Morrer é um barato

Capa do livro Tropicaos, de Rogério Duarte.
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Fabio Godoh · Porto Alegre, RS
19/3/2007 · 123 · 5
 

Deus e o Diabo, e pelo menos uma meia dúzia de anjos tortos, desempenharam papéis importantes em tudo o que rolou nas últimas décadas aqui embaixo. "Who's afreud of Sigmund Freed", como diria Carl Solomon, muito orgulhoso em ostentar sua solidão de cético, entre otimistas ignorantes. Olé! Seguinte: eu gostaria de aproveitar a ocasião para falar do mais belo incêndio da civilização latino-americana: Rogério Duarte. Trata-se de "Tropicaos", livro lançado em 2003, pela Azougue Editorial, que retrata radiograficamente os mais tênues mistérios da multímoda personalidade intelectual deste "gênio por trás dos gênios", como definiu Narlan Matos. Aaaaaaa!

Pois bem, pouca gente sabe, mas Rogério Duarte, o mais lúcido ideólogo das nossas vanguardas, verdadeiro cerébro pop-dadaísta por trás de bananeiras e pedestais, foi o responsável pela elaboração das premissas epistemológicas mais fundamentais do que veio a ser grafado como Tropicalismo, no final da década de 60. E como disse Diego Petrarca, "se dentro do guarda-chuva tem a chuva, acima do porta-estandarte está Duarte!" Olé! Olé! Com um raciocínio rápido e verdades aromatizantes, Rogério defendia uma anti-filosofia que, para muitos, poderia parecer absurda e incoerente, mas, na verdade, como definiu Caetano Veloso, era prova de firmeza e vigor conceitual. "O problema, para mim, de escrever um romance", argumenta Rogério, "é que eu não me contentaria em ser o autor... quero ser a personagem".

Nascido em 1939, na Bahia, Rogério Duarte desde cedo demonstrou sua vocação para "mensageiro do delírio". Ainda na escola, idealizou um movimento artístico chamado "Antidicurvismo", o qual, segundo ele, "não significava coisa alguma". (Dadá is!) Sempre envolvido em voluptuosas polêmicas estético-hedonistas, produziu um vasto material literário, entre poemas, contos e esboços de romances, além de desenvolver diversas aventuras em artes visuais. Antes de se mudar para o Rio de Janeiro, Rogério "Caos", como foi apelidado pelo invejoso Oduvaldo Vianna Filho, já pervertia a cabeça de homens como Glauber Rocha e Hélio Oiticica. No Rio, consagrou-se como um dos maiores mitos da cultura gráfica de sua época, sendo o criador de artefatos históricos das belas-artes brasileiras, que vão desde antropofágicas capas de discos, até cartazes e poemas publicitários, como o do filme "Deus e o diabo na terra do sol", de Glauber Rocha.

No entanto, de acordo com as testemunhas, foi mesmo a sua violenta eloqüência, jorrada frágil e tirana do fundo fígado de seu ethos anarquizado, que o alçou à condição de profeta alado da Tropicália. "Havia entre ele e seus discursos um comprometimento a um tempo visceral e metafísico que multiplicava o poder dos seus argumentos", afirma Caetano, e completa: "Ele parecia querer nos resguardar de um certo cinismo amargo que a vida já tinha lhe ensinado e nos alertar contra a adesão inocente ao ideário dominante nos meios culturais". Como um devorador de epítetos, Rogério alcançou esferas intuitivas de fantasia filosófica que jamais foram igualadas, e não é por outro motivo que continua sendo o sorrateiro Sócrates da luminosidade exagerada dos trópicos: um gênio condenado ao "suicídio" apenas por apresentar à sociedade aquilo que em sua época era considerado "brilhante".

O fato é que em 1968, no auge da sua produção libertária, e também no apogeu da militância delatora institucionalizada, Rogério foi preso e submetido a oito dias de humilhação psicológica, episódio que indelevelmente atormentou a sua alma, levando-o, depois de solto, a queimar todos os seus escritos num gesto extremo de suplício ontológico-afetivo. (Nós aceitamos o trágico.) Entretanto, a despeito de toda a cruenta burocracia, Rogério sobreviveu, e gradativamente foi retomando seu trabalho espiritual, e escrevendo novos poemas, até que decidiu reuni-los em "Tropicaos". "É sempre bom tomar uma Pepsi antes de morrer", ele comenta, assumindo sua real condição de verdadeiro sucessor temperamental de Antonin Artaud.

Com efeito, depois de suicidado, Rogério acabou tornando-se um arauto do existencialismo experimental, utopia verbivocovisual cuja sombra áspera nos arremessa às margens de um tenebroso abismo, qual seja, o mais fundamental dilema da contra-cultura reacionária: ao aceitarmos suas teorias, necessariamente somos levados a colocar o próprio corpo na frigideira social; rejeitando-as, somos condenados a atravessar a vida de olhos vendados. "Tento fazer uma boa sopa com esses ossos do já suportado, mas haverá alguma fome para ela?", desafia Rogério, o que me leva a pensar que, de fato, ouvir sua voz é a única forma de sair do silêncio, e cair em sua morte é o único modo de evitar o suicídio. Portanto, público literário, quantas putas vesgas vocês querem que eu foda no olho até convencê-los de que "Tropicaos" é o serviço libertário mais obrigatório do underground situacionista?

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Egeu Laus
 

Fábio,
Que tal para ilustrar colocar alguns trabalhos do Rogério?
Talvez o cartaz de "Deus e o Diabo" ou as capas de Caetano ou Gil... Da' uma olhada em algo que escrevi aqui no Overmundo.
Abraço!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 16/3/2007 12:27
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Fabio Godoh
 

Beleza, cara! Coloquei ali a capa do livro, que tem vários trabalhos do Rogério! Valeu pela sugestão!
Abraço!

Fabio Godoh · Porto Alegre, RS 17/3/2007 04:14
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Adroaldo Bauer
 

Não entendo das vesgas,
Nem devo me reportar às tortas,
Há homens assim também,
E quem se disponha a tanto.
Porém, Fábio Arauto, há que se dizer de teu texto que ele nos convoca a libertar as figuras do passado, armar as cabeleiras que já não há e psicodelicar as garatujas de dijahoje.
Era tanto bom o tempo daquela criação como dura era a dita e, por cause, daquele jeito e forma se deu.
Gostei.
Vou engordar minha lista de livros a mancheia: Tropicaos nela!

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 19/3/2007 16:08
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Luizao Ouro Preto
 

Não precisa tanto, Fábio: já me convenci.

Luizao Ouro Preto · Ouro Preto, MG 20/3/2007 12:05
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alexandre alencar
 

Esse Rogério du-arte...

alexandre alencar · Rio de Janeiro, RJ 26/11/2008 16:45
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