Na pisada da quadrilha, a inovação é coletiva

Neto Nunes
Cangaceiros - R. S. João
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Marcelo Rangel · Aracaju, SE
11/8/2011 · 32 · 2
 

Modernidade enfrenta tradição em Sergipe

Quando chega o mês de junho em Sergipe, assim como em vários outros estados do Nordeste, uma energia diferente toma conta de tudo e de todos. Bandeirolas coloridas tomam conta das ruas, residências, escolas, lojas, repartições públicas, consultórios, clínicas e até mesmo escritórios comerciais. O período em que os Santos Antônio, João e Pedro são homenageados é também a época em que forró, xote e baião não podem faltar na trilha sonora. É tempo de degustar o milho, assado ou cozido, e as comidas típicas dele derivadas, como a canjica, o mungunzá, bolos de milho fresco ou de fubá. Os arraiás, que é como são chamadas as festas públicas e particulares nessa época, mobilizam crianças, jovens, adultos e idosos, promotores de eventos e grupos de amigos. Em Aracaju, por exemplo, a festa da Rua de São João é centenária, a mais antiga do estado. E por todo canto, também tem quadrilha junina.

Dança de origem medieval, a quadrilha foi levada da Inglaterra à França pelas trocas culturais decorrentes da Guerra dos Cem Anos. Com os colonos ingleses, chegou à América do Norte e gerou a variante square dance. Na França, foi adotada pela nobreza e disseminou-se nas festas palacianas por toda a Europa. Cruzando o Oceano Atlântico com a Família Real Portuguesa, chega ao Brasil, instalando-se inicialmente nas quintas e paços para depois cair no gosto popular, adotada por populações do meio rural e das periferias urbanas. E assim espalha-se pelo Brasil, ganhando força de manifestação popular, passando a adquirir dimensão de repertório folclórico nacional. E, como expressão cultural brasileira, vai ganhando novas características conforme cruza limites estaduais, incorporando personagens, sonoridades e bailados. Hoje, uma quadrilha nordestina é diferente das do Sudeste, do Centro-Oeste e do Norte. E elas continuam mudando.

Nesse vai e vem, tal e qual o movimento de seus pares, as quadrilhas começam a adotar modos de organização e produção semelhantes a outras manifestações, notadamente o Carnaval das escolas de samba cariocas, fato também observado no apoteótico Boi de Parintins. Hoje, as quadrilhas juninas são verdadeiros espetáculos, operetas populares em que o vestido de chita e a calça remendada até podem estar presentes, mas de forma estilizada, e com muito glamour. As chitas podem aparecer em babados sofisticados, ou decoradas com brilhos; os remendos deram lugar a apliques de tecidos mais nobres que formam mosaicos e composições elaboradas. Ou são utilizados como recursos para compor efeitos cênicos que ajudem a contar a história ou enredo que adotam a cada ano, o “tema”, termo hoje adotado como jargão entre as quadrilhas que disputam concursos, sejam eles estaduais, nacionais ou regionais.

Mas não é só no campo do espetáculo que avançam as quadrilhas chamadas por muitos de “profissionais” – ou como preferem outros, “estilizadas”. As redes sociais e a popularização das tecnologias fazem parte dessa nova trama cultural. Hoje é possível encontrar canais de divulgação específicos do movimento quadrilheiro, como o site Quadrilhas do Brasil, que além de divulgar notícias, oferece serviços relacionados a temas, figurinos, indumentárias e roteiros para casamentos, quesitos obrigatórios nos concursos. Há blogs e perfis de agremiações juninas no Facebook e no Orkut. No YouTube há mais de 9 mil vídeos relacionados a elas. Em âmbito nacional, há duas confederações, uma de quadrilhas juninas (Conaqj) e uma de entidades de quadrilhas juninas (Confebraq) que protagonizam disputas ferozes.

Com estas reflexões em mente, e a constatação de que estas quadrilhas juninas produzem mesmo um espetáculo, procurei uma rota para entender melhor o seu funcionamento. Segundo dados da Liga e da Federação sergipanas, por aqui, são mais de 90 grupos em atividade, embora alguns deles tenham paralisado suas atividades, alegando falta de apoio e incentivo – só do ano passado para cá, cerca de dez grupos se tornaram inativos. Muitas quadrilhas de Sergipe viajam pelo Brasil apresentando-se em festivais, e desde os anos 1990 destacam-se em disputas nacionais e regionais. Decidi então ir ao Arraiá do Arranca Unha para achar algum fio para esta meada e conferir a abertura do concurso estadual que acontece há 25 anos.

