Mulher Filé, Política e Espaço Público.
Por Antônio Agenor Barbosa*
Cena 1 – Buraco do Lume, no coração do Centro do Rio de Janeiro, no dia 1º de outubro de 2008. Junto à banca de jornal do Giuseppe Mannarino, por volta do meio dia, era impossível alguém conseguir passar por ali sem notar a aglomeração de dezenas de pessoas que praticamente se esbofeteavam na tentativa de saborear a mais nova guloseima estampada nas capas das revistas. Lá estava ela, na maior parte do tempo de costas para o público (é bom que se diga), abusando da sua condição de neo-celebridade, a intitulada Mulher Filé que, vestida com o seu micro shortinho branco, fazia a multidão delirar e gritar de forma ensurdecedora durante a exibição da dança do Pisca-Pisca-Bumbum (sic!)
Cena 2 - Buraco do Lume, no coração do Centro do Rio de Janeiro, no dia 1º de outubro de 2008. Também ali no entorno da banca de Jornal do Giuseppe Mannarino, por volta do meio dia, era impossível alguém parar e prestar atenção à grande quantidade de candidatos a prefeito e a vereador que, inutilmente, tentavam concorrer com a Mulher Filé.
Feitas estas duas observações acima, acho que dá para tentarmos fazer algumas breves reflexões:
1) Era a luta inglória da forma (ou das formas) contra o conteúdo. Na ausência total de um discurso político que seja capaz de reunir meia dúzia de gatos pingados em pleno Centro da Cidade do Rio de Janeiro, os candidatos tentam – aos gritos – chamar a atenção para o fraco conteúdo das suas idéias e propostas para a Cidade. Já a Mulher Filé não tinha microfone, não tinha filipetas sendo distribuídas com o seu currículo e também nada falou para o seu devoto público. A moça não expôs nenhum conteúdo já que as suas formas exuberantes, associadas à dança do Pisca-Pisca-Bumbum, já eram suficientes para conquistar a platéia.
2) Era também o embate entre a cidadania e o consumo. De um lado, candidatos conclamando os cidadãos para votarem certo e com consciência nas próximas eleições e, por outro lado, sem perceber que agia em um vetor diametralmente oposto, a Mulher Filé estava ali para ser literalmente consumida material e simbolicamente e, para tanto, reunia e seduzia seus potenciais consumidores. (Não posso deixar de mencionar que um apetitoso gourmet posou para fotos ao seu lado munido de garfo e faca que deslizava sobre a moça).
3) É claro que podemos apenas pensar que se tratava de uma grande brincadeira e que a Mulher Filé é apenas mais uma evolução protéica das suas ancestrais mais frugais como a Mulher Melancia, a Mulher Uva e a Mulher Moranguinho. Por outro lado sabemos que, infelizmente, a descrença com os políticos se transformou numa descrença com a Política. E podemos também pensar que o esvaziamento da esfera política rebatida no espaço público (nas suas dimensões físicas e cívicas) que hoje não mais coexistem nas cidades é a causa e também o efeito desta nossa própria descrença com a Política e, por que não dizer, com a própria Polis (Cidade).
Descrentes da Política que estamos é por que também estamos descrentes com a Cidade e com as atribuições tradicionais e mais reconhecidas historicamente de seus espaços públicos. Usei o pretexto da Mulher Filé apenas para ilustrar este fenômeno que nos aflige e que, me parece, torna-se cada vez mais irreversível.
Antônio Agenor Barbosa é Arquiteto / Urbanista e Professor Universitário.
Opa, Antônio,
Muito bacana o relato!
Fiquei curioso, na verdade, com um fator extra-texto: o que a Mulher Filé fazia na banca de jornal? Ou seja, além de dançar e chamar atenção, qual era a razão de ela estar ali? Você chegou a apurar isso?
Talvez fosse um lançamento de revista erótica. Mas por que aquela banca? Tinha alguma razão especial?
Fiquei curioso quando você falou do seu texto lá na oficina e agora pude conferir. Parabéns!!!
Legal vê-lo por aqui!!!
Abraços!!!
Gostei da sua reflexão. Infelismente é real.
claudia gomes · Salvador, BA 22/11/2008 14:54
Votei, porque gostei muito.
Se puder, leia o meu novo artigo também! Obrigado.
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