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Mr. Catra: SP e Baixada.

Autumn Sonnichsen
1
André Maleronka · São Paulo, SP
12/3/2007 · 366 · 28
 

De seu sampler MPC o DJ Edgar dispara um som etéreo. O carioca Mr. Catra entra no palco e começa sua apresentação rezando um Pai Nosso a plenos pulmões, que no caso, não é pouco. Catra tem um timbre áspero, grave e facilmente reconhecível. O louvor começou como um pedido a Deus e logo torna-se um anúncio da sacanagem que vem por aí, a chegada dos pecadores e seus atos: “Deus abençoe a PUTARIAAAAAAAA!!!!!!”, ele berra, e o DJ toca nos pads o Tamborzão, um dos ritmos mais famosos do som carioca, que combina um loop do som Volt Mix, feito pelo DJ estadunidense Battery Brain em 1988, batidas de 808 e atabaques de candomblé. O MC está totalmente à vontade: enquanto o DJ constrói batidas ao vivo com reforço dos CD-Js, ele canta um breve medley de seus bordões mais famosos, e então mente: “hoje eu não vou cantar proibidão, hoje eu não vou cantar putaria, hoje é só cultura. E cultura é MPB. Mas agora eu vou cantar é rock”. Sai das caixas o riff inicial de um sucesso ruim do rock nacional, os olhares da platéia parecem confusos por um instante, mas eis que Edgar solta o batidão e Catra começa sua versão sacana, e o que era uma música aborrecida torna-se diversão ilimitada. O MC é um grande cantor, sua voz maltratada pela balada tem alcance, e ele se diverte mudando as métricas das rimas, fazendo um balanço fino em cima dos graves marcados decalcados do Miami Bass. A versão brasileira é ainda mais sexualista, é radical, agressivo, sem dó. Continuando suas subversões rítmicas e melódicas, Catra destrói “Uma Tarde em Itapuã” e outros cânones sagrados da Música Popular Brasleira com letras falando abertamente sobre o que pode acontecer entre quatro paredes, mostrando uma predileção (temática, ao menos) pelo sexo oral. A dupla usa também a versão instrumental de The Next Episode de Dr. Dre, e a orquestração sampleada de David Axelrod combina com a grandiloqüência do baile funk – um jogo entre simplicidade e teatralidade. Pára a base, Catra entoa Is This Love de Bob Marley, e as odes então são pra maconha. Na verdade uma tematização como essa é falha, valendo apenas para o tema central de cada canção, já que em sua antropofagia – no sentido de Oswald de Andrade – ele tudo mistura. Usa as canções e ondas mais populares pra fazer seu show (micareta, bossa nova, etc), e os elementos que trata em suas letras: sexo, drogas, protesto, morte, a vida boa nas favelas – estão mixados, costurados, como a própria vida. Catra – ou Wagner Domingues Costa - estreou nas prateleiras de CDs na década de 90, com os álbuns O Bonde do Justo e Esconderijo do Altíssimo, que saíram pela independente Zâmbia, mesma que lançou os primeiros discos dos Racionais MCs. Seus primeiros hits de baile foram O Retorno de Jedi, Vida na Cadeia e Peida Agora (Pra Não Peidar na Hora). Como dá pra sacar por esses títulos, ele se destacava pelo teor ácido de suas letras, tom que nunca perdeu. Suas letras conscientes e de denúncia social tinham esse quê da linguagem bandida usada nos Proibidões. Uma virada temática foi registrada pelo carioca de 37 anos (e dez filhos, todos com mulheres diferentes) em O Fiel, de 1999. O disco foi fruto de um contrato com a multinacional Warner, a respeito do qual Catra tem recordações amargas, e seguia a linha mais sensual do funk. Presente em seus primeiros álbuns, aqui a sacanagem era linha de frente. Imposição da gravadora ou não, dele saíram Mercenária, O Adestrador e O Simpático, essa última bem Proibidão, além de Cadê o Isqueiro (baseado no antigo sucesso do funk carioca Bonde do Rastafári, e utilizado mais tarde por Marcelo D2), Me Ter é Bom e Montagem Capô de Fusca. Atualmente ele só faz CDs em edições limitadas, como o intitulado Só Putaria, seu grito de guerra e engavetou o anunciado disco ao lado da banda de funk rock Os Apóstolos, que formou para uma temporada de 12 shows na Vila Mimosa, distrito de prostituição do RJ. Mesmo assim continua colecionando clássicos, como seu repertório safado atual e a incrível Sem Mistério.

