Música (do) lado (de) baixo

Wesley Aguiar
Ebinho mãos de baixo elétrico
1
eduardo ferreira · Cuiabá, MT
8/1/2007 · 190 · 13
 

Um cara que toca pra caramba e tem um relacionamento muito íntimo com o seu instrumento. Assim começa nossa história...

Uma das sequências que mais me emocionaram quando assisti ao filme Ensaio de Orquestra, de Federico Fellini, foi quando ele expôs os músicos diante das câmeras e convidou-os a vazar seus sentimentos em relação aos seus respectivos instrumentos: queria explorar a relação afetiva entre as pessoas e seus instrumentos musicais. E o fez com a habitual maestria. Patéticas, políticas, amorosas, eróticas, vaidosas, invejosas, as relações iam desfilando como uma cadeia reveladora da alma humana: nossa fragmentada condição diante do esplendor cósmico. A vida não escapa desses roteiros: me emociona muito também a relação músico-instrumento que o Ebinho Cardoso, aqui em Cuiabá, desenvolveu com o baixo elétrico em apenas 11 anos. Daquelas relações que se tornam singulares. Desde o princípio ele já mostrava que teria uma longa estrada fértil para trilhar.

Lembro do Ebinho assim: a primeira vez que o vi tocando já dava para perceber que era um cara diferente. Manuseava o baixo-elétrico com seus longos, magros, ágeis dedos de uma maneira que pareciam não sentir qualquer dificuldade em se deslocar velozmente de uma nota a outra, sem vacilos, seguro, firme, dedilhando as pesadas cordas do baixo com a leveza suprema do vôo do pássaro invisível que faz o homem cantar.

Se dedicar totalmente, amar o que você faz acima de qualquer outra tarefa que possa desprendê-lo de seu enredo.

Seguir adiante que o tempo é aliado. Não pode ser encarado como impedimento. Cada estrada leva um tempo para percorrê-la. Cada um dá o passo conforme as pernas. Peregrino das mais de mil trilhas, Ebinho conseguiu achar seu próprio caminho, aquele onde foi capaz de se desprender dos limites que costumam paralisar algumas pessoas ante as dificuldades que todo ofício apresenta.

Desde crianças vamos elegendo nossos heróis, isso é inevitável, elegemos também nossos anti-heróis. Vamos selecionando tudo o que nos interessa e daí em diante alojando cada qual em seu compartimento. A natureza, paralelamente, vai estabelecendo as marcas do tempo com seus mais de mil relógios que repetidamente nos impõe a presença de Cronos, esse maldito deus que tudo devora. Gregos, troianos, baianos, cuiabanos, vamos todos experimentando nossas tragédias cotidianas rumo da frente adelante sempre. Importante, portanto, o timing, a noção do tempo, para não se perder nas estradas da vida.

Ebinho confessa que chegou a chorar de emoção ao se ver na mesma prateleira dos seus heróis. Entrara ali naquele mundo mágico e não tinha percebido: é o que parece ao se conversar com ele. Ou ele é assim mesmo? Ele jura que é avoado, vive no mundo aéreo. Sons graves como o lado de baixo do seu coração bumbavam gravemente. A mente solta fluía em vôos imaginários. Êxtase e poesia caminhando de mãos dadas nas difíceis esquina da vida: meras encruzilhadas onde você decide seu destino a cada esquina, cada curva cada reta cada labirinto. Cada passo exige uma decisão. Jaco Pastorius, Arthur Maia, Celso Pixinga, Nico Assumpção, John Patitucci, os nomes vão desfilando na historiografia-discografia humana diante do olhar ansioso que, de repente, se vê como referência: estava lá o nome, com todas as letras: Ebinho Cardoso. Foi na revista especializada Cover Baixo que ele coleciona desde a número UM, tem todas elas guardadas com muito zelo, quando abriu a de número 42 viu seu nome estampado ao lado dos heróis. Dizer o quê, diante de tal momento, de uma super emoção que o ser humano é capaz de experimentar? Está lá e pronto.

