Nelson Rodrigues: Os labirintos da alma.

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Pedro Vianna · Belém, PA
26/3/2007 · 112 · 13
 

Nelson Rodrigues é uma unanimidade. É impossível ficar impassível diante da virulência de sua obra. Seu domínio do bicho palavra, e da ave sentimento, transformaram-no em uma corda literária de imensurável tensão. Suas expressões e axiomas transformaram-se em marca poética pessoal. Quase tudo escrito por ele anuncia o espanto, o insólito, o maravilhoso. E como já dizia Lautréamont “o maravilhoso está no banalâ€. E como Nelson sabia disso.

Gênio do teatro brasileiro, Nelson é comparável a qualquer gigante da literatura universal em transgressão, originalidade e invenção. Sua maneira de expressar-se é no mínimo destruidora. TNT implantado no prédio da linguagem pronto para explodir, para dizer o "indizível", desvelar os labirintos de lama da alma humana, onde a verdade esconde-se, como escura secura em nós. Sua obra reflete a existência nua e crua, e se não vivida por todos, ao menos reconhecida ou imaginada por muitos. Suas perversões condenam-nos a realidades impregnadas de mal-estar e indignação, no entanto jamais absurdas: em Nelson, as permissividades pornográficas tecem um raro tecido onde a família é o núcleo deflagrador de tudo, centro de toda danação, origem da tragédia.

O drama rodrigueano, seja em conto, no romance ou teatro, funciona como estopim para o desmoronamento moral. Sua escritura expressa a procura de um desconhecimento interior, um desconhecimento íntimo e por vezes monstruoso. Através da desconstrução da dor, seu texto, codifica processos psicológicos como manias, angústias, traumas, revoltas, taras, obsessões. Essa dor despertada em seus personagens revela nossas secretas obsessões, nossos medos inconfessos, nossa repulsa hipócrita ao imoral, que nos fragmenta em pedaços de santos e canalhas, nós que somos apenas humanos, demasiadamente humanos.

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Helena Aragão
 

Acho que ele odiaria saber que você começa um texto dizendo que ele é uma unanimidade. :) Tava relendo as memórias dele justamente por agora e ele falava da morte do Guimarães Rosa: o risco que era a euforia causada pela morte e o risco de o escritor ficar sendo visto como um ser sem defeitos, um mito...
Mas é mesmo impressionante a capacidade que ele tinha de criar frases de efeito a cada crônica. Abraço!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 23/3/2007 17:20
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Pedro Vianna
 

Talvez ele odiasse mesmo Helena, mas é fato que entre as pessoas que conheço ele é uma unanimidade.

Pedro Vianna · Belém, PA 23/3/2007 17:34
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Pedro Vianna
 

Ao leitor que busca um maior entendimento sobre a vida ou o teatro de Nelson Rodrigues, aconselho dois autores: Ruy Castro, e seu livro O Anjo Pornográfico; e o crítico Sábato Magaldi, através de seus prefácios ao Teatro Completo de Nelson Rodrigues (Quatro volumes, Editora Nova Fronteira, 1981-89) e do livro Nelson Rodrigues: Dramaturgia e Encenações (Editora Perspectiva/ Edusp, 1987). No mais, é ler a própria obra, e relê-la, incansavelmente.

Pode-se dizer que assim como sua obra para teatro - gênero que o notabilizou como grande autor - sua abordagem da vida e suas mais contundentes tragédias refletida em suas crônicas, já o credencia a um lugar de destaque no grupo dos grandes escritores brasileiros. O próprio Nelson, citando Rilke, lembrava que "a glória é a soma dos equívocos criados em torno de um nome e de uma obra". E diante do público ou da crítica, do aplauso ou da incompreensão, ele não se importava de estar só: "Como se sabe, a solidão humana são os outros".

A obra de Nelson Rodrigues ainda é um privilégio para poucos. Nos últimos anos, entretanto, suas peças têm sido remontadas e lotam platéias. Pelo Brasil, pode-se considerar um autor bem representado. No teatro, cada novo diretor, ator e espectador recriam sua obra a cada dia. Também para o livro, a releitura será sempre nova, porque outro é o mesmo leitor. E poucos autores convidam a isso: "Certa vez, um erudito resolveu fazer ironia comigo. Perguntou-me: ´O que é que você leu?´ Respondi: ´Dostoievski´. Ele queria me atirar na cara os seus quarenta mil volumes. Insistiu: ´Que mais?´. E eu: ´Dostoievski´. Teimou: ´Só?´. Repeti: ´Dostoievski´. O sujeito, aturdido pelos seus quarenta mil volumes, não entendeu nada. Mas eis o que eu queria dizer: pode-se viver para um único livro de Dostoievski. Ou uma única peça de Shakespeare. Ou um único poema de não sei quem. O mesmo livro é um na véspera e outro no dia seguinte. Pode haver um tédio na primeira leitura. Nada, porém, mais denso, mais fascinante, mais novo, mais abismal do que a releitura".