Nesse momento ele já ganhou definitivamente a platéia de adolescentes periféricos e também o pessoal que está vendo o show das coxias – o empresário dessa noite, os funcionários da casa e seus amigos, o mesário, sua produtora e até um contratante de shows de Santos. O santista está pilhadíssimo de energético, não se agüentando em si, e está junto pra garantir que Catra vá fazer três shows na Baixada ainda essa noite. Não, nós não estamos em um baile na terra natal do funk, o Rio de Janeiro. Estamos na periferia de São Paulo. Por aqui, ao contrário do Rio, o funk não permeia a vida diária da cidade e de seus ocupantes: é um fenômeno periférico. O mundo é diferente, da ponte pra cá – o mundo é um gueto.

Mas a pequena grande entrada que o funk tem em São Paulo (lembre-se, a periferia é maior que o centro) também tem sua versão de luxo. Os bem-nascidos rebolam até o chão graças a um baile que capitalizou a onda do funk de dois anos atrás. A residência semanal do DJ Marlboro, atualmente o maior empreendedor – além de bom moço – do funk carioca, no clube Lov.e, localizado na rica Vila Olímpia, é sucesso, mas suas duas tentativas de realizar um grande festival na mesma vizinhança foram fracassos de público.

Os bailes no esquema carioca acontecem semanalmente em áreas distantes do centro, e na ensolarada Santos, onde o estilo tem até estrelas locais. Ao contrário de SP, a Baixada tem tradição no funk e já produziu até um herói de âmbito nacional, o MC Primo, exportado pro Rio e pro resto do Brasil via a ultima coletânea do DJ Marlboro. Há também heróis locais como a dupla Glória & Betinho e a revelação Gil do Marapé, que mostrou num baile no Espaço Santista o estilo que compartilha com Primo, fortemente influenciado pela temática de protesto do rap nacional, cujos maiores nomes estão alocados na vizinha São Paulo, e com muita cantoria onomatopéica.

Chegamos ao Espaço, um galpão tosco, com pé direito alto, lotado de gente e suor em pleno centro de Santos, depois de descer a Anchieta chuvosa acelerando. Logo na saída do primeiro baile nos perdemos do bonde do Catra, mas fomos seguindo Marco, irmão do empresário responsável por essa vinda dos cariocas ao Estado, que também pisava fundo. Mesmo assim perdemos o baile do Boulevard, na Praia Grande, de tão rápido que o carro do cantor foi. Essa é a prova que quando Catra dedica em seu show um medley de antigos sucessos da história do funk carioca aos MCs que faleceram “vítimas de acidentes, de violência, e de outras coisas”, não está fazendo demagogia.

No galpão, a maioria do público, novamente, é de adolescentes. Aqui o palco é muito alto, você teria que dobrar o pescoço pra trás para assistir o que se desenrola lá, daí que o espaço não se configura como uma casa de shows, mas como baile. Os caras de bermuda de surf, bonés, peitos nus, as meninas de minissaias, tops, shortinhos, se reúnem em pequenos grupos, dançando, conversando, bebendo, fumando. O ambiente é quente, mas nada carnavalesco. Ao calor térmico da ausência de ar condicionado e o calor sexual das pessoas comuns querendo a diversão máxima do sábado à noite contrapõe-se essa estrutura grupal – nos caminhos pra chegar ao bar, no fundo do baile, o que se sente é a importância do respeito. Muita gente muito louca, cheiro de sexo no ar, mas ninguém olha demais, nem atravessa na de ninguém. Tipo uma sessão de BDSM sem chicotes numa sauna molhada.

Enquanto MCs novatos se revezam no palco, todos concorrendo a dezenas de categorias de um prêmio local, anunciadas uma a uma pelo apresentador, Catra está sentando fumando, com cara de poucos amigos. Moças devidamente trajadas (calças justas, minissaias, calcinhas a mostra) borboleteiam do camarim pro palco. Após algum tempo, se irrita, levanta e vai pra porta do local, acompanhado pelo seu DJ, que já desmontou seu equipamento, e por elas. Vêm os donos do baile, e a conversa, na rua larga cheia de carros estacionados na transversal e barracas que vendem cachorro quente, cerveja e goró, é tensa. Depois de algumas subidas no tom de voz de ambas as partes, resolve voltar ao palco, onde faz um set de cerca de 15 minutos, sem muita empolgação, mas com boa resposta da audiência, que idolatra o MC carioca. O método de divulgação não poderia ser mais subterrâneo: o DJ Edgar traz vários CD-Rs na sua mala, cada um com cerca de 120 arquivos de MP3, e distribui pra os outros DJs nos lugares onde tocam. As faixas também são distribuídas via internet. Gravadora pra quê?

