No Ar Coquetel Molotov: CocoRosie e mais no Recife

Coco Rosie. Divulgação: Todos os Direitos Reservados
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ronaldo lemos · Rio de Janeiro, RJ
5/9/2006 · 165 · 15
 

Spleen, CocoRosie, Kassin e Tony da Gatorra são personagens dessa visão muito pessoal do primeiro dia do Festival “No Ar Coquetel Molotov” em Recife

Chegar em Recife morrendo de frio é uma experiência pela qual eu nunca tinha passado. A bordo de um Fokker 100 da TAM (lotado) fui-me sentar justamente no lugar contemplado com um problema no ar-condicionado. Além do frio insuportável durante toda a viagem, tinha água se condensando em cima de mim. Fiquei preocupado, mas logo vi que não era nenhum problema técnico grave, só goteiras no avião mesmo. Mal sabia que em 24 horas outras situações insólitas e um outro tipo de frio me esperava.

Tony da Gatorra

A primeira situação insólita foi o show do Tony da Gatorra. Conforme o site do próprio:

“Tony da Gatorra é um artista. Mora em Esteio, Rio Grande do Sul, onde sobrevive do conserto de aparelhos eletrônicos”.

Pois bem, parece que em meados dos anos 90, de tanto consertar os aparelhos eletrônicos, ele inventou a tal da gatorra, um instrumento eletrônico em forma de guitarra. Nesse começo de século XXI, onde renasce com força total a ideologia do “faça você mesmo”, a gatorra é um exemplo de experimentalismo muito bacana.

A gatorra está sintonizada, por exemplo, com o projeto mais recente do Tim O´Reilly, figura importante o futuro da tecnologia no mundo e inventor da palavra “web 2.0”. Esse projeto é uma revista chamada Make (“Faça”). A revista ensina desde como montar um foguete meteorológico no seu quintal, até como hackear uma máquina de xerox. Em outras palavras, o design da gatorra não ficaria mal ali nas páginas da prestigiosa publicação norte-americana. Aliás, é esse mesmo espírito de "faça você mesmo" que está por trás de iniciativas como o Metareciclagem, ou mesmo da colaboração entre programadores no software livre.

Mas não era esse o caso. A gatorra estava ali em uso nas mãos do seu inventor e de outros dois integrantes da "banda". Pelo que entendi, o intrumento é multi-propósito: faz ao mesmo tempo as vezes de bateria eletrônica e também extrai tons e barulhos eletrônicos dos mais variados.

Em ação, a fanfarra de gatorras gera uma base eletrônica que remete em termos rítmicos aos primeiros lançamentos da gravadora Mute por volta de 1978 (ok, talvez um pouquinho mais tosco do que isso): bateria eletrônica bem marcada, um “tuc tuc tuc tuc” sem variação. Em cima, outros ruídos eletrônicos produzidos pelo instrumento e as letras de protesto do Tony.

O nome do seu CD, “Só Protesto”, é para ser levado a sério. A letra de “A Voz dos Sem Terra”, ponto alto do show, é um exemplo disso:

Eu sou um guerreiro que não gosta de guerra
Estou sempre lutando
Por um pedaço de terraaaaa

Chega de matança
Chega de gula
Chega de guerra
Nós só queremos um pedaço de terra

Outro evento interessante do show foi a participação do Kassin, programado para tocar em seguida sob o nome de “Artificial”. Kassin juntou-se às gatorras tocando um GameBoy, gerando uma confusão sonora que aparentava ser totalmente acidental e talvez fosse mesmo.

A pergunta que permaneceu na minha cabeça sem resposta depois da apresentação: onde é que se compra uma gatorra? Será que o instrumento é usado exclusivamente pelo Tony ou ele vende gatorras por aí para quem quiser? Tenho certeza de que muitos outros músicos poderiam começar a tocar gatorra, eu mesmo fiquei vontade de experimentar.

Artificial (Kassin)

Já tinha visto o Kassin ao vivo várias vezes, mas jamais sob a encarnação de “Artificial”: homem sozinho no palco, em frente a um laptop, microfone e outros dispositivos. Pense em disco-music desconstruída internamente, com uma dose de ironia que funciona muito bem.

Nunca vi um refrão conclamando o público à festa com a palavras como “Dance, Dance, Dance” cantado de um jeito mais desanimado. Acho que o paralelo seria algo como o emprego da dupla negação em português (em frases geniais como “nem tu não hás de vir cá”). Em outras palavras, o artificial faz música dançante, que quer ser não-dançante, mas que na verdade dá sim para dançar.

