Narrativas de Catarina

Marina Moros
Show na Igrejinha da UFSC
1
Vanessa FJ · Florianópolis, SC
5/12/2007 · 115 · 2
 

Fui conhecer o “Narrativas de Catarina” primeiramente em um ensaio aberto, na Barca dos Livros, uma biblioteca na Lagoa da Conceição, em Florianópolis (SC), e depois pude ver uma segunda apresentação, dessa vez na Igrejinha da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), um espaço que abre algumas (raras) vezes para manifestações culturais. Era domingo, com chuva, e umas 60 pessoas aguardavam o show. Ali, tive certeza que de vez em quando a pacata cena cultural de Florianópolis pode reservar uma boa surpresa.

O Narrativas de Catarina é um projeto musical que percorreu parte do Estado, com apresentações em espaços alternativos, com intuito de trazer ao conhecimento do público catarinense o trabalho de músicos do próprio Estado, pouco conhecido até então. Com um recital de piano e voz, Ive Luna, cantora do grupo Cravo-da-Terra, e Carla Pronsato, resgatam canções que te permitem viajar no tempo, e lembrar daquelas narrativas que existiam em disquinhos de histórias.

A Ive conta que foi buscar inspiração nas suas memórias de infância. “Desde criança sempre gostei muito de ouvir as canções do Chico Buarque que contavam histórias, como Geni, Minha História, coisas assim. A Nara Leão também interpretava várias, como a Estrada e o Violeiro, de Sidney Miller. Eu adorava ficar ouvindo... O pessoal da minha idade cresceu ouvindo os disquinhos. Eram o máximo, muito bem orquestrados. A gente ainda sentava pra ouvir histórias”.

Narrativas de Catarina vai bem por aí. A Ive conta histórias (voz e flauta) junto com a Carla (piano) e você dá aquela viajada no tempo. As músicas que compõem o show, um total de 12, foram escolhidas depois de uma vasta pesquisa entre compositores do Estado. Ao longo dos meses, foram aparecendo músicas muito diferentes e nem todas narravam fatos, mas descreviam cenas e ações, ou representavam a fala de uma personagem. O processo de seleção buscou uma unidade para o trabalho, que segundo ela, tinha em mente um repertório que representasse a fala de todo mundo da cidade, e não de um grupo exclusivo, ou de um grupo que faz música parecida com a que ela faz. “É claro que seria mais fácil interpretá-las se tivesse sido assim. Mas a pesquisa perderia o sentido”.

A intenção era reunir a composição de músicos contemporâneos de Florianópolis que não têm espaço na mídia radiofônica e, por isso, não têm seus trabalhos reconhecidos pelo público. “Penso sempre que precisamos dar testemunho do que vemos e ouvimos perto de nós”, afirma.

A Ive entende que as narrativas representam a memória do povo, guardada nas crônicas ancestrais, nos rituais e nos contos folclóricos. Lembra que as histórias de todas as nações que surgiram antes da escrita, se sustentaram, principalmente, por ter havido as narrativas orais. Assim, as narrativas mantêm sua função de contar histórias de uma nação, transmitindo o legado daqueles que viveram antes. “Cabe a nós a tarefa de continuar a tecer o fio”.

Boa parte das músicas escolhidas para o projeto já existia, com algumas já tendo sido gravadas em CD de seus compositores, como Nossa Barulheira do Moriel, gravada pelo Dazaranha; O Navegador, de Márcio da Vila, gravada pelo Tijuqueira; a Festa pra Cascaes, de Denise de Castro, gravada no seu CD Espírito da Terra; a Milonga, do Marcelo Mello, gravado pelo Cravo-da-Terra e o Nascimento, de Neno Miranda, gravado por ele em seu CD demo. No entanto, no projeto Narrativas, elas ganharam cara nova, não só por Ive e Carla, mas também pelos arranjos de Luiz Gustavo Zago.

É a segunda vez que Ive e Carla trabalham juntas. Antes do Narrativas, elas tocaram em um projeto de Tânia Piassentini, da Barca dos Livros, que se chama Amantes da Leitura, um repertório com quatro poesias de Manuel Bandeira, musicadas por diversos compositores.

A Narrativas de Catarina, contudo, é o projeto de maior vulto da dupla. Foi financiado pelo governo do Estado e patrocinado pela Ambev e Cassol. Já foram feitas apresentações em Florianópolis, Brusque, Itajaí e a mais recente foi feita em um assentamento do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), em Abelardo Luz, oeste catarinense. A de Abelardo Luz foi a última com verba do Estado, agora o projeto vai buscar parcerias para permanecer circulando.

Ive e Carla pensam em levar o Narrativas para os Açores, terra dos colonizadores da porção litorânea de SC, e têm intenção de circular por universidades do Estado que tenham curso de letras ou de música.

Abaixo, coloquei o repertório para quem tiver interesse em conhecer mais e também a letra de uma das composições que gosto mais, a Milonga. A foto principal é do show na Igrejinha da UFSC e as imagens na lateral são de bonecos que representam personagens das músicas. Foram criados por Etelvina dos Santos e Rita Guedes. Também anexei um arquivo MP 3 para quem quiser ouvir Milonga.

As 12 composições

Terno de Reis – domínio público
Disse-disse – Sìlvio Mansani
O nascimento – Neno Miranda
Último canto de Anita para Garibaldi – Emílio Pagotto
Nossa Barulheira – Gazu (Dazaranha)
Polyana – Tony
Festa pra Cascaes –Denise de Castro
O Navegador – Márcio da Vila (Tijuqueira)
Martinho –Ive Luna
A fábula e o mar – Jefferson Bittencurt
Milonga – Marcelo Mello
Clara Canção - Luiz Gustavo Zago

Milonga


Toda a extensão dessa areia
que outrora viu a festança
dos corpos libertos
na dança da aldeia.

Essas montanhas peladas
que outrora foram o berço
de caras pintadas
agora caladas.

Quando esse mar refletia
a lua cheia que
outrora brilhava e banhava
uma gente sadia

Eh! Daruê...

Hoje te vejo calada,
já não há festa nem dança
somente a lembrança
da alma violada.

Essa explosão amarela
nessas montanhas que
agora contemplam
uns restos de vida singela.

Agora a terra nos chama
e a lua cheia
de tanto descaso e abandono
do alto reclama.

Eh! Daruê...

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Sonora Parceria
 

Eh! Daruê....Isso aí querida....a cena cultural de Florianópolis tem uma densa produção embora raramente consiga ter espaço para expressão....beijares em vc por ir mais além e a Ive e Pronsato pela determinação, talento e por jamais perderem a ternura...iça!!!
Tatiana Cobbett

Sonora Parceria · Florianópolis, SC 4/12/2007 08:41
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Edson Wander
 

Vanessa,
O Cravo-da-Terra da Ive Luna, moça de voz doce, é um desses raros exemplos do chamado "resgate" (palavrinha complicada em cultura) sem cair no mero fetichismo da tradição. É uma coisa assim que a gente ouve e lembra do passado mas é belíssimamente presente. Conheci o trabalho deles num show que eles fizeram aqui em Goiânia. Valeu pelo registro.
Bj,
EW

Edson Wander · Goiânia, GO 4/12/2007 11:22
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