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Museu é um jornal em três dimensões (FAQ conciso)

Marcin Wichary [http://flickr.com/photos/mwichary/]
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Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ
5/8/2008 · 121 · 7
 

A lembrança viva que guardo quando ouço falar em Mário Moutinho é de um pequeno disquete azul de 3½” em cuja etiqueta estava escrito Flight Simulator. Foi um presente que meu pai (também Mario, mas não Moutinho) trouxe de viagem, da primeira vez em que ele foi a Portugal, e conheceu o xará e colega museal na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia (ULHT). Eu poderia começar este texto, então, metaforizando que Mário o Moutinho foi quem certa vez me deu asas. E talvez tenha me feito olhar a caixa do computador como algo além de uma caixa catódica. E talvez tenha me feito ver aqueles joguinhos de avião como algo além da monotonia de uma simulação 3d imperfeita.

Hoje, o F-14 (ou seu similar na realidade alheia a minha memória) e o disquete azul do Flight Simulator são praticamente peças de museu (e isso de certo modo me faz finalmente engatar no fio da meada). Não é de agora que o universo museal – pelo próprio sufixo que carrega, um parente próximo do universo tropical e não do universo tropicológico – se aprochega de mim e de minhas pautas. Mais do que ser filho de museólogo, esse imaginário dos museus caiu sobre minha cabeça, como a chuva quando forma poças d'água na Voluntários da Pátria, a partir da literatura e do jornalismo – minhas duas serpentes de caduceu. Reparem que a maioria absoluta de meus textos, aqui mesmo no Overmundo, geralmente traz à luz uma de minhas memórias recônditas, uma passagem da infância, ou algo que simplesmente lembrei de registrar. Faço isso não porque pasteurizo meus escritos mas porque o apelo da memória é quase tão proustianamente inevitável que sinto a obrigação de pronunciá-la nos saboreios dos meus narizes de cera. (E veja que a cera também me remete de um jeito ou de outro ao Madame Toussaud.) Pois bem, chega de enrolar e vamos logo ao que interessa.

Fui um pouco desnorteado conversar com ele, sem saber ao certo o que explorar numa entrevista, mas o papo fluiu tão bem, que logo essa imagem do Flight Simulator veio à minha mente para que eu necessariamente começasse o texto por ela. Minha cabeça latejava com o final estonteante da entrevista, que era tudo o que eu queria ouvir de um museólogo quando comecei, em meu projeto de pesquisa no mestrado, a estudar o Museu da Maré como uma ferramenta de comunicação. Houve no bate-papo outras passagens interessantes, inclusive sobre o trabalho desenvolvido por Mário e outros alunos e pesquisadores no Museu do Casal de Monte Redondo, mas eu fiquei mesmo encantado quando o ouvi dizer do museu como serviço – e ainda mais encantado porque, pelo seu sotaque lusitano, pus minha discriminação auditiva temporariamente a prova quase que para ouvir o museu como “ser vivo”, o que não deixa de ser. Foi aí que as vozes começaram a apitar: “Flight simulator”, “Comece a matéria pelo Flight Simulator”. Talvez o disquete 3½” pudesse constar nas manchetes do meu inventário museológico particular de hoje. Talvez eu só esteja desenvolvendo uma psicose... O fato é que eu obedientemente aquiesci e aí está o Flight Simulator na abertura da cabeça desta entrevista (diga-se de passagem, um “cabeção”). Desde o disquete azul e a viagem de meu pai a Portugal, eu e Mário sempre nos cruzávamos levemente entre nossos interesses, mas lembro apenas de uma ocasião rápida em que nos conhecemos de fato. De mais a mais, eram apenas poucos recados por intermédio de meu pai. Por essas e por outras, foi bom estar com Mário Moutinho, para ouvir sobre seu trabalho e suas idéias.

Mário é arquiteto urbanista e antropólogo de formação. Ele esteve no Brasil na última semana, juntamente com sua simpatissíma esposa Judite Primo (brasileira, museóloga pela Unirio e também da ULHT – mudando-se a ordem dos adjetivos da apresentação conforme a conveniência identitária), para ministrar um curso de Estudos Avançados em Museologia no Museu Histórico Nacional (MHN), berço da pioneira intenção do Curso de Museus, de Gustavo Barroso.

