Alguns residentes da capital Aracaju poderiam considerar a cidade de Lagarto como "fim-de-mundo". Não saberia dizer como eles considerariam o povoado Campo do Crioulo, habitat do duo Lacertae. Além do fim do mundo, talvez. O certo é que a dupla consiste naqueles fenômenos raros e únicos do meio musical, que brotam de lugares longínquos como Ituaçu/BA (Gilberto Gil) ou São Bento do Una/PE (Alceu Valença). Deon Costa e Aldemir Tacer são daqueles que não teriam como fazer outra coisa na vida a não ser música. E, apesar de já terem ido longe, continuam na luta pra expandir o som "campestre" e, ao mesmo tempo, intervir na comunidade que habitam.
Há cerca de 15 anos, o Lacertae (que significa lagarto, em latim) era na verdade um trio, e o som, bem mais sujo e agressivo. Mas desde o começo algo bem peculiar fazia o som dos caras sair do lugar-comum. Eles simplesmente aboliram o baixo da formação da banda. Segundo os próprios, eles até tentaram, e não gostaram. Somado à guitarra hendrixiana mais a bateria no melhor estilo John Bonham, havia o vocalista, líder e principal articulador Paulinho. Esse trio chamou a atenção de gente como Chico Science (que os convidou a Recife) e Dado Villa-Lobos, que lançou a banda nacionalmente na coletânea de seu selo Rock It, o CD Brasil compacto. A repercussão foi gigantesca. As dissonâncias distorcidas de Deon (que costumava mexer na afinação da guitarra sem nem saber exatamente o que estava fazendo) e a percussão que Paulinho fazia com escapamentos de carro, penico e coisas do tipo levaram o público do Abril Pro Rock em 1996 ao delírio. Parecia o auge. Mas, logo após, viria o declínio. Depois de passar um tempo em Recife, ao que parece, o vocalista não queria mais voltar, apesar do apelo dos companheiros. Mergulhado fundo nas drogas psicodélicas, Paulinho literalmente pirou e hoje em dia está longe da fúria em que entoava suas poesias no palco. Parecia um fim triste para uma carreira meteórica.
Eis que anos mais tarde, a dupla remanescente renasce com um som renovado, e mais uma característica percussiva-inventiva. Estreando o novo repertório no festival Rock-SE, em 98, o batera Tacer apareceu com um berimbau acoplado a uma pequena mesa-de-som a qual ele acrescentava efeitos, ao mesmo tempo em que tocava seu instrumento oficial! As letras e o vocal de Deon continuavam numa linha puxada pra poesia, mas a raiva havia dado lugar à calmaria do Campo do Crioulo. Os improvisos tornaram-se bem mais freqüentes e longos. Foi nesse clima que o primeiro disco da dupla teve seu lançamento. Berimbau de cipó de imbé (2002, independente) foi gravado num conservatório em Recife, e primeiramente, lançado num formato que remetia a um disco de vinil. O relançamento no ano seguinte trazia - além de uma bela remasterização - a tradicional caixinha de acrílico e uma pequena modificação na ordem das faixas. Um clássico absoluto!
Foi mais ou menos durante o período de feitura do primeiro álbum que o Lacertae se organizou ao redor de uma idéia chamada Casa de Cultura Zabumbambus. Como os ensaios da banda costumam chamar atenção das crianças da região, mesmo informalmente, os dois começaram a dar verdadeiras clínicas musicais, colocando a gurizada pra tocar berimbau ou o que estivesse em mãos. De simples idéia, o projeto se transformou em OSCIP - Organização da Sociedade Civil de Interesse Público -, ganhou aprovação da Lei Rouanet, e até hoje a banda levanta fundos para construir a casa propriamente dita.
O novo CD do Lacertae foi lançado em 2005 pelo selo Amplitude de São Paulo. Intitulado A volta que o mundo deu, o disco rendeu um show de lançamento no SESC Pompéia e resenhas elogiosas na Folha de S. Paulo. Mais recentemente, a Casa de Cultura Zabumbambus anda promovendo festas eletrônicas em Lagarto, onde Tacer atua como o DJ Beridrum, e também como guitarra e voz de uma nova banda, o Uni Campestre, que conta ainda com Gildécio Costaeira, artista plástico responsável por toda a arte do Lacertae nos discos, shows e site.
Para ouvir a música campestre e assistir matérias sobre a banda: www.lacertae.com.br
banda interessante. autêntica. na série Balaio Brasil da STV tiveram um ótimo destaque. parabéns pela matéria!
Jesuino André · João Pessoa, PB 24/4/2006 11:46
a palavra éessa mesmo: autentica.
q bom q gostou!
conheci os musicos do LACERTAE em são paulo, no inicio dos anos 2000. muito bom o som, sucesso sempre pra eles. abraço, rosa
Rosa Campello · Recife, PE 29/10/2007 22:21Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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