Museu da Língua Portuguesa, não tem bairrismo aí?

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Gilberto G. Pereira · São Paulo, SP
3/3/2007 · 90 · 9
 

Na semana passada, fui ao Museu da Língua Portuguesa pela primeira vez, depois de semanas negando-me a entrega da espera em longas filas dolorosas à margem da Estação da Luz.

Fui e gostei. Gostei principalmente da abertura e da aula de história das línguas no segundo piso. Como em quase todo museu, o acesso à exposição do da Língua Portuguesa se dá num viés contrário ao de uma entrada convencional, é de cima pra baixo, como poderia ser de trás pra frente, ou algo assim. Subi, portanto, ao terceiro andar, para depois ir ao segundo e por fim apreciar as instalações sobre Grande Sertão: Veredas, no primeiro, porta de saída.

Tudo muito bonito. Uma beleza de encher os olhos, de lágrimas e contentamento. A apresentação do museu é feita numa sala escura, com abóbada hightech que projeta imagem de vários poetas e a leitura de seus versos, numa deliciosa apreciação da língua portuguesa.

Começa com Fernando Pessoa, Camões, e segue na verve de Drummond, João Cabral de Melo Neto, entre muitos outros. Termina com a trova interessante do repente de Caju e Castanha, uma dupla de versadores populares, que aparece ali mais como manifestação viva da língua, a pulsação do verbo.

Mas uma pulga atrapalhou meu encanto por um segundo. Numa cadeia de homenagens de poemas-citação a partir de Canção do exílio, de Gonçalves Dias (“Minha terra tem palmeiras/ onde canta o sabiá/ As aves que aqui gorjeiam/ não gorjeiam como lá”), apareceram paródias de Oswald de Andrade, Mário de Andrade e até a de um sujeito que assinava com o pseudônimo de Juó Bananère e que fazia versos num português macarrônico, à la ítalo-brasileiro, nas primeiras décadas do século XX. Há uma também de Murilo Mendes, o poeta que não fazia questão de ser popular.

Com exceção de Mendes, todos os parodistas da sudade e do exílio são paulistas. Por que não ouvi a deliciosa paródia de Mário Quintana “Minha terra não tem palmeiras/ e em vez de um mero sabiá/ cantam aves invisíveis/ nas palmeiras que não há”? Por que não? Seria porque se trata de homenagem aos paulistas? Mas por quê?, se o autor dos versos originais era maranhense? Mário Quintana fez falta. Aliás, não me lembro tê-lo ouvido em momento algum da apresentação.

O Museu está prestes a retirar a instalação de Grande Sertão: Veredas, o melhor livro da literatura brasileira de todos os tempos, e fazer uma de Clarisse Lispector. Quem sabe num futuro próximo não apareça alguma coisa de Quintana, poeta leve, de delicadas plumas, de uma sensibilidade sem igual.

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Cida Almeida
 

Essa pulguinha aí que mencionou deu uma coceirinha interessantíssima no seu texto e me aguçou mais ainda a vontade de conhecer o Museu da Língua Portuguesa. Considero Grande Sertão: Veredas um dos maiores livros da literatura universal. Que o Museu reverencie em suas instalações os nossos grandes autores: que venham Lígia, Quintana e ... Belo texto, meu caro.

Cida Almeida · Goiânia, GO 28/2/2007 17:20
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Higor Assis
 

Caro Gilberto.

Você como bom Paulistano que deve ser, pode ir mais vezes.
E antes d eolhar para o této que se mexe, ouça... vai ouvir o Quintana.

Abraços.

Higor Assis · São Paulo, SP 28/2/2007 18:19
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veronica couto
 

Caro, bom texto. Mas Murilo Mendes é mineiro, de Juiz de Fora. abs.

veronica couto · São Paulo, SP 28/2/2007 20:01
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Gilberto G. Pereira
 

Obrigado Verônica, pela correção. Você tem toda razão. E o que seria da literatura brasileira sem os mineiros, hein!: Rosa, Drummond, Murilo Mendes, Campos de Carvalho, Otto Lara Rezende, Affonso Romano de Sant'Anna, e tantos outros da nova geração, como Luiz Ruffato.

Gilberto G. Pereira · São Paulo, SP 28/2/2007 20:07
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Gilberto G. Pereira
 

Além da correção sugerida pela Verônica, gostaria de fazer outra: Clarice Lispector será a próxima homanageada no Museu de Língua Portuguesa, e não Lygia Telles, conforme escrevi. Mas não tenho idéia de como funciona a edição. Não encontro caminho. Fique, portanto, registrada minha boa vontade e minhas desculpas aos leitores.

Gilberto G. Pereira · São Paulo, SP 1/3/2007 09:34
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Mi [de Camila] Cortielha
 

Oi, Gilberto, você pode editar o seu texto ainda! Tem um ícone de lápis ao lado do título, é exatamente para isso que existe a Fila de Edição!

Mi [de Camila] Cortielha · Belo Horizonte, MG 1/3/2007 10:19
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Gilberto G. Pereira
 

Muito obrigado, Mi! Ainda estou tateando nesse universo novo (pra mim).

Gilberto G. Pereira · São Paulo, SP 2/3/2007 18:10
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Andreia Costa
 

vivos ou mortos, que sejam lembrados. Todos, brasileiros do Oiapoque ao Chui. Como são muitos é bom ter alguém para nos ajudar a lembrar, mesmo que eles ja estejam la, sempre é bom.

Andreia Costa · Belo Horizonte, MG 2/3/2007 20:10
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André Gonçalves
 

ainda vou por lá.

André Gonçalves · Teresina, PI 17/3/2007 10:51
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