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MPB: vítima ou beneficiária da Indústria Cultural?

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Lúcio Xavier · Curitiba, PR
22/1/2008 · 135 · 11
 

Este ensaio pretende apresentar diversos aspectos da trajetória de um estilo musical que, no Brasil, se convencionou chamar de música popular brasileira (MPB) e, também, levantar algumas questões acerca das diversas formas com que este tipo de música foi objetivado por seus produtores e apropriado pela sociedade, sejam nos campos da política, do lazer, da identificação enquanto grupo social e outros.
A música, no Brasil, tornou-se, de fato, um produto artístico de maior difusão na sociedade, principalmente a partir das décadas de 1920 e 30. Compositores como: Noel rosa, Pixinguinha, Dorival Caymmi, Ary Barroso, Lamartine Babo, entre outros nomes deste período, inauguraram a proposta de se experimentar novas formas no campo popular e, conseqüentemente, conquistar um público fiel – que surgia com o aparecimento das rádios, recém implantadas no país.
Com a difusão do rádio ao longo dos anos 30, a música popular passou a ocupar espaços cada vez maiores no campo cultural brasileiro, principalmente como decorrência do interesse, por parte das instituições culturais do governo Vargas, nos músicos populares. Segundo Santuza Cambraia Naves (2001), a música, principalmente o samba, compunha, neste período, um importante elemento no projeto de consolidação da identidade nacional, implementado pelo governo de Getúlio. A institucionalização dos desfiles das escolas de samba no Rio de Janeiro, até então relegadas a espaços marginais da cidade (morros e favelas) se configuraram como fenômeno importante no processo de cooptação, pelo governo, das manifestações populares. Com isso, têm-se as inúmeras analises, da história da música, que apontam para o caráter épico dos samba-enredos, onde se procura exaltar a natureza e a cultura nacionais. Entre essa imensa variedade de representações do nacional, destaca-se a figura de Carmem Miranda – na maioria das vezes vista como um estereótipo da brasilidade.
Na década de 40 a ascensão da Rádio Nacional, com seu extenso elenco de estrelas, concorria para a popularização de cantores, instrumentistas e compositores, demonstrando, assim, a importância alcançada pelo rádio como grande elemento de popularização da música. Conforme Naves (2001), neste período, a música passa por uma espécie de atualização através do estilo bossa-nova, com a recente batida introduzida por João Gilberto e um certo requinte harmônico de Tom Jobim.
Com essa nova proposta, a canção popular perde no começo seu público de massa no Brasil, retomando-o no final dos anos 50 e início dos 60, quando os ouvidos parecem se familiarizar com a bossa, graças a sucessos extraordinários de canções como “Garota de Ipanema”, de Tom Jobim e Vinícius de Morares (1963).
Em seguida surge uma nova categoria de compositores populares, formada por jovens universitários politizados, muitos deles imbuídos da concepção nacional popular predominante entre os grupos de esquerda. É nesse contexto que se constitui a sigla MPB (Música Popular Brasileira).
Frederico Oliveira Coelho (2001) coloca que as canções caracterizadas por este rótulo aliavam complexidade formal e substância política. Apesar da influência marcante de músicos e letristas fundamentais de períodos anteriores, como Tom Jobim, Vinícius de Moraes e Carlos Lyra, as canções que participaram da era dos festivais e da expansão da televisão nos lares brasileiros ganharam um status poético diferente junto à intelectualidade brasileira.
No entanto, se na era do rádio a apropriação das músicas divulgadas se dava em larga escala, incluindo os vários segmentos sociais, a partir dos anos 60 a música popular passa a ter um público mais segmentado, identificado com a classe média intelectualizada, conquistando, dessa, maneira, espaço nos principais jornais e revistas. Em resumo, a canção torna-se o meio privilegiado para discutir os temas culturais e políticos.
Em seu livro O Fantasma da Revolução Brasileira (1993) Marcelo Ridenti apresenta uma forte disputa entre duas correntes estéticas que polarizaram o debate cultural nos anos 60: aquela que se poderia rotular como “formalista” ou “vanguardista” e uma outra defensora do “nacional e popular”.
