MUSIN - Museu do Som Independente

Jonas Oliveira
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Adriane · Curitiba, PR
28/8/2006 · 208 · 19
 


Na primeira vez que tive acesso ao acervo do pesquisador Manoel Neto, ele nem era considerado como tal pela maioria das pessoas do mundo da música em Curitiba. Mas, o material que ele já havia reunido foi precioso para uma série de reportagens que assinei num grande jornal do Paraná sobre história da música paranaense. Livros, muitos (e raros) vinis, gravações inéditas em fitas cassetes, filipetas, cartazes de shows históricos por todos os lados e, claro, muitos cds de bandas independentes paranaenses já forravam o ap do rapaz. Um senhor acervo que pode até não ser o mais completo, mas é o que se tem de mais próximo disso, sobre a música autoral produzida na capital paranaense, principalmente, mas também do estado todo.

É este o material - cerca de 10 mil folhetos e cartazes de eventos culturais, 1500 vinis, cassetes e cds de músicos locais, mil publicações, como fanzines, livros e informativos, e mais de 3 mil fotos -, que ele agora reuniu, de forma ainda improvisada, porém organizada, em um apartamento, bem em um dos centros nervosos de Curitiba, a Boca Maldita, no edifício Tijucas.

É lá, no lugar batizado informalmente de Musin - Museu do Som Independente, que todo o material que ele recolheu nos últimos 20 anos pode ser acessado para pesquisas. A idéia – e ele já está trabalhando para isso – é transformar o conjunto de documentos em um bem cultural tombado do Estado, processo que já está correndo junto à Secretaria de Estado da Cultura do Paraná.
Só que existem algumas questões técnicas que dependem ainda de Manoel Neto. Mesmo sendo o único acervo da história da música paranaense organizado como tal, o pulo de acervo para patrimônio tombado, e posteriormente um Museu, é complexo e exige verbas que ele não dispõe.

O acervo precisa ser inventariado, o que custa caro. Como o Musin não é uma instituição formalizada, não existem facilidades na hora de angariar apoios. “Sem as verbas enrosca um pouco a continuidade. Mas, estar sendo usado como fonte de pesquisa já conta pontos, porque é utilidade pública”, comenta Neto que, enquanto isso, vai trabalhar com Leis de Incentivo como pessoa física. “Vou me virando com a velha lição punk de dar um jeito de fazer o que precisa ser feito”, completa ele, que quer no futuro disponibilizar parte do material na internet.

Neto já produziu algumas coletâneas e trabalhou com bandas e já passou uma fase de não ser uma unanimidade entre os músicos. Mas não há como negar a importância desse acervo que tem muita documentação da cena rock pop curitibana a partir dos anos 90, mas não só. Ele não se limitou a guardar as filipetas e cartazes dos shows aos quais ia ou produzia. Realmente foi atrás de criar um acervo, coisa séria, embora muitos não se dêem conta por aí. Entrevistou gente que está fazendo música desde os anos 60, quando os artistas locais deram os primeiríssimos passos além das versões de clássicos da música mundial; foi estudar de verdade o que aconteceu por aqui, onde surgiu por exemplo, uma das primeiras bandas punk, a Carne Podre, antes mesmo de a gente saber o que era isso, aqui.

Ele também recolheu dados sobre a Jovem Guarda curitibana e, antes ainda, quando do nascimento do rock curitibano nos anos 50, época em que o pacato curitibano não via com bons olhos aqueles rapazes de jaquetas de couro que insistiam em fazer barulho com suas motos e dançar de um jeito diferente.

Mais recentemente, ele também se envolveu com discussões de política cultural, participando de vários fóruns e discussões nacionais. Atualmente, está convicto de que os rumos estão mudando e a maré está passando para o lado dos chamados independentes, termo aliás que ele não usa muito, pensando bem. Ele fala de música paranaense. Tirou o foco exclusivo das “bandas” para tratar de história da música e articulação.

