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Música boa? Minha mulher não deixa não!

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Chico Buarque e MPB4 em tempos idos
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Flávio Herculano · Palmas, TO
5/4/2011 · 7 · 3
 

Você imaginaria o horário nobre da TV brasileira, em vez das telenovelas açucaradas e lacrimosas, ser preenchido por musicais com estrelas da MPB? Num dia, Marisa Monte e Carlinhos Brown cantando e apresentando seus convidados. No outro, Zizi Possi e Eduardo Dussek resgatando pérolas do cancioneiro popular. E, ainda, dividindo palco e vocais, um par fixo formado por Arnaldo Antunes e Roberta Sá?

Você acredita mesmo ser viável a uma emissora privada, que precisa manter as contas no azul, sustentar uma programação destas no horário de maior audiência, considerando o nível cultural e as preferências do público brasileiro? A massa, do empresário à diarista, garantiria audiência (e anunciantes)? Hoje até existem musicais de bom nível nos canais abertos, mas nunca exibidos antes das 23h. Nem sempre foi assim...

Nos idos de 1960 a TV Record conquistava o público fazendo dos musicais sua principal atração. Elis Regina e Jair Rodrigues apresentavam o programa O Fino da Bossa e Elizeth Cardoso e Ciro Monteiro o Bossaudade, enquanto os introspectivos Chico Buarque e Nara Leão, acompanhados do MPB4, encaravam as câmeras à frente do Pra Ver a Banda Passar.

Pasmem, há 40 anos estes eram ídolos das massas. Faziam uma música, realmente, popular brasileira. Eram os mesmos que levavam o público a lotar estádios nos históricos festivais, em torcidas organizadas, portando faixas e cartazes. O povo vibrava, aplaudia, vaiava, defendendo junto com seus ídolos canções que sequer tinham sido gravadas. Tal qual fazem hoje com um Fiuk, as mocinhas colavam em seus cadernos as fotos de Chico Buarque.

Na época, vivia-se os parâmetros estabelecidos pela Bossa Nova. Chico, Caetano, Gil e seus companheiros faziam um som inovador, de rompimento com a grandiloquência da Era do Rádio. E eram bem aceitos pelas massas, muito diferente do que acontece hoje com os artistas que rompem com os padrões estéticos.

Com a Bossa Nova, as grandes vozes e os excessos dramáticos passaram a ser taxados de brega. Ou cafona, como se dizia. Nomes como o de Ângela Maria e o da rainha do rádio Dalva de Oliveira e até o regionalismo de Luiz Gonzaga foram considerados ultrapassados, colocados no mesmo saco que renegados como Valdick Soriano e Odair José.

O tempo passou e o gosto musical do brasileiro foi sendo doutrinado para atingir o nível mais baixo, progressivamente, a cada golpe sofrido: lambada, axé, forró de plástico, sertanejo, calipso e agora o sertanejo repaginado como “universitário”. Completando este panorama, a pirataria se institucionalizou, o mercado fonográfico se enfraqueceu e a internet abriu espaço a toda espécie de bizarrice produzida em fundo de quintal, absorvida por uma geração já sem referências. Não por acaso, uma geração a quem falta também senso crítico, educada por duas instituições falidas: família e escola.

Deste modo, versos de Valdick Soriano, outrora considerado supra-sumo mau gosto, hoje soam até poéticos (De que vale ter tudo na vida/ De que vale a beleza da flor/ Se eu não tenho mais teu carinho/ Se eu não sinto mais teu calor seriam aplaudidos pelos jovens “cabeça” se cantados pelo Los Hermanos). Vou mais além: até a música de Gretchen já ecoa como bem produzida se comparada ao Rebolation.

Será quem num futuro não muito distante vamos cultuar Minha mulher não deixa não como uma música despretensiosa e bem superior ao que estará sendo feito para as massas?

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Inês Nin
 

Oi, Flávio. A reflexão final é curiosa e o resgate histórico interessante. Mesmo assim, digo que é preciso tomar bastante cuidado pra não cair na anciã divisão entre "baixa cultura" e "alta cultura", tão ranzinzas e ditadoras de padrões estéticos. Essa concepção remete à escola de Frankfurt, e há muito Umberto Eco já ironizava falando em "apocalípticos" e "integrados", que corresponderiam aos modos possíveis de encarar a cultura.

