Cinzas. São cinzas os dois pares de olhos que vigiam a cidade. Íris de concreto que avistam o horizonte sobre edifícios, corpos e almas. Irmão um do outro, da mesma tribo. Talvez, pai e filho, não se sabe... Muitas pessoas circulam pelo centro da capital mineira; eles vigiam. Um mendigo pede esmolas, na esquina; vigiam. Numa ação rápida e cotidiana, o pivete, movido à cola, assalta o senhor aposentado. Dinheiro escasso e parco do velho, agora, já foi, mas... Continuam vigiando. Um homem em conflito existencial... Muitos estão. Assim, sob olhares, o tédio, o avesso da fé, consome a cidade. Doa a quem doer, esse sentimento martiriza e é capaz de destruir a esperança de cada um. No entanto, eles continuam em vigília, imóveis, sérios, uma cultura muito antiga, para além dos cento e poucos anos da cidade. Edifício Rotary, 17h37. Sol a pino, tarde duma sexta-feira. O forte calor derrete pensamentos, sentimentos, o amor, que muitos crêem que é capaz de dar asas à vida. Alguém elege o dia. ''A vida é essa: subir Bahia e descer Floresta'', diz certo compositor no monumento. Um homem é contra e, vindo do céu, desce a Bahia, na contramão do verso, da vida. Fisicamente, o edifício não parece com a torre de Minos, mas... Só os três viram Dédalo varar as nuvens. Ecoa um grito: aaaaaaaaaaaaaaaahhhh, plaft! No raio de poucos metros a terra treme. Muitas pessoas viram, inclusive eles, os dois. Um corpo se chocou contra a onda de asfalto, entre transeuntes e automóveis. O que um dia foi vida, esperança, sonho, hoje é nada. Uma alma vagueia sob o olhar sentencioso deles. Crânio rachado, miolos de fora, fêmur fraturado que dilacera a carne, sangue, muito sangue. Venha degustar à noite nosso delicioso rodízio de massas, é a oferta do La Greppia. Ao contrário das outras pessoas e de você, eles não torcem os narizes nem mudam de expressão. Estão sempre ali, parados, observando tudo. Sirenes ressoam em meio a um turbilhão de vozes. Muitos curiosos chegam perto para assistir à desgraça, como acontece nos dias de clássico Galo-Cruzeiro, diante das televisões dos muitos bares da tradicional travessia. A polícia toma conta do local, tenta controlar a situação causada por um homem sem controle. Aguardam a perícia. Até eles, que vigiam, estão sempre a aguardar. Só pode ser mulher ou dívida, arrisca o palpite popular sobre a causa. Como um rio que desce uma das muitas serras de Minas, o melado vermelho escorre pela rua afora e... 17h59. Mesmo chorando por causa do ocorrido - é, porque ela chora por tudo! -, a Santa está ansiosa pela atenção dos seus fiéis. Uma senhora muito idosa passa na esquina com a avenida Augusto de Lima. Dona Maria veste-se como um tabuleiro de xadrez, preto e branco, e traz um rosário pendurado no peito. Balbucia algumas palavras e gesticula. Em nome do pai, do filho e do espírito santo, amém: CCBH*. Muitas vezes a velha já presenciou a cena que insiste em repetir, de tempo em tempo. Acontece que, agora, erraram o endereço. Eles foram contrariados. Sim, os dois não devem ter gostado de serem preteridos. Mas ela, que reza intimamente, já conhece toda a história, desde o tempo de menina, virgem e ingênua, quando já testemunhara fatos semelhantes a esse. A anciã de hoje faz idéia do porquê homens e mulheres cometem essa aventura para o esquecimento, fazem isso... Por influência do mito, dos índios, da dor do tédio, morrem: Acaiacas, a imagem alterosa das desilusões.
(*) Centro de Cultura Belo Horizonte - construído em 1914, em estilo neogótico, o prédio tombado já foi sede da Câmara Municipal, da PRC-7 Rádio Mineira (primeira de Belô), Museu de Mineralogia, Instituto Histórico-Geográfico de Minas Gerais. Sediou também sessões da Academia Mineira de Letras e a Semana Mineira de Arte Moderna. Resumindo, já foi muita coisa, menos igreja.
puta que pariu cabra... muito bom este texto, visualizei a cena inteira... tem a manha de conduzir... ducaralho, parabéns!
abraços
Yuga
e então... vamos fazer o roteiro desta estória??? animo demais... arrumo a galera para ajudar a gente na produção, o que acha???
abraços
Yuga
Gosto de texto que prende do começo a fim. Esse seu tá arretado. Gostei também da forma animada com que se posicionou o dj yuga em seus comentários. Viva!!!
Um toque, George. O desencadeamento do texto em parágrafos separados por espaços entre cada um deles facilita, e muito, a leitura.
Grande abraço!
Salve Tom!
rs... fui um pouco eufórico, né? vou manerar mais.
abraços
Como pode?! ... "separados por espaços entre cada um deles"?! Hehe. Nem acredito que escrevi isso. Ainda bem que vale quase tudo nos comentários.
Tom Damatta · Araguaína, TO 12/2/2007 09:35oi, Tom! beleza beleza beleza!!! cara, o lance da falta de parágrafos foi intencional mesmo, pra acompanhar a narrativa. um texto-clima tenso, saca? desespero textual... fazer da mancha de texto um só corpo (que pode ser um corpo que cai...). é isso. mas valeu pela atenção e fico muitíssimo grato que vc gostou. grande abraço, meu velho!!! george
George Cardoso · Belo Horizonte, MG 13/2/2007 10:34Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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