Quando o assunto volta para seu acervo ele se mostra tranqüilo. “O mais difícil é ter base consistente e isso, pelo que tenho visto, estou bem à frente no Brasil inteiro. A idéia de que já fiz o mais importante, me deixa tranqüilo, agora tenho que organizar”, comenta. Mas Neto sabe, também, que agora é que o bicho vai pegar. “Inventariar o acervo é o mais premente. É engraçado, a gente faz a pesquisa e pensa que ela é a questão, mas não. O uso dela e a institucionalização do acervo é que são as verdadeiras questões. Eu achava que o trabalho estava feito, e é agora que ele começa”.

Serviço:
MUSIN - Museu do Som Independente (Av. Luiz Xavier 68, conjunto 1618 - Galeria Tijucas). Visitas com hora marcada pelo telefone (41) 9604 3992 ou pelo email manoel_umbigo@yahoo.com.br

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eduardo ferreira
 

legal adriane. pensar em memória antes que ela se apague. ponto para o manoel neto.

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 28/8/2006 19:34
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Nanna Pôssa
 

quem sabe isso não é ponto de partida para que se pense a memoria da música independente em outras cidades. Boa matéria.

Nanna Pôssa · Salvador, BA 28/8/2006 19:39
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OAEOZ
 

nesse caso, vale o velho clichê de que quem não conhece o seu passado, não tem futuro. parabéns ao Manoel. E gostei do tom mais pessoal do começo do texto.

OAEOZ · Curitiba, PR 28/8/2006 20:00
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Adriane
 

o manoel é um tipo persistente. aqui em ctba existem alguns acervos não organizados muito importantes sobre a música independente. do JR Ferreira, do marcelinho, de um monte de gente de banda. a gente mesmo, na de inverno (minha produtora e do ivan, que faz o festival rock de inverno), leva isso muito a sério também. juntando isso tudo, vê só o "museu legal que vai dar". é muito importante juntar essas "coisinhas" que ajudam a contar a nossa história. eu gosto muito disso, só que so meio desorganizada. esse é o maior mérito do manoel, junto da persistência.

Adriane · Curitiba, PR 28/8/2006 20:10
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Rodrigo Teixeira
 

Parabéns Manoel. Vc é um raro exemplo de quem ajuda a construir nossa memória. Fico pensando no que a Nanna (oláaa!) disse e acho que é isso mesmo q deveria ser feito. Em MS, por exemplo, temos uma história do rock desde final dos anos 60. Mas jamais vi nada disso em foto, escutei alguma música e por aí. P.S.: Fiquei com vontade de ouvir algo do rock paranense das antigas!

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 28/8/2006 23:14
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Karla Gohr
 

Muito bom, hein Adriane? Nossa, quero muito falar com o Manoel, vou ficar bem "louca" com tanto material que ele tem! Mas é isso aí, preciso conhecer este espaço o quanto antes!!! Valeu!!!

Karla Gohr · Curitiba, PR 28/8/2006 23:29
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alexmono
 

Grande, conheci o Manoel num encontro da Câmara Setorial e o cara conhece legal da matéria, Manoel se liga na Feira da música que vai acontecer aqui em Recife em Fevereiro de 2007 e quem sabe a gente aqui possa ouvir mais sobre essa sua experiência, precisamos muito documentar a música que aconteceu fora da mídia e do eixo sudeste, valeu mesmo a iniciativa.

alexmono · Recife, PE 29/8/2006 09:59
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OAEOZ
 

Interessante isso que a Adri falou dos outros acervos que existem por aí nas mãos de vários personagens da cena. Tem por exemplo o pessoal do Beijo AA Força, que deve ter muito material raro e inédito. Tem o Ciro Ridal, que tem gravado programas de rádio e TV ao vivo com mais de 70 bandas/artistas. Em o pessoal do punk rock que inclusive já produziu um vídeo documentário. O dia em que a gente juntar tudo isso, ou pelo menos conseguir disponibilizar virtualmente esse material, teremos um acervo invejável pra qualquer capital do País. Por enquanto pode ser só um sonho, mas acredito que com o tempo e a boa vontade dos envolvidos, além é claro de viabilização prático-financeira, seria um tremendo passo adianta para documentar toda essa história cultural subterrânea.

