Nealdo e o Romance Cinematógrafo

Marcelo Cabral - Foto da capa do livro.
"Cine Rio Branco, 1917..."
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Marcelo Cabral · Maceió, AL
3/11/2007 · 161 · 4
 

O jornalista e escritor arapiraquense Carlos Nealdo nos leva das casas de jazz de Nova Iorque à inauguração de um “cinematógrafo” no sertão do Nordeste, onde vai parar seu personagem, o ator Al Jolson, durante a Primeira Guerra Mundial.

Em seu primeiro livro, “O Pianista do Silencioso”, Nealdo mescla fatos e personagens históricos aos seus próprios, em uma declaração de paixão pelo cinema e a música. A história se desenvolve a partir do encontro de Jolson com o personagem Dago, o pianista do cinema mudo da cidade de Rio Branco é o único sujeito que compreende a “língua engrolada” do ator estrangeiro.

O romance de Nealdo é uma viagem pela aurora do cinema no início do século XX e seu impacto em todos os corações do mundo. Com prefácio de Cacá Diegues, o livro foi lançado em Maceió e no Festival de Cinema de Gramado.

Nealdo tem uma trajetória importante no jornalismo cultural alagoano e concedeu esta entrevista pra falar sobre a construção de seus personagens e de sua narrativa rica em referências, pequenas mensagens escondidas em uma daquelas histórias boas de ler...

Marcelo Cabral - Nos conte de sua origem e trajetória. Onde você nasceu e se criou? E de que forma este entorno influencia a sua ficção?

Carlos Nealdo - Nasci em Arapiraca, na época de uma seca desgraçada que castigou o Estado em 1970. Cresci ouvindo histórias que meu pai contava sobre galãs de cinema, como John Wayne e tantos outros. Minha primeira experiência com a Sétima Arte foi mágica. Era 1979, acho que isso, meus pais me levaram para ver “King Kong”, uma versão de 1978. Apesar de sair correndo do cinema quando o gorila gigante apareceu na tela, nunca mais deixei de freqüentar o Cine Triunfo – um dos três que havia na cidade. No início dos anos 1990, vim pra Maceió fazer jornalismo e estou na capital até hoje. Parte de fatos que há no livro vem da minha memória infantil: o hipnotismo de quem vê um filme na tela grande pela primeira vez, o fascínio que os heróis exercem sobre o homem comum, etc.

MC - Conte sobre a experiência do Festival de Cinema de Gramado. Você lançou o livro por lá? Quais outras cidades tiveram um evento de lançamento?

CN - Eu havia recebido o convite para lançar “O Pianista” da organização do festival, que todos os anos lançam livros que tenham relação com cinema. A experiência foi fantástica, eu estava dentro de um dos maiores festivais de cinema da América Latina – senão o maior. No dia do lançamento, acabei fazendo contato com muita gente, de ator a diretor de cinema, passando por produtores e, claro, o público em geral. O livro foi bem recebido, teve uma excelente repercussão na imprensa e ainda hoje recebo e-mails de contatos que fiz por lá. A idéia era lançar o livro em outras cidades brasileiras, mas escritor independente infelizmente sofre de falta de recursos. Não dá para bancar viagens, hospedagens etc...

MC - E em Arapiraca?

CN - Por enquanto não, mas pretendo lançar lá sim. Estou terminando os preparativos para o lançamento em Aracaju...

MC – É impressão minha, ou os títulos dos capítulos de "O Pianista do Silencioso" são nomes de filmes?

CN - Quando eu escrevi o livro, em vez de títulos, os capítulos eram numerados (confesso que nem me passou pela cabeça dar nome a eles). Quando o Cacá Diegues leu os originais, fez algumas sugestões, entre elas, titular cada capítulo à maneira da Literatura de Cordel. Cheguei a começar o processo, tanto que o primeiro capítulo iria se chamar “O Amarelo que gostava de música negra”, em referência ao ator Al Jolson, que abre o livro. Mais tarde, conversando com o Werner (Salles, diretor de “A História Brasileira da Infâmia – Parte 1” e “Imagem Peninsular de Lêdo Ivo”), ele sugeriu trocar os títulos de cordéis por títulos de filmes. Achei sensato, já que o livro é uma homenagem ao cinema.

MC – Os nomes dos personagens também fazem referência ao cinema? A Magnólia, forasteira que conquistou o coração do pescador Saruaba, é uma menção ao filme estrelado por Tom Cruise?

CN - Uma menção e uma menção deslavada, ressalte-se. Mas não é só ela. Uma das prostitutas da Rua da Mãe – onde o Xié é tido como um Don Juan – chama-se Angelina. O bar do pescador Saruaba se chama Príncipe das Marés e por aí vai. Claro que tentei poupar referências, para não ficar “poluído”, metalinguísticamente falando...

