''Não quero acabar como o Mick Jagger''

juquinha
"Não agüentava mais calcinhas me esmagando os ovos".
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rodrigo édipo · Olinda, PE
26/5/2007 · 186 · 6
 

No dia 29 de julho de 2004, um show no Teatro do Parque, Recife [PE], marcou o fim da Textículos de Mary [TXT]. A banda surgiu em meados de 1993 e teve uma carreira marcada por muita ousadia e polêmica. Suas apresentações ao vivo chocavam qualquer um, mesmo os menos austeros. Era um misto de selvageria sexual com um discurso inteligente e debochado.

O som, como não poderia deixar de ser, um punk rock sujo com claras influências de Sex Pistols e Velvet Underground. Sem contar com a descolada homossexualidade presente também em artistas como New York Dolls.

Após apresentações pra ficar na história, lançamento de disco por uma grande gravadora, videoclipe na MTV, muita curtição com o status quo e também muitas portas na cara, a banda decidiu suicidar o espetáculo. Cria do bairro dos Milagres em Olinda, a Textículos de Mary marcou uma época na música pernambucana pós-mangue, e depois de seu desaparecimento prematuro, a rebeldia, o desconforto, o pesadelo e a violência moral também acabaram. Mais um ponto pra hipocrisia.

Após quase três anos do acontecido, fui atrás do ex- vocalista Fábio Mafra, o Chupeta, para que ele relatasse com as próprias palavras o passado da Textículos de Mary e como eles estão vivendo hoje, sem a música e os holofotes que deles fugiram.

Rodrigo Édipo – Para quem nunca ouviu falar da banda, como você definiria a Textículos de Mary?

Fábio Mafra - Bem, tudo começou como uma curtição nas festas dos amigos. Mas, a coisa foi ficando séria e várias camadas de significado foram sendo agregadas. Viramos uma banda com shows, gravadora, CD. Como eu sempre falei, a TXT era uma banda de excluídos. O fim dos anos 90 foi o período em que os discursos das minorias estavam começando a ter alguma representatividade na mídia: começou a surgir gay e lésbica nas novelas. Mas essa representatividade vinha remodelada para não chocar a família brasileira. Era o que eu chamava de "biba da corte": aquela bicha que você podia levar para uma festa, sem perigo de vexame. Nisso, uma gigantesca parcela dos gays se viam fora do "horário nobre". E não só os homossexuais, mas também putas, travestis, drogados, cheira-colas, promíscuos, pervertidos.

RE - Por que a banda incomodou tanto?

FM - O incômodo era inevitável! Porque não era só falar sobre o que não devia ser falado. Era subir na mesa e esfregar o cu na cara da hipocrisia. Realmente, é um prato para poucos [risos].

RE - Devido a intolerância do público e até da mídia, a banda passou por algumas situações embaraçosas. Conta alguma delas.

FM - As duas situações mais "embaraçosas" foram em lugares onde não esperávamos: numa boate gay e no último show do Teatro do Parque [PE]. Foi ridículo! A casa vazia: umas cinco mariconas com seus respectivos michês. As bichas de cara tronxa, talvez por causa das músicas, talvez porque vampiros detestam espelhos. Abrimos o show cantando Bicha Escrota. Não deu outra! As mariconas pagavam as contas e pediram pra parar o show. Depois da terceira música o som foi cortado. Fomos embora com metade do cachê. Salve a produção cultural pernambucana!

RE – E no Teatro Parque?

FM - No Parque, o rebu deu até polícia! Era o Projeto Seis e Meia, no qual a produção resolveu sabiamente juntar Eduardo Dusek e TXT. Imagine o público: vovô, vovó, papai, mamãe e a prole toda! É claro que a platéia se chocou. A história que a produção do evento espalhou de que tínhamos ultrapassado o tempo é balela. O show foi montado para meia hora, se passamos muito foram dez minutos. O público queria ir embora e pegar o ingresso de volta. De novo, nosso som foi cortado! Pelo menos pagaram o cachê todo.

RE - Vocês começaram esse projeto de uma forma kamikaze, já sabendo que não ia durar muito. Por que durou menos que o esperado? Nem vocês tinham noção do barulho que iam fazer?


FM - O barulho não só era esperado, como era meticulosamente calculado [risos]. O problema foi grana mesmo. A produção cultural pernambucana - pelo menos para aquilo que não seja um resgate cultural - deixa muito a desejar. Nunca tivemos um produtor ou um agente para articular contatos de shows e outras coisas que sustentam uma banda. Às vezes, penso que ninguém tinha coragem de assumir "essa banda de loucos". Deviam pensar que éramos o que vivíamos no palco às 24h do dia. Depois que a gravadora viu que não seríamos a versão gay dos Mamonas Assassinas, largou-nos ao relento e cancelou o contrato. Depois, os espaços que existiam para se montar um show barato, aqui em Pernambuco, foram sumindo. E manter a TXT era caro! Roupas, maquiagem, cenários etc. Chega um ponto que só resta parar.

RE - Existia uma lenda na época que o público gay não gostava do trabalho de vocês. Vocês entendem porquê?

FM - Como eu falei anteriormente, realmente existia uma facção do público gay que detestava a banda! Eram geralmente bichas da classe média que assumiam os valores da elite e lutavam pelo direito de casamentos católicos entre homossexuais. Aquela coisa bicha TFP [Tradição, Família e Propriedade, vertente de direita da Igreja Católica]. É muito contraditório pro meu barroco! [risos]. Mas eles eram o termômetro que me dizia que eu estava no caminho certo.