No campo da música, expõe Ridenti, à tendência nacional-popular poderiam ser alinhados nomes como: Geraldo Vandré, Sérgio Ricardo, Chico Buarque, entre outros empenhados na busca das raízes da cultura brasileira, da liberação nacional, no avanço pela superação do imperialismo e dos supostos resquícios feudais nas relações de trabalho no campo, enquanto que a chamada linha formalista chamava a atenção para que a pretensa revolução no conteúdo das mensagens deveria implicar antes de mais nada uma revolução na forma das artes, e, citando o poeta russo Maiakovski afirmavam que: “sem forma revolucionária não há arte revolucionária”.
Ridenti apresenta, ainda, a análise de alguns críticos em relação ao movimento estético nacional e popular que se autoproclamava revolucionário. Para estes o movimento não propunha a ruptura com o capitalismo, mas sim a independência do “imperialismo cultural”. Isto é, propunha-se o desenvolvimento autônomo da tradição cultural do “povo”, o que implicaria, ao menos num primeiro momento, o funcionamento autóctone do capitalismo brasileiro, sustentado por um mercado interno em que a riqueza tivesse uma distribuição mais eqüitativa.
E foi justamente contra essa independência do “imperialismo cultural”, que no final da década de 60 nascia o Movimento Tropicalista – identificado com a corrente formalista – propondo a ruptura com tudo que era rançoso, produzindo uma nova forma, muito mais colorida, de enxergar as coisas, de entender o país, de assumi-lo ambiguamente como antigo e moderno ao mesmo tempo .
Em vez do nacionalismo, os tropicalistas sugeriam pensar a cultura local em diálogo permanente com a cultura universal; em vez de algo impalpável tratado como popular, lidar efetivamente com a realidade das massas urbanas e incorporar elementos da música de outros países aos da música brasileira , ou seja, seguir o curso da música universal que se dinamizava cada vez mais a cada ano.
Enfim, o que interessa, pelo menos aqui neste ensaio, não é identificar ou definir qual das correntes estéticas se propunha realmente revolucionária ou qual seria a melhor indicada para configurar o universo cultural brasileiro, mas sim, que ambas – com grande atuação da linguagem musical – formaram canais de discussão e procuraram difundir um determinado nível de consciência à sociedade, chamando a atenção para problemáticas no campo cultural, político, social e outros. Tanto, que a década de 70 vai evidenciar na MPB, além dos elementos contraculturais, a crítica aos rumos da ditadura militar; em letras amorosas ou com temáticas subjetivas, metáforas e mensagens cifradas contra o regime ditatorial; o que determinou a música como um dos grandes alvos da censura imposta ao país.
Além da censura, outros temas povoaram a discussão intelectual sobre a música popular nos anos 70, como sua íntima relação com a crescente indústria de massa e o flerte de alguns compositores com a contracultura. O florescimento, nesse período, de uma música cada vez mais comercial e voltada para o consumo fácil, contrastava com a atitude gauche com relação ao mercado, de uma parcela de compositores que a própria intelectualidade e a mídia da época classificaram como “pós-tropicalistas” ou “malditos”. A canção popular, difundida como objeto cultural de qualidade indiscutível nos anos 60, se torna, nos 70, cada vez mais múltipla e fragmentada .
Com a difusão e o crescimento das bandas de rock nos anos 80, essa multiplicidade se intensifica a ponto de surgirem cisões entre diversas tendências que produziram nas linhas do experimental, do “comercialesco”, do transgressor ou do festivo, entre outras oposições criadas no período. Mas ainda nessa época, se destacavam nas letras as referências constantes à situação de redemocratização e à crise econômica e política por que passou o país no período.
Mas, no entanto, Ridenti apresenta uma análise de Sérgio Paulo Rouanet a respeito da utilização, pela indústria cultural dos anos 80, da proposta nacional-popular dos anos 60, mostrando a criação de uma caricatura, de uma deformação daquela proposta de vinte anos atrás. Nas palavras de Rouanet:

