Petrobras Lei Rouanet
 
 

Mundo pequeno, mundo grande

Situação do Espaço Cultural antes de o Palas entrar em cena.
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Edmar Cotrim · Silvânia, GO
28/2/2009 · 127 · 6
 


“Antes mundo era pequeno porque terra era grande
Hoje mundo é muito grande porque terra é pequena”
Gilberto Gil - Parabolicamará



Era o ano de 1985. Junho. Uma terça-feira? Talvez. Era mais um dia que passávamos em Goiânia num tipo de caçada, para nós agora sobre-humana. O que “caçávamos”? Um piano. Realizaríamos um grande evento cultural na pequena cidade daí a poucos dias e o sonho era que acontecesse um recital de piano.
Poucos souberam desse sonho frustrado, até porque o evento foi um grande sucesso – proporcional à fome daquela gente por artecultura.
Tudo havia começado alguns meses antes. Trabalhávamos numa pequena escola de segundo grau, curso técnico em contabilidade, Silvânia, interior do interior do Brasil. Ou seja: longe.
Longe, mas era o nosso mundo (mundinho?) e nele sabíamos por que lutar.
O professor Inácio José de Paula foi quem teve a ideia: um grande evento cultural, três dias, diversas atrações. Coisa que nosso mundo não conhecia, ou só de ouvir falar.
Reunimos alguns alunos e vendemos a ideia a eles, que compraram entusiasmados. Também amavam aquele mundo.
Precisávamos de um nome. Tomamos emprestado o da deusa grega da sabedoria e das artes e fizemos uma sigla: P.A.L.A.S. – Programa de Apoio à Literatura e às Artes em Silvânia.
Aquele era um outro tempo, um outro mundo e hoje é até ridículo falar das dificuldades que enfrentávamos. Mas a satisfação frente às que eram vencidas é ainda inesquecível. Coisas pequenas como conseguir um cartaz de divulgação do evento impresso (em duas cores, mas impresso)... dá pra rir. Ainda bem.
O sucesso foi tamanho que o evento ganhou ares de movimento e transcendeu os muros da escola. Nascia uma entidade – Palas, Sociedade Cultural Silvaniense.
O segundo ano foi apoteótico.
Diante da falta de local adequado para um evento do porte que queríamos, construímos uma pirâmide. Sim, uma pirâmide que guardava as medidas proporcionais da Grande Pirâmide do Egito, em homenagem a Quéops. No centro havia uma torre de pouco mais de 14 metros de altura, presa por quatro cabos de aço que dariam forma à pirâmide. Centenas de metros de pano foram comprados e costurados para cobrir a armação e dar forma final à pirâmide, como um circo.
Na hora de subir a armação, porém, quando as quatro pontas de pano, equivalentes aos quatro lados da pirâmide, estavam se tocando no alto, um vento pôs tudo abaixo. Estávamos a menos de 24 horas da abertura do evento e não havia tempo para lamentações. A solução foi dada por alguém menos desesperado. Fez-se um cone, colocado no alto e uma armação de três metros embaixo, rente ao chão. Estava dado o contorno final à obra. O evento aconteceu e foi inesquecível.
Hoje, relembrando esses acontecimentos, penso nos enormes obstáculos que tivemos de vencer para conseguir o que conseguimos. E, no entanto, a nossa vitória nunca foi além das fronteiras do nosso mundo, pequeno mundo.
O Palas durou seis anos e definhou. Mas deixou seu lugar na história do nosso mundo.
Hoje o Palas está de volta, reconfigurado.
Do velho grupo só fiquei eu, pretenso capitão de um grupo bem diferente daquele de vinte anos atrás.
No “velho Palas”, nós, os professores, éramos os que íamos à frente, que de certa forma sonhávamos e dividíamos os sonhos com os demais.
Um dia, isso em 2007 ainda, conversando com o Luis, falei a respeito do Palas, das coisas que tínhamos feito e do quanto aquela experiência tinha marcado época em nossas vidas. Ele se empolgou. Silvânia precisava de alguma coisa assim. Por que a gente não revivia o Palas? Por que não ressuscitá-lo?
Essa era uma idéia que nunca tinha me ocorrido. Acreditava que o Palas já tivesse tido seu tempo, sua história com ponto final. Mas...
Convidamos a Carol, a Mariana e o Felipe para uma reunião e lançamos a ideia. Depois vieram outros, e o Palas estava vivo de novo. Mas era outro Palas, outro tempo, outro mundo.
Se antes a gente ia à frente abrindo caminho, agora eu tinha a função de “segurar” o ímpeto da moçada.
Mas a diferença, que só agora percebo com maior nitidez, é que agora nosso mundo cresceu e a terra ficou verdadeiramente pequena. As lutas, conquistas, sonhos, derrotas, dificuldades, loucuras, que antes ficavam restritas ao nosso grupo, ao nosso mundinho, agora podem ser lançadas aos trocentos cantos do mundo.
E eu me alegro de poder levar ao mundo o exemplo de cidadania que tenho recebido desses jovens. Pra isso, preciso me alongar contando uma história.
Minha cidade é antiga, pelo menos para os padrões de Goiás – duzentos e tantos anos. E tem fama de “cultural”, tendo até já sido chamada de “Atenas de Goiás”. Coisas do nosso mundo...
Minha cidade tinha um cinema. Aliás construído por meu pai, Antonio Cotrim, grande pedreiro, um dos melhores que a cidade já teve. Mas o mérito da obra é de outro cidadão: Ivo de Paiva Lenza. Entusiasta, mobilizou uma campanha na cidade para angariar doações a serem usadas na obra, já que a prefeitura não dispunha de recursos para bancá-la sozinha. Chamou a campanha de Livro de Ouro – um livro onde as pessoas assinavam e anotavam na frente o quanto doariam para a obra.
Seu Ivo era o dono do Cartório de Registro de Imóveis. Nascido em Ipameri, a 150 km, adotou Silvânia por sua terra. Cuidadoso, organizado, guardava tudo o que se relacionasse à cidade, sobretudo jornais e fotografias. Mas também documentos. Uma vez, chamou meu irmão mais velho que eu e entregou-lhe o título de eleitor de meu pai. Naquela época, o título tinha foto e lá estava meu pai com seus 18 anos, na década de 1930. O juiz mandara jogar fora todos os títulos, substituindo-os por outros de novo modelo. Seu Ivo guardou. Assim ele era: cuidadoso.