MC – Gostei muito do traço das ilustrações, quem fez?

CN - Eu fico muito feliz que tenha gostado. Também gostei muito e acho que elas dão uma força enorme à obra. As ilustrações são do Léo Villanova, um grande amigo que na verdade me presenteou com os desenhos. Ele é publicitário e um dos diretores da Six Propaganda – que, aliás, cuidou de todo o projeto visual do livro e do site. Foi colaborador da extinta revista Bundas, dirigida por Ziraldo, e tem na bagagem um currículo extenso.

MC - Apesar de o seu romance ser focado no cinema, um papel importante é dado à música, gostei da maneira descritiva com que tratou a trilha sonora da história, do jazz ao arrasta-pé você me fez escutar enquanto lia.

CN - Durante as pesquisas para o livro, eu descobri muitas curiosidades e coincidências. Por exemplo: o primeiro disco de jazz foi gravado no mesmo ano que o primeiro disco de samba, ambos em 1917. E este ano é o mesmo em que o Cine Rio Branco foi inaugurado. E como o livro se passa no sertão nordestino, não tinha como não falar de forró, até porque era a música que animava os arrasta-pés nas festas das comunidades sertanejas. Claro que há também o fato de que não dava para se falar em cinema mudo sem se falar em música. Ela sempre existiu no cinema, mesmo que sendo através de um pianista sentado diante da tela e executando as melodias para pontuar a trama – como é o caso do personagem que dá título ao livro.

MC - Além do cinema, você me parece um grande fã da própria história. Com tantas referências como a gripe espanhola em Recife, o cangaço e a Primeira Guerra Mundial, imagino que você passou por um período de pesquisa. Como foi esse processo e quanto tempo te tomou escrever “O Pianista...”?

CN - Levei dois anos pesquisando, lendo, juntando bibliografia e informações de jornais de época. Foram mais de setenta livros sobre cinema, cangaço, revolução, jazz, samba e história. E todos os assuntos se entrelaçavam com uma fidelidade impressionante. Antes de me enfurnar nos livros, descobri, em jornais no Instituto Histórico de Pernambuco, que a Gripe Espanhola havia fechado casas de espetáculo em todo o País, incluindo o Cine Rio Branco, que foi usado também como quartel-general dos soldados da Paraíba, na época da Revolução de 30. E descobri também que Lampião invadiu o povoado, exigindo de um dos coronéis da época a quantia de 10 contos de réis. A história me ofereceu dados relevantes, que acabaram se juntando ao livro, num misto delicioso de ficção e realidade. Depois de ler todo o material, passei seis meses para escrever a história, normalmente à noite, depois de chegar do jornal. Tinha noites em que ficava escrevendo até o dia amanhecer, de tão gostosa que estava a história. Mas também tinha ocasião em que não escrevia uma lauda...

MC – "...Sua veia para indústria lhe permite ver além do cidadão comum. Pouco tempo depois de se estabelecer por ali, trata logo de trazer a luz elétrica para o povoado...". O coronel Augusto Cavalcanti seria uma menção ao Delmiro Gouveia? O empreendedor do sertão alagoano do inicio do séc. XX, onde hoje temos um município com seu nome?

CN - Não, não. O coronel Augusto Cavalcanti é o fundador de Arcoverde – o nome atual de Rio Branco. É um dos personagens reais do romance. Ele quem fundou o cinema e é tido como um grande empreendedor. Podemos dizer que ele é o Delmiro Gouveia de Arcoverde.

MC - "O Pianista do Silencioso" foi o romance vencedor do prêmio Alagoas em Cena 2006, você produziu o material pensando nesta seleção ou já estava pronto quando surgiu a oportunidade de inscrevê-lo?

CN - O livro estava pronto há dois anos e meio quando surgiu o Alagoas em Cena. Eu o concluí e mandei algumas cópias para editoras comerciais. Da grande maioria, recebi um não. Duas delas queriam até publicar, mas me pediam para abrir mão dos direitos de primeira edição. Inexperiente, não aceitei. Faltando uma semana para encerrar as inscrições do Alagoas em Cena, encontrei o Keyler Simões – que fazia parte da organização – e ele me falou do concurso. Aí corri contra o tempo para inscrevê-lo.

MC - Você já pensa em um segundo livro? Quanto tempo nós leitores vamos esperar pra ler um novo romance de Carlos Nealdo? Por falar em tempo, é possível conciliar o trabalho no jornalismo com a produção literária?

