Há dez anos atrás conheci Roberto Victório, um músico carioca que na época dividia comigo e mais sete companheiros o cargo de conselheiro de estado de cultura, era o momento da implantação do Conselho Estadual de Cultura de Mato Grosso, um marco na política cultural do Estado. Uma cumplicidade logo se estabeleceu e passamos a conviver semanalmente nas reuniões ordinárias do conselho. Formávamos uma trindade: Roberto, que é músico erudito, compositor, maestro, pensador e pesquisador, o escritor Ricardo Guilherme Dicke e eu. Sempre dividíamos as caronas e nesses percursos muitos sonhos foram sonhados, muitos projetos idealizados, de uma forma ou de outra queríamos comungar nossas experiências e realizar obras artísticas.
Na época, Roberto me falou de um projeto de pesquisa etnomusical que desenvolveu para concluir o doutorado na UFRJ e que resultou em uma composição musical erudita e contemporânea de nome Aroe Jari, em língua Bororo, que significa: Morada das Almas. Um lugar que, na interpretação simbólica dos Bororos, transcende a fisicalidade e representa o mundo imaterial, o mundo espiritual para onde todos deverão retornar segundo a concepção deles. Fizemos planos de realizar um documentário sobre a pesquisa e a música, mais que planos, tentamos fazer e sempre esbarrava em dificuldades para conseguir recursos. Dez longos anos se passaram, agora conseguimos dar visibilidade ao projeto e estamos muito próximos de realizá-lo.
Fomos até a aldeia do Merure, que fica a 400 km de Cuiabá, perto de Barra do Garças, pedir a autorização dos bororos para iniciarmos processo de pré-produção do documentário. Ao chegar na aldeia levei um choque ao me deparar com as profundas mudanças que ocorreram e continuam a acontecer no comportamento da comunidade. De imediato, percebemos mudanças na arquitetura da aldeia, as antigas ocas foram substituídas por pequenas casas padronizadas, tipo essas casas do sistema de habitação popular, organizadas em formato quadrado, quebrando a disposição circular de antes que tinha toda uma significação hierárquica importante na estruturação das relações entre os diversos clãs, sub-clãs e hipo-clãs. Observei também que havia muitos sacos de plástico jogados próximos às casas, embalagens de diversos produtos de consumo doméstico, resultando num ambiente que precisa urgentemente de uma ação para organizar a destinação do lixo.
Fui logo sendo apresentado ao Agostinho, um bororo bastante efeminado, que, inicialmente, me deixou em dúvida se era uma moça ou um rapaz. Diretor do Museu da Etnia Bororo, ele é extremamente respeitado por todos na aldeia e vem realizando um grande trabalho na organização do vasto acervo que possuem, em áudio, vídeo, fotografias, muitos documentos e publicações diversas. Eles mantêm uma biblioteca com muita coisa publicada sobre a etnia, que é das mais estudadas. Conheci um outro jovem bororo, o Paulinho, cameraman, videomaker, que logo quis nos mostrar seu primeiro filme, um documentário sobre o ritual funerário. Um olhar de dentro pra fora, um cara que conhece as minúcias do lugar. O ritual funerário que dura de dois a três meses é o tema da música do Roberto Victório, que é o nosso tema do documentário e assim, surpresos com a coincidência, fomos ver o filme. Ele leva jeito, o filme é razoável. Paulinho fez oficinas de vídeo, tem uma boa mão, muito firme para operar a câmera e um bom olho, com o tempo deverá crescer, pois está bastante empolgado. Pelo fato de ser membro da aldeia pôde entrar e registrar determinadas partes do ritual que ninguém de fora poderia. As mulheres e as crianças não-iniciadas também são proibidas de presenciar alguns momentos do ritual.
Me levaram pra conhecer a sala multimídia e ao chegarmos lá um grupo de adolescentes bororos estava dançando ao som eletrônico do batidão e do funk. Outro garoto que conheci operando um computador é completamente fascinado por tecnologia. Quer acesso à internet, quer estudar, quer tocar, ele e Paulinho estão montando uma banda. Querem tocar pop rock e eletrônico misturado com música indígena. Paulinho é fã de Legião Urbana.
A etnia Bororo sempre se destacou pela sensibilidade e complexidade de seus ritos, além de ter uma organização social rigorosa que reflete uma cultura rica e organizada, com uma noção espantosa do espaço e suas significações. Naquela época Roberto estava encerrando um longo ciclo onde pesquisou, catalogou, criou notações para definir os percursos da música bororo, ou seja, revelar, escrever, descrever, tornar legível. Se embrenhou na selva de uma música que considerou extremamente rica, criativa e condutora dos rituais mais importantes da etnia. Dessa experiência compôs a peça musical composta de três movimentos: Aroe Jari, Egnoware e Aroe Maiwu.