O Cinema foi inaugurado no dia 31 de março de 1963, com a exibição do filme As neves do Kilimanjaro. Lá estava o seu Ivo como um dos operadores de projeção.
O tempo passou, porém, e o cinema foi ficando de lado.
Na década de 1980, o prédio passou por uma reforma e o grande telão de projeção dos filmes foi retirado. Passou a ser apenas um auditório com o nome de Espaço Cultural Juvenal Tavares.
Aos poucos, porém, até essa função foi sendo perdida. No final de 2003, o prédio ficou em total abandono, sendo tomado como morada de pombos.
Pois bem, não é que a meninada do Palas cismou que deveríamos revitalizar o Espaço Cultural?
A prefeitura, para se livrar do incômodo que era aquele prédio abandonado, doou-o para a Câmara, que pretendia reformá-lo para ali se instalar. Faltava apenas um detalhe para isso se concretizar: grana.
Fomos até a presidência da Câmara e pedimos autorização para tentar recursos para uma restauração do Espaço Cultural, para que ele voltasse a sua função original, como cinema. Alguns vereadores foram contra, mas como lhes faltasse recursos para a obra que pretendiam, concordaram e o local foi entregue ao Palas em regime de comodato.
Mas o Espaço se encontrava num estado lastimável. Alguém tentara expulsar os pombos de lá e colocara veneno para eles. Alguns morreram, mas reproduzir pra eles não é nenhum trabalho e em breve estava o local repleto das aves novamente. Mas com o agravante de haver muitos mortos espalhados por todo o prédio. Assim, o local era uma mistura de fezes de pombos, cadáveres de pombos, ninhos de pombos, penas de pombos, um insuportável cheiro de tudo isso junto num lugar fechado e muitos pombos, pombos demais até.
E os meninos queriam entrar e limpar o local.
- Gente! Calma! Não é assim! O local tá até perigoso, corre-se o risco de pegar uma doença qualquer lá.
Concordaram em que buscaríamos opinião da defesa sanitária e insistiríamos para que a Câmara e a Prefeitura fizessem a limpeza mais pesada.
Conseguimos que parte da sujeira fosse retirada, mas não consegui segurá-los por muito tempo.
- Se esta semana eles não limparem, no próximo sábado nós iremos.
Festa!
No sábado seguinte, fomos pra lá. Mangueira, rodos, vassouras, sabão em pó, detergente, água sanitária, luvas e máscaras. Tudo muito bem documentado em fotografias.
Depois de muito, mas muito trabalho, o local estava limpo. Quer dizer, mais ou menos limpo, já que era impossível retirar aquele cheiro horrível – e os pombos continuavam lá.
Percebemos que era preciso fazer mais.
Levamos um arquiteto ao local e ele nos orientou sobre o que poderia ser feito a curto prazo e se dispôs a trabalhar um projeto de reforma geral do prédio, para ser inscrito no Ministério da Cultura, Lei Rouanet.
Iniciamos então uma campanha para angariar recursos para uma reforma emergencial no prédio, a fim de que pudesse voltar a ser usado, ainda que precariamente (a cidade não dispõe de nenhum outro auditório para eventos, shows, palestras, etc.).
Fizemos uma solenidade para o lançamento do novo Livro de Ouro, revivendo a iniciativa de seu Ivo Lenza no início da década de 1960. Na solenidade, alguém se levanta dizendo que gostaria de fazer a primeira doação. Era a filha de seu Ivo que assinou o livro e fez a doação de cinco mil reais!
Os olhos dos meninos brilhavam. Estavam todos exultantes. Era um estímulo e tanto – e também uma responsabilidade. A sociedade estava depositando em nós uma confiança muito grande.
Outras doações vieram (não no mesmo patamar, é claro) e conseguimos arrecadar pouco mais de nove mil reais.
Com esse recurso, retiramos as goteiras do telhado, fechamos todas as entradas de pombos, retiramos o forro e o piso de taco (substituído por um cimentado rústico), pintamos as paredes e as cadeiras, reformamos a instalação elétrica e colocamos os banheiros em condições de uso.
No dia 15 de novembro de 2008 fizemos uma espécie de “inauguração” do Espaço com um belíssimo show com artistas locais. Depois disso, todos os finais de semana havia algum evento no Espaço Cultural, nosso ou de algum setor da comunidade.
Todo dia 31 de dezembro, a rádio local realiza um tipo de enquete em que se escolhe o fato mais significativo e também o “mico” do ano. E qual foi o fato do ano? A reabertura do Espaço Cultural. A comunidade reconhecia o trabalho dos jovens do Palas.
Em janeiro, o pessoal, de férias, resolveu exibir alguns filmes lá. Começaram a ser realizadas sessões às quartas e sextas.
Tudo ia bem até que um engenheiro vistoriou, a pedido nosso, o local e considerou que o telhado não oferece condições de segurança. E agora? O jeito foi suspender as sessões e o uso do local. Com pesar.
Houve polêmica no grupo. Havia quem não quisesse a suspensão: “Esse engenheiro não entende nada!” “A possibilidade de acontecer alguma coisa é muito remota!” “Se acontecer alguma coisa, quem estiver lá fica como mártir!”.
É nesses momentos que entra o meu “bom senso”. Interditamos o local e iniciamos nova campanha para trocarmos o telhado e reabrirmos o Espaço Cultural.
O que gostaria de ressaltar aqui é o empenho desses jovens, a vontade que eles têm de fazer alguma coisa pela cidade, pela juventude, sem se preocuparem com reconhecimento ou recompensa.
E depois ainda há quem diga que a juventude é alienada, acomodada, perdida...
Particularmente, acredito que com o que a sociedade adulta oferece aos jovens hoje, eles são na verdade heróis.
Encerro com outros versos, agora de Drummond, Poema de sete faces, que também fala de mundos:
“Mundo mundo vasto mundo
Se eu me chamasse Raimundo
Seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
Mais vasto é o meu coração”

