Quando recebi o email da coordenadora do Curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Ceará (UFC), Glícia Pontes, falando sobre um festival de dança, circo e música, interessei-me mais pela forma de cobertura que seria feita colaborativamente com a Overmundo, mas como diria Neruda: “E aquela vez foi como nunca e sempre: vamos ali onde não espera nada e achamos tudo o que está esperando.”
O Tangolomango é muito mais do que circo, dança e música, é diversidade em harmonia, é uma mistura tão perfeita que torna complementar o antagônico, porém não adiantemos tanto essa história, por agora, basta descrevê-la no início.
Enviei automaticamente um pedido para minha inclusão nesse grupo de cobertura, apesar de não ter muito tempo para tal, nem saber quais seriam os outros estudantes interessados. Estava viajando quando aconteceram as reuniões, por internet, entre o grupo de estudantes da UFC e o coordenador editorial do Overmundo, Viktor Chagas, entretanto, o que melhor do que ficar com a equipe de cobertura da apresentação final, onde poderia entender o espírito do festival antes de expressá-lo em palavras.
Cheguei aos ensaios do dia cinco de agosto sem saber onde ficar, o que fazer, quem entrevistar, mas logo soube que não era a única, os sete grupos, dentre eles nacionais e internacionais, iam chegando e sentando nas arquibancadas do Teatro SESC Iracema lacônicos assim como agimos quando não sabemos o que está por vir. Do camarim, ouviam-se os pífanos que se materializaram depois nas figuras dos irmãos Aniceto. Os seis colombianos do Legatto 7 nos impressionariam com uma simples palhinha do que estava por vir, formou-se então uma grande roda de apresentação, essa diferente de todas as outras, eles não falavam o que eram, agiam para que compreendêssemos.
Captei, então, o que toda a minha pesquisa sobre o Tangolomango, feita anteriormente, não tinha me permitido sentir, os grupos começaram a interagir naturalmente, às vezes, até sem que os coordenadores musicais tivessem controle sobre isso. Enquanto os três chilenos do Circo Del Mondo aprendiam a rebolar com a baiana Jossara, um dos integrantes da Cia Urbana de Dança tentava ensiná-lo ao Mestre Zé Pio sem que este deixasse de notar a dificuldade “Aí num dá não, meu filho.” Di Freitas e suas rabecas acompanhavam o ritmado passo da ciranda numa roda puxada pela molecada do boi e fundiam-se todos em algo que os interpretes não conseguiam traduzir para os grupos internacionais.
Os meninos da Nova Saga faziam o rap que os trouxeram do Pelourinho para Fortaleza, falando de celular e de mundo digital diretamente para a câmera do Mestre Antônio de Juazeiro que registrava todos os momentos.
E, assim as primeiras apresentações iam se formando, mas antes formar-se-iam as amizades. Os meninos e meninas da dança do Boi Ceará imitavam os passos e os breaks dos cariocas da Cia Urbana de Dança, e estes entendiam não ser tão fácil a arte dos malabares tão esvoaçantes na mão do integrante do Circo Del Mondo. Gestos, olhares dirigiam as melhorias das peças da apresentação e, às vezes, arranhados de portunhol. Como dissera um dos coordenadores “Não sabemos o roteiro, nós vamos criar juntos o Tangolomango”.
E assim passaram-se os três dias, poderia expressar a minha visão bestificada ao ver tanto compartilhamento de saberes, os vocais da Legatto 7 ensinando o aquecimento de voz para os discípulos do Zé pio, enquanto este mostrava que nem só de ritmos nordestinos vive o repente e a poesia de um mestre, cantando seu “Aonde deus fez a morada...” ao som do rap da Nova Saga. Mas lembrando-os que a minha equipe tratava da apresentação final, relembro da noite de sábado em que o Anfiteatro do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura se fez lotado para receber as visitas e os grandes mestres. Já cantava Tom Zé “E é nesse tangolomango que me voy pal pueblo” Primeiramente... Você sabe o que é tangolomango? Eu não sabia até uns dias atrás, e me indagava o que seria isso de nome tão engraçado. Para quem não sabe, tangolomango é um modo de vida e de expressão artística, uma mistura de sentidos e de movimentos expressos por livres associações, seja musical ou corporalmente.