Considero melhor encarar o fato que o mundo muda e que essas mudanças trazem muitas novidades interessantes - como o espaço para a diversidade; inéditas - como a distribuição feita pela internet e/ou pela pirataria e o que pode ser produtivo, no fim das contas, é tentar entender essas mudanças e usufruir do melhor delas. O que pode incluir uma infinidade de vídeos de mashup, bandas independentes, bregas, hilárias e o que mais puder surgir no YouTube, por exemplo.

À parte de tudo isso, lá no começo do texto, quando você cita ícones da MPB, cantores "bregas" e da bossa nova saudosamente, a minha impressão pessoal é que eles ainda ocupam uma posição muito forte de cânone hoje em dia. Como se fossem a última coisa realmente digna de muita atenção e repercussão (e de regravações, menções etc.) feita nos últimos tempos. Isso é particularmente forte quando pensamos no próprio conceito de MPB, que parece invariavelmente passar sempre pelos mesmos autores, em sucessivas versões e releituras feitas por novos intérpretes. Mas o fenômeno não ocorre somente com a MPB. Tal como os Beatles e outros nomes do rock clássico, que se estabeleceram em décadas passadas, marcadamente a década de 60 (e o Hans Ulrich Gumbrecht tem um texto ótimo sobre isso, intitulado "O presente em crescente expansão", que ecoa também em "Cascatas de modernidade", que introduz o livro A Modernização dos Sentidos), se estabeleceu em um contexto anterior - de indústria, de grandes vendas, de um certo começo de uma forte cultura de fãs - uma dinâmica que permitiu que se tornassem tão grandes.

O contexto, claramente, era industrial e, sim, massificado. Hoje ele está se metamorfoseando e se abrindo para uma multiplicidade muito maior de expressões no campo da música e da cultura como um todo - é possível ter acesso a uma variedade e quantidade muito maiores de bandas, referências, versões, criações. Talvez, pensando aqui, mais ou menos como poderia ter sido a televisão digital se o Brasil tivesse adotado o modelo desenvolvido em seu próprio território, que permitia uma diversidade muito maior de canais, abrindo espaço para que produções menores e diferentes do padrão vigente tivessem lugar. Se a televisão e o rádio brasileiros resolvessem entender o que a internet tem de tão incrível, que é a possibilidade de acesso a um espaço "livre" e descentralizado, que está aí para qualquer um publicar e produzir conteúdo, talvez, então, sim, poderemos ter uma gama muito maior e mais interessante de atrações em horário nobre, de qualquer estilo ou procedência, para quem assiste e interage poder escolher e participar ativamente dessa construção de imaginários, ícones e sucessos coletivos.

Inês Nin · Rio de Janeiro, RJ 5/4/2011 19:54
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Flávio Herculano
 

Inês Nin, nossos pensamentos não são opostos. Pelo contrário, se complementam. Esvrevi nesse tom maniqueista (o bom e o mal) propositalmente, e você soma com sua opinião. Claro que vejo, por exemplo, o lado positivo da internet. Tenho acesso a um material inemaginável e a custo quase zero. Pesquiso, conheço coisas novas... Mas isso porque tenho uma base que direciona a minha curiosidade. Infelizmente, a maioria não tem. Basta ver, da internet, o nível das revelações que se massificam (não vale citar os artistas que se estabelecem perante um público iniciado, digamos assim). Claro, a geração de Chico está na ativa e devidamente reverenciada, por uma parcela do público. Vejo que a grande maioria das pessoas não consegue entender sua mensagem ou não se interessa por ela. No portugues claro, vejo muita gente, mas muita mesmo, que considera MPB enfadonha. Dizem, é música para dormir. Foram doutrinadas a consumir outro tipo de som.

Flávio Herculano · Palmas, TO 6/4/2011 22:42
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Inês Nin
 

Flavio, eu li seus textos anteriores e de fato tem uns bem interessantes. Mas mantenho meu comentário feito anteriormente. No mais, o que percebo é que você quer discutir gosto. E isso, bem...

Inês Nin · Rio de Janeiro, RJ 14/4/2011 02:29
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