NEI DUCLÓS, UM POETA QUE SEGUE FIRME NA POESIA

euduardo ferreira
O poeta e jornalista Nei Duclós, agora ancorado em Floripa.
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RUBENS JARDIM · São Paulo, SP
23/4/2013 · 0 · 0
 


Jornalista, poeta e escritor, Nei Duclós começou a revelar sua poesia a partir de 1969, quando foi para praça pública expor poemas junto com outros autores. Desses trabalhos resultaram 2 coletâneas mimeografadas—desaparecidas e esgotadas. Só depois, em 1975, fez sua estréia em livro com Outubro, que despertou a atenção de críticos e o interesse de leitores. Alguns anos mais tarde, em 1980, surgiu No Meio da Rua, livro que recebeu as bênçãos e o prefácio de um dos poetas mais conhecidos e queridos do Brasil: Mário Quintana.

E após um silêncio poético de 20 anos,-- e uma intensa atividade jornalística desenvolvida na Folha, Isto é, Estadão, Veja e Jornal do Brasil, -- publicou No mar, veremos, livro que foi saudado assim, pelo poeta e crítico Mário Chamie: “Bastaria essa esplêndida concepção artística para situar Nei Duclós entre os mais consistentes poetas brasileiros, dos anos 70 aos nossos dias. Uma concepção que, despontada no seu livro de estréia, Outubro (1976), firma-se em No meio da rua (1980), nutre-se por vinte anos de silêncio e maturação, e consagra-se com força autônoma neste livro de agora. Podemos dizer que o vigor dos novos poemas não assegura apenas ao seu autor o lugar que lhe é de direito, no panorama de nossa atual poesia, mas sobretudo dita a singularidade de seu compromisso com as exigências maiores e incorruptíveis do discurso poético.”

E se você circula pelas redes sociais, principalmente pelo facebook, é mais do que certo que já tenha lido textos desse incansável poeta, hoje ancorado em Santa Catarina, mais precisamente em Florianópolis. É a partir de lá que ele dispara, diariamente, seus poemas. E é a partir da ilha da magia que ele produz e publica seus livros digitais. Até agora foram cinco. O que quer dizer que Nei Duclós segue firme e inabalável na poesia. E já avisou a todos: não tem mais guardiões e guardados em gavetas. ‘Tudo o que escrevo ponho no ar. É o sonho de uma vida.”

É esta postura de Nei Duclós que me faz lembrar de Roberto Piva, um dos mais radicais e rebeldes poetas da minha geração. Autor de versos explosivos, vulcânicos, Piva também não admitia sininhos no pescoço, transitava na contramão de tudo e gostava de expor-se. Mas defendia, como foi registrado em Manifesto, escrito em 1983, “o direito de todo ser humano ao pão e à poesia”.

Mas todos nós sabemos como são tratados até outros direitos --mais elementares e básicos. Sabemos como é difícil a vida do escritor brasileiro. E se esse escritor for poeta, a situação piora ainda mais, pois não basta que o poeta seja reconhecido por seus pares. Ele precisa explodir uma série de paredes que impedem o ecoar de sua voz. Por isso precisa publicar em antologias, participar de concursos, e pagar as próprias edições em pequenas editoras.

Portanto, que poeta seria contrário ao princípio do Piva? É óbvio que as dificuldades são muitas e, como sempre, as alternativas e escolhas são pessoais. Só que agora os meios digitais surgem como aliados dos poetas. E isso vem facilitando as coisas para eles que são as maiores vítimas do sistema editorial e do arraigado preconceito que diz que poesia não vende. Até o famigerado eixo Rio-São Paulo vai, aos poucos, perdendo sua dominação.

E Nei Duclós sempre fez da tecnologia mais à mão, ferramenta para levar seu trabalho ao público. Antes, eram as cópias mimeografadas de seus poemas. Depois, tornou-se blogueiro de primeira hora. E agora já fez o lançamento experimental de vários livros em formato digital. "O que publico na internet rompe o cerco que se faz ao autor. Há inúmeros bloqueios. Não te incluem em quase nada (ou demoram muito) e raramente te publicam. Mas nas redes sociais estamos na frente do público o tempo todo." Abaixo, uma seleção de poemas e de algumas “pílulas poéticas” que o Nei Duclós publica, diariamente, no facebook.

Outubro

Trago a nova: eu mudo
lento, e é tudo
Sinto ser assim
por estações: aos turnos

Posso voltar
ao ponto de partida
mas luto

Sei que vem outubro
Flores, fruto de seiva
romperão no mundo
(Trabalho duro:
sugar de pedras
rasgar os caules
colher ar puro)

Lento e bruto
eu mudo
Sei que vem
Outubro

No meio da rua

A casa do passageiro
é o meio da rua
por isso esse ar de loucura

por isso esse andar
de banda. essa voz
que inflama. esse olhar
de lua

por isso essa dor que
não recua

A cama do passageiro
é o amor de campanha:
armar o dia
manter o fogo
cobrir a fuga

por isso esse chamado
quando passa adiante
essa vontade
que alguém lhe acompanhe

O medo do passageiro
é sentir-se um estranho
por isso sorri
enquanto morre de fome

(ele nasceu, teve um sonho
mas o caminho, longo demais
lhe rouba o sangue)

No meio da rua
o coração do passageiro
bate o o bumbo

Senha

Somos nós, os pescadores
que fizemos do rio uma casa
e de todos os rios, uma pátria

Somos nós, os pescadores
que cruzamos cidades amargas
com os remos fora d’água
e o rosto lavado em sal

Somos nós, os pescadores
Que nos reunimos em silêncio
ao redor do amanhecer
com o sol preso na mão
e a rede tensa

Somos nós o horizonte
onde aportarão os exércitos
sem direção

Levantar um braço, então
será o bastante

POEMÍNIMOS PUBLICADOS NO FACEBOOK

Dizes que não compreendes tanta insistência. É simples. Na vida não cabe mais do que um sonho verdadeiro.

Amor não tem ressaca de outras noites. Tudo é um tempo só, de espantos.

Amor não é pet, fofura. É tempestade, o sentimento, em copo dágua, teu corpo de deusa.

Ultrapassei a cota de poemas. Não sei onde coloco a multidão de versos. Talvez no teu peito,vasto espaço para corações a descoberto.

Passas como a brisa que se instala na memória. Toda vez que amo, sopras.

Desperdiçamos o tempo com tanta distância. Vou te buscar armado, te colocar na garupa em pleno dia.

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