, com shows de grandes nomes da música contemporânea. Juntamos alguns colegas e nos amontoamos em meu velho Corcel 73, saindo de Campinas rumo à capital paulista. A ironia estava no fato de que não íamos lá pelo Jobim – nosso interesse musical se voltava para as outras atrações da noite, grandes estrelas do jazz internacional, das quais não me recordo mais. O maestro seria apenas o “aperitivo”. Claro que estávamos enganados...

Após burlarmos a segurança do festival, já que todos estávamos duros – é incrível a “engenhosidade” dos estudantes para “penetrar” em eventos desta natureza. Em pouco tempo estávamos acomodados nas mesas de outros colegas músicos e prontos para assistir aos três shows que seriam apresentados naquela noite.

Ainda me lembro bem da aura familiar que se formou tão logo Gal Costa começou a entoar as primeiras canções. O maestro, ao piano, com a economia e classe que lhe eram característicos, desfiou uma a uma suas intrincadas harmonias, fazendo tudo parecer simples e ao mesmo tempo genial.

No palco, além de Gal Costa - que brilhou soberana em suas interpretações - um time de músicos e convidados do primeiro time aqueceu gradativamente a noite: Shirley Horn e Jon Hendricks nos vocais; o sax tenor Joe Henderson – autor do excelente CD “Double Rainbow”, com músicas do Jobim; o pianista Herbie Hancock – que se apresentou recentemente em Vitória; e o até então pouco conhecido pianista cubano Gonzalo Rubalcaba, que teria seu solo daquela noite em “Água de Beber” indicado ao Grammy em 97. Tocaram ainda Paulo Jobim (violonista e filho do Tom); Ron Carter (baixo); Harvey Mason (bateria); Alex Acuña (percussão); sob a produção atenta de Oscar Castro-Neves. A música soava tão mágica e absolutamente familiar, que só pude compreender a magnitude do momento nos dias seguintes, relembrando os fragmentos do show. A música desta apresentação pode ser conferida no CD “Antonio Carlos Jobim & Friends” (Verve Records).

A despeito do rol de estrelas que desfilaram pelo palco naquela noite, o que realmente ficou daquela apresentação foi a certeza de que Tom Jobim é sem dúvida a maior expressão da música brasileira de todos os tempos. Não é à toa que Jobim virou adjetivo, e se hoje falamos em música jobiniana, logo vêm à cabeça harmonia e melodia irreparáveis, sabor brasileiro com toque universal, e extremo bom gosto. Tomando como exemplo Villa-Lobos e Carlos Gomes, e ainda que estes sejam sem dúvida dois gigantes, nem um nem outro foi capaz de alcançar uma personalidade estilística clara a ponto de deixar um legado tão bem delimitado quanto Jobim. Sei que muitos vão pular da cadeira ante esta afirmação, e reconheço inclusive a forte influência da musica do Villa na obra de Jobim, mas ter sua música veiculada por 40 anos nas paradas de sucesso do mundo inteiro, sem abrir mão da qualidade, e ainda continuar atual, é um feito que poucos conseguiram, dentre os quais posso citar rapidamente Mozart, Miles Davis e os Beatles. Desculpem, mas não se trata de comparar (Jobim é incompárável...).

Voltando ao Free Jazz, é claro que saí do show com aquela sensação de experiência com o divino: extasiado e um tanto amedrontado pela onipotência do deus e sua obra. Na hora de voltarmos para casa ainda passamos por um sufoco ao constatar que o cabo da vela de ignição - que havia sido retirado do Corcel para impedir sua partida caso alguém se aventurasse a roubá-lo – seguira por engano na bolsa de um de nossos colegas, que pegou carona em outro carro, nos deixando numa roubada. Após horas de procura por um cabo de vela sobressalente, fomos salvos por um taxista precavido que levava dois cabos consigo, e pudemos enfim voltar para Campinas. O contratempo não nos tirou o humor - naquele momento nada importava, estávamos plenos de satisfação e com nossas cabeças fervilhando com a música brasileira sorvida na mais pura fonte. Ainda não sabíamos que aquela seria a última apresentação de Tom Jobim no Brasil. Alguns meses depois ele viria a falecer.

Segundo Arnaldo Jabor, “a morte de Tom Jobim não foi apenas a queda de uma árvore, foi a derrubada de uma floresta”.
– Não, Jabor! A árvore caiu mas a floresta continua lá, com seus matita-perê, seus urubu-rei, seus bôtos e seus passarim. A vida é pau, é pedra ... é também o fim do caminho.

Hoje o maestro estaria completando 80 anos de vida. Vou colocar o “Urubu” no CD player e ficar namorando o encarte do vinil (este é um dos poucos discos aos quais não resisti e tive que possuir nos dois formatos). É que eu estou sem toca-discos... Não importa, vou botar “Ângela” no volume máximo e me lembrar daquela noite em que pude ver e ouvir o mestre pela primeira e última vez.

