Não bastassem as noites, meus dias também são dela

Garatuja
Cia. Garatuja encena lutas e tragédias das heroínas acreanas
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Fabiana Mesquita · Rio Branco, AC
14/8/2007 · 184 · 13
 

Era uma vez uma linda donzela chamada Rosa. Bem educada, doce e talentosa, freqüentava bailes e reuniões da alta sociedade acreana de 1941. Cantava, tocava piano e acabara de concluir os estudos do magistério. Era admirada pelo aspecto acaboclado e pela ousadia em se dispor a alfabetizar crianças e adultos, privilegiados ou não. Rosa não fazia distinção.

Lecionava numa escola pública próxima à sua casa e, em uma de suas caminhadas diárias, notou que um dos presos do alambrado a olhava de modo diferente, como se a conhecesse, como se a desejasse. Ficou assustada e constrangida com o assédio. Passou a evitar aquele trajeto.

Firmino havia sido preso por assassinato. Na cela de madeira e arame, esperava ansiosamente ver a professora passar para sentir o alento daqueles passos, ser preenchido. Ela renovava seu ânimo, dava-lhe forças. Não foi preciso muito tempo para Firmino achar que Rosa – descobrira seu nome através de Euzébio, o carcereiro e, por mais irreal que pareça, seu amigo – também o correspondia, que precisava vê-lo, nem que fosse por meio minuto enquanto caminhava sem poder parar e arriscar-se a perder o horário das aulas. Não entendeu por que a moça não aparecia mais.

Euzébio, vendo a aflição do amigo, ofereceu seus préstimos para escrever uma carta com a promessa de entregá-la a Rosa e voltar com a resposta. Mas, por saber que a professora jamais responderia, escrevia, ele mesmo, sem qualquer remorso por manipular a história de amor insólita e irreal. Foram muitas cartas. Um dia descobriu que Rosa havia noivado e se casaria logo. Decidiu que seria melhor parar imediatamente o jogo e escreveu uma carta de rompimento, que fez Firmino entrar no mais profundo desespero ao saber que a moça não mais o esperaria. Enlouquecido, aproveitou o dia em que ele e seus companheiros limpavam as ruas (o policiamento era escasso e os presos não descumpriam as ordens) para abordar Rosa em seu caminho. Assustada, não entendia o que aquele homem falava e por que cobrava explicações. Viu que estava armado, começou a gritar! Firmino, inconformado, a estocou várias vezes.

A história de um dos crimes mais violentos contra uma mulher do Acre é representada no espetáculo “Rosa Vermelha”, pela Cia. Garatuja de Artes Cênicas, com texto e direção da atriz e historiadora Regina Cláudia.

“Garatuja é rabisco, desenho de criança, antes que você pergunte. As pessoas acham que é alguma palavra indígena!” (risos). Regina é daquelas que levam uma conversa agradável o tempo que for preciso. Nasceu em Rio Branco, mas foi criada num seringal perto de Xapuri e jura que nunca ouviu falar em Chico Mendes, até sua morte. “O acreano não conheceu o Chico vivo, nem sabia quem era. A não ser os outros sindicalistas que militavam com ele”, disse a autora de “Chapurys”, espetáculo que conta a história dos cem anos da cidade, vencedor do prêmio Funarte/Petrobras, em 2005. Fez oficinas de teatro em vários Estados e fundou a Garatuja em 1990, com o médico e ator Raimundo Castro, que pouco tempo depois, consciente da carência da população por profissionais de saúde e arte, optou pela primeira.

Nos 17 anos de trabalho, a Cia. Garatuja estruturou-se como uma entidade cultural, sem fins lucrativos, com elenco fixo de 12 atores e bailarinos. O repertório possui mais de 15 dramatizações adaptadas de escritores como Maria Clara Machado e Silvia Orthof ou escritas por alguns membros da própria Companhia. Oferece, ainda, aulas de dança e oficinas de teatro para crianças e adultos. Regina afirma que os espetáculos da Garatuja seguem três vertentes distintas: teatro infantil, dança e drama. “Rastros”, espetáculo de dança contemporânea sobre a fauna do período plistoceno na Amazônia, o balé dos animais gigantes, foi apresentado em Manaus, Ribeirão Preto, Cuiabá, Porto Velho e mais oito cidades do Acre. “A Escovinha Mágica”, um texto educativo sobre higiene dental, também escrito por Regina, já passou por praticamente todas as escolas de Rio Branco. Mas foi na tragédia que Regina encontrou um modo eficaz de tocar as pessoas através do principal assunto que motiva sua escrita: o feminino. “É feminino, mas não é feminista. As mulheres daqui e de qualquer parte são notáveis! Escrevo sobre heroínas que desafiaram costumes, enfrentaram guerra, preconceito e indiferença. São todas histórias reais”.

Mulheres Invisíveis

A comovente história da professora Rosalina da Silveira, a “Rosa Vermelha”, junto com a das “Mulheres Invisíveis”, obra que relata o sofrimento de Alda Braga, a ex-prostituta que tirou sua própria vida depois de ser abandonada pelo amante que a sustentava, ou Angelina Gonçalves, que comandou um seringal de terçado na mão e lutou na Revolução, seriam suficientes para entender o empenho de Regina em mostrar às mulheres do Acre suas mulheres. No entanto, vai além de apenas encenar fatos.