O melhor é que o show já vem completo, incluindo em si os próprios aplausos e a empolgação do público. Entre cada música, o próprio Kassin descarrega eletronicamente as palmas, acompanhadas de vários “uhuuuuuuuuuuuuuuu!” feitos também por ele com efeitos de reverb na voz. O resultado, que no início provoca incômodo e riso, depois de repetido inúmeras vezes, é contagiante. Como disse o Hermano em outro artigo aqui do Overmundo, citando o Dorival Caymmi, para se divertir “é só a gente fingir que está alegre - vai fingindo, fingindo e quando vê está alegre mesmo!”. No caso do Kassin, foi assim mesmo: aquela alegria digital pré-gravada foi crescendo, crescendo, até que ficou todo mundo alegre de verdade e aplaudindo e gritando “uhuuuuuuuuuuuuuu” junto ele e com as palmas eletrônicas.

Aliás, quando saí do show vi um monte de gente cantarolando os “uhuuuuuuuuuuuuuu!”, que de fato grudam na cabeça por um bom tempo. Mas não vi ninguém cantarolando “dance, dance, dance”.

Spleen


Uma vez ouvi o Arto Lindsay dizendo que o que mais interessava para ele no momento (isso já tem uns 3 anos) eram bandas que tinham um componente performático, que se apresentavam com elementos teatrais, aprontavam no palco e desafiavam o público. Como exemplo ele citava bandas como o Animal Collective, que estavam saindo de suas cenas locais e despontando para o mundo. Acho que o Arto teria gostado do show que o Spleen fez no Coquetel Molotov.

A primeira vez que ouvi falar do Spleen foi há um ano e meio, quando soube que ele ganhou o concurso que a revista francesa “Les Inrockuptibles” faz todo ano, chamado “Ce qu´il faut decouvrir” (algo como “Aquilo que precisa ser descoberto”). São milhares de artistas, não só francesas, mas da Europa em geral, que mandam suas músicas para a redação da revista. Ao final um CD com umas 15 músicas é editado e o público vota no que gostou mais.

No ano em que o Spleen concorreu, os candidatos eram fortíssimos, especialmente em rock. Aquele era um ano em que os franceses estavam especialmente empolgados com os nomes do novo rock ressoando por lá. Apesar disso, ele, que canta um soul experimental, com toques de hip hop, foi o grande vencedor. Confesso que só fui entender isso direito quando vi o show dele ao vivo ontem.

O show é bom. Ele pula, chora, grita e usa saia (uma espécie de tutu de balé, multi-colorido). Um músico da banda, branquelo e com cara de nerd, fica o show todo fazendo a percussão com a boca, replicando batidas e scratches. Apesar do aspecto parte “circense”, parte “curiosidade”, não dá para não dizer que não é divertido e que não há uma integração com a sonoridade da banda. Há até mesmo um solo inteiro “de boca”, no qual o sujeito consegue cantar “Kiss” do Prince fazendo as batidas, a guitarra e os vocais, tudo ao mesmo tempo. Intrigado, tentei reproduzir a façanha quando voltei para o hotel e percebi que é difícil mesmo. Naturalmente, o público se encantou.

Mas o ponto alto da apresentação toda foi quando o protagonista Spleen pulou para fora do palco e literalmente foi agarrar a platéia, abraçando pessoas do público, sentando-se ao lado das pessoas enquanto cantava. Não satisfeito, voltou ao palco, puxando então para si a organizadora do festival e fundadora do projeto Coquetel Molotov, Ana Garcia (a quem tive a oportunidade de entrevistar há um tempo aqui no Overmundo). Não só rolou uma dança sensual entre ambos, como o malandro ainda tentou lascar um beijo na boca dela em determinado momento.

Após a parte interativa, que ainda teve contorções de solo, danças e outras piruetas, o show termina de modo intimista, com uma de suas principais baladas, “Summer Holes”, que para minha surpresa, teve o acompanhamento de parte significativa do público, cantando junto. Saiu-se bem o senhor Spleen.

Cocorosie

É melhor dizer logo: gostei muito do show das CocoRosie, mas por razões possivelmente pessoais. Discordo, por exemplo, da análise que li na Folha, dizendo que o show celebra “a infância eterna”, frase que em Recife abriu o show no gigantesco telão da banda (“the eternal children”). É possível que ninguém vá concordar comigo, mas o show a que assisti é uma sombria e genial celebração do vazio.

