Música, ideologia, discurso e estética - Parte I

Noise D, Central Hip-Hop / Bocada Forte
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DJ Cortecertu · São Paulo, SP
2/3/2011 · 25 · 3
 

A criação e a utilização dos recursos tecnológicos movimentam a cultura através dos tempos
O uso da tecnologia na música não é nenhuma novidade. A cada dia descobrimos novas formas, releituras e apropriações recicladas em estéticas diferentes, entre outros fenômenos culturais da nossa época. A cultura do sample e do remix se mistura aos conceitos analógicos e orgânicos, fator que torna impossível definir os rumos de qualquer estilo musical. Como a tecnologia e sua utilização são frutos da ação humana, a música resultante dessa experiência representa a relação entre a bagagem cultural de cada artista e o contexto em que vive. Nada é produzido sem as influências econômicas, políticas e sociais.

“Por trás das técnicas agem e reagem ideias, projetos sociais, utopias, interesses econômicos, estratégias de poder, toda a gama dos jogos dos homens em sociedade”, conclui o filósofo francês Pierre Lévy, autor do livro Cibercultura. Segundo Lévy, as técnicas são produzidas no seio de uma cultura, e uma sociedade encontra-se condicionada (e não determinda) por suas técnicas.

Ainda na obra Cibercultura, o escritor pontua a importância do estúdio de gravação e da digitalização, fenômeno que baixou o custo do processo criativo. Sintetizadores, sequenciadores, computadores, samplers, programas para edição e mixagem, entre outros instrumentos de trabalho, possibilitaram a criação de diversas formas de música e diferentes discursos. Estúdios digitais – de diferentes proporções – estão espalhados pelos quatro cantos do mundo.

[+] Saiba mais sobre Pierre Lévy (em francês e português)
Do ska, ao reggae. Do reggae ao dancechallNo final dos anos 1950, a apropriação da tecnologia da época por uma dezena de jamaicanos, descendentes de africanos que foram escravizados, gerou um ritmo novo: um ska com andamento lento e guitarras hipnotizantes, com influências do r&b. O gênero musical foi chamado de reggae nas favelas e ruas da Jamaica.

No final dos anos 1960, Bob Marley equilibrou a música, a fé, o discurso dos direitos humanos e o amor ao próximo. Entre o final da década de 1970 e o início dos anos 1980, DJs da Jamaica recitavam suas poesias urbanas em cima de um reggae cheio de efeitos, um dub pesado e dançante, concebendo a origem estética do rap. O ideal “roots-and-culture”, proclamado por Marley (morto em 1981), Dennis Brown e Peter Tosh, entre outros, ainda prevalecia, mas a estética vinda da utilização de sintetizadores e sequenciadores, que praticamente dispensava os músicos, colocou a produção do DJ em um outro patamar.

Os anos 1980 também foram o marco para o surgimento de um discurso diferenciado no reggae. Parte da nova safra de DJs não tinha mais ligações com os conceitos da fé rastafari. Yellowman foi um dos primeiros artistas da música pop jamaicana a utilizar o peso do reggae – que passaria a ser chamado de dancehall – para mandar suas letras picantes e de duplo sentido. Em 1985, participou de King of Rock, disco do Run DMC.

Anos 1980, a vez dos desbocadosA geração de cantores como Super Cat, King Kong e Tenor Saw colocou um tempero mais forte e pesado na cena pop da Jamaica e conquistou as pistas. Vendas em alta, aceitação imediata entre os mais jovens, sucesso total. Mas as novas gerações passaram a rimar sacanagem, sexo, drogas, humilhação e outros ingredientes que não cabiam na receita “roots-and-culture”.

Racha ideológicoO público ficou dividido. Houve um racha definitivo entre as gerações de artistas. Na época, Bunny Wailer, que trabalhou com Bob Marley e Peter Tosh, declarou: “Cada DJ apenas repete o que o outro faz. Você encontra 25 deles fazendo o mesmo som. Eles estão por fora. Não sabem ao menos cantar no mesmo tom da música, e isso não é bom pra imagem do reggae”.

Na década de 1990, os novos DJs estavam no ranking (Cutty Ranks, Shabba Ranks, Nardo Ranks, entre outros) e continuavam fazendo sucesso. Entretanto, os defensores do reggae ´de raiz` reagiram e, mais uma vez, se apropriaram da tecnologia contemporânea para, sem perder a essência, mesclar suas ideias e sons acústicos aos conceitos da nova estética instrumental.

Ainda no início dos anos 1990, fazer reggae, dancehall ou ragga estava condicionado ao trabalho num estúdio digital. Mas esse fato não causou o fim do reggae tradicional. Outras variações do reggae e do dancehall foram desenvolvidas com o passar do tempo. A tecnologia e a influência cultural provocaram movimentos de ação e reação, aproximaram, geraram possibilidades e instigaram reflexões, mas também convidaram ao não-pensar. Como afirmou Pierre Lévy, uma sociedade está condicionada por suas técnicas. No meio artístico, tradições são mantidas, recicladas e ameaçadas, novas formas e discursos são criados. A música representa o pensamento de um determinado grupo, em uma determinada época, mas, a cada acorde, escolha e corte de um sample, acertando ou errando, o ser humano prova que nada é estático.

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DJ Cortecertu
 

Fontes : Cilbercultura, Pierre Lévy. Folha de S.Paulo (1988)

DJ Cortecertu · São Paulo, SP 7/3/2011 17:58
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DJ Cortecertu
 

Fontes: Cibercultura, Pierre Lévy, e Folha de S.Paulo (1988)

DJ Cortecertu · São Paulo, SP 8/3/2011 01:45
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Débora Maria Macedo
 

A música é uma árvore gigante e milenar. Se ficamos presos somente às suas raízes, não aproveitamos todos os frutos que pode gerar.

Texto bem elaborado e muito importante para esclarecer àqueles que, como eu, ainda não conseguiram enxergar da árvore senão seu início (o que é muito pouco).

Débora Maria Macedo · São Paulo, SP 8/3/2011 12:32
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