Próximo baile. A tensão que a trupe emanava se dissipa quando embarcamos no bote a motor para cruzar pro Guarujá – é a última apresentação da noite, estamos eu, a fotógrafa, Catra, DJ Edgar, o contratante pilhado e outro cara da trupe carioca, um gordinho vestido como rapper que se declara comandante do exército israelense. Ladeamos navios cargueiros enormes, todo mundo falando pra caralho, os olhos brilhantes. O semblante fechado de Mr. Catra some, fica um sacana maconheiro bom de papo. “Esse prejú vai ser no rabo do Serafim, não quero nem saber”, referindo-se ao contratante responsável, que já havia adiantado metade do cachê do Espaço Santista. No desembarque, um taxista se recusa a nos levar ao local da apresentação, alegando que são apenas quatro quadras até lá. Catra joga uma nota de dez reais no console, tudo resolvido. O galpão é ainda maior e está mais lotado que o anterior. Entramos pelos fundos, num anexo da cozinha somos presenteados com energéticos Bad Boy e um goró que eu não sei se era uísque ruim ou conhaque, tudo à vontade. Os ânimos sobem, a conversa fica ainda mais frenética, “essa SP portátil que você falou é boa, mas a MPC tem O som, tem que ser a MPC”, diz Egdar, enquanto Catra recebe os bolos de dinheiro pelo show que fará. O cachê por cada apresentação do MC é de quatro dígitos, e em uma noite de pouco movimento como essa – “no Rio a gente faz sete bailes por noite” – o ganho bruto chega à casa dos cinco. Todo mundo dá risada quando comentamos que o tal concurso do baile de Santos tinha a categoria Proibidão. Uma resposta bombástica de Catra à minha pergunta “porque não tem funk no prêmio Hutuz?” fica só em “Ah, mermãoooo!! Fulano é simpático, tá ligado? O...” - somos interrompidos e levados ao camarim, um quartinho com banheiro e sem janelas, passando pelo baile: mais de duas mil pessoas, a mesma freqüência, mas clima bem mais descontraído que o anterior. Gil do Marapé aparece pra cantar novamente e ganha elogios do ídolo.

A apresentação de Catra vai até o dia clarear, com direito a participações especiais: o comandante israelense ao microfone, uma adolescente subindo no palco pra pagar peitinho e a platéia fazendo coro para cada palavra. Ninguém arreda o pé enquanto O Fiel não pára. Na travessia de volta, sob o sol, Catra diz: “o funk é reconhecido na Europa como a verdadeira música eletrônica brasileira. Na Alemanha eles se amarram no som, porque a gente pegou o que eles fizeram e deixou melhor”, diz, referindo-se a outro dos alicerces do som gerado nas favelas cariocas, Planet Rock, de Afrika Bambaataa, que usa o tema de Trans-Europe Express.“Então eles escutam o que a gente faz e ficam loucos”. Aponto para seu anel, com uma estrela de Davi. “Eu sou judeu, é a religião mais antiga. Tá tudo certo, é o que está escrito ali. Eu respeito os muçulmanos, porque a religião deles é antiga também”. Além de várias turnês européias, Catra também já se apresentou em Israel uma vez, e deve voltar pra lá em breve.
Na loja de conveniência onde paramos pra comer somos convidados a ir pro hotel com eles. A arquitetura do lugar, que fica no alto de um morro, com vista panorâmica pro mar, lembrava um motel inacabado – material de construção espalhado pelo lobby, janelas sem vidro. Seguimos o bonde do Catra pra um anexo, achando se tratar de outra sala, mas encontramos uma cama gigante onde três das mulheres que estavam devidamente trajadas no Espaço Santista esperam nuas. As meninas topam ser fotografadas, e tentam convencer o artista a posar com elas. Ele declina e sobe com uma delas pra um quarto, pra se recuperar de mais um dia como os outros. Vida loka, vida delícia. Depois de uma sessão de fotos e algumas partidas de sinuca no lobby cheio de material de construção, a equipe continuava contagiada pela energia dos bailes. Fomos pra praia beber caipirinhas de maracujá até as quatro da tarde.

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