Muita Trêta nos muros de Boa Vista

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Marcelo Perez · Boa Vista, RR
17/12/2006 · 171 · 8
 

Bati um papo bem legal com o precursor do grafite em Boa Vista, Max Delly Melo Correia, o Max “Perna”. Um Pernambucano de 27 anos - daí o apelido “Perna”, que chegou em Boa Vista em 1999 e desde então não parou mais de grafitar toda a cidade. E os dedos sujos de tinta não me deixam duvidar disso.

“Perna”, Pernambuco, sua terra natal e local onde tudo começou. Quando adolescente, ele já curtia sair para pichar muros. “Era algo subversivo, eu era menor, queria mesmo ser do contra. Tudo coisa de adolescente”, afirma Max, que naquela época já mandava nas suas pichações alguns desenhos. Ele sempre gostou de desenhar, desde criança.

O grafite como arte e sobrevivência surgiu mesmo em Boa Vista. Max lembra que tudo começou de repente. “Era época de eleição e um candidato a vereador que tava apoiando os skatistas, eu falei com ele que fazia grafite. Na verdade eu até menti pra ele, sugeri que fizesse um grafite lá na pista e o cara acreditou. Aí eu tive que fazer. Ele me deu 10 latas de spray e eu disse – caramba, vou ter que me garantir...". Ele foi para o Parque Anauá, no half (pista vertical de skate) e ficou das nove da noite até às quatro da manhã. Grafitou uma paredona enorme, com mais de 3m. de altura. "Eu fui lá. Estourei o dedo todo. Foi quando eu senti a pressão do spray continuado. Você perde até a força na mão”, diz Max.

Nessa época ele ainda não tinha a menor pretensão. Max “Perna” estava envolvido em um movimento jovem, de grafite, de skate. A partir daí é que começaram a surgir pessoas interessadas no seu trabalho. A princípio elas lhe davam as latas de spray e ele mandava os grafites. “Depois de 1 ano é que começou a rolar grafite pago, as pessoas queriam me contratar”, diz Max.

Assim como o grafite começou para Max em Boa Vista, o grafite em Boa Vista começou com ele. Aos poucos percebeu que o campo era propício, não havia a cultura da pichação e com isso a população associava seus grafites à arte. Ele lembra que nessa época o grafite já tava na mídia, já era uma coisa legal. “A população não ofereceu rejeição como nos grandes centros, no qual o cara tem que ser um grafiteiro reconhecido pra não ser discriminado”, diz Max. Logo em seguida o chamaram para participar de uma obra da Prefeitura de Boa Vista. Deram a ele um muro gigantesco e lhe pediram orçamento. Sem experiência, Max não tinha a menor idéia de como cobrar o seu trabalho. Ele levou quase um mês grafitando a parede.

Depois desse trabalho, as pessoas de loja começaram a procurá-lo e com as sobras de spray dos trabalhos, Max fazia os seus grafites nas ruas de Boa Vista. “Não tinha a menor idéia que eu ia ganhar grana com isso, e eu pensei: Por que não? Tô fazendo algo que gosto e ainda tô ganhando grana com isso. Fui contratado por três anos pela Prefeitura Municipal de Boa Vista como grafiteiro, pintei vários painéis. Trabalhei na Secretaria de Obras com um arquiteto e aprendi as manhas. Perspectiva, isometria, eu fui passando esse conhecimento para os meus desenhos” diz Max. Em 2003 ele saiu da Prefeitura, e como já estava reconhecido na cidade, conseguiu ficar por conta própria e assim está até hoje.

Ele já deu umas voltas por Manaus e por São Paulo. Em São Paulo trocou experiências e aprendeu novas técnicas. Teve na escola de aprendiz, com o “Nóis”, o “Ema” e o “Dos”, grafiteiros de lá. Ele esteve no Beco do Aprendiz, que é um beco enorme e todo grafitado em Sampa e que tem uma escola de várias artes, inclusive o grafite. Em Manaus esteve com o Árabe, que é muito conceituado na cidade.

