“Não faltam talentos no País.
Faltam ouvidos que saibam
ouvir música nas gravadoras,
nas redes de televisão e nas rádios”.
Zuza Homem de Mello
Ouvi o CD “Rindo ou Chorando”, do Naeno. Se você fizer o mesmo vai constatar que ele é um melodista cheio de caté e um letrista iscrincha. E serão várias as motivações. Uma delas é sua capacidade de engendrar um sombrio bolero de alma lupicínica (Teu Olhar) e, na faixa seguinte, criar um fado de luz lusitana como o “Fardo”. Além de sambas de tirar a Cartola como “Pobrezinho”, “Ilusão” e “Ingratidão”. Ou a tristessência ímpar de “Se Lembra” fazendo par com a alegressente catimba caribenha de uma dançável rumba como “Sempre Te amei”.
Pense que acabam os bons momentos? Qual o quê! Outra página musical altissonante é a melodia que ele fez para um poema do português Fernando Pessoa, o “Pastor Amoroso”. Ah, sim: ao gravar “Não Termina”, ele registrou um clássico instantâneo da música made in Piauí; é uma parceria com Glauco Luz, o poeta maior dos atuais letristas da terra de Torquato Neto. Isso sem falar no, como direi?, dom naenístico mais forte – eles, os xotes e baiões nordestirados do DNA luizgonzaguiano, o pai-filho-e-espírito santo da música da região onde nasceram Jackson do Pandeiro e João do Vale.
É, foi lendo Tárik de Sousa e Paulo Cotrim, Sérgio Cabral e Zuza Homem de Mello, José Lino Grunewald e Augusto de Campos, o meu aprendizado de que o papel do crítico não é definir gosto, mas entender e explicar as características que levam uma música a encantar seu tipo de público. Por isso, vou dizer o que penso, e ai: quer saber, na minha desafinada opinião a música de Naeno é atávica. Falando com outras palavras, é como cantiga de roda: você ouve uma vez e ela começa a fazer parte de sua memória ancestral...
Bem, sei que tenho de manter a minha fama de mau, de quem que desafia o decorro dos contentes – desculpe meu são José Ramos Tinhorão, padroeiro dos críticos ranhetas - mas é quase impossível não ter comportamento de fã diante uma obra prima da genialidade como a cantiga dominguinhiana intitulada Valoroso. Saibam todos os meus aminimigos: é por essas e outras criações que o irmão do Assis Batista, ao lado de Geraldo Brito e Aurélio Melo, forma a mais talentosa santíssima trindade de compositores da atual música popular piauiense.
Salve o compositor popular! Palmas, clap clap, iupí, êba, hurra, valeu, urú, bis!
*texto dedicado a Eugênio Rego e Biá Boakari, jovens e talentosos jornalistas que ainda resistem (até quando?) escrevendo sobre cultura no jornalismo piauiense.
Francisco Magalhães
Jornalista e Crítico Cultural
O cd está maravilhoso. rindo ou chorando é Naeno.
Paulo Tabatinga (Pi) · Teresina, PI 18/6/2009 00:14Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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