Mário é português, e, entre outras atribuições, ocupa hoje o cargo de reitor da Universidade Lusófona – donde lhe pergunto se o acordo ortográfico anunciado com pompa e circunstância pelos países da comunidade lusófona mudará alguma coisa, e no que ele me responde “não há que inquietar, está cheio de bom senso que se normalize a ortografia e ninguém vai dizer que traí o comboio por causa disso. Mas criou-se, talvez até por causa dos editores, dos mercados livreiros, em Portugal, uma forte oposição ao acordo, mas que é daquelas coisas... E, se simplifica, pois é evidente que tem que se continuar.”

Na visão anteolhada de nós outros jornalistas, acordos ortográficos só dão mais trabalho para decorar regras, e pingue-pongues são coisa de profissional preguiçoso. Não se diz mas é como se se dissesse que o bom jornalista é quase como um palafreneiro a guiar o olhar dos leitores. Tampouco se costuma reconhecer num meio acadêmico de tão difícil linguagem e referências ad referendum: o bom pensador é aquele que não precisa de intérpretes. Relutei, relutei e relutei em fazer da entrevista um enooorme pingue-pongue. Mas foi então que resolvi seguir a fórmula do pingue-pongue-de-uma-pergunta-apenas, pois que no fundo a entrevista responde uma só e única questão, embora as minhas interrupções (quase desnecessárias) estivessem ali para cutucar a fala do Mário. Então, fique à vontade para lê-la como quiser.

1. Em que áreas você atua? Sua formação é mesmo em Urbanismo, certo?

2. O que são estas autarquias?

3. Esses fóruns então são encontros? Eles têm caráter também de oficinas?

4. Quais são as áreas principais em que esses bolsistas requerem formação?

5. Há um programa de bolsas destinadas a alunos brasileiros especificamente?

6. Fale um pouquinho sobre esse modelo do curso que vocês estão dando aqui, de Estudos Avançados em Museologia. Quem propôs esse modelo? Foi a universidade? Foi a ABM?

7. Em que ano começou este doutorado em museologia?

8. Então o programa de doutorado foi lançado com o doutoramento honoris causa do [ministro] Gilberto Gil em abril deste ano?

9. O modelo é o mesmo lá em Portugal? Porque aqui as aulas são concentradas em algumas semanas apenas... A carga horária é semelhante?

10. Fale um pouquinho sobre o tema das suas aulas especificamente. O curso que você dá neste doutoramento é sobre a função social dos museus...


OVERMUNDO>> Mário, fale um pouco sobre a museologia social. O que é esta corrente, esta cadeira, esta aplicação da museologia? E como a museologia social compreende o diálogo entre os países lusófonos (entre eles o Brasil)?

São duas áreas as que eu trabalho. Por um lado a Museologia, por outro o Urbanismo. Em ambas não havia formação propriamente que se assumisse como formação universitária em Portugal. Em 1990, criamos, eu e um grupo de colegas motivados, os dois cursos. E o facto de estar a criar cursos novos no país é facto estimulante, porque é preciso compreender o que a sociedade vai pedindo e ter isso em concentração. Minha formação é em Urbanismo e em Antropologia, daí que eu tanto vou para um quanto para outro, chegando na Museologia. Um dos aspectos deste trabalho é que todos os anos nós fazemos reuniões entre a Museologia e as autarquias, porque em Portugal o poder autárquico é extremamente forte. São 300 autarquias.

Autarquias são como se fossem prefeituras. Em Portugal, são territórios. A mais baixa divisão administrativa é a junta de freguesia. Juntas de freguesias, que podem ter cada uma cinco quilômetros de raio, fazem conselhos, ou seja, municípios. Municípios fazem distritos. Mas o poder mais altivo é o município, que chamamos de autarquia. Portanto, todos os anos nós fazemos reuniões abertas: Fórum Nacional “Museus e Autarquias” ou “Urbanismo e Autarquias”. É uma maneira de ter universidade, professores, alunos, funcionários e autarcas em conjunto. E isso é uma fonte inspiradora de trabalho. A possibilidade de dar formação não é em abstrato. É que na medida em que os problemas são mais complexos, problemas da cidade e problemas da cultura, é necessário mais acção política.