Se o nacional-popular da mídia [dos anos80] se parece com alguma coisa, é efetivamente com o modelo praticado no Brasil nos anos 60 (...) a idéia de autenticidade que a mídia interpreta como defesa do mercado brasileiro contra os enlatados americanos e a preocupação com a identidade cultural, que a televisão procura resgatar reservando um espaço para programações regionais, intercaladas entre programas de âmbito nacional. é dele enfim, que vem seu traço mais típico, o antielitismo, concebido como repúdio à cultura erudita (...) seriam inegáveis as afinidades estruturais importantes entre a autolegitimação nacionalista e populista da indústria cultural brasileira [atual] e as antigas bandeiras nacionalistas e populares.

Seria então, os anos 80, o período que inaugura o efetivo domínio da indústria cultural sobre a música popular brasileira? Claro que a questão vai muito mais além de se identificar um marco ou uma gênese que explique esse atual “imperialismo midiático” sobre a música. No entanto, de uma forma ou de outra acaba sendo inevitável estabelecer questionamentos acerca da extrema diversificação do cenário musical de hoje em dia e para isso relaciona-lo ao passado.
Em nenhuma época anterior houve tantos gêneros musicais diferentes veiculados pela mídia. Presencia-se, de igual forma, uma novidade em termos de recepção, pois os estilos contemporâneos, como o funk, o rap, o pagode, a música sertaneja e os ritmos baianos, ao se pautarem por critérios de etnia, de orientação sexual, de estilos de vida, ou mesmo geracionais, promovem uma segmentação do público.
O rap, por exemplo, entrou no país com força a partir dos anos 80 e se consolidou na década de 90, introduzindo novidades não apenas musicais, mas também comportamentais. Retomou, de uma forma nova, a relação entre arte e vida no contexto da música popular, ao permitir, através do canto falado, que o compositor privilegiasse a experiência cotidiana na comunidade de origem. Além de utilizar uma divulgação boca-a-boca e um tipo de edição mais artesanal, que escapava da centralização promovida pelas grandes gravadoras.
Porém, o que fez desaparecer, da música popular brasileira, aquele caráter de relação entre música popular e resistência política, cultural e social? Uma das possibilidades sedutoras é a de procurar entender as manifestações musicais contemporâneas recorrendo às teorias que dão conta do processo de globalização e da emergência dos discursos moderno e pós-moderno.
O processo de globalização trouxe consigo a reestruturação produtiva e a extrema mercantilização da cultura, lançando, no mercado, a música como produto fetichizado e artigo de modas.
Se por um lado a indústria cultural lança no mercado inúmeros modelos e estilos, o que dá a sensação de poder optar e escolher, seja pelo Mangue Beat de Recife, o pagode (paulistano e carioca), o reggae, o funk, o rap, a música eletrônica e uma série de outros ritmos, ao mesmo tempo ela padroniza a dimensão subjetiva dos indivíduos de maneira a coisificá-los e, por meio da eleição arbitrária de um padrão, leva-los à uma busca constante e desenfreada por uma estética ideal, esquecendo, assim, qualquer outro caráter que a música possibilitou em épocas anteriores.
Enfim, nessa grande feira da atual música popular brasileira, será que ainda há campo para se discutir quem são seus grandes beneficiários e suas vítimas?





REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
NAVES. Santuza Cambraia e COELHO. Frederico Oliveira. Os olhos cheios de cores. Revista de História. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional. n.1, jul/2005.

NAVES. Santuza Cambraia, COELHO. Frederico Oliveira, BACAL. Tatiana e MEDEIROS. Thais. Levantamento e comentário crítico de estudos acadêmicos sobre música popular no Brasil. ANPOCS bib – Revista Brasileira de Informação Bibliográfica em Ciências Sociais. São Paulo. n.51, 1ºsemestre/2001.


RIDENTI. Marcelo. O fantasma da revolução brasileira. São Paulo: Edunesp, 1993.