Nesse último sábado, 07 de agosto de 2010, pôde-se ver tudo isso e captar o que os sentidos permitiam, pura sinestesia. A noite deu início ao som do grupo colombiano Legatto 7, e de cara houve empolgação, todos soltando o portañol “Que la vida es un carnaval y es más bello vivir cantando...” As palmas ecoaram no Anfiteatro, quando a pequena Valentina do Circo Del Mondo, emaranhou-se nas cordas, chegando no alto com movimentos coordenados. Zé pio e sua meninada estavam lá, em um momento, desvendando as memórias do Boi Ceará, em outro, acompanhando o “El pescador” do Legatto 7, enquanto Di Freitas e seu grupo complementava o rap do celular da Nova Saga.
E, assim, quem estava de passagem por lá poderia até julgar ser uma equipe só, afinal, quem poderia dizer que o André Feijão da Cia Urbana de Dança não tinha ajudado a compor a música “Lavras da mangabeira” de Di Freitas quando esta se adaptava perfeitamente aos movimentos do seu corpo ou que os instrumentos vocalizados do Legatto 7 não foram feitos para ritmar os corpos dos bailarinos desta Cia, enquanto estes bailavam onde todos os sentados queriam bailar “El cuerpo es tu instrumento, muevelo como se te de la gana...”
Mas a noite do dia sete foi dos grandes mestres. Nesta edição do Tangolomango o foco foi dado à eles, em reconhecimento as suas contribuições ao fokilori, ou melhor, “ Não deixe o fokilori morrer” como disse Mestre Raimundo no primeiro dia de ensaio. Eles não só encantaram mais de 650 pessoas que lotavam o Anfiteatro com a briga do galo como mostraram que a passos leves e harmoniosos se pode desafiar qualquer um até os passos ritmados da Cia Urbana de Dança.
Muitas outras coisas aconteceram, mas a principal delas não poderei expressar em palavras, ela está no sorriso e no arrepio de cada pessoa que passou por lá, quando cantou-se “Companheirada é hora da partida”, creio que chilenos e colombianos entenderam o significado da palavra saudade, eu passei a compreender então o que era diversidade.
=) só nos resta sorrisos depois de ler essas lembranças que vão ecoar por muito tempo aqui em fortaleza, e principalmente para nós que participamos de tudo isso de pertinho!
analicediniz · Fortaleza, CE 10/8/2010 14:31
Opa, Dani,
Bom relato! :)
Como você optou pela publicação direta, faço aqui também algumas sugestões de edição, mas não se avexe, não, que o texto está muito legal. Gostei especialmente do teu tom mais pessoal, falando um pouco sobre como você chegou à experiência. E muito bom também foi você manter o foco na tua pauta, concentrada sobre a apresentação final, ainda que possa discorrer brevemente sobre outras coisas. Numa cobertura colaborativa, isso faz toda diferença, já que é mais importante - como eu disse à Isabela - que você apresente o teu ponto-de-vista e deixe os outros livres para apresentarem os seus. Se você fala tudo, o resto vira repeteco. E foi bom que você tenha ficado com esse alerta tocando na cabeça. :)
Sobre os aspectos formais do texto, como disse também à Isabela, já em outro texto, acho que você poderia ter explorado mais os recursos do hipertexto, usado links com mais liberdade. Em todo o teu texto, não há um só link. E, como você mesma disse, você pesquisou, apurou bastante sobre o festival. Com certeza tem assunto pra linkar. :)
Uma última questão é que vale a pena você usar, quem sabe nas próximas vezes, períodos mais curtos. Com frases longas, como algumas que você usa, há mais risco de errinhos de concordância. E, claro, a leitura fica mais difícil. Então, pode valer você se policiar sobre isso.
No mais, a tirada do Fokilori é muito boa. Bom texto. :)
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