Mulheres, macaxeiras e melodias

Thomas Krzesaj
Distâncias amazônicas...
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daniel valentim · Juiz de Fora, MG
5/9/2006 · 214 · 6
 

Lá onde o Brasil torce o rabo, e uma linha que não existe resolve a partir de que ramo d’água, de folha ou de bicho já se é Colômbia, a mesma distância amazônica que, por um lado, não impediu o quase fim de aldeias – início de cidades – impede, por outro, que de lá saia qualquer coisa. Cidades chegam em aldeias, mas quando é que aldeias chegam em cidades? Ou por um acaso, alguém já sabia que entre as mulheres indígenas de diversas etnias da região do Alto Rio Negro há uma tradição de canto que tanto guarda belezas melódicas bem características quanto propõe uma interessante – e coincidente – relação com o repente nordestino?

“Acalanto: As Canções das Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro”, do pesquisador e musicólogo Ricardo Franco de Sá, foi o único projeto do Amazonas aprovado pelo programa Petrobras Cultural 2005, e apresentará, em forma de disco, um pouco dessa arte perdida entre os caminhos tortos de “progressos” e igarapés. Antes que eu seja acusado de leviano, entretanto, é bom esclarecer que a comparação com a tradição dos repentistas não tem nenhuma relação com o trabalho de Ricardo; trata-se apenas de uma observação pessoal sobre a espontaneidade com que as cantoras criam suas próprias letras a partir de melodias tradicionais.

Explicando: as linhas melódicas são uma espécie de “assinatura” de um clã ou família, e são passadas através das gerações a partir do movimento cotidiano, nas tarefas do dia, nos rituais e nas festas. Desde crianças, as mulheres vão aprendendo com suas mães e avós essas melodias, e a partir delas vão criando letras próprias, “de repente”, encaixando-as na estrutura da música. “Há uma grande riqueza de interpretação”, afirma Ricardo, o que, aliado às inflexões rítmicas bastante peculiares da região, cria uma espécie única de canto. “Nós vamos mostrar como existem cantos bonitos em lugares sem estudo de música, sem formação”, observa.

De acordo com o músico, o registro deverá abranger entre cinco e oito etnias, tendo como certas, canções dos Tukano, Dessana, Baré e Tariano. O CD sairá com 12 canções (gravadas in loco, sem acompanhamento de instrumentos), e encarte com letras das canções (no original e traduzidas) e detalhes sobre cada etnia presente no projeto. Trabalhar com possibilidades faz parte do método da equipe de Ricardo, que ainda inclui a antropóloga Andréa Prado, da Fundação Estadual de Política Indigenista, um técnico de som e um fotógrafo.

Com a ajuda da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), o grupo partirá – entre novembro e dezembro próximos – para São Gabriel da Cachoeira, aproveitando para visitar comunidades próximas, e em seguida rumam para Yauaretê, na divisa com a Colômbia. Durante esse trajeto, o que aparecer será lucro. “Tudo é descoberta em campo”, resume o músico.

Festa e trabalho

Como fora dito anteriormente, os cantos das índias são aprendidos no dia-a-dia, passados através de gerações. O disco será composto, portanto, por canções entoadas enquanto as mulheres ralavam macaxeira, trabalhavam em roçados, ninavam suas crianças ou serviam o caxiri (bebida alcoólica fermentada da macaxeira) durante as festas, no intervalo entre as músicas tocadas pelos Bayas (instrumentistas). “Elas cantam para eles uma espécie de cortejo, um agradecimento pela música”, explica Ricardo. Como se sabe, entretanto, aldeias são organizações cada vez menos freqüentes na atualidade. Algumas dessas cantoras ainda vivem em malocas comunitárias, mas a maioria mora na cidade, e apesar de conhecerem as melodias, “talvez nem tenham visto ritual algum”, lamenta o pesquisador.