Outra invisível corajosa foi aquela que passou a sangrar seringueiras após a morte de seu marido. Precisava levar comida para dentro de casa, alimentar menino. No velório, recebeu um pedido de casamento do amigo de anos, ocupante do seringal ao lado, que não pretendia ver a viúva ser vendida pelo dono da terra a outro desconhecido que substituiria o trabalho do morto. Ela aceita o pedido, tempos depois, para não ter de encarar o desconhecido. “Não estou lembrada do nome dela agora, são tantas que têm essa mesma história...” Os homens não aparecem nas cenas, apenas suas vozes. A interpretação das atrizes sugere que eles estão ali, mesmo sem forma e substância. São tocadas e influenciadas pela simples idéia de proximidade. “Assim podemos olhar para elas com mais clareza”, reflete, “hoje, podemos”.

“Rosa Vermelha” foi contemplada com o Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz, patrocinado pela Petrobras, em 2006.

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anamineira
 

Fabiana, parabéns por esse belo trabalho. Volto para votar. Um abraço mineiro para todos.

anamineira · Alvinópolis, MG 11/8/2007 20:20
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José
 

Também gostei e votei.
Agradecido.

José · Criciúma, SC 14/8/2007 15:43
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Higor Assis
 

Gosto assim!

Parabéns Fabiana, por nos trazer um texto tão gosto e parabéns a Regina pelo excelente trabalho.

Higor Assis · São Paulo, SP 14/8/2007 16:10
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Lady ana
 

Parabéns pelo trabalho, otimo texto e um trabalho magnifico...

Abraços

Lady ana · Uberlândia, MG 14/8/2007 16:20
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Cintia Thome
 

Que trabalho! Parabens a Cia, a Regina e a voce que vem a nos informar desse espetáculo tão brasileiro. A est´ria da acreana, tão bem contada Meu abraço a voce Fabiana!

Cintia Thome · São Paulo, SP 14/8/2007 16:23
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Maria G
 

Que trabalho maravilhoso de Regina. Obrigada Fabiana pela matéria. Não havia votado antes, (só agora encontrei o texto) mas antes tarde do que nunca.
Parabéns

Maria G · Brasília, DF 14/8/2007 18:18
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baduh
 

Fui, li, amei e votei! ahahahahahah

Absolutamente maravilhoso! Meus parabéns Fabiana!

Abraço do overmano.

Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 15/8/2007 06:57
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FILIPE MAMEDE
 

Fabiana, parabéns pra vc que nos brindou com essa história. Parabéns ao grupo de teatro pela iniciativa... E que história mais instigante essa da professora e do presidiário, não?

Um abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 15/8/2007 08:23
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Humberto Firmo
 

Esse Braasil é grande mesmo.
Quanta história contada por cada canto.
Fiquei sabendo de mais uma, essa.

Parabéns ao grupo Garatujae e a Regina.
Mulheres acreanas, brasileiras, como tantas outras de outros estados: força, ímpeto, coragem, amor!

Humberto Firmo · Brasília, DF 15/8/2007 09:47
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Fabiana Mesquita
 

Anamineira, José, Higor, Ladyana, Cintia, Maria, Baduh e Humberto, fico feliz que tenham gostado. A Garatuja tem espetáculos sensacionais que falam do feminino de um jeito envolvente, posso dizer, para nós (mulheres). Lembro que, há pouco tempo, li que as camponesas do Acre vieram a Rio Branco, por conta própria, pedir ao governo do estado espaço e benefícios iguais aos dos homens para sangrar seringas. Memorizei a frase de uma delas: "Ai, que se eu fosse mais forte não tinha que dar soco pra passar!" Mas acho que a coragem também é demonstração de força...
Abraços

Fabiana Mesquita · Rio Branco, AC 15/8/2007 12:34
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Fabiana Mesquita
 

Felipe, além de instigante, é injusta. Depois do crime, tentaram defamar a professora. Uma reputação ruim que "justificasse" o ato do homem, mesmo sendo um assassino confesso. A família de Rosa ainda sofre por causa dos boatos da época.
Abs

Fabiana Mesquita · Rio Branco, AC 15/8/2007 12:41
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Nattércia Damasceno
 

Fabi, hoje conheci a professora Rosalina.
"Passeando" pelo cemitério, encontrei o túmulo dela e com foto. Era muito bonita.
E, sabe o que mais?
Eu já aconhecia...
Quando eu era criança, sempre ouvia minha avó dizer que ia fazer uma promessa à professora Rosalina, pra ela passar os meus primos de ano.
Só agora que me dei conta :P
Beijos

Nattércia Damasceno · Rio Branco, AC 20/8/2007 20:27
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Fabiana Mesquita
 

Caramba, Deda! Então a história tomou rumos que eu não havia explorado: a possibilidade de pessoas fazerem promessas para Rosalina é um fato novo para mim! A versão da sua avó sobre a morte dela também pode ser interessante.
Beijos

Fabiana Mesquita · Rio Branco, AC 21/8/2007 14:29
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