São oficinas, são debates, são apresentações às quais vai gente de todo o país, sabendo que o país é do tamanho do estado do Rio de Janeiro. São dois ou três dias, sempre fora de Lisboa, o que nos permite o encontro dessas realidades. Mas mesmo dentro de uma área de loteamento pequena nós temos cerca de 1,2 mil museus. Desses 1,2 mil museus, 1.050 têm menos de 30 anos, e foram criados na seqüência da Revolução de Abril de 1974. Ou seja, quando houve oportunidade de as pessoas se organizarem, elas enveredaram por trabalharem e dedicarem tempo real às associações, centros culturais, à museologia. O seu tempo de colaboração tornou-se bastante grande e viável. Uma situação de ditadura inviabiliza este trabalho, este envolvimento. Pois estes 1.050 museus são museus de associações, de empresas, coletividades, de municípios. Hoje em dia, quando você percorre o país, é rara a população que não tenha um projeto de que se goste.

Em termos de universidade, nas funções que eu tenho agora e que dou continuidade a uma política anterior, a gente tem uma noção muito forte da responsabilidade social global da universidade. Esta responsabilidade social manifesta-se de várias formas: ao introduzir novas platéias, ao, entre aspas, dar o exemplo nas mudanças que hoje em dia são obrigatórias por causa da União Européia, como seja por exemplo a Fórmula de Bolonha.

Em termos de educação, a universidade está à frente indiscutivelmente. Por compreender – o que faz todo sentido – que precisamos de uma universidade aberta, que esteja atenta ao que se passa no exterior. Por outro lado, é uma universidade privada, portanto, rege-se pelas regras usuais de qualquer entidade privada. É uma cooperativa. Nós, por exemplo, temos mil alunos bolseiros, todos os anos, provenientes dos países africanos de língua portuguesa. Nós somos o melhor projeto em Portugal de apoio à formação de recursos humanos nesses países. Podemos dizer que, por exemplo, metade desses bolseiros vêm de Cabo Verde, que é um dos países em África que tem dado mais certo. Saiu agora da situação de país subdesenvolvido para país de médio-desenvolvimento. Abriu um acordo, uma parceria com a União Européia, integrou a Organização Mundial do Comércio, e de facto é um país onde tudo funciona e onde a formação é absolutamente essencial, onde há uma consciência dessa necessidade. As bolsas cobrem as áreas todas da universidade. E a universidade praticamente cobre todas as áreas correntes. Desde Humanidades às Tecnologias, então, em todas as áreas.

Este ano iniciamos um pequeno programa de bolsas para mestrado e doutorado com alunos do Brasil. Essas 50 bolsas são abertas a qualquer cidadão brasileiro. No caso das instituições com as quais a universidade tem protocolo em termos de mestrado e doutoramento, as pessoas que de lá vierem têm 30% de devolução. No caso deste curso que estamos a dar aqui, há um vínculo entre a universidade e a Associação Brasileira de Museologia, todas as pessoas que seguirem para o doutoramento, quando forem para o segundo ou terceiro ano de doutoramento, terão este benefício.

Toda a formação que temos feito, tanto em urbanismo quanto em museologia – mas particularmente em museologia –, metade dos professores tem sido sempre professores do Brasil, que tem uma tradição de ensino, pela Unirio e pela Ufba. E, portanto, é com estes professores que temos conseguido reunir um corpo discente qualificado. Trabalhamos assim durante uma dezena de anos em termos de mestrado. E a universidade só tem dez anos, anteriormente era um instituto. Portanto, o doutoramento aparece já com os professores brasileiros a darem abertura. Fizemos o pedido para a abertura do curso e não havia hipótese de o pedido não ser aprovado, pelo tanto que já desenvolvemos na área. Então iniciamos o curso neste ano letivo, que acabou agora, está acabando. 2007-2008. E foi o momento da consagração e do esforço de anos e anos de trabalho em prol da museologia social, da museologia comprometida, no âmbito daquilo que o Gil está a fazer no Brasil, em termos de Política Nacional de Museus, que é certamente das política mais, eu diria, mais progressistas, mais consistentes em termos mundiais. Assim, fazia todo sentido dar o doutoramento honoris causa em Museologia ao Gil por todo esse trabalho. E os resultados estão aí à vista.