Encontrar um ritual mesmo, para realizar a gravação dos cantos das mulheres, é uma possibilidade um pouco remota, mas não impossível, pois muitos dos representantes do movimento indigenista estão tentando resgatar a cultura indígena retomando essas práticas. Caso o grupo não encontre algumas destas manifestações, “Acalanto” será um exercício de memória.

Idéia e projeto

O projeto de “Acalanto” surgiu a partir de antigos discos da coleção do Padre Alcionilio e do biólogo Ettore Biocca, que continham gravações provenientes do Alto Rio Negro. “Ouvindo esses discos me inspirei em fazer o registro do canto das mulheres”, revela Ricardo, que já havia trabalhado com canções indígenas num CD anterior, intitulado “União dos Povos”, em que reunia índios de diversas etnias moradores da capital. Na época, Bernadete Andrade, superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) – onde o pesquisador trabalha –, o incentivou a tocar essa nova empreitada, inscrevendo um projeto no programa Petrobras Cultural.

“Acalanto” foi aprovado em agosto de 2005, e desde então vem passando por todos os trâmites burocráticos para o recebimento da verba. Se correr tubo certo com o cronograma das gravações, previsto para o fim do ano, o disco será lançado em abril de 2007.

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Ana Murta
 

Puxa Daniel, que grande colaboração! Deu muita vontade de ouvir essas cantoras do cotidiano. Aliás, deu muuita vontade de ver também. Valeu por me apresentar a mais esse Brasil.
(e linda foto!)

Ana Murta · Vitória, ES 5/9/2006 12:04
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Thiago Perpétuo
 

Taí a importância do registro de manifestações culturais de todo o gênero. Que essa iniciativa maravilhosa dê bons frutos, e destes, outras sementes. Imaginem o quanto de Brasil se perde em distantes igarapés, mangues, matas, com o avanço do "pogresso". Muito boa matéria.

Thiago Perpétuo · Brasília, DF 6/9/2006 11:58
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Daniel Cariello
 

Só a foto já dava uma bela colaboração para o banco de cultura. Mas a matéria também está bacana. Fiquei imaginando o tipo de música que elas fazem, com muita curiosidade.

Daniel Cariello · Brasília, DF 6/9/2006 18:51
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CrisLeme
 

Vou ficar de ouvido em pé, esperando sair o cd! Acho que o registro cultural (em qualquer suporte) é um trabalho importantíssimo. A cultura é dinâmica, práticas culturais surgem e desaparecem e muitas vezes é esse registro que serve de base para a reapropriação dessas práticas. Todo apoio ao "Acalanto" e às mulheres que preservaram essa manifestação para nós!

CrisLeme · Belo Horizonte, MG 7/9/2006 19:25
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Pepê Mattos
 

É o que anda faltando nas cabeças de certos gestores culturais Brasil afora. Uma idéia na mão e um projeto na gaveta. Infelizmente, é na gaveta que muitos deles encontram guarida. De uns tempos pra cá alguns movimentos de dentro da esfera federal têm dado respaldo à proliferação de inúmeras manifestações da cultura brasileira. É pouco, sabemos, mas é melhor que nada. Muitas culturas entram em processo de extinção sem que os órgãos federais se mexam para ao menos obter registros do seu legado para a posteridade. Iniciativas como esses do registro da cultura riquíssima de etnias que nem sabíamos que existiam mostra a importância de sítios virtuais como o Overmundo. Pago pra ver se sair em cd ou dvd esse belíssimo trabalho. Vou ficar de olho. Isso não pode faltar na minha prateleira de peças raríssimas. Abraços.

Pepê Mattos · Macapá, AP 7/5/2007 20:18
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Ru-reis
 

Olá! Como posso conseguir este CD? Eu ouvi ele todo no site da FUNAI, mas infelizmente não há informações de como adquirí-lo... Este material é riquíssimo, e de uma beleza incontestável!

Muito obrigada!

Ru-reis · Curitiba, PR 13/7/2016 15:25
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