Nem só de Parintins vive o boi no Amazonas

Arquivo: Coordenadoria do Patrimônio Cultural / Secretaria Municipa de Cultura
Encontro de mestres: Duda, Maria Jorge, Xerxes, Zé Preto e Melchíades.
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Thaís Brianezi · Manaus, AM
29/1/2008 · 222 · 9
 

Em 6 de abril de 1930, em um seringal do rio Juruá, em Carauari (AM), nascia José Ribamar do Nascimento, o mestre Zé Preto. Filho de nordestinos, mãe maranhense e pai cearense, ele se mudou para a capital amazonense ainda pequeno, dois anos depois. Em 6 de abril de 2008, a Secretaria Municipal de Cultura (Semc) de Manaus planeja dar a Zé Preto um presente de aniversário: uma apresentação ao lado dos colegas Duda, Mário Jorge, Xerxes e Melchíades, com sonorização profissional, da qual se espera que saia um CD (embora ainda não haja recursos para a prensagem e distribuição). Um reconhecimento merecido do talento do mestre cantador de Boi mais antigo da cidade; uma comemoração especial dos seus 78 anos, a ser financiada com parte da verba conquistada no "Prêmio Culturas Populares 2007 – Mestre Duda 100 Anos de Frevo", concedido pelo Ministério da Cultura (Minc) ao projeto "Encontro dos Mestres dos Bois-Bumbás de Manaus: contando e cantando a história".

O folguedo de boi em Manaus possui um dos registros mais antigos dessa manifestação no Brasil: o relato de Robert Avé-Lallemant na obra Viagens pelo Norte do Brasil, publicada em 1859. O documentário Boi bumbá de Manaus, brinquedo de São João, dirigido pelo antropólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Sérgio Ivan Gil Braga, conta que, no final do século XIX, o então governador Eduardo Ribeiro (que hoje dá nome à principal avenida do centro de Manaus) trouxe à cidade famílias maranhenses. Com elas, a tradição do auto do boi foi se espalhando pelos bairros centrais, especialmente a Praça 14, onde nasceu o Caprichoso (boi que migrou para Parintins e hoje domina, ao lado do Garantido, o Festival Folclórico mais famoso do estado).

Nas décadas de 30 e 40, Zé Preto, Duda, Mário Jorge, Xerxes e Melchíades eram destaques em apresentações juninas realizadas em clubes e comunidades de Manaus. O boi amazonense, então, ainda não havia se transformado em espetáculo-mercadoria. Era apenas tradição vivida no cotidiano, que não precisava de patrocínio da Coca-Cola ou de apoio governamental para se realizar. A língua do boi, a mesma que provocou os desejos de grávida de Catirina e que fez o pai Francisco matar o animal predileto dos donos da fazenda, era a fonte de financiamento da brincadeira popular. As línguas bovinas de pano tinham o mesmo destino atual das gravatas dos noivos paulistas, ao fim das festas de casamento: eram cortadas e vendidas em pedaços às famílias por cujas casas a festa passava.

Os bois de Manaus não morreram, mas perderam força – e, nesse processo, seus cinco mestres mais tradicionais também perderam espaço. No ano passado, a prefeitura identificou 20 grupos de boi na cidade, sendo 12 deles "garrotes" (modalidade na qual brincam apenas crianças e adolescentes). Os bois crescidos mais famosos da capital - Corre Campo, Brilhante e Garanhão - se esforçam, atualmente, por seguir o estilo dos Bois de Parintins, deixando as ruas (e seus protagonistas) de lado e apostando todas suas fichas no show de arena. "É uma pena que os bois de Manaus tenham aderido a Parintins. Lá é uma grande festa, mas nós não devíamos ter abandonado a nossa", lamentou mestre Zé Preto.

"Nas casas, para cantar em aniversários, os velhos mestres ainda são chamados. Mas nós percebemos que eles estavam excluídos do espetáculo, por isso resolvemos trabalhar na busca por novos palcos", explicou Alvatir Carolino, coordenador de Patrimônio Cultural da Secretaria Municipal de Cultura, um dos idealizadores do projeto premiado. A iniciativa da prefeitura, que tem o aval da Associação de Grupos Folclóricos do Amazonas, da Associação de Grupos Folclóricos de Manaus, da Associação Liga Independente dos Grupos Folclóricos do Amazonas e da Associação Movimento Bumbás de Manaus, é simples, mas eficaz: ela se traduz no apoio a encontros entre os cinco mestres cantadores, com locação de sonorização e iluminação, divulgação na imprensa, agendamento de espaços públicos (como anfiteatros e auditórios) e na distribuição de recursos para reparo e confecções de indumentárias e para o transporte dos mestres.

As apresentações conjuntas têm como cenário a mesa de bar, com direito à imprescindível cerveja gelada, não cenográfica. Os mestres contam histórias dos bois, cantam toadas antigas e tocam instrumentos de percussão, como pandeiro, roçar, tamborim, matraca e tantã. São momentos de descontração e celebração da memória viva desses agentes culturais, nos quais diversas canções não registradas vencem mais uma batalha na luta contra o esquecimento. "No primeiro encontro que promovemos, no Parque dos Bilhares, eles cantaram durante quatro horas e meia, sem pausa. Só repetiram duas músicas, a pedido dos meus pais, que chegaram atrasados e queriam ouvi-las", lembrou Alvatir.

Revitalização

Em 2006, a arena do Centro Cultural dos Povos da Amazônia, em Manaus, presenciou a tentativa de aposentadoria compulsória dos mestres Zé Preto e Melchíades. Meio a contragosto, por sugestão dos organizadores do Festival Folclórico do Amazonas, eles tiveram o fim da carreira artística anunciada. Um ano depois, durante o II Encontro do Patrimônio Cultural, realizado em novembro de 2007, estava em pauta a reinserção dos mestres de Boi nas apresentações do 52º. Festival Folclórico do Amazonas, que será realizado em junho. Mais um sinal positivo da repercussão do projeto "Encontros de Mestres dos Bois-Bumbás de Manaus".

