Na semana passada, fui ao Museu da Língua Portuguesa pela primeira vez, depois de semanas negando-me a entrega da espera em longas filas dolorosas à margem da Estação da Luz.
Fui e gostei. Gostei principalmente da abertura e da aula de história das línguas no segundo piso. Como em quase todo museu, o acesso à exposição do da Língua Portuguesa se dá num viés contrário ao de uma entrada convencional, é de cima pra baixo, como poderia ser de trás pra frente, ou algo assim. Subi, portanto, ao terceiro andar, para depois ir ao segundo e por fim apreciar as instalações sobre Grande Sertão: Veredas, no primeiro, porta de saída.
Tudo muito bonito. Uma beleza de encher os olhos, de lágrimas e contentamento. A apresentação do museu é feita numa sala escura, com abóbada hightech que projeta imagem de vários poetas e a leitura de seus versos, numa deliciosa apreciação da língua portuguesa.
Começa com Fernando Pessoa, Camões, e segue na verve de Drummond, João Cabral de Melo Neto, entre muitos outros. Termina com a trova interessante do repente de Caju e Castanha, uma dupla de versadores populares, que aparece ali mais como manifestação viva da língua, a pulsação do verbo.
Mas uma pulga atrapalhou meu encanto por um segundo. Numa cadeia de homenagens de poemas-citação a partir de Canção do exílio, de Gonçalves Dias (“Minha terra tem palmeiras/ onde canta o sabiá/ As aves que aqui gorjeiam/ não gorjeiam como lá”), apareceram paródias de Oswald de Andrade, Mário de Andrade e até a de um sujeito que assinava com o pseudônimo de Juó Bananère e que fazia versos num português macarrônico, à la ítalo-brasileiro, nas primeiras décadas do século XX. Há uma também de Murilo Mendes, o poeta que não fazia questão de ser popular.
Com exceção de Mendes, todos os parodistas da sudade e do exílio são paulistas. Por que não ouvi a deliciosa paródia de Mário Quintana “Minha terra não tem palmeiras/ e em vez de um mero sabiá/ cantam aves invisíveis/ nas palmeiras que não há”? Por que não? Seria porque se trata de homenagem aos paulistas? Mas por quê?, se o autor dos versos originais era maranhense? Mário Quintana fez falta. Aliás, não me lembro tê-lo ouvido em momento algum da apresentação.
O Museu está prestes a retirar a instalação de Grande Sertão: Veredas, o melhor livro da literatura brasileira de todos os tempos, e fazer uma de Clarisse Lispector. Quem sabe num futuro próximo não apareça alguma coisa de Quintana, poeta leve, de delicadas plumas, de uma sensibilidade sem igual.
Essa pulguinha aí que mencionou deu uma coceirinha interessantíssima no seu texto e me aguçou mais ainda a vontade de conhecer o Museu da Língua Portuguesa. Considero Grande Sertão: Veredas um dos maiores livros da literatura universal. Que o Museu reverencie em suas instalações os nossos grandes autores: que venham Lígia, Quintana e ... Belo texto, meu caro.
Cida Almeida · Goiânia, GO 28/2/2007 17:20
Caro Gilberto.
Você como bom Paulistano que deve ser, pode ir mais vezes.
E antes d eolhar para o této que se mexe, ouça... vai ouvir o Quintana.
Abraços.
Caro, bom texto. Mas Murilo Mendes é mineiro, de Juiz de Fora. abs.
veronica couto · São Paulo, SP 28/2/2007 20:01Obrigado Verônica, pela correção. Você tem toda razão. E o que seria da literatura brasileira sem os mineiros, hein!: Rosa, Drummond, Murilo Mendes, Campos de Carvalho, Otto Lara Rezende, Affonso Romano de Sant'Anna, e tantos outros da nova geração, como Luiz Ruffato.
Gilberto G. Pereira · São Paulo, SP 28/2/2007 20:07Além da correção sugerida pela Verônica, gostaria de fazer outra: Clarice Lispector será a próxima homanageada no Museu de Língua Portuguesa, e não Lygia Telles, conforme escrevi. Mas não tenho idéia de como funciona a edição. Não encontro caminho. Fique, portanto, registrada minha boa vontade e minhas desculpas aos leitores.
Gilberto G. Pereira · São Paulo, SP 1/3/2007 09:34
Oi, Gilberto, você pode editar o seu texto ainda! Tem um ícone de lápis ao lado do título, é exatamente para isso que existe a Fila de Edição!
Mi [de Camila] Cortielha · Belo Horizonte, MG 1/3/2007 10:19Muito obrigado, Mi! Ainda estou tateando nesse universo novo (pra mim).
Gilberto G. Pereira · São Paulo, SP 2/3/2007 18:10
vivos ou mortos, que sejam lembrados. Todos, brasileiros do Oiapoque ao Chui. Como são muitos é bom ter alguém para nos ajudar a lembrar, mesmo que eles ja estejam la, sempre é bom.
Andreia Costa · Belo Horizonte, MG 2/3/2007 20:10Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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