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hugoveloso
 

Lúcio, achei bem bacana o assunto que você colocou e também o seu texto. Então, resolvi comentar...

Em primeiro lugar, é diferente pensar em um país com uma realidade de 180 milhões de habitantes com expectativa média de vida de 70 anos e um país de 35 milhões de habitantes, com expectativa de vida de 35 anos, como na década de 30.
O rádio nos anos 30 e 40 investiu em qualidade de programação. Afinal, qualidade era um parâmetro de uma indústria que pensava o futuro cultural do Brasil numa linha reta. A massificação da música, que obtém fôlego no final dos anos 50 e início dos anos 60, nos colocou numa realidade completamente diferente: aí você tinha a música mais comercial e a MPB, com essa divisão entre conteudistas e formalistas. Os conteudistas queriam criar uma barreira à essa massificação; os formalistas, queriam utilizar-se dela num movimento antropofágico.
O movimento tropicalista, ao contrário do que pensa a maioria, foi o movimento mais pessimista da história da nossa canção popular. Caetano, como já falou em inúmeras entrevistas, achava “bobo” o otimismo das canções de protesto, da vitória do sujeito histórico. Percebeu que era necessário algo como “juntar-se a eles” - ao mercado, à realidade emergente – e dar a nossa cara, a nossa forma de ser brasileiro.
Chico Buarque nunca foi um conteudista, como se afirma corriqueiramente. Na realidade, Chico parecia prever, assim como Nara e Bethânia, que essa briga entre conteúdo e forma era uma grande tolice. Tanto que foi superada com a modernidade. O fato de Chico fazer músicas com conteúdo social não o fazia um defensor do conteúdo em detrimento da forma. Ele nunca fez esse discurso e sua obra é extremamente formalista em alguns aspectos, com exemplos até gritantes em “Pedro Pedreiro”, de 1965 e “Construção”, de 1970.
Geraldo Vandré defendeu, na prática, o conteudismo, assim como Sergio Ricardo. O fato é que – para se observar que essa divisão entre conteúdo e forma é inaceitável – esses mesmos compositores radicalizaram justamente na forma. Vandré, com suas canções de dois acordes e Sergio, em canções experimentalíssimas harmonicamente, do nível que Chico só fez no LP de 89 e nos CD´s “As cidades” e “Carioca” (a canção de Chico dos anos 60 e 70 é extremamente popular).
Na modernidade, com a vitória da massificação, o aumento explosivo das cidades e a formação da indústria do disco tal como ela foi até alguns anos atrás (totalmente diferente do modelo praticamente artesanal de canção brasileira até os anos 60), surge essa diversificação enorme de produtos musicais.
Não creio que seja produtivo discutir o que é qualidade porque a modernidade explodiu esse conceito. Podemos dizer que há canções que buscam soluções fáceis e outras, mais elaboradas. Na MPB com harmonias mais elegantes há verdadeiros “mela-cuecas” que são coleções de clichês harmônicos da bossa e letras fracas. No rap, há músicas de melodias pueris que, junto com a letra, são um achado. Outras, que as pessoas dizem ser muito boas pela letra extensa e de conteúdo social, não passam de verborragia.
Quanto a essa “coisificação” das pessoas, é um discurso muito perigoso. Como “coisificar” as pessoas? As pessoas compram a música da mídia porque querem. Especialmente hoje, com o advento da internet e o fim inevitável da indústria do disco, há uma liberdade imensa para se ouvir o que se quer.
Esse discurso de “coisificação” é o da esquerda. Quando as coisas não estão como ela quer, a esquerda diz que é alienado. Algo como o que os religiosos radicais fazem: dizem que é coisa do diabo.
No que tange a ganhar e perder, não consigo nem imaginar o que isso quer dizer. A música brasileira foi gerada do turbilhão histórico. Não dá pra pensar que a realidade musical brasileira será a mesma dos anos 30.
Enfim, torçamos para que artistas, público e aqueles que participam do processo de produção cultural optem por soluções estéticas honestas para suas consciências, a fim de que se produzem coisas belas para se ouvir e cantar.