Pedro Vianna · Belém, PA 26/3/2007 10:17
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Marcela Fells
 

Ningéum suporta o Rodrigues.. eu leio as obras teatrais dele e começo a chorar, proucurar um lugar pra me esconder, choro de boca aberta mesmo, de rolar no chão de dor na alma.. e é por isso que eu adooro

Marcela Fells · Belo Horizonte, MG 26/3/2007 11:10
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Higor Assis
 

Ele é tudo o que intriga o pensamentos "Puro" dos seres humanos. Fascina e remete a reflexão ao refúgio de se confrontar com a verdade.

Valeu, muito bacana.

Higor Assis · São Paulo, SP 26/3/2007 12:25
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Pedro Vianna
 

Nelson Rodrigues era um iluminado. Não precisava de muito para criar as mais interessantes crônicas e estórias já publicadas na imprensa brasileira. Do adultério ao futebol, tudo era tema que a sua verve transformava em grande texto: fosse um sarau de grã-finos ou o pior jogo do Fluminense. O tricolor carioca era sua paixão futebolística. Amava o futebol, e por isso muitos dos mais importantes relatos sobre o esporte foram publicados em suas colunas. Hoje estão reunidos em volumes como A Pátria em Chuteiras (Companhia das Letras, 1996) e À Sombra das Chuteiras Imortais (Companhia das Letras, 1996). A paixão pelo futebol, é claro, era uma paixão de família. O nome de seu irmão, o jornalista Mário Rodrigues Filho, batiza o maior estádio do mundo: o Maracanã.

Nelson foi o primeiro jornalista brasileiro a chamar Pelé de "Rei". E antes, um dos primeiros a reconhecer em Garrincha equivalente majestade. Para o cronista, todo assunto, todo fato poderia transcender à luminosidade da escrita se tratado com espírito: "Sem alma não se chupa nem um chica-bon", costumava escrever. Aliás, uma das marcas de sua obra jornalística - se assim podemos chamar - é a farta repetição dessas frases que circulam entre a inscrição e o verso, entre a lei e a paródia. Nelson afirmava que as coisas ditas apenas uma vez "morrem inéditas". E estava certo. Em toda sua obra, a repetição de suas máximas, como um mesmo sol que é outro todo dia, apenas nos confirma suas convicções. Entre seus talentos, também estava o de identificar e exaltar o espírito alheio. Lembramos o poeta Manuel Bandeira e o também pernambucano Gilberto Freyre, este último considerado por ele o maior dos brasileiros. E a admiração era mútua, como se pode constatar em artigo do autor de Casa-Grande e Senzala. Entre os amigos que mais admirava, dois eram sempre lembrados em suas crônicas: Hélio Pellegrino e Otto Lara Resende. Tão reais, ambos tornaram-se personagens seus, e como homenagem ao segundo, Nelson usou o seu nome como título de uma de suas peças mais conhecidas: Otto Lara Resende ou Bonitinha mas ordinária. Era um romântico com os amigos, mas um crítico implacável com aqueles que elegia como inimigos. Um dos mais ilustres, que carregou este peso até a morte do escritor, foi dom Hélder Câmara. Nelson não o perdoou por um pedido não atendido na juventude e o castigou o quanto pôde.

Pedro Vianna · Belém, PA 26/3/2007 13:59
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FILIPE MAMEDE
 

Unanimidades à parte, o cara era bom. Um verdadeiro cronista da sociedade urbana do país. Falou também da maior paixão do país. As crônicas futebolísticas de Nelson são uma verdadeira aula de sociologia e comportamento humano...um irreverente...

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 26/3/2007 14:39
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Cida Almeida
 

Pedro, qualquer dia desses baixo aqui neste overespaço para falar de um furacão chamado Hugo Rodas, coreógrafo e diretor teatral uruguaio que vive em Brasília, que vi fazer "misérias" numa montagem de Nelson Rodrigues. Inacreditável o olhar de Hugo sobre Nelson e sua obra. Hugo e Nelson, simplesmente juntou a fome com a vontade de comer. O nome do espetáculo era O Olho da Fechadura. Inesquecível e devorador. Parabéns pelo texto.