Portanto, este que foi criado lá [na Universidade Lusófona] acaba por ser o primeiro doutoramento em Museologia em língua portuguesa. E há mais professores brasileiros do que professores portugueses. Então era lógico que o curso tivesse que ser dado também no Brasil. E, como no Brasil não há ainda um programa de doutoramento, encontramos uma solução: uma entidade civil assegura os cursos avançados, e através de um protocolo entre a ABM e a universidade nós garantimos que damos equivalência à parte curricular. Porque aquilo que está a ser feito aqui é a mesma carga horária, os mesmos programas e os mesmos professores. Não há razão nenhuma que possa impedir que a mesma coisa seja igual, sendo dada em Lisboa ou sendo dada no Rio de Janeiro. O fato de ser aqui no Museu Histórico Nacional – na verdade este museu tem a tradição de ter sido sempre o impulsionador da formação aqui no Brasil desde o primeiro curso de museologia – só vem a somar. Mas o interesse de fazer este curso aqui no Brasil e agora tem a ver também com o fato de estarem a nascer cursos de licenciaturas e bacharelados fruto da Política Nacional de Museus por todo o Brasil. Então, nosso grande objetivo e sonho é que este curso que estamos aqui a fazer possa, dentro de dois ou três anos, ter dez, doze pessoas doutoradas em Museologia – que trabalham especificamente a Museologia, como uma área disciplinar autônoma. Não são teses de Arqueologia aplicada à Museologia, nem Museologia aplicada à Arqueologia, à Antropologia, ou à História, de facto o que está em questão é a Museologia como área disciplinar. Temos aí o curso cheio, 25 alunos.

Em Portugal o curso é dado ao longo do semestre. Aqui, a carga horária está concentrada. Porque as pessoas que vieram, vêm de todo o Brasil. Portanto, para viabilizar isso, era necessário concentrar as aulas. No meio deste período, deste mês e meio, temos uma semana de pausa, e depois quando acabar a parte letiva propriamente dita temos mais dois meses para leituras e avaliação. E eu penso que já é suficiente. Depois, os alunos inscrevem-se naturalmente no doutoramento para concluirem as suas teses, com as orientações dos professores que são os mesmos que nós usamos em Portugal, portanto, vão ser duas coisas muito similares. Evidentemente que as teses irão refletir a realidade cultural museológica do Brasil e, lá em Portugal, refletem a nossa. Apesar de haver questões que ultrapassam o facto de serem em Portugal e no Brasil. Há temas que são universais na Museologia, que é o entendimento dos museus como entidades prestadoras de serviço: isto, por exemplo, é válido em qualquer parte do mundo, para quem é português e para quem é brasileiro. Então a gente acredita que vai dar certo. E pela qualidade dos alunos – alunos entre aspas, porque estamos a falar de professores universitários – isso nos dá uma garantia.

No fundo, o meu curso em particular é sobre a função social dos museus, que, afinal, é a museologia do pequeno mundo. Com todo o respeito pelas grandes instituições museológicas, elas têm problemas diferentes das pequenas instituições: de tutelas, de recursos, de pessoas que lá trabalham, de estruturas, de funcionamento, das parcerias, tudo são situações diferentes. Quando falamos de museologia social, estamos a falar da museologia, da forma de fazer museal, dentro dessas pequenas instituições.

Isto significa que há formas de organização que não são tão hierarquizadas, onde todas as pessoas são obrigadas a partilhar uma parte de todas as responsabilidades. As problemáticas que são plantadas entre os museus locais têm mais a ver com as necessidades locais. Então o que é nós trabalhamos? Trabalhamos exatamente as mudanças nos paradigmas do que é patrimônio, do que é memória, do que é esquecimento, do que que é a acção educativa do museu, de qual a diferença entre público e utilizador. Tratamos da importância da memória singular: cada visitante do museu é diferente um do outro. Nos grandes museus, visa-se a massa do grande conjunto dos visitantes. E portanto um denominador comum. Acontece que no museu local a pessoa consegue ter mais atenção, sublinhando-se a própria personalidade e individualidade de cada uma das pessoas.

Depois, tem-se de ter em consideração que as pessoas quando chegam no museu, têm uma capacidade de decidir e de escolher sua própria informação que não tinham há 15 anos. Aquilo que o museu dá a um jovem hoje é 1% do conhecimento que ele tem sobre o mundo. Que, há 15 anos, metade já era o que a televisão mostrava e metade o que se lia na escola ou que os pais ensinavam. Hoje, provavelmente é 80% do que se tira da internet, 10% para a televisão e ficam 10% para a família e para a escola. As posições se alteraram. Os valores podem não ser estes, mas há uma autonomia grande dos visitantes. E, logicamente, a relação do museológo para com a sociedade também muda. Ele deixa de ser administrador do museu para ser um agente de intervenção e de acção local.

[Na aula de] Hoje, vou tratar dos museus como serviços. Os museus geralmente dizem que prestam serviços mas não atuam como entidades prestadoras de serviços. O que quero chamar atenção é que, se os museus entenderem melhor como é que funcionam os serviços, estarão em melhores condições de prestarem esses serviços. Quer seja serviços em termos de grandes instituições, quer seja em termos comunitários.