Ao chegar, deparo-me com um quadrilha em processo de aquecimento, ensaiando passos e recebendo recomendações do marcador – um misto de coreógrafo e animador. Vejo também atores caracterizados, mas não como quadrilheiros e sim como personagens de teatro kabuki de traços nordestinos. Um deles é Gustavo Floriano, estudante de teatro da UFS, que logo no início da apresentação da Quadrilha Junina Pioneiros da Roça é anunciado como diretor artístico do grupo. Como meu intuito era buscar personagens que ilustrassem o que há de especial nestes grupos que hoje apresentam espetáculos luxuosos e criativos, não poderia ter achado pista melhor. “Comecei esse trabalho este ano. Eu não dançava, mas desde pequeno me emocionava, conhecia todas as quadrilhas, ficava ansioso quando chegava o São João pra poder acompanhar os concursos. Meu irmão dançava, minha mãe fazia roupa pras quadrilhas”, conta Gustavo.

Mas a Pioneiros não foi sempre teatral e estilizada como neste ano. É um processo recente, a partir da realização do concurso nordestino da Rede Globo e do enfrentamento com as quadrilhas de Recife. “Era uma quadrilha que brincava, que investia nos concursos, mas hoje eles seguem uma linha, e a referência é Recife. Um dos critérios é a entrada, a parte que pode ser teatralizada e isso conta ponto. As quadrilhas não trabalhavam assim, era só a dança. Mas o pessoal quer ir para fora, e lá quer competir de igual para igual, então passaram a adotar essas coisas”, diz o diretor artístico.

Para Gustavo Floriano, a quadrilha tem que “estilizar” mas sem deixar de retratar a cultura nordestina. O enredo deste ano, “Retratos e Canções do Nordeste”, começa a ser apresentado com painéis em preto e branco que remetem à xilogravura. Os figurinos, também em branco e preto, tentam expressar a riqueza da cultura popular, com muito luxo – tudo a ver com esta dança que se popularizou a partir dos salões de baile da nobreza. Durante a apresentação, as roupas se transformam, dando lugar a uma profusão de cores. É cultura popular, não da chita e do couro cru, mas do brilho e do colorido. Segundo o diretor, “é o popular da pisada, não existe ponta nem plié, é a batida no chão, que levanta a poeira”. Para ele, o lado positivo da estilização é que agora a quadrilha pode dialogar com outras linguagens, como o teatro, as artes visuais. “Só não pode perder a raiz, não pode perder a batida, porque senão vai virar uma outra coisa”, adverte.

As ideias e a vivência artística do novo diretor trouxeram mais do que composições espaciais e aspectos cênicos à coreografia, também fizeram com que os quadrilheiros da Pioneiros ampliassem horizontes. “Tento fazer com que os integrantes tenham uma consciência e saibam o que estão apresentando. Por exemplo, quase ninguém sabia que o nome daquele desenho em branco e preto era xilogravura. Também fiz uma oficina pra que eles pudessem entender um pouco da noção de espaço, para se posicionar melhor em cena. E, segundo, também penso em conquistar mais um mercado de trabalho. Este ano fiz um trabalho voluntário, para conhecer o terreno, mas hoje sei que é possível cobrar um cachê, assim como é com o estilista e com o trio pé de serra que acompanha o grupo”, diz Gustavo.

Depois desse papo, voltei à arena para assistir outra quadrilha, também performática e estilizada. Plateia lotada com gente de todas as idades, famílias, casais, grupos de amigos. Ao meu lado, uma senhora negra, altiva e simpática acompanhava atentamente. Sem querer fazer uma entrevista formal, comentei com ela que muita gente critica as novas quadrilhas por não seguirem à risca a tradição roceira e matuta. E Valdira de Jesus, moradora da Maloca e dona de um salão de beleza especializado em penteados afro, começou a discorrer tranquilamente sobre o tema: “Tem que inovar, isso faz a quadrilha mais vistosa, é normal essa evolução, deixa tudo mais bonito de se ver, a gente aprecia com mais alegria. Olha só como todo mundo gosta. Só não pode perder a pisada, senão vai ser igual a qualquer coisa que qualquer um pode fazer, vai deixar de ser a nossa cultura. Tem que inovar, mas sem deixar de ter um pé na tradição.”