Cida Almeida · Goiânia, GO 26/3/2007 17:03
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Pedro Vianna
 

Vou procurar com certeza Cida, a obra de Nelson Rodrigues ainda é um privilégio para poucos. Nos últimos anos, entretanto, suas peças têm sido remontadas e lotam platéias. Pelo Brasil, pode-se considerar um autor bem representado. No teatro, cada novo diretor, ator e espectador recriam a obra a cada dia. Também para o livro, a releitura será sempre nova, porque outro é o mesmo leitor. E poucos autores convidam a isso: "Certa vez, um erudito resolveu fazer ironia comigo. Perguntou-me: ´O que é que você leu?´ Respondi: ´Dostoievski´. Ele queria me atirar na cara os seus quarenta mil volumes. Insistiu: ´Que mais?´. E eu: ´Dostoievski´. Teimou: ´Só?´. Repeti: ´Dostoievski´. O sujeito, aturdido pelos seus quarenta mil volumes, não entendeu nada. Mas eis o que eu queria dizer: pode-se viver para um único livro de Dostoievski. Ou uma única peça de Shakespeare. Ou um único poema de não sei quem. O mesmo livro é um na véspera e outro no dia seguinte. Pode haver um tédio na primeira leitura. Nada, porém, mais denso, mais fascinante, mais novo, mais abismal do que a releitura".

Pedro Vianna · Belém, PA 26/3/2007 17:21
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André Gonçalves
 

ele era um grande analista da sociedade e um visionário. mesmo que não soubesse disso.

André Gonçalves · Teresina, PI 27/3/2007 11:15
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Pedro Vianna
 

Um amigo certa vez chamou-o de "flor de obsessão". Nelson adorou. E justificou-se dizendo: "Eu sou assim, e digo mais - convivo muito bem com as minhas idéias fixas". Ele, um obsessivo nato, tinha o amor, a mulher, as relações humanas, a solidão e a doença como algumas de suas prediletas. E explorava cada uma, numa reflexão permanente. Algumas vezes, abordava liricamente seus temas, o que resultava em afirmações, para os que não o conheciam, dificilmente atribuíveis a ele: "O amor é o casal. O simples casal basta para inundar o universo. E o casal funda a grande solidão". Daí afirmava: "Sempre que um homem e uma mulher se gostam precisam estar prodigiosamente sós, como se fossem o primeiro, único e último casal da Terra".

Pedro Vianna · Belém, PA 27/3/2007 15:43
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Leandróide
 

Bela contribuição Pedro.

Quanto ao Nelson, muitos se perguntaram seria ele era um imoral numa sociedade moralista ou um moralista numa sociedade imoral?

Discuti isso com a saudosa atriz Dália Palma, que participou da 1a montagem do Vestido de Noiva, e nem ela soube me dizer qual era a resposta. Apenas confirmou o que muito sabem: o homem era gênio.

Abraço.

Leandróide · Florianópolis, SC 28/3/2007 18:57
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Pedro Vianna
 

Leandróide Nelson Rodrigues conhecia a fundo o espírito humano, por isso era capaz de conquistar e cativar: "O amigo é a desesperada utopia que todos nós perseguimos até a última golfada de vida (...) Daí por que o grande acontecimento é sempre o amigo". Entretanto, como pensador, Nelson traduzia de tudo sua complexidade, ou a simplicidade que somente não vemos: "Mas o trágico da amizade é a convivência. Talvez a solução fosse pôr um deserto entre nós e o amigo. Não ver o amigo, jamais, não ouvi-lo". Para ele, tudo e todos eram fontes de frases geniais, como um simples cumprimento na rua: "Quando alguém me pergunta - ´Como vai?´ - penso nas minhas dúvidas. É fatal." E sobre essas dúvidas, extraídas de uma conversa com um vizinho, escreveu: "Tenho medo das pessoas que vivem de certezas. Sinto que o vizinho é dos tais que avançam, erguem a fronte, fingem um pigarro e reclamam: - ´Dúvidas? Não as tenho!´ A minha vontade é dizer-lhe: - ´Pois tenha!´ Não sei como um espírito sem dúvidas não trata de providenciar e, em último caso, de inventar dúvidas urgentes e esplêndidas".

Pedro Vianna · Belém, PA 28/3/2007 20:58
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