A praga branca se alastrou devorando os sertões com sua fome de máquina. Máquinas de moer gente que se espalhou pelo Mato Grosso. A ocupação de terras aqui foi sob o jugo do fogo, sob fogo cerrado. Fogo nas vísceras, fogo nas gargantas. O álcool e suas delícias. Quem aí vai negar o poder do fogo na celebração da vida? Se os bororos têm a água como elemento divino que representa a origem e a passagem de volta para o mundo imaterial, o homem branco – os invasores (os inimigos, em bororo: animais) - mostrou o poder do fogo representado tanto pela aguardente como pela espingarda.
O que aconteceu com a Nação Bororo foi um autêntico genocídio. Eles ocupavam uma faixa de terra que ía da Bolívia até o Triângulo Mineiro (MG). Foram usurpados, roubados, quase exterminados. Felizmente sobreviveram e estão recuperando seus ritos mais importantes, passando seus conhecimentos ancestrais para as novas gerações que estão se adaptando aos novos tempos tecnológicos. Estão resistindo hoje com uma população de cerca de 1.500 índios. Com uma cultura riquíssima e complexa.
A última vez que fui numa aldeia, se não me engano, foi em 1992, 93, não me lembro bem, mas não importa, foi numa aldeia Xavante, inimigos ancestrais dos bororos, eles não se toleram, já foram protagonistas de muitas batalhas, não se entendem. Na reunião que fizemos com as lideranças bororos no Meruri para conseguir autorização para o documentário, o bororo Agostinho falou que essa rusga com os xavantes já vem de tempos remotos, que eu não conseguiria entender. Ouvi dizer que os xavantes roubavam mulheres bororos, sempre provocavam brigas, não podiam se cruzar que era briga certa. Os bororos consideram os xavantes excessivamente materialistas, pouco dados a espiritualidade. Essa última aldeia que visitei nos anos 90, perto de Nova Xavantina, região do médio Araguaia, era bem típica ainda, apesar de estarem levantando uma construção de alvenaria, uma escola, o que já me causou um certo preconceito. Confesso que não consegui ver com os olhos livres as mudanças que ocorriam no interior das comunidades indígenas. Minha visão era preconceituosa, queria ver os índios como vieram ao mundo, eu não percebia que o mundo dos brancos chegou para eles e impôs com todos os seus apelos, o desejo de consumo e as facilidades que a tecnologia trás para o ser humano. Não! Índio deve ficar em suas ocas, isolados! Mas como, se já os contaminamos? Levamos a doença e o remédio, a cachaça, o açúcar, a cárie, a diarréia, o vírus.
Quem nunca visitou uma aldeia e mantém uma idéia do índio como um ser isolado, primitivo, idílico, puro, não tem a mínima noção do que vem ocorrendo. As transformações são muito profundas e eles, no Meruri, estão desenvolvendo uma nova consciência sobre o valor da memória. Agostinho criou uma obra representando as relações clânicas da aldeia, uma instalação, reproduzindo a estrutura clânica definida pela disposição espacial circular da aldeia, uma bela montagem, que faturou um prêmio cultural nacional na Petrobras, o Cultura Viva. Eles têm consciência hoje dessa importância e da importância de desenvolverem outras formas de representação para manter vivo um conhecimento ancestral que é importante como fator de auto-valorização e conservação de sua cultura.
Segundo Roberto Victório constatou em sua pesquisa, existe uma estrutura mítica dual ditada pelos "antepassados imemoriais Baitagogo/ Akaruio Boroge como personificação da alma Bororo perdida no tempo e posteriormente corporificada pelos antepassados Bakoro Kudu/ Akaruio Bokodori, como os primeiros chefes transmissores dos ensinamentos no plano material."
Ao sairmos da aldeia no retorno para Cuiabá, não pude deixar de pensar: índio gosta de tecnologia, índio quer tecnologia. As aldeias nunca mais serão as mesmas. O céu estava lindo naquele momento, derramava estrelas pelas bordas.
fizemos o filme. uma ópera documentário. o filme faturou dois prêmios no festival de cinema e vídeo de cuiabá em 2010: melhor média metragem pelo júri e pelo público. agora em 2012 abriu dois concertos de música (erudita) contemporânea em amsterdã e em haia na holanda. roberto victório foi premiado com uma das tres composições que são roteiro do filme que se passa em três movimentos.
eduardo ferreira · Cuiabá, MT 22/5/2012 11:35Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!