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Mostra etnográfica: diário de campo

(takomabibelot sobre mosaico de George F. Fishman, no Flickr.com CC-BY)
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Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ
17/11/2007 · 369 · 11
 

RITUAL DE INICIAÇÃO

- Oi, Mario. Lembra de mim?
Mario Wiedemann foi meu colega na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Eu cursava graduação em Comunicação Social e ele, em Ciências Sociais. Meu foco era o jornalismo e o dele, a antropologia. A convite da professora Rosane Manhães Prado, queridíssima, viajei com ela, Mario e Roberta Zanatta, seus orientandos, para a Ilha Grande, mais precisamente, para a recôndita Praia da Longa, onde os três desenvolvem uma pesquisa com os moradores da região. Foi lá que me iniciei na seita dos etnográfos. Uma viagem inesquecível. A Longa é uma praia bem pequenininha, habitada por cerca de 90 domicílios, desde engenheiros florestais em repouso, como o Seu Mauro, até humildes pescadores que aos 84 anos largaram esposa e quatro filhos em Angra dos Reis para viverem sós na Longa, como o Seu Ditinho. Seres fantásticos como os gêmeos Branquinho e Pretinho, cada qual com a sua cor. E vagalumes – muitos vagalumes – nunca vi tantos como naquela noite!
Mario me olha um pouco constrangido. Acho que ele nunca me viu na vida.
- Lembro, claro – e um sorriso amarelo.
Talvez eu passe um pouco despercebido na multidão, sem nenhum grande atributo chamativo, nenhuma cicatriz cruzando as maçãs do rosto, nenhum olho de vidro, nenhuma verruga na ponta do nariz ou um cocar no alto da cabeça. Um sujeito comum. Talvez eu não seja digno de nota. Talvez não seja do tipo a ser observado.


OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE NA SALA DE PROJEÇÃO

Depois de um suspense vai-não-vai, os organizadores abrem a porta do cinema e rapidamente a lotação cumpre todos os assentos. Ao meu lado, um sujeito vira para o outro e diz:
- Mostra Etnográfica, não é? O que é esse etnográfico? É de “cultura”?
- Acho que de “etnia”, não?
- Tipo, os guaranis são uma etnia. É isso?
- Mas acho que aqui não tem muito a ver com índio. É outro sentido, mais no sentido de “cultura” mesmo.

O ritual de sentar numa sala escura para assistir a um filme é algo muito curioso se desnaturalizado. Eu poderia ter ido assistir a Kahehijü Ügühütu, o manejo da câmera e a Pïrinop, meu primeiro contato, dois filmes que versam sobre o primeiro contato de uma dada etnia indígena com a câmera e o cinema. Assim, talvez o etnográfico no sentido de “etnia” dos sujeitos que conversavam aí em cima podia se fazer valer. Mas quem disse que o sentido de etnia e o sentido de cultura não estão entrelaçados? Eu fiz que não ouvi nada, para também não precisar falar.

Na poltrona da frente, um sujeito meio baixinho, moreno, grisalho se sentou sob o pretexto de que:
- Quero ficar bem ao lado do meu cineasta!

A Mostra de Filmes Etnográficos tem essa empática oportunidade de se poder assistir ao filme com diretores e realizadores, e, no fim, debatê-los. É uma experiência muito interessante. E eu, sabendo disso de outras primaveras, não me assustei nem um pouco. Estava ali na minha diagonal direita o diretor de um dos filmes. Mas aquele sujeito grisalho continuava a me incomodar. Fosse porque falava alto ou porque punha a cabeça na minha frente. Eu me ajeitei para assistir o máximo que coubesse no espaço entre uma cabeça e outra – não foi tão ruim. O susto maior veio quando um dos produtores da mostra anunciou a ilustre presença não apenas dos respectivos diretores como também do principal personagem de dois dos filmes, Seu Evando do Santos. Seu Evando, os mais espertos já devem ter adivinhado, era exatamente o sujeito “cabeçudo” e “tagarela” que sentou na minha frente.

É estranho pensar na situação de se assistir a um filme sobre você. Estranho pensar na situação de você ser objeto de um documentário etnográfico. Mais estranho ainda pensar que o filme sobre você que é objeto de pesquisa ou objeto de cinema concorre em um festival e você está lá para assisti-lo e debatê-lo ao lado de uns quantos desconhecidos. Estranho pensar em você mesmo como algo exótico. Mas o Seu Evando já deve estar acostumado. Foi com um aceno de cabeça e um sinal de positivo com o polegar que ele respondeu e me fez começar a enxergar a mim mesmo como um observador participante ali, naquela sala de cinema.