Durante todo o show pensei no livro Super-Cannes (J.G. Ballard, 2001), que fala de um condomínio de luxo, situado próximo à cidade de Cannes na França. Um complexo construído para ser habitado com exclusividade pela elite global, oferecendo o que poderia haver de melhor em termos de segurança, serviços, entretenimento e, sobretudo, pessoas. Em certo momento do livro o autor fala sobre jovens pertencentes a essa nova geração, “so young, and already world-weary” (tão jovens, mas já cansados do mundo).

Tive a impressão de que as irmãs Bianca e Sierra Casady poderiam figurar entre os moradores desse condomínio metafórico. Da mesma forma que no livro, elas me pareceram cansadas do mundo, protagonistas de uma busca intensa por sentido. Os vários objetos e referências infantis presentes na música e no palco das CocoRosie (de telefones de brinquedo a sons de boneca), funcionam como símbolos de nostalgia, ferramentas de luta contra a sensação de desencantamento. É como se as meninas do Coco Rosie estivessem dizendo para todo mundo: “Onde vocês estão querendo ir? Já estivemos em toda parte, chegamos aqui e não tem nada”. A construção de sentido, nessas circunstâncias, só pode mesmo ser feita a partir de reminiscências.

Uma vez que essa idéia me passou pela cabeça, passei o restante todo do show tentando colocá-la a prova. Mas a sensação só se aprofundou, reforçada por exemplo pelos vídeos exibidos cuidadosamente em sincronia com a apresentação: uma ginasta olímpica é dissecada em câmara-lenta, enfocando a relação de “paternidade” desenvolvida com o seu treinador, enquanto espera pelos resultados da sua apresentação; cenas bastante “tarkovskianas” de cavalos, em imagens em branco e preto; uma criança de origem indígena, usando um cocar típico de povos indígenas norte-americanos (referência à ascendência de uma das irmãs, elemento que também entra no esforço de busca de significação). E por fim, imagens das duas irmãs, ambas usando máscaras neutras de teatro, abraçadas em um sofá. A imagem vai sendo modificada, aparecendo uma, depois a outra. Até que por fim, a seqüência se encerra, trazendo apenas uma das irmãs, em montagem digital, abraçando a imagem de si mesma. A frase “the eternal children”, repensada a partir dessa perspectiva, me pareceu um desejo do que gente como Rawls chama de "véu da ignorância", uma negação do mundo em prol da construção de um universo particular, que pode ser controlado e dominado. Uma promessa de liberdade sem responsabilidade, em que tudo é permitido, desde que ninguém vá muito a fundo no sentido e nas conseqüências das coisas.

Já vi em algum lugar, talvez em um filme hollywoodiano, que o diabo triunfa quando ninguém mais acredita nele. E quando isso acontece, tudo fica belo e extraordinário. Belo como o show das meninas do CocoRosie no Recife. Belo com um “até que?” como predicado.

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Bruno Nogueira
 

Bem verdade, Ronaldo, sobre o show do CocoRoise. A total ausêncisa de luz no palco (que deve ter incomodado os fotografos de plantão) passava uma constante sensação de vazio. E a maneira longa como funcionam as músicas só aumentam criam uma sensação claustrofóbica

Bruno Nogueira · Recife, PE 3/9/2006 20:25
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Thiago Camelo
 

Sobre o avião primeiro - no atual momento de portas caindo do nada, eu acho que teria tido um piripaque antes do pouso. Quanto ao filme, se é mesmo de Hollywwod, tenho quase certeza de que é o "Advogado do Diabo", não?

Eu não fui não, mas tem uma turma dizendo que o show do Coco Rosie no Rio foi incrível. Alguém confirma?

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 4/9/2006 20:11
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Liv Brandão
 

Eu! Eu! Eu!

Conheci o CocoRosie quando do lançamento do primeiro álbum, achei legal mas larguei pra lá. Estava meio descrente com o show e me surpreendi. Lúdico, bonito, delicado, um show pra ficar marcado.

Acho que vou postar uma foto no Banco de Cultura! :)

Liv Brandão · Rio de Janeiro, RJ 4/9/2006 23:16
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Vivian Caccuri
 

O show do Kassin foi um destaque. Acho que fala do vazio tão quanto ou até mais do que o Cocorosie. Aqueles espaços vagos da dance music. Excelente, uhuuuu.