A Pioneiros da Roça foi fundada há 28 anos, num bairro da capital sergipana conhecido como Cirurgia, onde está localizada a primeira comunidade urbana reconhecida pela Fundação Palmares como remanescente de quilombo, a Maloca. Muitos moradores se identificam, orgulhosamente, como “maloqueiros”, pois ali nasceram, e cresceram, muitos deles dançando quadrilha com a Pioneiros. A quadrilha é considerada uma das mais tradicionais do estado, e já venceu diversos concursos estaduais e de arraiás tradicionais, como o do Arranca Unha e da Rua de São João. Hoje dança com mais de 60 pares, com integrantes de três gerações, entre 13 e 50 anos.

Segundo Valdomir Oliveira Santana, presidente do grupo há quatro anos, conforme foi crescendo, a Pioneiros passou a atrair quadrilheiros de outras comunidades. Foi na sua gestão que o grupo passou a ser o que ele chama de “quadrilha contemporânea”. “Nós adquirimos um pouco dessa dança contemporânea, mas não esquecemos os valores sergipanos. Eu era o ‘temático’ da quadrilha, mas este ano o Gustavo chegou e trouxe a ideia do preto e branco. Então nós fizemos todo um projeto, um planejamento, levamos o tema para o grupo de coreografia. Daí em diante nós contratamos bailarinos, passamos para eles as ideias e eles fazem a limpeza da coreografia. Contratamos atores que trabalham a expressão corporal e facial, estilistas e muitos outros profissionais. São pessoas que estão conosco há muito tempo, e, a cada ano, novas vão se somando. Esse trabalho é altamente profissional, existe planejamento em cada detalhe. Este ano nós temos o Mimi do Acordeom, que já tocou com Adelmário Coelho. Tudo isso é um custo, hoje de aproximadamente R$ 120 mil”, explica Valdomir, também conhecido como Bó.

As roupas são parcialmente pagas pelos quadrilheiros, mas alguns itens, como tecidos, são conseguidos com apoiadores e a outra parte é paga em prestações. Também arrecadam recursos com rifas e organização de eventos. Eventualmente, recebem apoio do Governo do Estado, que pode fornecer ônibus para viagens, por exemplo, ou recebem doações de políticos, empresas e dos próprios membros da diretoria. Uma das inovações deste ano foi a adoção de uma música-tema para a quadrilha, composta por Simone Andrade, que há quatro anos canta e evolui livremente pelo espaço das apresentações em alguns momentos, ajudando a animar a plateia e os próprios quadrilheiros. Sobrinha de Adalvenon, um expoente sergipano do arrocha, é dona de uma voz poderosa e tem forte presença cênica, embora não cante profissionalmente. “Mesmo com discussões e desentendimentos, a Pioneiros é mesmo como uma família”, diz Simone.

Voltei para a plateia da Concha Acústica e assisti um grupo de jovens com uma energia contagiante, cujo espetáculo fazia uma viagem pela cultura das cinco regiões do Brasil - e sem perder a tal pisada. Era a Cangaceiros da Boa, que vinha de Japaratuba, terra natal do cultuado Arthur Bispo do Rosário. Sua trajetória de apresentações e vitórias em diferentes lugares do Brasil me chamou a atenção, e fui procurá-los após a apresentação no camarim improvisado, mas desisti de falar com eles, pois estavam exaustos. Contatei o presidente alguns dias depois e fui conferir um ensaio, na terra da divertida Festa da Cabacinhas e da secular Coroação do Rei e da Rainha do Cacumbi. Localizada no leste sergipano, a 54 km da capital e com cerca de 17 mil habitantes, a cidade tem sete quadrilhas juninas. Não é um número alto, se compararmos com Serra Talhada (PE), que tem nada menos que 40.

No local do ensaio, uma arena de nome Barracão Cultural, mantido pela prefeitura, rapazes e moças aguardavam entre risos e conversas animadas ao som do esquenta da sanfona e da zabumba. Logo ao chegar, encontramos Glauberter Teles, o “Gal”, presidente da Associação de Arte e Cultura Cangaceiros da Boa, nome oficial da agremiação, que está no grupo desde 1995. “Antes disso sempre dancei quadrilha, desde os sete anos, na escola. Na verdade, numa quadrilha que formava dançarinos para a Cangaceiros da Boa”, conta. De dançarino, passou a coordenador geral, em 2002. Como pedagogo, pesquisou as quadrilhas juninas nas escolas do município; como historiador, pesquisa e coordena projetos em comunidades negras rurais e quilombolas.