Quando começou a estudar na UFRR, Ciências Sociais (Antropologia), acabou ficando mais próximo do Reitor, que também é de Ciências Sociais e sugeriu a ele que eu fizesse uns grafites na Universidade. "Eu até me surpreendi, em um ambiente padronizado, uma coisa acadêmica e ele abriu espaço pra essa arte contemporânea, legal", diz Max. Ele começou a fazer os grafites, ganhou até uma grana e com o que sobrou fez uns grafites pela cidade. "Foi sempre assim, é como se fosse um dízimo. Eu faço um trabalho, recebo por aquilo, não é bem um grafite, eu não considero como um grafite aquilo que tu diz assim - Max, eu quero que tu faça dessa forma. Eu vou lá, uso a técnica mas não é grafite. Eu não tô tendo a liberdade de criar. Então, com as sobras das tintas eu vou e faço o que quero”, completa Max.

Quanto aos temas, ele não segue nenhuma tendência. Depende muito da situação, do contexto em que esteja vivendo. Nas eleições fez um grafite que retratava a corrupção. Como diz, “eu procuro retratar o cotidiano, umas críticas, uns alertas. Na verdade são fases. No começo eu queria fazer bonito, não interessava o tema, mas com o tempo eu fui adquirindo minhas técnicas. Não tinha ninguém pra me ensinar. Desse jeito eu tive que ir descobrindo com o passar do tempo. Os primeiros grafites saíram um monte de borrão e aos poucos eu ia vendo que aquele borrão, eu poderia ajeitar aqui, ali, acolá e ia modificando. Depois que eu fui pegando mais experiência, eu comecei a tematizar a coisa”.

Geralmente ele faz o desenho antes, o projeto, o esboço, mas teve casos em que foi direto para parede. “Não sigo uma linha, eu sempre faço dessa forma, meus temas são sempre esses, o estilo de letras de bonecos, eu não segui tendência, talvez se eu estivesse em Manaus ou São Paulo, onde o pessoal já tem um ritmo, uma tendência, uma seqüência a seguir, mas aqui eu fiquei isolado”. Ele não tinha ninguém, era só ele. Somente quando conseguia sair de Boa Vista e ir para Manaus ou São Paulo, é que ele conseguia absorver novas visões sobre esta arte, de como os grafiteiros viam e qual a atitude deles com relação ao grafite, mas sempre tendo consciência de que são contextos diferentes. Em Manaus ou São Paulo e em outros grandes centros tem a questão da pichação, do vandalismo, do preconceito. Em Boa Vista já não tem, é bem peculiar em relação ao resto do Brasil, não tem a pichação.

Em 2003 apareceu uma turma, eram dez, pedindo a ele que os ensinassem e Max não deu as costas. Desses dez, ficaram três e depois entraram mais dois, que acabaram juntando a equipe que tem hoje. “Esta turma ficou firme, adquiriram estilo próprio. Eu não fico mais dizendo, faz assim ou daquele jeito, já pegaram a manha” diz Max.
Max, hoje, se encontra na fase de fazer temas com críticas sociais, talvez devido ao curso que freqüenta na UFRR. “Tô utilizando o grafite como veículo, uma forma de linguagem de intervenção mesmo, pra mim não basta só fazer pra ficar bonito. Eu quero passar uma idéia, é como aquele grafite que tem ali no Parlatório e que tem a crítica ao capitalismo total, sem nada escrito. O cifrão na cabeça do planeta terra chorando lágrimas de sangue”, diz Max orgulho de sua cria.

Quanto as perspectivas, Max comenta que está super animado. Ele diz que começou uma oficina de grafite na UFRR. O MEC está financiando. “A gente tá pela pró-reitoria de extensão e com a parceria com o Museu do Estado de Roraima, tem uma galera nova, umas 15 pessoas, a tendência é expandir, o mercado tá crescendo, Ninguém mais quer aquelas letrinhas de máquina, eles querem seus letreiros personalizados”, afirma Max.

À partir de 2007 estará montando junto com a sua equipe uma cooperativa de grafiteiros, pessoa jurídica mesmo. Assim, ele acredita que conseguirá participar de licitações públicas e pegar trabalhos maiores. Já até criaram a sua marca: MUITA TRÊTA SKATEBOARD GRAFFITI E ARTE.