OAEOZ · Curitiba, PR 29/8/2006 17:07
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cleo do vale
 

Nossa...precisamos todos ser um pouco "Manoel" ! Concordo com o Alex e vou mais além, acredito que devemos registrar toda e qualquer manifestação cultural de todo e qualquer lugar. Hj a historia pode nao so ser construida como registrada por todos. A reunião e o cuidado de pequenos acervos podem futuramente se juntar e se transormar em ótimos museus, com nossa historia mais viva e completa, como sugeriu Adriane!
E assim "gringo desinformado" não vai achar q aqui não temos museus, ou que a nossa historia nao tem importancia...

cleo do vale · Crato, CE 30/8/2006 11:38
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cleo do vale
 

pontos para o overmundo q promove esse encontro e essa troca de informações!!! talvez daqui saiam varios pequenos ou grande museus...

cleo do vale · Crato, CE 30/8/2006 11:40
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Marcos Carvalho Lopes
 

Gostei...dica pra quando for em Curitiba. Valeu!

Marcos Carvalho Lopes · Jataí, GO 30/8/2006 18:36
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Adriane
 

puxa, como eu tô feliz com esses comentários todos. Esse assunto, não só a história da cena independente (e curitibana em especial) como também o registro da "nossa história" me é muito cara. eu tento fazer minha parte no jornalismo diário. mas se enfrenta muito pouco caso. Se fala muito, mas na prática é fácil notar os preconceitos em torno da cena musical independente. ninguém fala contra, claro, hoje em dia. mas as opiniões equivocadas ficam evidente em muitos comentários. por isso também um trabalho como o do manoel - e todo os outros citados nessa nossa conversa e os não citados - é tão importante. Se a gente não bancar essa nossa história ela vai ser sempre algo menos importante. Só que pra gente, que vive isso, que sente essa realidade nan pele, que conhece a peleja das bandas e todo mundo que faz parte desse mundo, ela é a mais rica de todas. valeu. cadê você manoel, que não se manifestou ainda, rapaz?

Adriane · Curitiba, PR 30/8/2006 19:09
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demo sul
 

O Paraná precisa de inicativas como essa, para potencializar o que já é potente...a música daqui! Parabéns e sucesso Manoel.

demo sul · Londrina, PR 31/8/2006 18:40
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demo sul
 

O Paraná precisa de inicativas como essa, para potencializar o que já é potente...a música daqui! Parabéns e sucesso Manoel.

Dri, a materia ficou execelente, como sempre.

demo sul · Londrina, PR 31/8/2006 18:46
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Manoel J de Souza Neto
 

