O cineasta Nélson Pereira dos Santos está em Florianópolis para rodar parte de seu novo filme, um documentário sobre Tom Jobim. Fica na cidade até o dia 15 de maio.
Aproveitando a sua estada na ilha, a equipe da Barca dos Livros, que realiza o evento Abril com Livros, o convidou para um bate-papo, nesta quarta-feira. Fui munida de celular fotográfico para registrar o momento. Não tinha intenção de escrever. Mas está claro que mudei de idéia.
E o que me fez mudar de idéia foi que me vi com a missão de compartilhar a hora e meia de conversa com essa figura-ímã.
Falou, riu, informou, nos divertiu com histórias hilárias. Num tom baixo e animado.
Reverenciou escritores (Jorge Amado e Graciliano Ramos) como se não estivesse ele à altura deles.
Explicou, de todo aberto, como resolveu filmar Vidas Secas. Inicialmente, imaginou filmar os excluídos, câmera na mão, algumas idéias na cabeça (início dos anos 60, ares de Cinema Novo). Vez por outra, sentindo-se muito distante da realidade do sertanejo que buscava retratar, "consultava o livro de Graciliano para roubar umas idéias", contou. Até que a ficha caiu.
E... Bem, quem assistiu ao filme sabe no que deu. Vidas Secas é um dos melhores filmes brasileiros (dirigido por Nélson e fotografado por Luiz Carlos Barreto). É um nó nas entranhas. Uma das grandes adaptações literárias para o cinema.
"Quando pensei em filmar fui movido por muitas coisas. O momento que vivia o país, a paixão pelo texto. Então, o que precisava sair de mim era isso, não era apenas filmar o livro, era dizer o que aquele livro gerava em mim." Aberto assim, modesto assim.
A platéia envolveu-se por completo. Como resistir? O jornalista José Geraldo Couto (na foto, à direita) sugeriu: "Fala do episódio com São Bernardo." Depois de explicar que o episódio era anterior ao projeto sobre Vidas Secas e deixar claro que não realizou São Bernardo, a resposta de Nélson finalmente veio e nos levou às gargalhadas: Eu pensava num roteiro e, lá pelas tantas, quis mudar o final trágico dado à personagem Madalena. "Ah!, não. Matar a Madalena? Não quero. Vou deixar ela fugir", sugeriu a um amigo. Achou conveniente, porém, escrever a Graciliano avisando.
"O Graciliano me disse só isso: Pode fazer o que quiser, mas, se resolver não matar a Madalena, tire o meu nome daí!".
Nélson prosseguiu com a história: "O Graciliano explicou mais. Disse que se a Madalena não se matasse o livro não existiria porque ele só passou a existir a partir da reflexão que o marido da Madalena passou a fazer depois da morte dela. E concluiu: E se o livro não existisse, você não o teria lido e não poderia ter gostado dele, e não estaria agora querendo fazer o filme."
Os que acompanham a cinematografia do diretor sabem que ele tirou muitas lições daí. Síntese, causa, efeitos, movimento cíclico.
Nélson é o cineasta brasileiro com o maior número de filmes feitos a partir de adaptações literárias: Tenda dos Milagres, Memórias do Cárcere, Boca de Ouro são considerados obras-primas.
A boa notícia, para quem não teve o prazer de bater esse papo com ele, é a seguinte: todos os seus filmes (até os inéditos) foram recuperados e devem sair em breve numa caixa em DVD.
Onde: Barca dos Livros - Rua João Henrique Gonçalvez, 721 - Lagoa da Conceição - Florianópolis -SC/ tel.: 3232 0283
Curti teu relato, Milu. Muito legal ir a um evento sem pensar em escrever sobre ele e acabar não resistindo. Vou torcer pra você não resistir também nos próximos (rs). Abraço
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 25/4/2008 16:36
Legal, Helena. E eu tô curtindo muito este espaço. Gostaria de escrever mais (e já escrevi muito, considerando o pouco tempo desde que fui apresentada ao Overmundo). O problema é que tenho também um blog e, se não escrevo nele de vez em quando, me sinto em falta com alguns leitores.
E, para terminar, te digo que eu sou quase todo o tempo uma pessoa "que não resiste"!
Obrigada pelo retorno generoso.
vai meu abraço.
Gostei, Milu, principalmente da discussão entre os dois autores acerca do destino de Madalena. Embora sejam linguagens diferentes, o livro e o filme, no cerne de sua criação, foram motivados pela mesma causa, como apontou o próprio Graciliano, sem a qual não teriam razão de ser. Gostei muito de saber desse detalhe sobre as obras.
Parabéns.
Um abraço.
Pois é, Jorge, eu também achei a história exemplar. Uma mudança e... tudo perde a razão de ser.
valeu!
abraço.
Correção:
O novo endereço da Barca dos Livros:
Biblioteca Barca dos Livros
Rua Senador Ivo D'Aquino, 103
Lagoa da Conceição (em frente ao trapiche central)
Fone (48) 3879 3208
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