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Na contra-mão da auto-ajuda, faça por seus sonhos

http://tiosam.com/?q=Terramoto_de_1755
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Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS
6/7/2007 · 37 · 5
 

Tudo o que nos acontece é o melhor que poderia nos acontecer. Demos graças a Deus.
O conselho de Pangloss a Cândido pouco aliviou a dor do jovem que acabara de ter a noiva estuprada por 12 mouros.
A agonia de uns pode dar prazer a outros e a terceiros representar os fados da existência.
Nem é só se lhe parece, nem é apenas a crueza dos dias penumbrosos.
Mas...
É a vida.
Cândido seguiu viagem com a amada, a bela Cunegundes, não muito satisfeito com os conselhos panglossianos.
Não deixará de ser otimista, mas começa a pensar na necessidade de dar bons cuidados ao bem, que há de ser encontrado.

O Filósofo Ignorante, Ou as reflexões filosóficas de Voltaire sobre a existência do mal no mundo e a fragilidade humana é um estudo de Marcelo Xavier a partir de Cândido.

Em 1755, Lisboa é destruída por terremoto cuja violência impressionou a Europa.
Goethe escreve: “porventura em algum tempo o demônio do terror espalhou por toda a terra, com tamanha força e rapidez, o arrepio do medo”.
A natureza do evento influencia o pensamento do filósofo François-Marie Arouet, o Voltaire (1694-1778).
Escreveria: “Um dia tudo estará bem, eis nossa esperança / Tudo está bem hoje, eis nossa ilusão”.
Os terremotos não tinham ainda causas totalmente conhecidas. Voltaire transformaria a catástrofe no exemplo para criticar o paradigma do "otimismo filosófico" e a doutrina da "Providência Divina".
Vigia a "tradição" oriunda de Leibniz em que o mal é elemento necessário de uma perfeição da qual conhecemos somente parte do todo... todo mal particular concorreria para o bem universal.
Desta forma, se Deus escolhera este mundo num conjunto para dar a existência, devêssemos acreditar que este é o “melhor dos mundos”. A concepção é rechaçada por Voltaire...
Se tudo está bem, qual é o significado da tragédia? Se o mundo está em ordem, nada garante que a ordem se faça para o bem-estar do homem.
E quanto aos inocentes?
Ou, por que Lisboa e não Paris ou Londres?
...
Se o mundo é um vale de lágrimas, então o universo contradiz o otimismo: como compreender um Deus bondoso que permite a existência do mal?
Voltaire cita Epicuro em sua exortação a Lisboa ao concluir que ou Deus quer impedir o mal e não pode, ou pode e não quer, ou nem quer e nem pode.
Mas, se quer e não pode, não é Deus; se pode e não quer, não é bom, o que é contrário a Deus...
ParaVoltaire, o mal era a razão corrompida.
A teoria providencialista e a ciência explicam o incidente em Lisboa, mas não o demovem da idéia de que o terremoto é um exemplo da ruptura da razão, um exemplo de como o ser humano é frágil e vive num lugar onde tudo pode acontecer, sem que possamos fazer nada.
A partir disso, Voltaire concebe Cândido.
A alegoria é pretexto para a investigação filosófica...
Afirmar que Deus tem um plano-mestre para o mundo, além de idéia absurda, nos faz cair em contradições se analisarmos sobre a questão do mal.
Cândido é um jovem criado por Pangloss, seu preceptor, que lhe oferece uma visão otimista de que todos vivem no melhor dos mundos.
Um dia, eles são expulsos do castelo onde viviam, e passam por terríveis atribulações - entre elas, Cândido presencia a destruição de Lisboa.
O jovem conclui que, onde quer que esteja, o mal está por toda parte.
A solução é “cultivar o jardim” e trabalhar a fim de suportar todos os revezes, de forma a tornar a existência um pouco mais suportável. Ceticismo?
Não de todo, pelo menos no sentido original.
O ceticismo clássico não acreditaria na razão e na ciência.
Na verdade, Voltaire inventaria ali o “filósofo ignorante”.
Porém, essa ignorância seria o reconhecimento dos limites da razão humana em debater-se sem jamais encontrar uma resposta satisfatória.
Ao filosofar sobre o mal em Cândido, por exemplo, ele conclui que “cultivar o jardim e trabalhar” não seria uma forma de resignação, mas o reconhecimento da “ignorância” contra o otimismo e a aceitação de que o mundo não seria tão mau quanto parece.
De acordo com Maria das Graças do Nascimento, em Cândido existem três alternativas para se responder ao problema do mal.
A primeira reside no pensamento mágico de Pangloss, onde os males são necessários em favor do bem maior, tese contestada pelo conto.
“Se tudo foi feito por Deus tendo em vista um fim, esse fim é, necessariamente o melhor”, diz.
A segunda aparece na boca de Martinho, companheiro de Cândido. Para ele, tudo no mundo é regido por dois princípios, o bem e o mal, sendo que o segundo se sobrepõe sempre ao primeiro, ou recalcando qualquer bem incluso no curso dos acontecimentos.
A última alternativa, por sua vez, é apresentada por um religioso muçulmano.
Cândido e Pangloss perguntam a ele o motivo de existir tanto mal sobre a terra.
O homem responde: “por que vocês se preocupam tanto com isso?”.
Se não há certeza dos fins e meios do plano-mestre divino, é preciso que os homens trabalhem, com os elementos que a sua razão contingente e humana lhe permite.
E, se o terremoto lusitano que atemorizou Goethe renovou o misticismo da velha alma gentil portuguesa, encontrou um inimigo desse pensamento mágico no Marquês do Pombal, todo-poderoso secretário de Estado de D. José I, que reconstruiu Lisboa com grandeza em singela homenagem à razão... demasiadamente humana no filósofo francês.