E aliás, parabéns pela palestras, Bruno!

Vivian Caccuri · São Paulo, SP 5/9/2006 11:20
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Bernardo Mortimer - www.sobremusica.com.br
 

Engraçado, vi o show do CocoRosie no Rio e tive uma impressão totalmente diferente. Mas lendo os seus argumentos, as músicas são mesmo cheias de silêncios, de espaços vazios. E mais, num nível mais conceitual, também há distâncias não preenchidas entre cada referência que as meninas colam no repertório. Da ária de ópera mascarada ao rap bêbado, da criança eterna escrita até as danças sensuais de Bianca com o negão de dread...
Sei lá, tem vazios ali mesmo. E que não se preenchem.

Um abraço,

Bernardo Mortimer - www.sobremusica.com.br · Rio de Janeiro, RJ 5/9/2006 16:21
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Flávia Durante
 

O Tony produz gatorras por encomenda. Demora um tempo pra ele confeccionar mas ele tem vendido algumas!! O Tony é demais, super puro!!!!!

Flávia Durante · São Paulo, SP 5/9/2006 17:04
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Thiago Camelo
 

Antes de ler o texto do Ronaldo, qual era a tua opinião, Bernardo?

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 5/9/2006 17:38
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Natália Dantas
 

"o show a que assisti é uma sombria e genial celebração do vazio" foi uma ótima definição do show. também gostei bastante da sincronia com as imagens do telão, não conseguia parar de olhar.

ótimo texto :)

Natália Dantas · Recife, PE 5/9/2006 18:32
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Yuno Silva
 

Ronaldo e o Tortoise? É bom mesmo ou só agrada os 'indies hypados' de plantão?? O mais legal do No Ar é o garimpo em busca do desconhecido, do under do under, que no final dá tudo certo!!

ótimo texto e gde abraço.

Yuno Silva · Natal, RN 6/9/2006 15:34
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Thiago Camelo
 

Um texto lá na edição que conta como foi o show do Cocorosie no RIo. Tá bem bacana.

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 6/9/2006 16:32
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Bruno Nogueira
 

Não vi o show do Rio, mas soube q o de São Paulo foi totalmente diferente do que teve no Recife. Talvez por aqui ter sido no teatro eleas tenham feito um show low profile.

Bruno Nogueira · Recife, PE 6/9/2006 21:15
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7ockmann
 


Concordo com a sua discordancia com a folha – e esta coisa do “espetaculo celebra” deve estar no “Manual dos Cliches dos Jornalistas Culturais Brasileiros”…. – cru,primitivista e um dos “oddest, sexiest albums of the year”…vide a letra de “By your side” – uma delicada quase-S&M lovesong onde as duas dao uma invertida impossivel e genial em Nelson Rodrigues/Mario Lago…e “K-hole” (alucinacoes com Ketamina)….

7ockmann · São Paulo, SP 7/9/2006 17:31
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Ana Garcia
 

As meninas disseram que o primeiro show em SP foi maravilhoso... Elas amaram tocar em Recife, especialmente porque estava bem escuro. So sei que depois foi uma festa no camarim e no hotel. O manager ate disse "voces fizeram varias pessoas felizes hoje a noite". Isso diz tudo... =)

Ana Garcia · Recife, PE 8/9/2006 16:15
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Rodrigo Almeida
 

"É possível que ninguém vá concordar comigo, mas o show a que assisti é uma sombria e genial celebração do vazio"

Eu concordo.

Rodrigo Almeida · Recife, PE 15/10/2006 15:21
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sulamita oliveira
 

não vi o show das meninas, só posso falar do segundo dia que nem tá no texto de Ronaldo.
Me apaixonei pela energia dançante dos brasilienses Movéis Coloniais de Acaju.
Se já gostei do que ouvia no meu pc, ao vivo é ainda mais revigorante.
Dá pra imaginar 10 músicos correndo de um lado pra outro do palco entre seus instrumentos.
E o vocalista descendo pra fazer a platéia descer e subir ao ritmo da música enquanto dois dos integrantes tocavam no "meio" da pseudo-roda em cima das poltronas do teatro.]


Tortoise pode ser muito bom, mas o sono não deixava passar nada!
O mesmo aconteceu com CocoRosie pra muita gente, no primeiro dia!

sulamita oliveira · Recife, PE 30/10/2006 11:54
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