Ele sempre acompanhou a história do baixo elétrico, sempre buscou as informações que precisava nas oportunidades que surgiam, quaisquer que fossem. Ouvindo música, lendo revistas especializadas, tocando horas e horas todos os dias, pesquisando, estudando. Arriscando seus vôos chegou ali naquele quase-templo, um lugar livre onde cada um criou seu jogo, sua maneira de brincar, de estabelecer conexões lúdicas com o infinito prazer de viver, viver bem, fazendo bem aquilo que escolheu para si. A natureza oferece o jeito, te dá as coisas, mas te dá o precipício também, uma coisa caminha ao lado da outra de uma forma definitiva, “você também não vai fugir disso!” - sorri com escárnio o homem das montanhas. Boca de Lobo Solitário.

Lançou um CD, “Verticais”, com oito faixas, misturando baião, afoxé, maracatu, samba, samba funk, ritmos brasis essenciais com a fluência jazzística, potencializando o baixo, elevando o instrumento ao status de solista, além de trabalhar a harmonização e as melodias. Ebinho já tocou ao lado de nomes importantíssimos da música brasileira como Arthur Maia, Glauton Campelo, Hamilton Pinheiro, Renato Braz, André Vasconcelos e vários outros. Estudou com Nico Assumpção, Arismar do Espirito Santo, Jorge Elder, Adriano Giffoni, Jeff Andrews, Lula Galvão, Genil Castro. Estudou harmonia e arranjo com Ian Guest, Leandro Braga e Renato Vasconcelos.

Trabalhou o baixo elétrico se dedicando aos estudos dos acordes, abriu o vasto campo harmônico do instrumento desenvolvendo as mais variadas técnicas. Aprofundando a pesquisa, investigando, descobrindo caminhos, compondo, Ebinho Cardoso chegou lá. Pesquisador sério, trabalhou muito e desenvolveu seu próprio jeito de tocar baixo, criando uma linguagem própria, não esmorecendo diante de tanto trabalho que tudo isso dá. Após sete anos de pesquisa lançou o primeiro livro específico sobre a técnica de execução de acordes editado no país: Harmonia e Dicionário de Acordes para Baixo Elétrico, revisado por Ian Guest e Sidnei Duarte, com prefácio de Arthur Maia que foi direto ao assunto: “Recentemente estive em Mato Grosso e vi o autor do livro tocar. Quando voltei a Niterói e peguei esse método do Ebinho, pensei: por que eu não comecei a estudá-lo antes? Aquilo que eu vi no show mais do que me impressionou, me fez ver o quanto Ebinho e seu livro podem ser uma luz para todos os caras que gostam, assim como eu, de harmonia e precisam de dicas como as deste livro, e pegar esta luz desde o início até o fim do túnel.”

Mas ele não pára por aí, quer ajudar, contribuir para a formação das pessoas, desenvolve em conjunto com a educadora Rejane Musis e o regente Raul Fortes, o projeto Praticutucar que trabalha com crianças, colocando a música como importante fator de sensibilização e educação. Promove também, em parceria com o Espaço Cubo, a Semana da Música, evento anual que investe na qualificação dos músicos matogrossenses com oficinas, palestras e shows, trazendo importantes nomes da música brasileira para trazerem suas contribuições. Ebinho acredita no potencial das pessoas:”As coisas estão melhorando em Mato Grosso. Tenho trabalhado para as pessoas acreditarem que é possível. A intenção é fazer com que as pessoas acreditem em seus propósitos, por isso trabalho para a sua formação. Ao menos uma sementinha fica.”

Quero dissecar ainda o fabuloso encanto que o baixo elétrico cometeu ao seduzir um jovem rapaz saído da periferia de Cuiabá, vindo de uma história de vida difícil, de pobreza, como é para a grande maioria de nós brasileiros. Acho que um canto de sereia o magnetizou, a sereia que cantava com a gravidade dos mágicos.

Para falar com Ebinho, fone: (65) 9202 5419. Quer saber das últimas do cara? No blog Brazucabass e no site da Condor.