ETNOGRAFIA DOS FILMES ETNOGRÁFICOS

Mas em certa altura eu volto à questão dos dois ao meu lado. O que quereria dizer o etnográfico como adjetivo de filme? O que afinal é um filme etnográfico? Definitivamente não saberia conceituar filme etnográfico como um gênero. Também seria um pouco reducionista dizer que é um tipo de documentário – muito embora o “gênero” documentário tenha nascido a partir de uma distinção dos chamados filmes de viagens, logo depois que Flaherty pôs a narrativa à prova em seu docudrama Nanook of the North, sobre o contato com uma tribo esquimó. Filme etnográfico é um produto de impressões do etnográfo sobre a realidade pesquisada. Não sei se minha definição é tautológica demais, mas a mim me parece que o barato de se assistir a um filme desses não é somente pelo personagem que constitui o “etno” pesquisado, mas também pelas escolhas mediadas pelo “graphos”. E, ali, naquela sessão que contrapunha O homem-livro ao Pedreiro literário, ficava claro que essas escolhas não são fruto do acaso.

O homem-livro é um filme de Anna Azevedo, cineasta e jornalista, foi o ganhador do 39º Festival de Brasília como melhor filme pelo júri popular. O Pedreiro literário é de Luiz Claudio Lima, professor de geografia e morador, assim como Seu Evando, da Vila da Penha, subúrbio do Rio de Janeiro. Luiz Claudio era aquele tal a que Seu Evando se referiu como “meu cineasta” antes de a sessão começar. Anna estava sentada mais longe.

Os dois filmes contavam um pouco a história de Evando e sua luta para construir uma biblioteca pública na Vila da Penha. Pedreiro por profissão, a paixão pelos livros, como ele próprio conta, começou ao aprender a ler através da Bíblia. Dali, partiu para ajuntar em casa, “por livre e espontânea pressão” sobre a esposa, os seus mais de 45 mil livros. A casa de Seu Evando é, acreditem, um mar de livros, ou, como na analogia perfeita que Anna propõe sem dizer em uma das suas poéticas cenas, os livros são os tijolos da casa. O filme de Anna conta o início: num programa de entrevistas ao vivo com Niemeyer, uma voz aparece no ar e diz:
- Mestre, admiro muito seu trabalho. Eu tenho o sonho de construir uma biblioteca na Vila da Penha, mas não tenho recursos. O senhor não poderia me ajudar com o projeto arquitetônico?
A apresentadora já estava para cortar a ligação quando veio a resposta:
- Estou pronto.
Luiz Claudio Lima mostra um pouco mais o dia-a-dia, a obra, o Seu Evando pintando versos e dizeres no meio-fio da rua para enfeitá-la para a biblioteca.
- Embora não tenhamos filmado a obra propriamente dita ela se fez presente o tempo inteiro, até pelo som durante as filmagens – diz Anna, referindo-se à construção física da biblioteca, trabalho para pedreiro nenhum botar defeito.

Estava plantada uma pequena diferença. Anna diz que seu filme é uma tentativa de “fazer do filme um livro”, explorando sempre a relação de Seu Evando com os livros e a literatura. Para Luiz, o Seu Evando “é mais do que um homem-livro. Ele tem uma relação muito interessante com o lugar” e tome brasa puxada para a sua sardinha. Seu Evando, o próprio, não se mantém imparcial para falar de um e de outro:
- O filme da professora Anna é uma obra machadiana. O do nosso Luiz é Lima Barreto. Do povão mesmo. É o Gláuber.
Um estudante de cinema se contorce na platéia:
- Me desculpe a franqueza, eu não vejo no filme do Luiz uma preocupação autoral. Gláuber tinha esta preocupação – diz o jovem.
- A autoria está em dar voz ao personagem. Aliás, não gosto de chamar de personagem. Para mim, o Seu Evando não é um personagem, é uma pessoa. E eu não queria mostrá-lo como algo exótico.

O debate seguiu agitado. A constatação era de que o filme de Anna é mais técnico, bastante poético, uma obra-prima. O de Luiz é um filme “heróico” (nas palavras de Seu Evando), uma “obra aberta” (nas palavras de Luiz). Ganhador do Festival de Brasília, O homem-livro chega credenciado à Mostra de Filmes Etnográficos. Mas Anna não saiu imune às brincadeiras de Seu Evando, que encampava o projeto de Luiz de filmá-lo desde 2001 e acumular material biográfico a seu respeito e criticava a falta de envolvimento da cineasta, registrando até a queixa de um certo sumiço após as filmagens. O distanciamento entre Anna e Seu Evando ficou inconscientemente implícito na posição que cada um ocupou nas cadeiras para o debate. Numa ponta estava Evando. Ao lado dele, Luiz. Uma outra diretora (a do filme Almir Mavignier. Memórias coletivas, também exibido na sessão) e a pesquisadora que a acompanhava estavam no meio, e Anna só do outro lado. A velha rixa entre observação e participação, exotismo e familiaridade na etnografia moderna estava a pleno vapor no debate sobre os dois filmes.


DESCRIÇÃO DENSA DO PERSONAGEM

Seu Evando é um figuraça. E eu não mentiria se dissesse que o grande barato em tê-lo como personagem é justamente a consciência que ele tem sobre isso. Atuando carregadamente como se estivesse no teatro, ao invés de no cinema, seu ar político me obriga a concordar com o veredito de Anna, “Seu Evando é um homem de tiradas!”