Abraços

hugoveloso · Suzano, SP 19/1/2008 04:52
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Spírito Santo
 

Lúcio,

Gostei demais desta matéria (e do comentário do Hugo).
Panos para mangas como faz bem às boas conversas.

São vários os aspectos a comentar (quase nada a discordar), mas, dois me chamaram particularmente a atenção:

Pra começar, acho de todo modo exagerada a importância que se dá à Bossa Nova enquanto fenômeno modernizador da MPB. Há uma certa tendência, neste caso, a subestimar diversos outras atitudes e manifestações musicais que, antes, durante e depois se aglutinaram, a partir de nexos próprios à conjuntura social e cultural da época, para se consusbstanciar no que se convencionou chamar de ‘Bossa Nova’.

Ao que tudo indica há, infelizmente, numa espécie de vício acadêmico arraigado em nossas ciências sociais ( não só aí, é claro), uma forte tendência a subestimar, ou mesmo desconsiderar (a maioria das vezes por pura ignorância mesmo) a dinâmica da cultura brasileira à luz de TODOS os seus atores e agentes, puxando um pouco a brasa, os louros da invenção da modernidade, para as chamadas elites.

É o velho e recorrente (ou eventual) elitismo acadêmico, tão conhecido quanto mal estudado por aqui.

Neste caso específico, só a guisa de exemplo, desconsidera-se que no final da década de 1930, a nossa música popular de então (a música da 'ralé', bem entendido), se viu fortemente influenciada pela música negra norte americana, notadamente um gênero eletrizante chamado ‘Swing’ que veio até nós com os primeiros filmes musicais de Hollywood e pelo rádio.

Pois foi, ao que parece, a fusão entre este ‘Swing’, caracterizado pela musica de pequenas bandas de metais, trombones, saxofones, pistões, e o Samba tradicional que rendeu um gênero muito importante para a modernização da música popular urbana que foi o ‘Samba praticado nos ‘Dancings’, com efeito um fenômeno pouquíssimo citado quando se fala no assunto Modernidade na Música popular do Brasil.

Logo em seguida, pelas mesmas fontes, o Samba sofreu a influência do gênero que sucedeu ao Swing, o Fox-Blues, agora marcado pela ascensão das Bigs bands, grande fenômeno do pós guerra e sucesso absoluto nas quadras de nossas escolas de Samba, por mais incrível que isto possa parecer.

Observado este pequeno detalhe, seria impensável compreender a gestação da Bossa Nova – e sua ‘influência do Jazz’ - sem a inclusão de Geraldo Pereira (para citar apenas um nome entre tantos omitidos), um dos melhores representantes desta maravilhosa fusão entre a música negra norte americana e a nossa (no caso o Samba), o Samba swingado das gafieiras. É só ouvir ‘Bolinha de Papel’ na voz do João Gilberto.

São incontáveis os exemplos. Conheci por exemplo muito bem, um grande violonista bahiano que, ainda nos anos 40/50, tocando violão e guitarra na orquestra da Rádio Sociedade da Bahia em Salvador, deu aulas para quase todo mundo que foi importante para a MPB um pouco depois, inclusive João Gilberto, além de Caetano Velloso, Gilberto Gil e Egberto Gismonti. Esta figura compôs bem antes da Bossa Nova, o que foi, tempos depois, considerado um clássico da...Bossa Nova, gravado por Sergio Mendes chamado ‘Tim-Dom-Dom’.

E se tiver sido ele o criador da batida da Bossa Nova? Quantos aqui conhecem esta figura chamada Clodoaldo Brito, o outrora popular Codó?

Dar crédito a quem de direito seria a única forma de se compreender, realmente , como tudo se deu.