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Marcelo Torca
 

Poderia oferecer esta parceria neste portal http://www.overmundo.com.br/agenda/festival-de-musicas-de-carnaval, é o primeiro anos que faço isso, pretendo fazer algo relativo para o dia das mães, festas juninas, dia dos pais, Natal.
Abraços.

Marcelo Torca · Paulicéia, SP 7/1/2007 20:31
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eduardo ferreira
 

gostaria de entender marcelo...fiquei a ver navios!

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 8/1/2007 12:52
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Fábio Fernandes
 

Edu, que bacana esse seu artigo. É fácil de achar o CD do Edinho?

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 8/1/2007 13:00
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eduardo ferreira
 

fábio, vou ver com ele. te aviso...

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 8/1/2007 13:02
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Balbino
 

uma parada pra falar desse sujeito com cara de indiano e dedos de fera, soltos pra destrinchar esse instrumento tão maravilhoso em suas mãos, (teria que ter umas dez cordas o baixo do Ebinho) ou ele tem quarenta dedos e os esconde quando para de tocar? Ebinho é um desses caras que só vendo pra crer o que pode o contrabaixo elétrico, além de ser uma alma encantada e simples como sorriso de criança em frente a balas e biscoitos, valeu a matéria Ferreira, vamos nessa Ebinho Cardoso os ouvidos, a alma, enfim o corpo todo agradecem esse seu maravilhoso dom, trabalhadíssimo ao extremo por horas e horas de estudos e exercícios.

Balbino · Cuiabá, MT 8/1/2007 13:16
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Sebastião Firmiano
 

Tá bom,
Você é ótimo, a materia excelente.
Mas, não vou te facilitar as coisas. O Viktor já me atiçou o apetite. Então, por favor: Me passe por e-mail o nº da conta para
que eu possa depositar o valor de 02 livros, em seguida te passarei por fax, o recibo do depósito bancario e você manda
os livros via sedex.

Sebastião Firmiano · São Paulo, SP 8/1/2007 18:00
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eduardo ferreira
 

oi sebastião, muito obrigado. preciso do seu e.mail...mas, amigo, sedex fica caro, não? mais caro que os dois livros, rs. aguardo seu e.mail. pode mandar pelo: caximir@hotmail.com

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 8/1/2007 18:15
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Marcelo Torca
 

Alô Eduardo Ferreira! Seu e-mail é caximir@hotmail.com?

Marcelo Torca · Paulicéia, SP 8/1/2007 18:20
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eduardo ferreira
 

sim, marcelo. fique à vontade...

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 8/1/2007 18:28
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Sebastião Firmiano
 

Me mande os livros com vc. achar melhor.
E-mail: forluz@hotmail.com
Para Sebastião Firmiano

Sebastião Firmiano · São Paulo, SP 8/1/2007 19:53
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Dewis Caldas
 

OPa!! Tá chuvendo o Nóia por aí, vi no Calango, mas ainda não pude ler. Quero comprá-lo o quanto antes. A matéria está ótima, muito boa a sacada, e o Ebinho é um dos melhores do mundo, quem já viu esse cara ao vivo sabe o que eu to falando, não só por sua musica, mas pelo seu caráter, que fica exposto na sua sonoridade.
Abraços

Dewis Caldas · Cuiabá, MT 10/1/2007 13:02
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eduardo ferreira
 

valeu delwis, grande garoto, conhecemo-nos numa roda num show da banda vanguart em cuiabá. mas já acompanhava seu trabalho aqui pelo overmundo. delwis, c tem razão. segundo celso pixinga e outro cara aí do bass world colocaram o ebinho como uma das revelações planetárias do instrumento (meu triste desatino! um dia vcs compreenderão...rs). dito e feito. ebinho é isso!

eunóis tá rolando sim. vários pedidos do livro de várias partes do brasil. muito legal. sei lá. jogo dos acasos. viktor chagas foi o cara. presente de aniversário. e olha que não foi um presente de grego. não pagou nem o sedex. dura lex.

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 10/1/2007 17:44
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RaPha Bass
 

Cara estou a procura desse material, a muito tempo, como faço pra compra-lo, alguem pode me ajudar?

RaPha Bass · Canavieiras, BA 20/9/2009 21:16
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