'Museu é como um lápis'

subcomandanta [Flickr.com]
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Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ
1/2/2007 · 195 · 9
 

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.................................. Recebi uma proposta irrecusável. Ir a uma reunião cuja pauta era não ter pauta. Uma coisa assim, assim meio aberta, meio despretensiosa. Chamaram de a primeira reunião da Rede Museus, Memória e Movimentos Sociais e o email de convocação dizia mais ou menos o seguinte:..............................
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“Os objetivos da reunião são: propiciar o encontro e a troca de experiências entre pessoas que atuam no campo da cultura, da memória e do patrimônio, e estabelecer uma agenda para o desenvolvimento de projetos especialmente voltados para comunidades populares e movimentos sociais.”
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Mais ou menos, não. Dizia exatamente isso. Seguido por data e local do evento: dia 23, às 14h, no Palácio Capanema. De modo que precisar as atividades que se dariam ali, seria mera especulação. A proposta era mesmo chegar e se apresentar. Botar a boca no trombone. E, por isso mesmo, criar uma pauta. Nas palavras do diretor do Departamento de Museus e Centros Culturais do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (DEMU-IPHAN), José do Nascimento Júnior, a idéia era “colher subsídios para a formulação de um edital com esse objetivo de institucionalização de museus e pontos de cultura com projetos relacionados à memória das comunidades”. Pausa.
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A Rede Museus, Memória e Movimentos Sociais deve apoiar a implantação de centros culturais, museus, instituições e projetos de memória e patrimônio em comunidades. Também há um objetivo claro de fomentar a criação e aplicação de cursos, oficinas e projetos de pesquisa. A iniciativa resultou de uma articulação entre o Departamento de Museus e Centros Culturais, o Programa de Pós-Graduação em Memória Social da Unirio e o Museu da Maré. Outra pausa....................................................................
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O Departamento de Museus do IPHAN foi criado em 2003, mas passou a funcionar apenas em 2004. Seu principal objetivo à época era criar e implementar uma política nacional de museus, trabalho que vem sendo realizado com êxito desde então.
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O Coordenador Técnico do DEMU, Mario Chagas, foi quem disse que, para novos tempos, o melhor é que haja uma nova tipologia de museus, com novas formas, novas propostas. “Os museus têm muito a contribuir com os movimentos sociais, as comunidades populares. Mas, para isso, é importante que eles sejam democratizados.” Foi ele também quem criou a imagem: “O museu é uma ferramenta de trabalho, como um lápis, um computador. Nosso objetivo aqui, inclusive com essa reunião, é democratizar o uso dessa ferramenta.” ....................................................
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Mas a imagem que mais rendeu frutos durante a reunião não foi bem essa, foi outra. Foi o diálogo do verbo com a verba que o representante da ABM propôs. A dificuldade que é transformar um projeto viável em um projeto sustentável a partir da dura e penosa etapa de captação de recursos. "Assim como na Física, no campo da Memória, não há espaço vazio. O problema é que se tem o verbo, mas não se tem a verba." Alguém lembrou o Lenine e foi um passo para que esse assunto se tornasse a tônica da reunião. Perdi a conta de quantas vezes alguém usou a expressão bonitinha para extravasar a realidade. Mas a conversa sobre dinheiro não tirou o brilho do encontro.