Quando venceram o primeiro concurso que os levou para uma apresentação fora do estado, conheceram formas diferentes do estilo que adotavam. E com os contatos e o intercâmbio que fizeram nessas viagens, começaram a desenvolver um trabalho mais estilizado, assumidamente inspirado nas quadrilhas de Pernambuco e do Rio Grande do Norte. Na opinião de Gal, como é chamado pelos outros integrantes, as quadrilhas foram se moldando de acordo com sua cultura local. “Se a gente for ao Espírito Santo, não vê uma quadrilha caipira, é um pouco mais ligada às escolas de samba. Já uma quadrilha do Distrito Federal, tem uma coisa mais ligada ao camponês. Se você vai ao Sul, vê mais a questão dos imigrantes, até na forma de vestir. O nordeste tem uma singularidade com relação à cultura junina, mas mesmo assim, se você viaja, percebe formas diferentes em cada estado. Sergipe e Alagoas têm suas particularidades: o sanfoneiro, o balançar das saias... Na Bahia é diferente, tem a batida do tambor, meio Olodum”, explica o presidente.

O tema deste ano começou a ser gestado em outubro do ano passado. Foi discutido pela diretoria, mas proposto por Gal. Foi então que conheci o termo “quadrilhesco”, segundo ele usado para denominar aquele que pensa e arquiteta como vai ser o espetáculo – uma espécie de carnavalesco da quadrilha. Glauberter admite que as quadrilhas têm utilizado os modos de organização do desfile das escolas de samba, elementos do teatro, das artes cênicas. “Não é que a quadrilha junina perdeu a sua tradição, sua origem, mas ela quer fazer algo diferente, algo novo, para não ficar somente com os passos tradicionais”, diz. O enredo, quer dizer, o tema da Cangaceiros deste ano foi “Regionalizei meu coração para dançar o Brasil no nosso São João”, usado como mote para contar tradições e aspectos folclóricos juninos de maior ênfase de cada região do Brasil.

Damas e cavalheiros começam o ensaio. O marcador, Gilney Marques, faz recomendações, corre de lá para cá dando instruções, dá bronca em um ou outro componente disperso. Mas, pra começar, os pares formam um círculo e de mãos dadas começam a rezar o Pai Nosso, uma regra informal seguida por todas as quadrilhas (ou pelo menos pelas sergipanas), antes de ensaios e apresentações. Gilney também dança na Cangaceiros desde criança e herdou o posto de seu irmão. O ambiente familiar se completa com algumas crianças que ora assistem atentamente, ora dançam e correm pelo espaço. Um menino lourinho de uns dois anos é o mais animado, repete os passos e vibra com toda aquela agitação. É Davi, que depois descubro ser filho da diretora de Comunicação da associação, Carolina Xavier, esposa de Marcelo, da equipe de cenografia. Naturais do interior do Paraná, Carolina e Marcelo mudaram-se para a cidade a trabalho e o resto da família veio a reboque. Carol cuida do blog da associação, sua irmã é uma das damas que dançam, a mãe é da equipe de costureiras e o irmão fotografa e grava as apresentações. “Quando vi a Cangaceiros pela primeira vez eu chorei, me emocionei de verdade. Moramos aqui atrás, e quando começa o ensaio e ainda estamos em casa o Davi ouve o som da zabumba e diz ‘tum tum, mamãe, tum, tum’, pedindo para vir ver”, conta.

Conforme o ensaio vai esquentando, vários jovens chegam pra assistir. Pergunto a um dos rapazes na audiência se tem vontade de dançar, e ele me diz: “Tem que ter muita simpatia, ficar sorrindo o tempo todo, olha só [apontando para o ensaio]. Eu não sou assim não”. De fato, a performance das quadrilhas em geral também se completa com sorrisos, olhares, postura, canto, vozes em jogral, gestos e interpretações que variam conforme a momento da apresentação, como num espetáculo musical.

