Revelar e realçar os vínculos entre os diversos gêneros musicais brasileiros e latinos, valorizando a pungência dramática da nossa música através de acordes e linguagem teatral, é o que faz o espetáculo Encarnado, Branco e Preto, que volta ao seu palco de estréia, no Teatro Sesc Emiliano Queiroz, em Fortaleza. É mais uma feliz oportunidade para se ver e ouvir esse espetáculo musical dirigido por Ayrton Pessoa (Argonautas) e por Yuri Yamamoto (grupo Bagaceira de Teatro).
Encarnado, Branco e Preto é o primeiro trabalho solo de Ayrton Pessoa (Bob, para os íntimos ou desavisados), após a separação do excelente “grupo, interrompido” Argonautas. O quarteto – que era formado também por Raphael Gadelha, Rafael Torres e Leonardo Torres – deu um tempo nos ensaios e apresentações, deixando admiradores a ver navios. Tempo suficiente para Ayrton Pessoa gestar um espetáculo que em muitos momentos desbota o limite entre música e teatro para realçar o drama de canções muito bem selecionadas. Drama que se traduz nas cores do título do show.
O espetáculo é uma seleção de 9 canções e 4 peças instrumentais, conhecidas do público por intérpretes e autores como Chico Buarque, Tom Jobim, Caetano Veloso, Horário Guarany, Eduardo Negrin Andrade, Maria Teresa Vera, Nelson Cavaquinho, Astor Piazzolla e Heitor Villa-Lobos. As canções são executadas pelo grupo No Hay Banda, formado especialmente para o projeto e encabeçado por Ayrton Pessoa no violão e acordeon. Ao seu lado estão Ronilson Lima (Cinco em Ponto), na flauta e percussão, e Sérgio Araújo (Quinteto de Sopro Alberto Nepomuceno e grupo Andejo), no clarinete, além da cantora-atriz Andréa Piol (Grupo Cabauêba de Teatro). As músicas ganharam novos e quase inesperados arranjos, que exprimem o tom pungente do espetáculo. O termo “música pungente” é, inclusive, como Ayrton Pessoa define o show.
É nesse sentido que, por exemplo, a canção Retrato em Branco e Preto, de Chico Buarque, torna-se um envolvente tango. Da mesma maneira, Manhã de Carnaval (de Luis Bonfá e Antônio Maria), originalmente mais para a bossa-nova, é assumida como samba-canção, assim como Onde Andarás, de Ferreira Gullar e Caetano Veloso (originalmente uma marcha); Coração Vagabundo, nos arranjos de Ayrton Pessoa, ganha andamento de valsa. Assim é com quase todas as músicas do espetáculo, com poucas exceções como La Villerita (Horácio Guarany) e Urpilita Perdida (Eduardo Negrin Andrade), conhecidas pela interpretação de Mercedes Sosa, cuja ritmo latino original já correspondia (como uma luva) à proposta do espetáculo.
Proposta que, além da direção musical, se traduz na direção cênica. Yuri Yamamoto confere à Encarnado, Branco e Preto a quase exacerbação latina do drama. Primeiro, no cenário, luz e figurino, todos nas cores do título do show. Depois, na interpretação de Andréa Piol. Yuri e Andréa são (para falar dramático como eles) a dor, a urgência, a volúpia, o melodrama e o coração partido do espetáculo. É realmente música e teatro. Para entender melhor tudo isso, só vendo. Quem se interessar, deve comparecer ao Teatro do Sesc, no dia 14, às 20h. Os ingressos custam R$ 10 e R$ 5.
Informações: 9614.9811
Sim, estarei lá no dia 14. Já vi uma parte do show uma vez e adorei. Agora é a vez de ver todinho sem piscar o olho!
Bob é um músico muito talentoso e merece ser visto com seu trabalho.
Eu já conferi, vale a pena. Mais que isso, vale um repeteco. Música boa tem que ser ouvida em dobro.
Isabella Cavalcanti · General Sampaio, CE 6/7/2006 16:37Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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