Outro aspecto, (este curioso) é que na análise da evolução de nossa música popular- quando não é para se tecer loas - se costuma passar batido, pelo fenômeno denominado ‘Rock Brasil’, principalmente no que diz respeito á discutível qualidade artística da maioria de seus representantes (formada por sofríveis bandas Covers de bandas gringas), inteiramente desproporcional ao formidável naco de mercado que o fenômeno ocupou. Como explicar o sucesso do fenômeno que só tem certa qualidade, assim mesmo muito pontual, (algumas coisas do Cazuza, do Renato Russo, talvez)?

Teria sido uma estratégia de marketing muito bem sucedida da indústria fonográfica norte americana, estimulando sucedâneos nacionais para abrir caminho para seus produtos originais? Não foi isto que aconteceu? Ou não?

De resto, reconhecendo – e admitindo debater- o viés aparentemente populista deste meu comentário, fico com o sentido geral do post do Lúcio quando coloca a possibilidade de haver vítimas nesta história. Claro. A vida das sociedades humanas é assim. É a dinâmica de nossa evolução. Uns perdem outros ganham. É naturalíssimo.

A questão que se coloca então é que é necessário e importante se contar a história sem omitir ou subestimar nenhum detalhe, para que a vida siga corretamente o seu curso. É o rigor científico mostrando o seu valor inestimável, doa a quem doer.

A Cesar o que é de César. A História e o Futuro agradecem.

Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 20/1/2008 09:37
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hugoveloso
 



Concordo contigo quando você fala do tratamento dado à Bossa Nova por muitos trabalhos acadêmicos, que fazem verdadeira mistificação do fenômeno.
Creio, na realidade, que a Bossa Nova virou um paradigma importante. Um símbolo. Não que, efetivamente, a criação da geração Bossa Nova seja a excelência musical brasileira em detrimento das outras coisas. O próprio João Gilberto prefere ser chamado de sambista e gravou inúmeras canções de Geraldo Pereira, como você citou, Wilson Batista e Herivelto Martins, justamente este, um crítico ferrenho do movimento.
Sobre o canto brasileiro, um equívoco absurdo se comete quando se fala que João Gilberto teria inaugurado o canto mais falado, sendo precedido apenas por Mário Reis, que cantava em staccato. Descabido totalmente. Vassourinha, Roberto Silva, Ciro Monteiro, uma infinidade de cantores já usavam esse tipo de canto mais para o coloquial. O que acontece em João Gilberto é a radicalidade. Há interpretações dele, inclusive, em que ele vai “atropelando” os compassos para dar um sentido falado da canção. Fantástico. Todavia, não dá pra dizer que depois dele, todo mundo cantou soprado. Tirando Nara Leão e Nana Caymmi, a imensa maioria das grandes cantoras continuavam a usar a potência vocal no seu canto, como Elis, Maysa, Clara Nunes... Bethânia dos anos 80 pra cá usou e abusou de seus vibratos, a Gal na fase mais popular soltou a voz...
Quanto ao rock, acredito que virou mania porque é simples melodicamente, fácil de se assimilado e produzido e, também, porque é produto da cultura “jovem”, que é “radical” (não sei em quê, mas esse é o discurso) e rejeita a tradição como forma de se dizer original. Essa originalidade é de se gargalhar... desde quando copiar a moda é sinônimo de originalidade?
Outro ponto que fez o rock crescer é que a MPB, para se legitimar como a “poderosa do pedaço”, no fim dos anos 70 e início dos 80, ou envelheceu ou se intelectualizou, sendo incompatível com as novas realidades sociais. Aí, falam... e o Lenine? Pois é... mas o Lenine bebeu do rock também. No fim das contas, o que temos hoje com alguma repercussão na mídia - mesmo a mais alternativa - e com certa qualidade artística, é resultado da fusão entre MPB e o rock. Não que não hajam bons trabalhos só de MPB, mas esses trabalhos ficaram à margem, nos Sesc´s da vida.
No que trata de estratégias de marketing norte-americana para que consumíssemos música deles, naturalmente, sim. O rock nacional abriu campo para o rock internacional, também (não que ele já não fosse forte no Brasil). Esse foi um fenômeno mundial. Nos anos 80, na Alemanha, falar em música alemã era pedir pra ser achincalhado. Só se produzia rock ao estilo americano.
Mas cabe uma ressalva... o Brasil não se defendeu porque não quis. Aliás, qualquer país do mundo pode dizer que foi prejudicado pelo poder do marketing da música americana. Menos o Brasil. O Brasil não tem esse direito. Não há outra canção popular do mundo, a não ser a brasileira, a fazer frente com a americana. Na verdade, o Brasil não teve competência para criar uma boa indústria fonográfica no mundo. E perdeu o bonde da história. Podia lucrar com isso, podia aproveitar a moda que foi a Bossa Nova no mundo, a curiosidade que ela gerou como fenômeno de mídia. E não fez. E não adianta pôr a culpa nos EUA. Somos vítimas profissionais. Portugal, Espanha, Holanda, Inglaterra e EUA já comeram o nosso toco. Quando o império americano ruir, quem vai ser o próximo? A indústria de discos acabou e não vendemos discos por incompetência estratégica, por vocação ao amadorismo. Preferimos deixar de ter uma indústria de música, de cinema fortes para ficar investindo em comunidadezinha disso e daquilo, numa eterna favelização tupiniquim.
Felizmente, algumas iniciativas, ainda que tímidas, como a Biscoito Fino, estão começando a marcar presença no aqui e mundo. Tem um selos bacanas. Vamos ver no que dá, né?
Abraços


