Nasce uma estrela... JORGE DO BOROGODDÓ

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jair · Manaus, AM
25/12/2008 · 53 · 2
 

No meio do quintal de um casebre qualquer na periferia da cidade de Cachoeira, no Recôncavo baiano, em posição de aparente descanso sobre uma rede atada entre um coqueiro anão, cujos cachos arrastam-se pelo chão, e uma velha amendoeira que verte seus frutos aromáticos no solo de massapé batido, de onde nasce pequenos tufos de mato que enfeitam os cantos dos muros, ele observa o horizonte como quem contempla o amanhã, como quem discorre sobre a existência, utilizando figuras de linguagem simples como metáforas e parábolas, ferramentas essenciais para a confecção de suas composições densas que são absorvidas pela turba ignara em grandes e prazerosas goladas, buscando na essência da musicalidade desse baiano de nascimento um alento para as agruras eternas e diárias que ofuscam a esperança por um futuro melhor.
Ele é Jorge da Silva dos Santos de Jesus, e por que não dizer também dos Orixás e de Deus. Nascera como um filho pródigo de Ogum, pelos idos dos anos oitenta, numa casa de taipa de dois cômodos entre o Gengimbirra do Meio e a favela do Pela Porco e agora começa a alcançar projeção nacional simplesmente como Jorge do Borogoddó: Cantor de voz potente, compositor de mão cheia, poeta, contista, escritor, pensador, filósofo, um Severino das Artes, como ele mesmo se define.