Um outro ponto ainda tem a ver com os museus estarem submetidos às suas coleções ou os museus terem a possibilidade de eles próprios criarem seus objetos. Em função das idéias, deve sempre haver um espaço para criar aquilo que é necessário, os objetos que são necessários. Isto é uma coisa que nos museus de ciência sempre se fez. São museus que construíram modelos para explicar leis, por exemplo. Ou seja, construíram objetos comunicantes. O museu me parece que tem esse direito. E ter esse direito significa que ele pode ir à procura dos suportes para comunicar as idéias que ele tem. Se os museus de ciência fizeram isso para explicar modelos das leis da química e da física, também se pode fazer a mesma coisa para explicar as funções sociais.

Por fim, ligada a esta idéia, há a questão da perecibilidade dos serviços em geral na sociedade. Quando uma pessoa apanha um avião, para fazer uma viagem, ou é naquele momento, ou deixa de ser aquela viagem. Bom, os museus têm estado sempre alheios a isso. A mesma exposição de há dez anos continua a ser mostrada dez anos depois, como se o tempo não passasse. E no extremo está a minha concepção: o que eu digo é que o museu deveria poder todos os dias de manhã ter uma nova exposição. Portanto, à noite – da mesma maneira que nas redações dos jornais é o momento do trabalho, toda a gente atarefada a compor o jornal, a preparar a impressão etc. para que no dia seguinte possa sair o jornal – eu imagino que deveria se estar a trabalhar nos museus, para que, no dia seguinte, pudesse haver um museu que seria o equivalente do jornal, não nas duas dimensões que é a linguagem do jornal e da leitura do texto, mas nas três dimensões que é a linguagem talvez num outro nível. O dia em que todos os museus estiverem a trabalhar à noite, e puderem propor de manhã sua nova coleção, aí já se compreendeu que certamente há uma capacidade de assimilação de informação nova, que as exposições tradicionais não contemplam e é por isso que elas ficam tranqüilas, durante dez anos sem nada. Enquanto que ninguém compra, ninguém lê o jornal da véspera. E exatamente para isso é que foram criados os recursos tecnológicos que permitem aos jornais serem impressos todos os dias. E todos os dias estarem espalhados por todas as cidades. Nesse momento, o museu está completamente bloqueado, continua a utilizar o painel, a vitrine, e portanto as próprias condições de utilização dos recursos museológicos atrofiam as possibilidades do museu. Há aqui um espaço grande de trabalho e é aqui que entra o encadeamento das novas tecnologias. Imagino eu que elas podem vir a ajudar a criar um museu diferente. Não é nada utópico. Utópico seria no século XIX estar a pensar em telefonar e transmitir a voz por meio digital. Tudo isto é uma questão de mudança.

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Ilhandarilha
 

Viktor, coincidentemente, assisti recentemente uma banca de mestrado cujo tema do trabalho era o papel do museu de arte na educação. Fiquei sabendo que o Brasil tem alguns projetos bem bacanas nessa área. Esses projetos tornam o museu um organismo vivo, em constante transformação e aprendizado (o museu também aprende com seu público, né?). Bem diferente daquela idéia tradicional de museu permanente. Na biografia de Eisenstein ele dedica um capítulo aos museus da Europa que visitou e fala que os museus só deveriam ser visitados à noite, quando não tem mais o movimento de turistas e os guias que repetem enfadonhamente as informações. Fala da sua tristeza em ver quadros famosos, como a Mona Lisa, trancados em caixas de vidro, isolados como prisioneiros perigosos, inacessíveis a a uma boa apreciação. Eisenstein odiou os museus europeus.
Fico bem feliz em ver que tem pessoas como o Moutinho - que não conhecia - mudando essa idéia de museu como algo estático, parado num tempo passado.
Bela entrevista!

Ilhandarilha · Vitória, ES 5/8/2008 11:10
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Juscelino Mendes
 

Excelente trabalho, Viktor.

Juscelino Mendes · Campinas, SP 5/8/2008 16:32
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Helena Aragão
 

Achei a entrevista toda interessante mas, talvez pelo calor do momento da saída do Gil do ministério, me chamou atenção o que ele fala da Política Nacional de Museus. Um ministério que acabou mais visado pela questão da tecnologia e dos pontos de cultura também teve repercussão nessa área que em geral é tão pouco valorizada... É provável que essa opinião dele não seja uma unanimidade, mas chama muita atenção vê-lo falar da política brasileira de museus como "uma das mais progressistas em termos mundiais".