A marca foi lançada em um campeonato de skate, na periferia em dezembro de 2005. Eles fizeram uma “vaquinha” e compraram material pra grafitar umas camisas. Gastaram R$ 8,00 e venderam a R$ 5,00. foi só para divulgar a marca. E venderam tudo. “O pessoal da periferia sabe quem somos nós. As meninas se amarram nos estilos, MUITA TRETA GIRL. A idéia é que as pessoas identifiquem mesmo, o povo já tá cobrando mais camisetas”, diz Max entusiasmado. As camisas são feitas com pistola, com decalques e recortes. Os desenhos são mais minuciosos, o que atrai bastante ao público consumidor, pois é totalmente fora do padrão. “O grafite é o que tem de mais contemporâneo em artes plásticas. Não é elitizado, tá na rua, porém é efêmera, não dura mais que 4 anos. Depende mesmo do sol, do tempo que fica exposto a ele”, diz Max.

Max “Perna” encerra o bate papo com duas frases que não tira de sua cabeça: “Você é aquilo que pensa” e “Você é aquilo que faz”. Ele não sabe se foi ele que inventou ou ouviu em algum lugar, como disse, “é tudo colagem. O pós-moderno é assim”.


Serviço:
Max “Perna”
Tel: 95 XX 9113 - 1016
www.flogao.com.br/muitatreta288



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Fabinca
 

Marcelo, o teu texto está muito bom. O tema é interessante e bastante envolvente. Mas sugiro uma revisão.
Por exemplo:

"Quando começou a estudar na UFRR, Ciências Sociais (Antropologia), acabou ficando mais próximo do Reitor, que também é de Ciências Sociais e sugeriu a ele que eu fizesse uns grafites na Universidade."

"que eu fizesse" ou "que ele fizesse"?

"À partir de 2007 estará montando"

Aqui temos a crase errada e o emprego desnecessário do gerundismo (verbo estar + gerúndio para indicar o futuro).

Abraços

Fabiana

Fabinca · Bento Gonçalves, RS 16/12/2006 08:46
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
mirian simões
 

aprender nunca é demais
hoje esqueço o bom português com muita facilidade
há muita coisa nova
ainda bem que alguém sabe

mirian simões · Belo Horizonte, MG 18/12/2006 11:41
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Marcelo Perez
 

Valeu, Fabiana! Desculpe-me por não ter feito a correção necessária. Só tive acesso a net agora, pois me mudei esse fim de semana e acabei fazendo essa revisão correndo. Para completar pedi transferência da linha telefônica e não pude acompanhar a matéria na fila de edição. Você está corretíssima.
Um beijão
Marcelo

Marcelo Perez · Boa Vista, RR 18/12/2006 11:59
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Fabinca
 

Q pena! Agora não tem mais como editar.
Mas o texto tá valendo! O tema e a abordagem estão muito bons.
Abraços.

Fabinca · Bento Gonçalves, RS 18/12/2006 12:10
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Thiago Camelo
 

Concordo também que esses pequenos erros de português não influenciam na qualidade da matéria. Gostei muito da parte que diz que um dos motivos de ele ter prosperado foi o de não haver preconceito algum contra o grafite. Muito legal que por aí o grafite já nasceu sob o título de manifestação artística. Abraços!

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 19/12/2006 17:42
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Marcelo Perez
 

Isso mesmo, Thiago, os muros por aqui ainda estão limpos(da pichação). E o Max é responsável por toda essa arte espalhada pela cidade.
Abraços.

Marcelo Perez · Boa Vista, RR 20/12/2006 02:26
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pernagraffitiRR
 

valeu marcelo por esta entrevista vc foi bem fiel no que eu disse isso geralmente não acontece pois alguns mal-profissionais colocam aquilo que julgam interessante e acabam manipulando o contexto
só gostaria de uma correção bem pequena mas acho importante é que o nome da equipe é MUITA TRÊTA SKATEBOARD E GRAFFITI ARTE E NÃO (MUITA TRÊTA SKATEBOARD GRAFFITI E ARTE) senão da a impressão que o graffiti está separado da arte não é? mas isso é só um pequeno detalhe diante de toda a matéria. beleza? num fica com raiva não meu brother
gostaria de agradecer a todos que visitaram e gostaram da matperia pois foi tudo vindo de dentro do meu coração com todas as emoções possíveis ok?!
falou galera do evermundo!

pernagraffitiRR · Boa Vista, RR 20/12/2006 14:26
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Marcelo Perez
 

Valeu, Max!
Não posso mais editar, mas fica aí a correção feita por você. A galera curtiu muito.
Que raiva nada...Boas Festas pra você, meu brother! E muito spray pra 2007...
abração

Marcelo Perez · Boa Vista, RR 21/12/2006 01:24
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