Olá amigos, independentes e raros, queria primeiro deixar um beijo pra Adri Perin, pela sensibilidade e perseverança com que conduz seu ideal pela música independente e sem fronteiras. Fazem exatos dez anos que a Adri me entrevistou para o Jornal do Estado aqui no Paraná, o tema da matéria era correlato ao Musin, naquela época ainda esboçava o que ando fazendo atualmente, mas a pesquisa o acervo já estavam sendo montados com idéias que apenas foram aprimoradas. É um caminho difícil, mas prazeroso, não tratando apenas de um museu, é um ideal de luta e resistência cultural. Trata, portanto do combate a dominação cultural e a monocultura imposta pela industrial cultural que atua através do tri-pé “Mídia, Direitos Autorais, Multinacionais do entretenimento”. Essa é a maquina que detona com as vias de circulação das culturas regionais, urbanas e pelos interiores remotos do mundo inteiro, inclui-se ai também, não apenas a música independente dita Rock-Underground, mas todos os prejudicados, música popular, folclore, erudita, instrumental e qualquer coisa que não de o lucro da repetição obtida com a atual música pop dos catálogos dessas grande empresas. O mesmo ideal de resistência movimentou a criação do Musin é o que inspirou tantas outras ações nos últimos anos, desde eventos, debates, manifestos, livros de história, coletâneas, programas de rádio, proposições político/culturais, divulgação de artistas e tantas outras que as vezes nem me lembro. É importante falar que nunca estive só, essa é uma ação coletiva do qual apenas faço parte, as vezes com meu trabalho, as vezes me metendo ou influenciando no trabalho de outros. O caminho começa a ser traçado, e cada um faz história a cada passo, assim penso, e como observo esses fatores acredito que estamos muito perto de uma ruptura, com desdobramentos que saberemos em breve, sugiro a cada um observar o levante que ocorre em todo mundo. Da pra sentir as estruturas balançando, em breve a arquitetura cultural dos últimos 40 anos vai ruir, e isso já aconteceu para pelo menos 6% da população mundial (infelizmente aquela que tem acesso irrestrito a internet e educação). As grandes mudanças tecnológicas ocorridas nas formas de comunicação, divulgação, as formas de absorção de informação, arte, cultura e mesmo nas praticas de consumo potencializam o tombo, as multinacionais da música já não mandam mais no mundo. O tiro pela culatra da globalização á a própria auto-afirmação do local, ocorrendo á regionalização. E apesar do macro e micro sistemas se copiarem (idéia do Prestes), acredito que a ruptura é algo como comunismo virtual ou cristianismo fora dos céus bem aqui na terra digital, catequizando, convertendo, formando cidadãos que observando tantas injustiças, estes, começam a acreditar em economia solidária, cooperativismo, quebra de patentes, democratização do acesso a cultura e as suas formas de divulgação. As gerações futuras precisam de subsídios para continuar a resistência e acabar com a escravidão, sendo esse fator determinante para a necessidade de espaços como Musin. Adorei a idéia lançada de que cada estado deveria ter o seu, o Musin poderia ser sim uma rede de pensadores e pesquisadores que preservam, divulgam e descrevem suas respectivas cenas musicais, ou seja a materialização do que ocorre no Overmundo, como via de retorno não apenas do virtual, mas do real e regional, falamos de arquivo físico. Quem se habilitar pode contar comigo, até mesmo na idéia de criar instituições irmãs, centros coordenados pelos próprios interessados e especialistas, formando assim Musin-PR, Musin-CE, Musin-GO, Musin-PE, Musin-MS, Musin-BA, Musin-MT e assim por diante. Obrigado pelos comentários, esse é o tipo de incentivo que justifica tudo, abraço

Manoel

Manoel J de Souza Neto · Curitiba, PR 1/9/2006 16:25
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Téo Ruiz
 

Tardiamente, mas li o texto. Já sabia desse trabalho do Manoel, e nas várias conversas que tivemos por aí percebo sua intenção de ajudar e fazer algo realmente importante para a cultura local. Acho extremamente importante se fazer um acervo do que é produzido aqui, organizar isso e disponibilizar para o público, ainda bem que tem o Manoel pra fazer isso!!! rs...
Mas vejo, também, que muitas questões colocadas como "locais" há tempos são nacionais, no mínimo. É isso Manoel e Adriane, parabéns pelo trabalho e registro aqui no Overmundo. Espero que nossa produção também esteja no MUSIN. Se não tiver, me dê um toque.

Téo Ruiz · Curitiba, PR 10/4/2007 09:45
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Adriane
 

OI Téo, tudo bem: Pra quem não sabe o ´Téo Ruiz também é músico, e toca junto com Estrela Leminski no Casca de Nós. Os dois também produzem um festival, o Independência ou Sorte e lançaram um livro, projeto de conclusão de curso, que também mexe com este tema. é isso. e, total, essas questões são nacionais sim. mas continuo preferindo falar com dois olhos e dois pés fincados no lugar onde vivo, que, me parece, precisa disso. precisa que falem e aqui no Overmundo, isso tudo repercute, né. Legal. Apareçam sempre.

Adriane · Curitiba, PR 12/4/2007 09:43
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Bruno Paz
 

OLá Adriane,

Peço permissão para publicar esta matéria no site Bandas de Garagem - UOL dando os devidos créditos

Bruno Paz · São Paulo, SP 12/6/2007 16:44
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Adriane
 

oi bruno, tudo lega. desculpe a demora. mas, claro que autorizo, sim. desde que citado meu crédito e do overmundo, sem problemas. é muito importante que esse tipo de ação caminhe o mais longe possível. valeu.

Adriane · Curitiba, PR 18/6/2007 16:12
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