hugoveloso · Suzano, SP 20/1/2008 11:37
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Spírito Santo
 

hugo,
(Papo bom este, heim,?)
Estou contigo. Só faltou dizer quem deu esta bobeira toda. Os agentes da bobeira foram, evidentemente, quem usufruiu com o eu chamaria, sem muita originalidade, de aculturação. Realmente, tem um pessoal tirando partido de 'nossa' incompetência (baixou um dèja vu agora, incrível). A culpa não pode ser atribuída a um vago 'EUA', mas, também não pode ser atribuída a um difuso 'Brasil'.
Afinal, se o Brasil 'somos nós', cabe bem a pergunta (não pra você, é claro):

_"Nós quem, cara pálida?"

Abraços

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 20/1/2008 13:07
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hugoveloso
 

É, o papo está bacana.
Realmente, não há como precisar esse "nós", não é? Tivemos e temos uma sucessão de governos malucos, apáticos à importância da cultura como mercado; uma elite econômica tão ignorante quanto a maior parte do nosso povo; e um provincianismo intelectual absurdo, que só fez distanciar o artista do mercado, o que fez a classe artística ficar refém das "tetas" do Estado.
No entanto, acho que ocorreram coisas importantes, vitais para sairmos dessa situação de marasmo: uma, a privatização da telefonia (talvez não tenha sido feita da melhor maneira, mas causou um avanço importante do setor no país), o que permitiu alavancar o mercado musical na internet; políticas de estímulos ao setor de informática e a atuação de Gilberto Gil, que tem trabalhado por uma modernização da realidade do direito autoral e pelo escoamento da produção independente. Só me incomoda em Gil ele não ter radicalizado como deveria na busca de parcerias público-privadas. Recentemente, eu fiz um texto que fala do shopping como um (possível) parceiro da atividade cultural. Está no meu perfil, mas abaixo, segue um trecho:
“O teatro, a biblioteca, o artística plástico, não tem meios de concorrer com o shopping. Mas podem tê-lo como aliado. As prefeituras podem e devem negociar com shoppings lugares para apresentações teatrais e musicais, espaços para bibliotecas, discussões sobre literatura e para obras de artístas plásticos. Elas podem negociar incentivos fiscais para tais atividades e a iniciativa privada vai acabar vendo, inclusive, que pode lucrar e muito com isso tudo. Que tal comer uma batata frita e dar uma olhada nos quadros da rapaziada jovem?
O Estado pode e deve, inclusive isentar de impostos novas construções de shopping para ter o espaço para a biblioteca, para o teatro de bolso, para a galeria de arte... para isso, o ranço
ideológico tem que ser deixado de lado. E a competência, a postura gerencial, tem que começar a valer.”
Abraços