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...................................................... Então, para iniciar os trabalhos, ou melhor, para de fato construir a reunião, os presentes foram convidados a se apresentarem. Eu mesmo tive de pegar o microfone e anunciar: “Sou Viktor, jornalista, estou aqui cobrindo este evento para o Overmundo, um projeto de internet colaborativa sobre cultura de todo o Brasil.” Vieram também a Ângela, da Casa do Pontal; a Vânia, do Museu do Folclore Edson Carneiro; a Patrícia, do Museu da Limpeza Urbana, do Caju; o José Luís, do Sebrae-RJ; a Joana Darc e a Regina, da Unirio; a Mauriléa, da comunidade de favelas da Grande Tijuca; o Luís Antônio, o Antônio Carlos e a Cláudia Rose, do Museu da Maré; a Nira, do Comitê Olímpico Brasileiro; o Leandro, do Museu de Arte Contemporânea de Niterói; o Aldo, do Morro da Babilônia; a Denise, da Ação Comunitária do Brasil, a Isaura, da Fundação São Joaquim de Assistência Social; a Lúcia, de Caxias; a Regina, Diretora de Cultura do município de Tanguá; a Cristina, da USP; o Lucas, da Casa do Pontal; a Vanilda, de uma ONG de Vigário Geral; a Lígia, da UFF; a Ana Cristina, mestre em Memória Social pela UNIRIO; a Alessandra, aluna de pedagogia da UFF; a Maristella, designer e coordenadora das oficinas de sucata de Santa Teresa; a Nadja, doutoranda búlgara de Princeton que pesquisa atualmente o Museu da Maré; a Cláudia, que pesquisou o Museu Imperial na sua tese de doutorado; o Valdemir, do projeto Museu da Resistência; e outros, uns mais tímidos, uns menos. Foram 46 pessoas, 20 comunidades. A grande maioria era, sim, do Rio de Janeiro, mas a idéia é começar a expandir a partir daqui, chamando mais e mais comunidades, e, claro, ouvindo demandas mais específicas de cada um. A Cláudia Rose Ribeiro, no final da reunião, sugeriu também que se chamasse o pessoal da iniciativa privada, até porque o assunto teimava em anaforizar o verbo e a verba, e já que se estava falando em investimento e recursos, o melhor era abrir o leque de investidores. Sugestão prontamente acatada.
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........... Aldo Maciel, líder comunitário do Morro da Babilônia lembrou com algum carinho que "o Chapéu-Mangueira já teve seu papel de pioneiro. Hoje esse pioneirismo cabe à Maré, mas muitas personalidades que hoje vemos por aí saíram de nossas lideranças, como é o próprio caso da Benedita da Silva." Mas a memória das comunidades não vive só de passado. Alessandra Norato, que participa de um projeto de oficinas de contação de histórias nas comunidades próximas ao Guaxindiba, em São Gonçalo, relatou o movimento dos moradores para reivindicar uma praça para o local, já que a atividade dos contadores de histórias ocupa um papel importante na tradição da região. "É o poder da memória de modificar o urbano", disseram...............
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Muitos dos debatedores começaram já ali na reunião a traçar parcerias ponto a ponto. Alguns ofereciam oficinas e exposições, outros requeriam. E nesse ponto foi fácil unir o útil ao agradável. Ao sustentável. Nascimento Júnior falava da necessidade de uma "sustentabilidade social" e deu o exemplo das oficinas de conservação de fotografias, que fizeram algum sucesso. "A memória oral das comunidades costuma usar bastante a fotografia como suporte", constatou. Antônio Carlos Vieira, um dos coordenadores do Museu da Maré, dizia que "memória é também lugar de conflitos", para lembrar que memórias sobem e descem ao sabor de quem as rememora. E o Coordenador Técnico do Departamento de Museus emendou, dizendo que o IPHAN opera "contra o gueto. Nós operamos com os movimentos de memória em comunidades populares, mas contra os guetos! Guetificar é fazer cercar-se e deixar restar apenas a luta interna. É preciso vencer o preconceito em relação às favelas, e também é preciso vencer o preconceito em relação aos museus. Os museus não são apenas instrumentos da elite." ................
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E não que não houvesse mais nada a ser dito, como metaforizaram os representantes do IPHAN para dar cabo do encontro quando ninguém mais se manifestou em favor de pedir a palavra, nem que a reunião houvesse chegado ao fim efetivamente, mas era preciso devolver o auditório. Era preciso criar uma pausa. E encerrar aquela reunião, até que a próxima tome seu lugar, e novas pessoas se ajuntem ao grupo. (Você se interessou? Pode entrar em contato com o DEMU-IPHAN pelo telefone (21)2220-8485 ou pelo email demu@iphan.gov.br e quiçá participar da rede...) Só não sei se na próxima reunião as apresentações levarão tanto tempo......... :)