Ligações Importantes:
http://coisaegente.blogspot.com/
http://www.rabisco.com.br/index.htm

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Adroaldo Bauer
 

Cabe, sim, uma explicação: Cândido tem sido o resumo mais procurado em meu blog.
E, pelo registro de origem dos procurantes, a busca parece ser dominante de estudantes universitários.
A minha gratificação de dar publicidade a esse trabalho de um gaúcho só é menor que a minha curiosidade pela razão da própria busca nesse tempos mais que modernos.
Otimista, sim.
E vôos altos com os pés bem assentados nas pedanas, pedal de mudanças e freio, mãos no acelerador, embreagem, freio e guidão e que essa joça de moto não passe dos 240 por hora que eu começo a tremer.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 4/7/2007 16:40
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LAILTON ARAÚJO
 

AMIGO ADROALDO BAUER!

Você não deve ficar preso ao chão numa final de INTER x GRÊMIO! O chão treme e tudo vira "Água em Pó...” rsrsrsr!

Meu caro... Lendo trechos do seu trabalho aprendo sobre história, filosofia e novas técnicas de redação!

Parabéns!

Diga uma coisa: não quer publicar algo no meu blog: DIÁRIO DO CARAMUJO?

Naquela final dramática (Grêmio x Náutico - tempos atrás) aconteceu um terremoto à moda lusitana: Recife tremeu e dos olhos deste humilde sertanejo - saíram lágrimas secas de "água em pó...”

Fomos pulverizados: mesmo com ajuda do juiz (ao nosso favor), bandeirinha e a torcida amiga!

Abraços.

Lailton Araújo

LAILTON ARAÚJO · São Paulo, SP 7/7/2007 21:14
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Adroaldo Bauer
 

LAILTON,
Agradecido por teu comentário generoso.

Eu torci para o Grêmio naquela batalha dos aflitos, que meu guri menor é gremista.
Em grenal eu me divirto muito com as caneladas da pelada em que se transforma o clássico, porque é mais que guerra de bugio o reencontro de chimangos e maragatos (duas facções rivais da política regional aqui).

Gosto muito de futebol e faço assim, desde os 14 anos de idade:
Sou São José, aqui da capital, um time que até hoje só disputou o campeonato gaúcho e ainda fica de fora de quando em vez, indo pra segunda e até terceira divisões.

Quando qualquer time daqui joga pra fora, contra gente de fora, torço pros daqui.

Quando qualquer time brasileiro joga pra fora, contra os de fora, torço pro time brasileiro.

E torço muito pelo Barcelona, menos contra brasileiros, sei lá porque. Acho que, mesmo desgostando, acabo meio patriota.

Torcia pro Tiradentes, do Piauí, porque nasci lá, mas o time incendiou uma boate uma vez, ainda no milênio passado, larguei eles de mão, como larguei de torcer a sério aqui porque a violência é gratuita.

Deixam do esporte pela guerra num zás.

Brigo de foice, tacape e fuzí por coisa mais séria.

Visitarei teu blog e verei no que podemos nos ajudar.
Grande abraço e té mais, antes que montemos aqui a tal de fábrica de água em pó.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 8/7/2007 00:49
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Spírito Santo
 

Ao que parece, Adro, o mal é atávico e o bem um desvio de conduta que só nos faz feliz um pouco. Não existe filosofia que nos explique a falta de sentido de nossas vidas, no espaço entre o nascimento e a morte. É tudo peira ao vento, penso eu.

Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 8/7/2007 15:59
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Adroaldo Bauer
 

O povo daqui, como de outros locais ou de outras eras, não está muito interessado no principal da existência Spirito.
Acontece de ser assim, de quando em vez, conforme as gerações e as criações.
Veja que estamos apenas eu, tu e o Lailton nessa experiência da caminhada do conhecimento racional que propus ao debate.
Voltaire é carga pesada na história da humanidade, não baixa em qualquer goela facilmente.
Faremos ao modo que os níveis de consciência estão a exigir, ou pela beleza ou pela paulada na testa: do tipo araçá azul e apenas um rapaz latino-americano, como já o foi há pouco em nossa própria história.
Beijo no coração de vocês,
Agradecido pelo interesse.
Minha mãe ainda hoje me alerta:
- filho, atira o bolão de barro na parede, se colar, colou!

Até uma outra vez.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 9/7/2007 10:25
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