A entrada triunfal, deixando de lado as desculpas de que é tímido para então descer ao debate, foi logo quando ouviu que a moça da primeira fileira era uma alemã.
- É alemã, é? De verdade? Puxa, então tira uma foto comigo? Eu adoro o seu país. Eu adoro a Alemanha.
Ele não estava mentindo. Tirou a foto. E justificou sua paixão pela Alemanha dizendo que gosta mesmo é da paixão de Tobias Barreto, seu ídolo-mor, pela nação germânica.

Em dois momentos dignos de serem colados aqui como citações, ele dizia:
- Só há duas coisas boas na vida: o beijo e a leitura. Mas o beijo, tem uma hora que acaba.
e
- O livro quer que você o domine para que ele possa lhe dominar.
Mas o instante emblemático foi ainda no filme de Anna, quando ouvi da boca do personagem a mais perfeita definição de Paulo Coelho:
- É a Xuxa da literatura brasileira.
Para chegar a uma definição como essa, eu mais tarde compreendi, é preciso, como diria mesmo Seu Evando, “lapidar o intelecto”.

A biblioteca ainda não foi inaugurada. Está emperrada nas burocracias da política brasileira. Com projeto de Niemeyer e apoio do BNDES, o prédio, no entanto, só terá espaço para 10 mil livros. O que fazer com os outros 35 mil?


ANTROPOLOGIA INTERPRETATIVA DA NOITE

O burburinho durante os filmes é de um público que talvez esteja mais interessado em discutir o filme do que em assisti-lo. O burburinho durante o debate idem. Mas o bom etnógrafo faz do contratempo sua própria etnografia.


MEMÓRIA SOCIAL

O filme termina. Depois dele o debate. Eu saio feliz com a experiência, mas desesperançado em cruzar novamente com Mario e ser reconhecido. Olho para ele de cabeça baixa, como quem não quer nada. E ele:
- Falou, Viktor. Um abraço.

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Benny Franklin

Cara, simplesmente fantástico!
Tua descrição é simplesmente educativa... Texto primoroso.
Um dos melhores do tema.
É isso...
Abçs.

Benny Franklin · Belém, PA 17/11/2007 00:06
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Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A

Bom texto, Viktor... Achei curiosa a diferença entre um e outro filme... que é reflexo da relação direção/objeto...

Objeto: coisa mais fria... Fica assim mesmo.

Abraços!

Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE 17/11/2007 12:47
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Denis Sen@

Muito bom, gostei muito do mosaico.


Axé!


Denis Sen@ · Salvador, BA 17/11/2007 15:22
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Kais Ismail

Muito bom!!

Kais Ismail · Porto Alegre, RS 17/11/2007 18:13
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André Dib

Realmente, texto excelente. Etnográfico e cultural :)
Boa postagem, Viktor.

André Dib · Olinda, PE 17/11/2007 20:25
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Viktor Chagas

Oi, pessoal. Muitíssimo obrigado a todos!
Henrique, a comparação entre os dois filmes é de fato riquíssima. E o mais interessante é exatamente o ponto que você levanta: o apesar de o sujeito de ambos os filmes ser o mesmo, o objeto é bem diferente. :)

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 17/11/2007 21:58
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Cintia Thome

Interessante colaboração, uma experiência importante para você. Interessante discutir Lima Barreto/Glauber. E a relação de
etnia/cultura. Boa experiência aqui dividida. Viktor Chagas.

Cintia Thome · São Paulo, SP 18/11/2007 09:03
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TaYgUa's

Artigo aprovado!

Dá uma ollhadinha?
A Evolução da Ditadura no Brasil,

Abraços!
http://www.overmundo.com.br/overblog/editorial-a-evolucao-da-ditadura-no-brasil

TaYgUa's · Fortaleza, CE 18/11/2007 13:10
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Spírito Santo

VIktor,

Muito bacana o teu texto. Foi bom saber também de sua experiência etnológica, grata surpresa para mim que gosto desta praia.

Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 18/11/2007 19:56
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Jaqueline Gomes

Oi Victor, que texto bom heim cara?!
estava lá e conheço o mário (ps ele n cursava, ainda cursa... rs) mas diga-se de passagem sua definição aproxima-se da minha que é compartilhada por alguns amigos: o filme é etnográfico, quando a experiencia é antropológica, qnd queremos ouvir e deixar falar o outro. é básica eu sei. é pouca, eu sei. mas prefiro pensá-lo assim.

Jaqueline Gomes · São João de Meriti, RJ 11/6/2008 22:13
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Viktor Chagas

Olá, Jaqueline,
É isso aí. A definição é simples mesmo e qualquer tentativa de aprofundá-la ("ouvir e deixar falar o outro é uma utopia", "em essência, não existe filme etnográfico") é meramente cair em lugar-comum. :)
Obrigado pelo comentário. Abraços a você (e ao Mario)! :)

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 11/6/2008 22:38
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