Logo no início do bate papo, uma revelação bombástica:
"Pelo menos uma das luas de Saturno tem vulcões de gelo."
Vaticina o pensador com os olhos voltados para a constelação de Órion. A cena impressiona, afinal como ele pode ter chegado a essa conclusão? Será Jorge um alquimista?
_ Como você sabe?
Ele olha serenamente para a minha tez pálida e meus olhos arregalados e, sem pestanejar, sem a mínima cerimônia, responde:
" Sei porque sei."
Insisto sem querer mostrar a impaciência e a curiosidade de entrevistador:
_ Como Assim, Jorge?
Ele ri baixo e grave:
"Li na página principal do site msn.com.br, ontem."
_Quem é Jorge?
“Jorge é a síntese e a análise, filho de raças que escravizaram e estupraram outras raças por gerações e gerações, neto das vicissitudes transformadoras e acomodantes.â€
_E o Borogoddó?
“O Borogoddó é o sex appeal que transborda como a melanina, aquele encantamento especial que é dom, o sujeito já nasce pronto, ou tem borogodó ou não tem. E eu trago isso no sobrenome. Entende?â€
_ Por que os dois dês?
“É fashion. Como Katrinny Victorya, Ueslley Snaites, Ketlen Treici, Ivissan Lorran, nomes que meus vizinhos usaram para batizar os filhos e, apesar de periféricos são, paradoxalmente, globalizados.
_Como o Jorge compositor e cantor se encaixa dentro do processo de musicalidade brasileira?
“Borogoddó fala para as massas, não tem a pretensão de ser erudito, de ser da MPB, da Bossa Nova, pois a nossa comunicação é com o mundo. Vejo muito neguinho, branquinho, mulatinho, saruaba e oriental, escrevendo ou compondo para si mesmo e depois ainda reclama que não tem espaço, que a mídia não o ajuda, que o governo não apóia, que só Fulaninho ou Sicraninho de Tal é que faz sucesso cantando quinquilharias, que a Bahia é a China da música, pois produz quantidade, mas não qualidade. Um trololó retado que não agrega pôrra nenhuma, pois o cerne da questão é que esses artistas que se autodenominam intelectuais ou cult bloqueiam a comunicação com o mundo como se vivessem num condomínio fechado das artes. Aí fica só aquele grupinho, aquela panelinha, um fazendo música para o outro, um escrevendo para o outro, um elogiando o outro, todos criticando o mundo e ninguém produzindo nenhuma revolução cultural, nenhum movimento literário ou musical digno de nota. Para escrever ou fazer música, não basta só o conhecimento lingüístico ou instrumental, pois estas são apenas premissas básicas, tem que colocar o tempero da paixão, a criatividade precisa reinar, é essencial sair da mesmice, é vital arriscar-se e sobretudo precisa de um profundo exercício de humildade para estabelecer uma comunicação de mão dupla com o mundo e seus habitantes, seja com o ser mais intelectualizado ou pseudo idiota e os nossos artistas, no geral, são desprovidos de humildade, pois a confundem com mediocridade e portanto desprezam a comunicação com o mundo, o contato com a vendedora de acarajé, a visita a uma lan house, o bate papo com o garçom e o camelô, vivem hermeticamente fechados nos seus mundinhos particulares procurando ainda Marílias de Dirceu, querendo comprar ingressos para a Semana de Arte Moderna pela internet, chorando o fim da Bossa Nova. Assim a capacidade de produzir uma arte transformadora vira simplesmente um conjunto de palavras bem escritas, porém sem alma, sem amor, fora de contexto...â€
Enquanto discorre suas idéias, Jorge dá uma pausa para haurir um gole de café preto, que esfriara num copo de extrato de tomate sobre a mesinha de madeira ao lado da rede colorida.
“O artista necessita comunicar-se consigo e com o mundo paralelamente e evitar a postura narcisista de escrever ou compor somente para si mesmo e se auto premiar como consolo para o fracasso, desprezando o mundo e o sucesso, pois se o povo não comprou o CD, não leu o livro, não foi ao show é porque a comunicação entre artista e o público não ocorreu. Aí eu sei que os, ditos, intelectuais vociferarão:_ Mas a turba ignara só gosta do que não presta! Será que a massa só compra o que não presta ou os nossos intelectuais, entre aspas, não têm capacidade de produzir algo de qualidade e concomitantemente acessível ao grande público? E esse é o desafio do mundo contemporâneo: Produzir arte de qualidade para a massa.
_ Quais as influências de Jorge compositor?
Jorge olha para o horizonte, contempla o pôr do sol atrás das ilhas que cercam a Baía de Todos os Santos e perde-se entre os seus devaneios.
_ Jorge?
Chacoalho o punho da rede e o astro retorna instantaneamente para o mundo real.
“ A minhas influências são o solo, o mundo, as bundas das mulheres, o andar nativo, tudo isso liquidificado com pitadas de Sófocles, de Shakespeare, de Cumpadi Washington...â€
_ Sófocles? Shakespeare? Cumpadi Washington?
Antes de responder à pergunta, Jorge dedilha no violão e canta com a voz aveludada o famoso refrão eternizado pelo povo:
“ Desce mainha, sobe mainha, só mais um pouquinho, vem dançar agachadinho...â€
A cena enternece o final de tarde no Recôncavo baiano, a tal ponto que os pássaros canoros, os grilos, as cigarras, a natureza pára só por ouvir Jorge cantar. E ele, como quem responde ao chamamento da natureza, também pára de dedilhar seu violão, mas a sua voz continua reverberando pelos quatro cantos do mundo, e oxalá continuará por toda a eternidade.
_ E o que vem por aí?
“ O que vem por aí é sempre uma incógnita, posso estar aqui, deitado na rede, posso estar ali, comendo amêndoa, carambola ou jabuticaba, posso estar acolá, e de repente surge algo, trazido de outras dimensões por seres que não sei se existem, porém, como eu acredito, então, logo, eu tenho certeza que existem. Entende?â€
Quem há de entender o gênio?
O violão é acariciado mais uma vez e solta o seu som afinado como um orgasmo sinfônico.
“Ela passa na praça, sorrindo,
Ai que dia lindo,
Carros, Ônibus, trens vão passando,
Vejo ela me olhando,
No céu azul,
Da cidade negra,
Cidade Olodum,
Trás o meu axé,
O meu amor todo blue,
Caminha na cidade,
Vestida de Olodum
Esquintimbão, esquitimbão, esquintintintintintintimbão.â€

E Jorge levanta-se da rede, pega um banquinho, o seu inseparável violão e sai descendo a ladeira do Quebra Bunda em direção ao futuro.
_ Lá vai Jorge e seu sex appeal.



DISCOGRAFIA:
-Aê, Aê, Aê, ôôôô - Music Records- 2005

-Vai, vai, vai, vem, vem, vem – Music Records – 2006

-Vem Mainha – Independent Records – 2007

-Vem Mainha – Velocidade II – Independent Records – 2008

-Vem Mainha – Velocidade III – Independent Records - 2009


Referências:
- Wikipédia.

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jair
 

Jorge do Borogoddó é um personagem ficcional.

jair · Manaus, AM 25/12/2008 22:51
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Andre Luiz Mazzaropi
 

2.009 nada de crise, só sucesso
Andre Luiz Mazzaropi
www.andreluizmazzaropi.com.br

Andre Luiz Mazzaropi · Taubaté, SP 26/12/2008 10:05
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