hugoveloso · Suzano, SP 20/1/2008 18:41
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Spírito Santo
 

hugo,
Muito pertinentes as suas reflexões. Eu, que sou um dinossauro que viveu intensamente a cultura da fulgurante década de 70, me espanto todo dia com a incúria de todos, artistas, governos, empresários, comerciantes, todo mundo.
Esta sua idéia da cultura nos shopings, por exemplo, quer coisa mais simples e funcional? Os lojistas mesmo podiam pagar uma cota condominial qualquer que garantisse um mínimo de atividades de cultura e entretenimento. Iriam lucrar muito mais com isto, com certeza.
Ao que parece, há uma ignorância muito arraigada na formação cultural de nossas elites (com toda a abrangência que a palavra pode conter) que faz com que as pessoas que poderiam estar empreendendo este tipo de ação cultural, tomando a frente de reinvidicações como esta, tão simples de serem viabilizadas, estejam com a mente embotada pelo hedonismo, o individualismo, envolvidas num ambiente de consumismo tão predatório, alienado e estúpido que tudo fica neste marasmo de sempre.
Acho que grande responsabilidade é mesmo dos políticos e do governo, gente tão egoísta e irresponsável quanto ignorante, inculta (no sentido lato do termo).
O jeito é a gente ir quebrando as pedras do caminho, enquanto aguentarmos.

Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 20/1/2008 19:42
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Danielle Ribeiro
 

a arte como um todo é uma vítima ...

Danielle Ribeiro · São Paulo, SP 22/1/2008 16:00
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Spírito Santo
 

Grande Dani!
Fechou o raciocínio com uma síntese brilhante.

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 22/1/2008 16:23
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Mansur
 

Que Deus nos ajude! A confusão é grande, e o papo é pertinente e necessário. Colocando lenha na fogueira: Qual fato se demonstra quando: ao ministro da cultura é permitido ter contratos pessoais com uma multinacional fonográfica? Isso é lícito? É legal? Já que é o Gil, pode? Porque o Gil não toca no assunto "jabá"? Em que país democrático do mundo há uma empresa de comunicação que detém 70% de toda verba de publicidade? As concessões de radiodifusão no Brasil foram licitadas? Nas mãos de quem está o sistema radiofônico brasileiro? Nas mãos de que máfia?
Vou parar por aqui, por enquanto...

Mansur · Rio de Janeiro, RJ 23/1/2008 15:29
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Téo Ruiz
 

Pois é Mansur, existe, na verdade, um projeto de lei pra criminalizar o jabá. Longe de querer defender o Gil, mas eu vi uma entrevista dele que ele condena o jabá publicamente, e inclusive a OMB.

Vou ler os comentários acima e depois volto a comentar aqui.

Mas o artigo traz uma discussão fundamental. Acho bacana pensarmos "MPB" hoje em dia. Na verdade, acredito que hoje não faz mais sentido pensar em MPB como estilo musical, e sim como uma verdadeira instituição, em seu conceito pleno. Isso porque, como traz o próprio artigo, ao se falar de MPB estamos, inevitavelmente, tratando da história recente do Brasil, de nossa sociedade. Existe um livro chamado Ao Pé da Letra da Canção Popular, que conta nossa história do século XX através da música. Quer dizer, a MPB ultrapassou a música, já é muito mais do que isso. Vejam o artigo que fiz sobre a Contra-Indústria, no livro tratamos desse conceito. Também discutimos um pouco dessa história recente da música brasileira focando na mídia, para depois chegar na música independente. Muito em sintonia com esse artigo.

Desculpe não ter comentado antes, estou numa fase muito ocupada!
Abraços a todos, vamos manter a discussão.

Téo Ruiz · Curitiba, PR 29/1/2008 10:09
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valdezz
 

otimo texto o teu e os comentários tambem são como complementos desse tema tão vasto parabéns!!!!!!!!!!!

valdezz · Arraial do Cabo, RJ 27/11/2008 09:30
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