CN - Há alguns meses venho pesquisando para um segundo romance, também sobre cinema. Já tenho o tema e inclusive o primeiro capítulo escrito. Mas tenho que juntar muita informação ainda, livros sobre o assunto, enfim. Mas confesso que este ano O Pianista me tomou todas as atenções, com lançamentos, distribuição e outras coisas ligadas a ele. Espero no início do próximo ano me dedicar completamente ao novo projeto, que deverá levar o mesmo tempo que o primeiro. Por enquanto, ainda tenho que me dedicar ao primeiro livro. Quanto ao tempo, é possível sim. Engana-se quem pensa que quem escreve se isola do mundo e fica por tantos meses sem contato com o mundo exterior. O Pianista foi escrito depois que voltava do trabalho, tomava um banho, resolvia as coisas pessoais e só então me sentava diante do computador. Por isso que falo que é possível conciliar o trabalho com a produção literária. É preciso somente que se estabeleçam metas, para que a literatura não seja protelada e fique em segundo plano.

MC – Por que situar a história no sertão pernambucano em vez do alagoano? Ou será que sou eu que sou bairrista? ...Brincadeira.

CN - Não se trata de bairrismo. Eu tentei situar a história em Alagoas. A idéia era essa, quando pensei em escrever o livro. Durante as pesquisas, no entanto, os fatos foram me levando para Pernambuco. Descobri que o Cinema Rio Branco era o mais antigo em funcionamento da América Latina. Ainda hoje existe por lá. E a data de sua inauguração foi crucial para determinar o local dos acontecimentos: 1917. Este ano é o ponto de partida para uma série de fatos importantes para o cinema: os Estados Unidos entraram na guerra em 1917. A Primeira Guerra Mundial foi importante para que eles dominassem a Sétima Arte, já que a Europa estava devastada com o conflito. Mas o fato de ter situado a história em Pernambuco não significa que ela seja menos alagoana. O Saruaba é um pescador alagoano que finca seu bar em Pernambuco e se delicia com comidas típicas de Alagoas, como o sururu. Além disso, sempre convida mestres alagoanos para as festas do povoado.

MC - ...Como Mestre Avelino, de Alagoas do Sul, atual Marechal Deodoro. Terra natal também de Saruaba, que se aventurava nos mares desde o Porto dos Franceses...

Já que o cinema é o mote, você gostaria de ver seu Pianista adaptado para a tela grande? Ou melhor, já existe alguma idéia desse tipo?


CN - Durante o lançamento do livro no Festival de Cinema de Gramado, muitos produtores vieram me perguntar se o livro já tinha sido adaptado para o cinema. Diante da minha negativa, ficaram curiosos. Um deles, em especial, me chamou a atenção. Um dia depois do lançamento, estava indo almoçar para voltar para Maceió, quando um senhor me abordou no restaurante. Vendo o livro sobre a mesa (não sei por que eu estava com um exemplar nas mãos), perguntou se era o livro que tinha sido lançado no dia anterior. Disse que sim e ele quis saber do que se tratava a história. Quando lhe falei, ele soltou um “porra, mas isso é uma excelente história pro cinema!”. Quis comprar o livro e pediu para eu não fechar com ninguém até ele dar um retorno. Pegou meus contatos e disse que queria conversar comigo depois. Se você pergunta se queria ver a história nas telas, eu digo que adoraria. Mas sei que isso leva tempo e que “nem sempre as coisas costumam acontecer como a gente quer", parodiando Al Jolson.

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Osmar Duarte
 

Bem interessante. Como sempre, Alagoas despontando na literatura nacional. Boa reportagem.

Osmar Duarte · Maceió, AL 3/11/2007 20:35
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Andre Pessego
 

Pois é Marcelo,
Ainda temos, no Brasil, de ter esta luta de termos que divulgar valores e obras valorosas em S, Paulor/Rio, de pires na mão. E se não fôr assim "não tem valor".
Mas, já foi pior. Antes quando eram vendidas as partidas de bois ou de café o dinhiero só tinha valor se fosse para comer algo com nome francês, enxatamente no polo sp/rio,
um abraço, andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 4/11/2007 06:46
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jr bocão
 

Demais.. Nealdo é um grande cara! Parabéns Marcelo, informação de qualidade.

jr bocão · São Paulo, SP 4/11/2007 14:42
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Marcelo Cabral
 

Nealdo lançou recentemente “O Pianista...” no Festival de Cinema de Recife e também figura ao lado de grandes nomes concorrendo a Copa de Literatura Brasileira, com votação aberta aqui.
Valeu gente, abraços.

Marcelo Cabral · Maceió, AL 15/1/2008 10:10
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