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Não, esse não é o personagem de um filme

Divulgação
Wildes Sampaio (camiseta branca) durante gravações do projeto CineSertão
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Simão Vieira de Mairins · João Pessoa, PB
19/5/2011 · 1 · 0
 

No final dos anos 1990, o sertão pernambucano estava em evidência. As guerras entre famílias e o tráfico de drogas deram à região um espaço no noticiário nacional que jamais tivera. O “neocangaço”, como chegou a ser chamada a atividade criminosa da época, chamou atenção até no exterior, despertando o interesse de gente como o francês Philippe Coudrin, diretor do documentário “Lampião: mort ou vif”, que conta a história do banditismo na região, de Virgulino a Chico Benvindo, este apontado por muita gente, naquele tempo, como o novo rei do cangaço.

Diante de uma realidade que mais parecia filme, por que não fazer cinema? Bem, foi isso que Wildes Sampaio fez na cidade de Salgueiro, no Sertão Central de Pernambuco. O cineasta, que hoje, aos 24 anos, se orgulha de um currículo premiado e cheio de realizações reconhecidas nacionalmente, ainda aos 12, acreditem, dirigiu seu primeiro filme. E, a despeito do que qualquer um de nós pudesse imaginar e sem nenhuma vergonha de falar em lucro, garante: conseguiu ganhar dinheiro com isso. Agora, dono da sua própria produtora, realiza festivais, produz filmes de outros diretores e está preparando seu primeiro longa-metragem.

Afinal, quem é esse rapaz que, em uma cidade do interior que sequer tinha sala de projeção, se transformou em um homem de negócios fazendo cinema? É melhor que ele mesmo conte. Confiram abaixo a entrevista que ele nos concedeu no www.cartazdecinema.com.br.


Cartaz de Cinema – Muita gente diz que viver de arte é complicado. Você consegue viver tranquilamente da sua?

Wildes Sampaio – Faço cinema em pleno sertão nordestino. Sou dessa região linda, cheia de cultura e tradições, tida – por alguns preconceituosos ignorantes – como feia, pobre e seca, e não acho nada complicado viver de algo tão recompensador como a arte. Eu posso dizer que consigo viver feliz e satisfeito fazendo da minha arte o meu negócio. Mas, tranquilo não, pois todo e qualquer negócio envolve desafios constantes e situações inconstantes. Não dá pra relaxar tranquilo. Mas é uma aventura emocionante. É importante tentar crescer e melhorar a cada trabalho. Quando queremos crescer, temos que saber mesclar o artista que existe em nós com empreendedorismo e determinação. Tem que ter foco, ousadia e muita fé em Deus pra saber usufruir do nosso talento da melhor forma. Todo esforço e trabalho uma hora será recompensado.

Como você percebeu que poderia ganhar dinheiro e viver do audiovisual?

Desde criança eu queria ser independente o mais rápido possível. Por exemplo, se eu ganhava tintas e pincéis, eu desenhava e pintava já pensando em me tornar um artista e vender quadros. Isso era na faixa dos 7 aos 10 anos. Eu fui uma criança sem limites e muito precoce. Mas foi quando eu entrei pela primeira vez numa sala de cinema, quando assisti à estreia de Jurassic Park, que meu coração quase saiu pela boca de tanta emoção. Não foram dinossauros nem alienígenas que fizeram aquele filme. Foram homens muito danadinhos de Hollywood. E eu sabia que eu era tão corajoso quanto eles e enfrentaria qualquer Tiranossauro Rex que cruzasse meu caminho. Saí dali certo, disposto, excitado e louco pra fazer os meus filmes, que eu nem sabia ainda quais seriam.

Eu penso em arte como atividade principal da minha vida desde meus 12 anos de idade, quando dirigi meu primeiro filme ainda na escola. Profissionalmente falando, apenas aos 13 anos foi que comecei a ver o cinema como uma atividade lucrativa, pois já tinha uma carteira de 20 patrocinadores fiéis em pleno Sertão Central de Pernambuco. Naquela época, eu já conseguia lucrar uns 30% do faturamento total do filme.

Eu decidi ter prazer trabalhando e não trabalhar pra comprar prazer. Sempre fui meio indomado, intuitivo e insubordinado. Sempre tive espírito de liderança e as parcerias aconteceram de maneira muito generosa na minha vida. Me sinto de férias quando estou num set de filmagem, conhecendo pessoas, lugares, dando vida a histórias. Tudo é muito mágico. Mexemos com os sonhos de muita gente.

Apesar da pouca idade, você já produziu e dirigiu filmes, programas de TV, trabalha com publicidade, realiza festivais. Como você coordena sua vida para dar conta de tudo isso?

Um passo de cada vez. Não podemos dar um passo maior que a perna. Estabeleço metas de crescimento anual e tento segui-las. Não posso falar, mas sei o que quero pra minha vida, pelo menos até os 40 anos de idade, ano após ano. E se é verdade ou mentira que pensamento positivo ajuda, não sei, mas, no meu caso, vem dando muito certo. Pra mim, sinônimo de sucesso é estar feliz. Não me gabo por já ter sido capa de revista na Europa ou de meus projetos já terem sido noticiados em mais de 60 entrevistas, a maioria em afiliadas da Rede Globo. Mas morro de orgulho de saber que por onde passo, deixo amigos verdadeiros e quando sei que o meu trabalho fez alguém sorrir. Não acho que tenho métodos. Tento fazer filmes que não tratam de coisas e sentimentos ruins, com desfechos tristes, e vou continuar tentando espalhar boas mensagens, boas energias, boas atitudes, bons caminhos por meio dos filmes que faço, de olho nos bons resultados, claro, para as mais de 200 empresas e organizações que já investiram nos meus trabalhos, que são marcados pela responsabilidade social.

Você tem sua própria produtora, não é? Como ela funciona?


A minha produtora é a WSP Brasil. Para fins, cofins, pis e afins, ela foi fundada em 2007. Mas bem antes ela já existia e acontecia, desde 1999, quando dirigi meu primeiro filme. A única diferença é que ela passou de uma instituição mental pra virtual, formal e agora ela tem uma base real em Salgueiro, cidade onde nasci e com a qual não quero perder o vínculo nunca. A empresa é privada, com fins lucrativos. Todavia, o propósito é desenvolver projetos sócio-culturais, educativos, em parcerias governamentais, não-governamentais, comerciais e cooperativas. Eu acredito no bem comum, no negócio onde todos saem ganhando. Portanto, tenho que estar atento ao interesse coletivo, pois sempre dependemos uns dos outros. É assim que funciona na natureza e é assim que eu vivo. Cada projeto formatado, filme escrito, campanha criada, parte de uma necessidade coletiva e legítima, e não de uma mera vontade artística. Estes sinais são captados por meio do contato que eu tenho com as pessoas de diferentes realidades, e tudo é feito com muito amor e respeito.


Você tem se capacitado para gerenciar isso tudo?


Sim. Estive no RioContentMarket, o maior encontro de negócios audiovisuais da América Latina. Estou inscrito no Empretec, um curso de capacitação de empreendedores desenvolvido pela UNESCO e oferecido pelo Sebrae em todo Brasil. Faço Curso Superior de Marketing e pretendo fazer MBA na área de Gestão de Negócios e investir em línguas estrangeiras, visto que já tenho projetos acontecendo com plano de distribuição internacional, como é o caso do Cine Sertão. Mas toda formação, todo curso, capacitação, deixo pra fazer no momento certo. Adquirir um conhecimento para não utilizá-lo é perda de tempo. Nem todo conhecimento é útil.

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