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 5/8/2008 19:34
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Viktor Chagas
 

Oi, pessoal. Valeu.
Ilha, no Brasil, a museologia é, sem sombra de dúvida, uma área de ponta em termos de pesquisa e prática expográfica, sim. Essa corrente de Museologia Social, que o Mário Moutinho chama a atenção, é uma entre as correntes possíveis da chamada Nova Museologia (cujo principal grupo de articuladores, o Minom, é presidido pelo Mário). Há muitos trabalhos sobre o museu como uma ferramenta pedagógica e as relações entre o museu e a educação. Vale a pena explorar os trabalhos do pessoal da Unirio, do Cpdoc, da Uerj e da Ufba.

Helena, ao menos entre o pessoal da Museologia, a gestão do Gil é uma unanimidade, sim. Como eu falava, essa questão da Museologia Social trouxe para o foco os museus locais, mais do que os museus universais como grandes instituições. Esta mudança de paradigma se refletiu, de certa forma, na gestão do Gil no momento em que ele incentiva o repasse orçamentário a pequenas instituições - o que início foi visto com grande ressalva, como se o pessoal das grandes instituições estivesse perdendo dinheiro. Vale lembrar que a Política Nacional de Museus foi lançada de 2003 para 2004 e, desde sempre, foi um destaque entre as políticas específicas da gestão do Gil, tanto que já constava do programa de governo do Lula para o segundo mandato. Mas, como você diz, os museus ainda são uma área que não recebe os holofotes da grande mídia, razão pela qual eu suponho que a PNM não gere tanto burburinho.

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 5/8/2008 21:41
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Elisa de Noronha Nascimento
 

Essa parceria entre Portugal e Brasil, no campo da Museologia, é muito importante. Só acho que não deveria ser restrita a Universidade Lusófona. Sou doutoranda em Museologia da Universidade do Porto (o doutoramento em Museologia da Lusófona não é o primeiro em língua portuguesa, mas acho que isso não é realmente importante!) e só consegui vir para cá (sou Brasileira) com um subsidio da Fundação Calouste Gulbenkian!
Concorri duas vezes a uma bolsa de doutoramento do cnpq: a primeira foi indeferida por "não alcançar prioridade que permitisse o atendimento nessa demanda" e a segunda por eu não residir mais no Brasil (estou aqui apenas há ano e vim justamente para fazer o doutoramento!)

Elisa de Noronha Nascimento · Portugal , WW 16/10/2008 16:45
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Viktor Chagas
 

Olá, Elisa,
Eu concordo em absoluto. A questão aqui é mesmo de tratar a parceria como pioneira e abrir portas para que outras parcerias se constituam, também envolvendo outras universidades, como a Universidade do Porto. Acho que o que pesou na escolha da Lusófona foi mesmo a afinidade com o corpo docente da própria Unirio e dos programas de museologia brasileiros.

Sobre o fato de o programa ter sido o primeiro doutoramento em museologia em língua portuguesa, vou checar a informação que você me passou, mas as fontes de que disponho indicam que a Lusófona é sim a pioneira nesse sentido. De qualquer forma, vou pesquisar mais um pouco. Obrigado.

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 16/10/2008 17:03
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Elisa de Noronha Nascimento
 

Viktor, se não me engano a primeira turma de doutoramento em Museologia da Universidade do Porto foi em 2005/2006.
http://sigarra.up.pt/flup/cursos_geral.FormView?P_CUR_SIGLA=EPGM
De qualquer forma, eu entrei na turma 2006/2007, ou seja, antes de iniciar o doutoramento da Lusófona! Aliás, quando vim para cá um dos motivos que me fez escolher a UP foi o fato de não ter ainda em outra universidade o doutoramento em Museologia.

O que de certa forma me incomoda nessa parceria é que não se trata apenas de uma parceria entre universidades e sim da parceria de um País (Brasil) com uma universidade (Lusófona).

Não estou emitindo um juízo sobre a natureza dessa parceria, apenas penso que ela deva ser, como você mesmo disse, "pioneira e abrir portas para que outras parcerias se constituam", e espero que o Minc e a Associação Brasileira de Museologia esteja aberta para isso!!!

Obrigada a você!!!

Elisa de Noronha Nascimento · Portugal , WW 16/10/2008 19:50
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