RP - Existe algum artista da música pernambucana que está à serviço da contracultura?


FM - Sei não. Acho que entramos naquele período que sucede toda efervescência cultural em Pernambuco - vide o cinema de 20, a década de 70, e outros bem mais antigos). Ou seja, o nada! E tenho visto pouca coisa que valha a pena mencionar. Tem o pessoal que tá tocando com o Grilo [Geladeira Metal], aquelas doideiras. É divertido, mas não dá pra ficar escutando em casa [risos].

RE - O que cada um da banda está fazendo hoje?

FM - Bem, eu estou fazendo doutorado em Arqueologia. Nada a ver mesmo! Henrique [Lollypop] e Tony [Cilene Lapadinha] continuam como os garçons mais famosos e requisitados do Anjo Solto. A Banda d'As Cachorra seguiram caminhos diversos, alguns longe, outros perto da música e da cultura! Mas, estamos todos bem, obrigado!

RE - O que faltou pra recife aceitar o Textículos? Quando Recife [ou o Brasil] estaria preparado para a banda?

FM – Ah, vivemos numa terra de coronéis e cangaceiros! Acho que existia outro lugar no mundo que pudesse ter gerado algo como a TXT! Por isso, não podemos dizer que não fomos aceitos. No entanto, éramos uma nódoa no cartão postal da cidade! Terminamos trancados no porão, como o filho demente e deformado. E como todo filho indesejado, só seremos redimidos após a morte! Quanto ao futuro, não sei! Não posso nem dizer se vamos ser lembrados daqui a vinte anos.

RE - Textículos volta?


FM - Não! A situação de banda póstuma é mais confortável. Não agüentava mais calcinhas me esmagando os ovos [risos]. Mas para aqueles que não viram os shows, um consolo: existem muitas fotos e filmagens de shows, principalmente com o pessoal da Telephone Colorido – produtora de vídeo aqui do Recife. Vamos pressionar essa galera para tirar esse material "do armário". E tem o MP3 do segundo disco rolando pela Internet. A gravação está ruim, mas dá para ouvir... é o jeito, porque acho que não voltamos mais aos palcos. Afinal, não quero acabar como o Mick Jagger.

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maramarina
 

Oi, Rodrigo

Gostei de seu jeito de escrever e da entrevista.
Corrije só este "porquê" aí: "Existia uma lenda na época que o público gay não gostava do trabalho de vocês. Vocês entendem porquê?


bjo e parabéns!
ah, e amei o título

maramarina · Aracaju, SE 23/5/2007 17:05
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Helena Aragão
 

Esse porquê é separado, né? Vocês entendem por quê? (quando a palavra motivo poderia vir depois, é separado). Seria junto se fosse "Vocês entendem o porquê?" Não é isso?
Independente dos porquês, valioso resgate e impagável a idéia que você teve pra ilustrar a matéria!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 23/5/2007 17:17
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Saulo Frauches
 

É uma das bandas mais divertidas que conheci - ah, eu ouvi música deles recentemente numa boate aqui no Rio! Gostei da entrevista e saber do paradeiro do vocalista, ouvir impressões dele depois de tudo etc.

Sobre a banda: rola na internet um documentário chamado Textículos de Mary e outras histórias que dá uma boa impressão para quem não conheceu os caras. Passou até numa edição do Mix Brasil. Vale a pena assistir.

E pra quem quiser ouvir alguma música do álbum, tem o 'hit' Todinha sua - a melhor versão que fizeram de uma música da Xuxa.

Tá, eu não conheço outras versões, mas não deixa de ser a melhor hehehe

Saulo Frauches · Rio de Janeiro, RJ 23/5/2007 18:25
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rodrigo édipo
 

opa saulo, bem oportuno esse teu comentário. fiz também uma matéria com flávia rosa borges, a diretora do doc. por sinal, a iniciativa dela que me inspirou em produzir essa entrevista. em outra oportunidade posto aqui no overmundo. curto muito a banda e acho que vale a pena, pra quem ainda não conhece, dar uma pesquisa sobre. abraço e brigado a todos pelos comentários.

rodrigo édipo · Olinda, PE 24/5/2007 10:57
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Leandróide
 

Bela iniciativa, Rodrigo. Vi TXT no programa do João Gordo há algum tempo. Achei uma proposta bem escrachada e desde então não sabia o que tinha sido feito deles. É uma pena, aquilo era o mais perto que a gente chegava de um Alice Cooper/Marylin Manson.
Abraço,
Leandroide.

Leandróide · Florianópolis, SC 24/5/2007 20:26
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•al•BE•r•TO•
 

É uma pena mesmo o fim do Txt de Mary! Lembro de quando criança ter visto o clipe de "Todinha Sua" e ter ficado super impressionado com aquela orgia de Barbies, Kens e He-mans.
Acho que me tornei fã da banda nessa época, e hoje, com as facilidades da internet, fico sempre a procurar vídeos, músicas e entrevistas deles.

Outras bandas que seguem a linha do Txt de Mary, meio queer punk, mas so na teoria: "Las Bibas from Vizcaya", sendo que essa leva mais no humor, e "Solange, tô aberta!", daqui de Salvador, que faz um funk digno de Txt de Mary. Quem sabe um dia rola até um cover mais dançante. rs

Abraços e parabéns pela entrevista

•al•BE•r•TO• · Salvador, BA 15/7/2007 01:51
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