Se pudesse, o convidaria para comemorar seu aniversário aqui em casa, oferecendo o que há de melhor na culinária capixaba - a moqueca -, apenas com algumas adaptações.
Segue então a receita de MOQUECA À JOBIM:

INGREDIENTES

1 Kg de Peixe cortado em postas (Surubim ou Guerra-Peixe)
1 Piano de Cauda (não confundir com piano de “calda”)
60 músicos de orquestra em naipes
1 molho de percussão brasileira (berimbau, pandeiro e caxixi)
1 maço de Villa-Lobos
1 maço de Debussy
Cravo e Canela
1 litro de whisky
1 charuto cubano

MODO DE FAZER

Primeiro tenha à disposição uma cozinha bem brasileira (violão, piano, percussão). Junte os ingredientes e aqueça em samba lento, mexendo bem até formar um caldo grosso. Acrescente um leve toque de bossa, lembrando de temperar sempre com o molho da percussão. Se for do seu agrado, use um pouco de folclore brasileiro de qualquer região. Tome todo o whisky, até ficar “pronto”.

Sirva em partitura, acompanhado por maestro e orquestra completa.

O charuto cubano completa a receita.

Bom apetite, maestro!




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Tacilda Aquino
 

Muito bom. Quem me dera ter o dom de misturar todos esses ingredientes. É uma pena eu ser tão desafinada e sem talento para tocar qualquer instrumento. Dos ingredientes, tenho certeza que só me daria bem com whisky.Sua receita está perfeita. Poderia dizer que faltou o chapéu pananá, mas como a boa educação pede que se tire o chapéu à mesa...

Tacilda Aquino · Goiânia, GO 25/1/2007 15:09
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Pedro de Alcântara
 

Vlew Tacilda! Um abs, Pedro.

Pedro de Alcântara · Vitória, ES 25/1/2007 15:35
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Roberto Maxwell
 

Pedro, o que vc acha de um espaco entre cada paragrafo?

Roberto Maxwell · Japão , WW 25/1/2007 17:48
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Pedro de Alcântara
 

Valeu pela dica, vou tentar agora mesmo. Problemas de formatação... No original em Word (doc) disponível no Banco de Cultura ficou mais facil de ler. Na verdade este artigo foi publicado hj em A GAZETA (Vitória). Abs, Pedro.

Pedro de Alcântara · Vitória, ES 25/1/2007 19:56
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Ilhandarilha
 

Belíssima homenagem ao Jobim, Pedro. Essa moqueca é brasileira e jobiniana, com certeza!

Ilhandarilha · Vitória, ES 26/1/2007 19:16
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Pedro de Alcântara
 

Também tenho acompanhado teus textos. São muito bons, parabéns!

Pedro de Alcântara · Vitória, ES 27/1/2007 20:14
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Tonico trompete
 

Pedro, mais um artigo muito bom!
Porém, acho que devemos sempre evitar comparações, principalmente entre as estrelas de primeira grandezado universo chamado música brasileira.
Primeiro: Carlos Gomes não compôs música brasileira, a obra dele é italiana... tenho restrições! Penso que ele não mereceria ocupar espaço no seu artigo.
Com todo respeito, comparar Villa e Tom é trabalho desnecessário. A magnitude da obra é a mesma! A obra do Villa é alma brasileira, é folclore, é raiz. A obra do Tom é a obra do Tom! São dois "Brasis", dois contextos, dois gênios, gravados - um por grandes orquestras mundiais e o outro por estrelas do jazz.
Comparar Villa com Tom é comparar Louis Armstrong com Miles Davis, é comparar Tarcila com Di Cavalcanti, é comparar Euclides da Cunha com Rubem Braga. É comparar o incomparável. Uma ou outra produção vai ter melhor penetração na mídia e, conseqüentemente mais visibilidade e muitas vezes mora aí o perigo! Enfim, é comparar moqueca de dourado com moqueca de badejo. Preferências à parte, sua moqueca deu água na boca! Quando for preparar, eu levo o maço de Villa-Lobos! rs Valeu Pedrão!

Tonico trompete · Vitória, ES 29/1/2007 14:51
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Pedro de Alcântara
 

Valeu Tonico. Vc tem toda razão quanto ao Carlos Gomes. Quanto ao Villa, a ideia (confessa na cronica) era esta mesmo, de polemizar. Acho que está dando certo...
Abs e aproveite para conferir meus MP3 no Banco de Cultura: Lapataia; Zen e Sinceridade.

Pedro de Alcântara · Vitória, ES 29/1/2007 17:00
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Fabiano Araujo
 

Valeu Pedro. Voce narrou muito bem o astral daqueles
tempos da Faculdade, e o impacto daquela apresentação.
Além disso, lendo o artigo parece que estamos batendo um papo
descontraído no quintal. Aquele abraço.

Fabiano Araujo · Vitória, ES 30/1/2007 09:41
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Pedro de Alcântara
 

Valeu Fabiano. Tempo bom, hein...

Pedro de Alcântara · Vitória, ES 2/2/2007 15:19
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Fabio Calazans
 

Belo texto Pedro. Jobim sempre será Jobim.

Fabio Calazans · Vitória, ES 8/3/2007 17:29
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Felipe Ribeiro
 

Ron Carter, Herbie Hancock e Jobim....
Acho que eu ia Chorar, não ia saber pra onde olhar!
Eu li esse texto no jornal quando saiu! Muito Bom!

Aprecio muito o teu trabalho com o Afonso Abreu...

Abração!

Felipe Ribeiro · Vitória, ES 31/7/2007 22:41
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Ana Murta
 

Que texto bacana Pedro!
E God save Jobim...

Ana Murta · Vitória, ES 22/11/2007 10:49
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