"Novela são trinta pessoas correndo atrás da felicidade. E a gente torcendo". A definição do novelista Carlos Lombardi para o maior produto de entretenimento realizado no Brasil parece perfeita ao analisarmos os Ãndices de audiência que cada trama traz para uma emissora. No entanto, com o decorrer dos anos, mais do que meros "torcedores" para que os mocinhos terminassem felizes e os bandidos fossem devidamente castigados, os espectadores passaram a ter um papel a mais: o de "consultores" dos autores de teledramaturgia.
Graças ao público, Gilberto Braga e Ricardo Linhares colocaram um sinal de reticências numa trama que, originalmente, teria um ponto final já no segundo mês de ParaÃso tropical. Estava previsto na sinopse que, depois de descobrir a infidelidade de seu marido Antenor (papel de Tony Ramos), Ana LuÃsa encontraria a "redenção amorosa" nos braços do jovem Lucas (vivido por Rodrigo Veronese), e os dois iriam morar e viver felizes para sempre em Boston. No entanto, a personagem de Renée de Vielmond (voltando a atuar na TV depois de cerca de dez anos afastada) teve tanta aceitação pelo público que os autores da atual novela das 21h da TV Globo cogitam seu retorno, na reta final da trama.
A relação "novelista / noveleiros" é muito delicada, e já rendeu muitos capÃtulos desde o inÃcio da história da teledramaturgia brasileira. O primeiro caso vem na década de 1960. Sucesso da hoje extinta TV Excelsior, Redenção (que entrou para a história da TV brasileira, por, até o momento, ser a novela que mais tempo ficou no ar - exatos dois anos) teve uma trama alterada para satisfazer o público. O autor Raimundo Lopes havia previsto que, em uma passagem de tempo, a fofoqueira Dona Marocas sairia da trama. Entretanto, o sucesso da personagem de Maria Aparecida Baxler diante do público forçou a mantê-la no ar - e, como Dona Marocas havia morrido, Raimundo foi obrigado a fazer com que o médico Fernando (protagonista da história) realizasse um transplante de coração que desse sobrevida à mexeriqueira da cidade de Redenção.
Autores já mudaram rotas de tramas e já aumentaram ou reduziram personagens de acordo com a vontade do público. Um destes casos aconteceu com Aguinaldo Silva, na novela Fera ferida. Descobriu-se que a famÃlia do coveiro Orestes era extremamente rejeitada pelo público, e restou a Aguinaldo matar a famÃlia num incêncio criminoso - deixando apenas ele (pois era um personagem importante para a trama) e seu filho caçula, Romãozinho, na trama. O extremo oposto também já aconteceu em função da resposta dos espectadores. Na novela Perigosas peruas, Carlos Lombardi deu sobrevida ao atrapalhado Belo, que morreria a dois meses do fim da trama - pois o personagem de Mário Gomes era um gratÃssimo sucesso inclusive entre as crianças.
Só que o caso mais emblemático da "co-autoria" dos espectadores com os autores aconteceu com o próprio Gilberto Braga. A rejeição inicial da história de O dono do mundo o obrigou a fazer mudanças na trama inteira. Márcia, a mocinha da história que se deixava seduzir pelo vilão Felipe Barreto e entregava sua virgindade antes do noivo se tornou vilã aos olhos do público (ainda conservador com o tema "virgindade" no inÃcio da década de 1990). O cÃnico Felipe não conseguia receber ódio dos espectadores, pelo grande carisma de seu intérprete, o ator Antônio Fagundes.
Graças a estes direcionamentos apontados pelo público, Gilberto fez a "mocinha tratada como vilã" pagar por se entregar tão facilmente, e o vilão arrepender-se de suas maldades. Mas, na reta final da trama, e com a audiência já devidamente segura, o autor se vingou dos espectadores: a simpatia de Felipe Barreto era farsa, ele nunca deixara de ser o mesmo sujeito prepotente do inÃcio da novela e, ainda assim, terminava a trama vitorioso - dando o "golpe do baú" numa inocente filha de fazendeiro ("e é virgem", como disse Felipe para a câmera, antes de piscar o olho com ar de cinismo).
Embora, com ParaÃso tropical , ele não esteja passando pelas turbulências de audiência de 15 anos atrás, novamente uma situação envolvendo Gilberto Braga constata a tendência atual da teledramaturgia brasileira. A de que, mais do que milhões de torcedores, na torcida existem milhões de espectadores escrevendo suas próprias catarses nas novelas. E é graças a ela que o público pode ainda sonhar com a chance de rever a Ana LuÃsa de Renée de Vielmond na trama de ParaÃso tropical.
Oi VinÃcius! Legal o seu texto. Fui pesquisar sobre uma história que eu já tinha ouvido falar, de uma novela que teve de ter um terremoto pra matar a maioria dos personagens. Eles estavam afundando a popularidade do folhetim. A novela é essa aqui 'Anastácia, a mulher sem destino'. Vale a pena ler o link. Abraços!
Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 23/5/2007 15:02Como tudo é uma faca de dois gumes, deve ser ao mesmo tempo frustrante e excitante para o teledramaturgo ter de surfar as ondas do gosto popular. Triste é esta convicção de que "o público rejeita novidades", seria muito saudável se houvesse espaço para mais ousadia neste produto tão caro, tão extenso e tão preso a fórmulas.
Marcelo V. · São Paulo, SP 26/5/2007 12:34Infelizmente ou não, novela deixou de ser uma obra fechada e se tornou um produto totalmente comercial, onde a opiniao do publico e sua aceitação determina os rumos de uma história. Acho isso muito chato...Parabens Vinicius,otimo texto.
Herton Gustavo · Cuiabá, MT 27/5/2007 02:51Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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