Em 2007, após 23 anos sem apresentações, o boi Luz de Guerra, fundado pelo finado mestre Maranhão, foi recuperado por seu filho, mestre Xerxes - outro resultado indireto do projeto. Mestre Zé Preto também se prepara para, neste ano, colocar um boi novo nas ruas, o Estrela do Oriente. "Quando eu tinha seis anos, ganhei um garrote da babalorixá que morava em frente à minha casa, dona Isabel, que o pessoal chamava de Mundica. Ela só fez uma exigência: batizá-lo. O nome era Beija Flor", recordou Zé Preto. "Setenta anos depois, em 2006, uma mãe de Santo do Maranhão deu à dona Emília (presidente da Federação Umbandista do Amazonas) um boi, para ela botar no Amazonas. Novamente, ele já tinha nome certo: Estrela do Oriente. E eu fui escolhido para ser seu amo", completou, orgulhoso.

Zé Preto, que nunca havia saído do Amazonas, conheceu Brasília em 2006 e o Ceará, no ano passado, viajando para receber homenagens. "Toda minha vida eu dediquei aos bois. Em junho, eu largava tudo para ir brincar de boi", revelou o velho mestre. "Mesmo quando casei, minha senhora não gostava muito, mas eu continuei. Agora, depois da idade, ser reconhecido é muito gratificante", comemorou ele.

Para além do evento

Só em 2006 Manaus ganhou uma Secretaria Municipal de Cultura. Na Coordenadoria de Patrimônio Cultural, responsável pelo projeto "Encontro dos Mestres dos Bois-Bumbás de Manaus", cinco pessoas trabalham apertadas, no local onde antes funcionava um banheiro. O espaço, improvisado, simboliza os obstáculos que a equipe de Alvatir Carolino vem tentando transpor. "As políticas culturais de Manaus eram pautadas apenas nos grandes eventos. Isto escondia várias manifestações culturais que não geravam um público tão grande, que não estavam nos meios de comunicação – e que, portanto, nessa lógica, deixavam de ser interessantes para as políticas de governo", afirmou o coordenador.

O fato de ter sido uma das 40 iniciativas de instituições públicas eleitas pela Secretaria de Identidade e Diversidade Cultural do Minc para receber o"Prêmio Culturas Populares 2007 – Mestre Duda 100 Anos de Frevo" representou, portanto, uma grande conquista. Não tanto pelo valor do prêmio, R$ 10 mil, que já está comprometido: além da apresentação especial de abril (para a qual foram reservados R$ 3 mil), metade do dinheiro foi distribuído igualmente aos cinco mestres e, o restante (R$ 2 mil), utilizado na compra de instrumentos musicais (eles tocavam com instrumentos emprestados, difíceis de se conseguir nos fins-de-semana). Foi importante, principalmente, pelo significado simbólico e político. "Espero que esse prêmio sirva para mostrar para os articuladores culturais, aí incluídos os editores dos cadernos de Cultura locais, que não apenas trazer para cá uma banda do momento é uma atividade de política cultural relevante", argumentou, satisfeito, Alvatir Carolino.

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Andre Pessego
 

Olha Thais, já que não conheço, e não vou poder ir conhecer no proximo evento, vou reler. Linda e competente apresentação, abraço,

Andre Pessego · São Paulo, SP 27/1/2008 20:53
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Patrícia Estivallet
 

Muito bom ver que os prêmios instituídos pelo Ministério da Cultura estão indo, realmente, para os "fazedores" da cultura.
Parabéns pelo trabalho.

Patrícia Estivallet · Porto Belo, SC 27/1/2008 21:33
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Thaís Brianezi
 

André e Patrícia, obrigada pela leitura participativa!

Thaís Brianezi · Manaus, AM 28/1/2008 12:24
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j.alves
 

Muito bom

j.alves · São Paulo, SP 28/1/2008 22:26
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Higor Assis
 

Thaís, chega ser emocionante o seu texto adorei mesmo.

Fiquei abismado em saber por você que Manaus não tinha secretaria de cultura e só foi elaborada em 2006. Tomará que com essa iniciativa o pessoal do 'quartinho' consiga trazer mais raridades desta para o conhecimento da população.

Parabéns pela matéria !

Higor Assis · São Paulo, SP 29/1/2008 08:26
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Lu&Arte
 

Ainda quero conhecer de perto todo esse movimento. Obrigada por compartilhar aqui.

Lu&Arte · Porto Alegre, RS 29/1/2008 10:40
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dundum
 

Tahis que bela materia, adorei saber mais sobre essa manifestação foclórica, parabens, continue mostrando a riqueza da regiao...

bjs

dundum · Paraúna, GO 30/1/2008 10:01
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Sinvaline
 

Thais votado. Parabéns pela iniciativa, precisamos divulgar o que se passa realmente sobre o folclore brasileiro. Linda matéria.
beijos
sinva

Sinvaline · Uruaçu, GO 30/1/2008 10:02
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Pssil
 

Bacana isso! Adorei teu texto e concordo que é bom ver a grana do Ministério da Cultura indo realmente para as mãos de quem faz a cultura popular e é melhor ainda ver que mesmo com as dificuldades referidas o pessoal da secretaria de cultura do município está fazendo sua parte. É assim mesmo.Quando a gente sai da queixa e vai para a ação, faz pelo menos um pouco, a sua parte, o que dá pra fazer no momento, antes de ir adiante. Abraço,
Silvana

Pssil · Porto Alegre, RS 30/1/2008 16:02
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