E o nosso sonho.

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Hermano Vianna

Que saga bacana! Como seria bom que toda cidade brasileira tivesse um grupo como o Palas! Parabéns. Longa vida para o Centro Cultural - por favor anuncie sempre as atividades na agenda do Overmundo!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 25/2/2009 11:17
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Helena Aragão

Fiquei emocionada, Edmar. Que relato bonito e simples para uma iniciativa com as mesmas características... Parabéns para vocês e força para os meninos - eles já sabem como vale a pena... Abraço

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 25/2/2009 18:03
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Marlucia Gomes

Talvez a juventude precise mesmo é de um ideal e um lider.Energia esses jovens tem de sobra.Seu trabalho com o PALAS me deixa muito feliz, por você, pelos jovens e por Silvânia. "De vagar se vai ao longe". Força, a vida é luta.

Marlucia Gomes · Silvânia, GO 25/2/2009 21:50
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anjozete

Isso que é ideal de luta pela cultura, tenho muitas lembranças do PALAS foi muito especial em minha vida, aprendi muito...admirava cada apresentação que era feita com muito carinho e dedicação, e o publico retribuia ...muito legal, parabens Edmar!!!

anjozete · Silvânia, GO 27/2/2009 11:28
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Cintia Thome

Comovente. O empenho a perseverança em prol a cultura de uma cidade. Belo relato.abs

Cintia Thome · São Paulo, SP 28/2/2009 21:09
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José Marcos.

O Brasil tem jeito sim senhor,este e um exemplo para todos nós,ainda tenho na minha memória,aquela turma toda trabalhando com entúsiasmo, bem alí atrás do estádio,construirão uma pirâmide,e ali muitos livros,varal de poesias,resital,nossa cidade voltou a respirar cultura.Atenas de Goiás,porque não voltar a referir Bomfim novamente de Atenas?Nesta noite,eu que tinha meus 17 anos e sentinha orgulho de morar em Silvânia,embora estava estudando em outa cidade,era fantástico ver aquelas pessoas trasmitindo cultura,ensinando as pessoas a gostarem de ler,este dia ainda me lembro do festival gastronômico,arroz com pequí, era fora de epóca de estação do fruto rei do cerrado,foi uma maravilha,unirão arte com sabor.Más graças a Deus,estes jovens que são verdadeiros anjos,estão aí de volta dando vida nova ão Palas este povo que merece tanto, e precisa ver que a vida não se passa apenas em torno de um aparelho de televisor.Parabéns Edmar,parabéns Palas.

José Marcos. · Silvânia, GO 1/3/2009 19:11
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