Embora não tão luxuosos, os trajes das damas chegam a pesar 7 kg e podem custar mais de R$ 800; os dos cavalheiros são bem mais leves e ficam em torno de R$ 200. No início, a associação arcava com calçados e roupas, mas com a profissionalização e a sofisticação do grupo, os quadrilheiros passaram custear seus próprios trajes. Os grupos recebem subvenção da prefeitura desde 2002, mas o valor não é suficiente para cobrir integralmente as despesas, então também levantam fundos alugando roupas e indumentárias de anos anteriores, organizando rifas, bingos e eventos. Como nas demais quadrilhas, os brincantes vêm de classes mais humildes, mas não recebem qualquer remuneração. Todo o esforço e dedicação valem pela vontade de dançar e brincar. Quando a quadrilha é contratada para eventos, o recurso é revertido para o coletivo, para necessidades básicas como transporte, água e lanche. Se viajam, os quadrilheiros recebem uma ajuda de custo. A Cangaceiros não contrata estilistas, eles colaboram voluntariamente e a partir de indicações e sugestões da equipe, o profissional faz a criação final. Além disso, durante o ano a associação também realiza outras atividades socioeducativas, relacionadas a relações humanas, empreendedorismo e alternativas de geração de renda.

As grandes quadrilhas até podem ser comparadas às escolas de samba, mas as quadrilhas mais tradicionais não deixaram de existir – seja em escolas, projetos sociais ou mesmo como agremiações participantes de concursos, como a Maracangaia, que prima pela leveza do bailado, pelo sincronismo e por uma exuberância mais clean (e mesmo assim chega a finais de concursos estaduais e é convidada para exibições em outros estados). É certo que o padrão espetacular das disputas interestaduais exige maior investimento financeiro, mas não há uma obrigação formal de as quadrilhas seguirem esse modelo.

Nesse mergulho no universo das quadrilhas juninas, é possível perceber em cada uma delas um arranjo criativo, alimentado por talentos, desejos, habilidades e identidades, com o objetivo de materializar um produto cultural único, próprio de cada comunidade ou agrupamento social. Para chegar a este resultado, movimentam segmentos sociais e econômicos, cadeias produtivas de ordem artística, comercial e de serviços; inovam na criação e na materialização de propostas estéticas e soluções práticas. Barreiras e obstáculos são superados – tanto financeiros, quanto estruturais, organizacionais e pessoais. Os quadrilheiros aqui apresentados, cada um a seu modo, individual e coletivamente enriquecem suas identidades culturais e suas vidas pessoais, pois se unem num desejo coletivo de produzir cultura, de brincar o São João com arte, fazendo parte de um espetáculo que encanta e seduz.

As quadrilhas de hoje, como grupos ou agremiações que são, têm origem na maior parte das vezes na periferia e no interior – locais apontados como os primeiros a se apropriarem da dança coletiva dos salões da nobreza, tornando-a peculiar e popular. De fato, muitas quadrilhas juninas estão produzindo algo diferente daquilo que ficou conhecido como manifestação típica da cultura brasileira. Muitos as criticam, pelo gigantismo, pela estilização, por modificar a tradição. Mas será justo exigir a manutenção “imobilizada” de uma tradição que surgiu a partir de uma prática trazida de outra terra, e depois absorvida e modificada pelas camadas mais populares?

Fazendo uso das palavras de João do Beco, que citei ao início deste texto, quando Seu João do Povo se une à Dona Maria Tradição, o amor à cultura não acaba, e haja lenha nessa fogueira que ressuscita a cultura recriando a tradição. A emoção, a alegria e a esperança de brilhar reluzem em cada um dos quadrilheiros que adentram as arenas em que se apresentam; regionalizam o coração sem barreiras e exercitam seus dotes criativos. As quadrilhas se reinventam sem perder a pisada. E assim vão dançando o Brasil e fazendo do São João uma festa cada vez mais rica.


*Esta matéria foi editada e faz parte da edição nº 2 da Revista Overmundo.

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Marcelo Rangel
 

Tem vídeo relacionado a este texto no Banco de Cultura:
http://www.overmundo.com.br/banco/aquecendo-a-quadrilha

Marcelo Rangel · Aracaju, SE 15/8/2011 11:30
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Marcelo Rangel
 

Mais um vídeo relacionado ao texto: http://www.overmundo.com.br/banco/palavra-de-marcador

Marcelo Rangel · Aracaju, SE 18/8/2011 17:32
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