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Roberto Maxwell
 

Viktor, vc viu os pontos que sairam junto com o texto, entre os paragrafos? Eh intencional?

Roberto Maxwell · Japão , WW 30/1/2007 01:37
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Viktor Chagas
 

hehe... Oi, Roberto. Vi. É intencional, sim. :)

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 30/1/2007 13:16
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Roberto Maxwell
 

Valeuz. Me explica depois? Fiquei curioso.

Roberto Maxwell · Japão , WW 30/1/2007 13:21
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Spírito Santo
 

Taí uma praia que é bem a minha. Vou acessar o Demu, Viktor. Com toda certeza. Quem sabe a gente não se esbarra por lá?

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 2/2/2007 21:12
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Inês Nin
 

pontos = lacunas? a serem preenchidas? :)

fiquei muito curiosa de saber mais, de ver para onde isso vai se direcionar.

Inês Nin · Rio de Janeiro, RJ 3/2/2007 01:11
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sandra vi
 

para onde e como? e tem o tempo....
em 1995 estive num forum nacional - museus e comunidade e o papo foi quase (!?) o mesmo e ....
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uma pena pois o museu amanhã somos nós hoje, afinal vamos aos museus hoje para nos conhecer ontem. pelo menos na maioria das vezes.
a parte financeira é o que sempre arranha também na maioria desses casos, uma saída/entrada é encontrar pontos de confluência histórico/cultural entre os coletivos da sociedade e as pessoas jurídicas acessíveis.

próximo$ e ou semelhante$ !?

uma boa questão é que planetários, reservas naturais, jardins botânicos e ou zoológicos entre outras "coleções" se tornaram espaços museológicos.
vamos ser e fazer história gente!!

sandra vi · Petrópolis, RJ 3/2/2007 01:50
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Viktor Chagas
 

Oi, Sandra. De fato, a Rede Museus, Memória e Movimentos Sociais tenta retrabalhar as questões levantadas por aquele fórum, embora seja organizada por outras instituições. Acho que você toca num ponto importante e frágil dessa estrutura, mas é o mesmo ponto que tanto se martelou no encontro com "a verba e o verbo". Óbvia e infelizmente, essa dificuldade não se restringe ao tema dos museus e centros culturais, mas o apoio amplo que o Ministério da Cultura vem demonstrando às questões ligadas ao patrimônio é um sinalizador claro de que muita coisa tem, sim, mudado nessa área. Claro que não tão rápido quanto gostaríamos.
E o que você aponta no fim de seu comentário é também uma outra ótima discussão. Afinal de contas, o que não é espaço museológico? Reservas naturais, ecomuseus (não no sentido ambiental, mas no sentido de "museu a céu aberto"), webmuseus, o futuro projeto do DEMU do múseu-móvel... A definição de museu (ou espaço de memória, ou memória no espaço), no fundo, é tão aberta quanto a pauta da reunião..........................

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 3/2/2007 10:25
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sandra vi
 

oi flor
mas nem que o ponto $ se restringe a temas e tais,
por isso coloquei a confluência como uma entre muuuuuuuuitas entradas e/ou saídas, ok?
bem, como vc foi parabenizado pelo seu ani na resenha do eu nóia, serei a primeira a te dar parabéns por um ano de overmundo amanhã... rsrsrsrs


sandra vi · Petrópolis, RJ 3/2/2007 17:32
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MERIREU
 

Viktor Chagas, obrigado pelos comentários positivos, enfim arrisquei, devido as suas sugestões, mandei outra lucrubação: http://www.overmundo.com.br/overblog/a-linha-do-tempo-do-tempo-umutina. Quanto aos Museu é terrivelmente fantastico. O nosso Museu Rondon/UFMT é surreal, sem recursos, sem museólogos e cercado de índios por todos lados, é o que salva. Hoje, contribuo com o Museu sem onus, pois a Cultura Material ali contidas não é um simples artefato é historia de vida de vários povos de MT e outros estados do Centro Oeste. Li seus artigos, o "jeito carioca" é muito próprio, no falar, no escrever e no viver, mesmo não sen nato. Milha filha fez doutorado na UFF, e da sua defesa estive no Rio e sempre deslumbro com a paisagem e com seu povo, enfim seus escritos e criticas é uma aula muito interessante.

MERIREU · Cuiabá, MT 25/4/2010 10:28
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